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Outra Veneza

VenezaPor mais familiar que seja seu nome, o narrador não está de fato presente entre nós, em sua atualidade viva. Ele é algo de distante, e que se distancia ainda mais.”

Com estas palavras Walter Benjamin inicia seu famoso ensaio O Narrador, onde questiona (entre outras coisas) a crise do romance como forma literária que atingiu o apogeu no século XIX, e mostrava certo esgotamento no início do século XX. Benjamin escreveu na década de 30, e provavelmente reveria esta opinião se vivesse mais algumas décadas.

O romance reinventa-se? Melhor dizer que alguns autores inventam, muitos repetem fórmulas, e alguns retomam paradigmas com uma nova abordagem.

Alberto Lins Caldas pertence à última categoria. Poeta praticante, contista experimentado e romancista reincidente, é antes de tudo um cultor da língua. Explora as possibilidades do verbo em todas as suas conjugações, flerta com o latim, manipula o sentido das palavras e persegue a recriação de mundos imaginários.

Em Veneza (Penalux, 2016, 181 páginas), o ponto de partida é atraente, mas não o principal atrativo. O autor afirma no prefácio ter encontrado um texto perdido num arquivo “de um Estado que não quero recordar o nome”, escrito em francês do século XVIII por um certo Pierre Bourdon, aventureiro cuja narrativa se inicia com uma fuga do leito de uma mulher casada, para fugir de um flagrante, em Veneza.

Acompanhado de seu fiel criado, Mouro, embarca num navio e vem parar em latitudes austrais. Desembarca numa outra “Veneza” nunca nomeada (mas não esqueçamos que o autor é pernambucano!), onde a descrição de cenários, comidas, cheiros e costumes remetem aos clássicos relatos de viajantes e naturalistas, que influenciaram até Gilberto Freyre.

A grande viagem de Veneza é a linguagem. Caldas se diverte escrevendo de forma barroca, cheia de latinismos e citações, ao mesmo tempo em que, na pele do personagem, coloca questões estéticas e existenciais. O narcisismo, a mulher como objeto idealizado de desejo, a relação nunca bem explicada entre servo e senhor, a imensidão de uma alma inquieta aprisionada numa existência pouco mais que medíocre, salva pela vontade de deixar um depoimento para a posteridade.

O cavaleiro Pierre encontra um tradutor à altura. O romancista Alberto escolhe um caminho árduo, mas pleno de delícias para quem ousar trilhá-lo. Na contramão do senso comum, escreve no século XXI um romance sem facilidades, sem mesmices, entranhado de humor temperado com certa dose de melancolia, onde talvez falte apenas um grande final. Mas é a transcrição de um manuscrito, um velho Códice, de onde não podemos esperar uma arquitetura romanesca como aquela que Benjamin julgou esgotada, certo? Grand finale é coisa de romance do século XIX, coisa com a qual Pierre Bourdon nunca chegou a imaginar.

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