Posts Tagged 'Alberto Mussa'

O artista e suas obsessões

Na Literatura, como em outras artes, há dois tipos bem definíveis de artista: o que experimenta de maneira insaciável formas diferentes, explorando ângulos, texturas, materiais, técnicas, linguagens, caminhos e bifurcações, e os que mergulham de forma obsessiva num objeto de estudo (de desejo?), traçando uma rota de aprofundamento progressivo, numa tentativa heroica e vã de chegar ao âmago, ao deslindamento final e definitivo, ao cristal límpido e absoluto.

Há outras motivações, sabemos, mas fiquemos com estes dois opostos, por enquanto. E antes que optemos pelo generalista ou pelo especialista (categorias que não funcionam muito bem quando se trata de arte), é importante fazer uma ressalva: esse tipo de classificação não implica num juízo de valor.

De fato, há experimentadores ruins e obsessivos maravilhosos, e vice versa. A radicalidade sintética do haicai, por exemplo, é uma das mais traiçoeiras armadilhas para os poetas iniciantes. Bashô é genial, mas tem uma legião universal de seguidores medíocres, com poucas exceções.

Como não admirar o mergulho suprematista de um Malevitch, que lhe custou caro na Rússia stalinista, e ao mesmo tempo não se espantar com seu retorno ao figurativismo? E aqui surge mais um dado complicante: há artistas que são “especialistas” em certa fase da vida e “generalistas” em outra. Mestres absolutos em dado momento, e auto diluidores em outro. Os que tem vida longa são mais visados por esse tipo de crítica, é óbvio, uma vez que o conjunto de obras tende a ser desigual quanto mais vasto for.

Alguém supõe que Mozart pudesse manter a excelência se vivesse mais quarenta anos? Ou Rimbaud? Será mais fácil ser gênio morrendo jovem? Novamente, não podemos estabelecer uma regra. Há artistas geniais e longevos, que criaram obras-primas provocativas na chamada terceira idade, como Verdi, que estreou sua ópera Falstaff (baseada na peça As Alegres Comadres de Windsor, de Shakespeare) aos 80 anos, ou Oscar Niemeyer, que inaugurou o Museu de Arte Contemporânea de Niterói com 89 anos (e continuou criando até os 105). Outros explodiram cedo, como fogos de artifício, passando o resto da vida tentando reacender as cinzas de sua obra gloriosa. Ou procurando outros caminhos, movidos por uma inquietação que, dependendo do caso, pode ser confundida com falta de objetividade, oportunismo, pura sobrevivência ou até relaxamento estético. E há o inevitável apelo do mercado editorial, que joga seus dados em obra de fácil digestão, consumidas rapidamente e trocadas por outras. Muito citado no Brasil é o caso de Jorge Amado, radical em suas primeiras obras, que à medida em que se torna um grande vendedor de livros, cede à tentação do erotismo temperado com dendê, como apontam vários críticos*.

A literatura brasileira é terreno onde medra toda espécie de escritor. De contistas geniais e sintéticos, como Dalton Trevisan, até caudalosos autores de obra pouco lembrada, como Otávio de Faria, cuja Tragédia Burguesa, prevista para vinte volumes, teve treze publicados em vida e mais dois póstumos. No entanto, estes dois exemplos são obsessivos, cada qual a seu modo. Enquanto um esmiúça a relação de amor, ciúme e ódio entre joões e marias, outro busca dissecar a sociedade carioca sob o ponto de vista de classe, sem desviar o foco do cenário.

A literatura brasileira contemporânea, assim como a música ou as artes plásticas, é multifacetada e permeável a muitas influências, típicas de uma era midiática e globalizante. Apesar disso, ainda é possível observar obsessões estéticas criativas (ou paralisantes, dependendo do caso).  A legião de epígonos de Rubem Fonseca, por exemplo, buscando emular o clima dos primeiros contos do mestre. A empreitada ambiciosa de Alberto Mussa, construindo uma história do Rio de Janeiro por cinco séculos, em tramas policiais. A lupa de Chico Lopes sobre a vida interiorana das pequenas cidades em modificação/estagnação num Brasil que é sempre um conjunto de frustrações. Escritoras feministas que rompem amarras e, paradoxalmente, se enredam em novos cercados. O esforço do escritor Chico Buarque em alcançar a excelência do compositor Chico Buarque. Os cronistas da periferia que martelam temas essenciais, porque é impossível não falar sobre violência, preconceito, fome ou miséria, assuntos que atravessam séculos sem perder a urgência. Cada qual a seu modo sustenta suas obsessões da forma possível, com as ferramentas que têm ao seu alcance.

Arte permite várias visões, interpretações, audições e leituras, e essa natureza multiforme encerra toda a graça e mistério da coisa. Espelho distorcido do mundo em que vivemos, pode ampliar ou reduzir qualidades e defeitos, mas nunca deixa de ser um termômetro das ansiedades da época em que foi produzida. Feita por casmurros obcecados ou panteístas delirantes, sempre pode nos fornecer algumas chaves para compreensão do mundo, do céu ou do inferno em que vivemos.

*vale conferir Motta, Carlos Guilherme, in Ideologia da Cultura Brasileira (1933-1974).

(Publicado em aterraeredonda.com.br)

Um crime primordial

Mussa

Se considerarmos que o conceito de história se faz a partir da existência de pessoas, em termos bíblicos a primeira história do mundo envolveu desejo sexual e assassinato. Adão, Eva, Caim e Abel simbolizam esse início sangrento, do qual nunca fomos redimidos.

Mas Alberto Mussa reconta sua “primeira história” situando-a no Rio de Janeiro. Mais precisamente em 1567, pouco mais de dois anos passados da construção do forte no Morro do Castelo, onde tudo começou.

A vila tinha cerca de 400 habitantes, entre portugueses, vicentinos, mamelucos, índios e alguns poucos europeus de origem diversa. E então se registra o primeiro crime, o assassinato do serralheiro Francisco da Costa, em circunstâncias misteriosas. O fato de sua mulher, Jerônima Rodrigues, ser uma mameluca atraente, numa terra onde habitam muito mais homens que mulheres, dá contornos de passionalidade ao fato, com suspeitas de adultério. Alberto Mussa parte de um documento histórico, de um fato real, relatado em “Conquistadores e povoadores do Rio de Janeiro”, de Elysio Belchior, e promove uma admirável mescla de ficção e realidade.

Temos, portanto, uma trama policial. Um morto, vários suspeitos, uma possível causa. Mas os autos são incompletos e obscuros, e o julgamento soa apressado, uma vez que até entre os juízes há suspeitos. Só não existe um detetive, ou melhor, é Mussa quem se investe do papel, pedindo aos leitores que “dividam comigo a fascinante tarefa de reproduzir a investigação, de examinar os dados do processo, bem como outros documentos que iluminem o caráter das personagens envolvidas.”

O autor não se reporta ao antecedente bíblico, mas nos apresenta, em digressões deliciosas, aspectos históricos, culturais e antropológicos da Guanabara dos primórdios. A mitologia indígena, uma das paixões de Mussa, é apresentada em vários momentos, assim como a descrição acurada de hábitos e costumes da época.

Todos estes temperos dão ainda mais sabor à trama policial. Segundos os autos, o mameluco Simão Berquó foi considerado culpado e condenado à forca. Mussa dedica um capítulo a cada um dos suspeitos, levantando hipóteses: dois fidalgos-cavalheiros, o tesoureiro da câmara, o mordomo da confraria de São Sebastião, um judeu degredado, um cirurgião-boticário, um carcereiro, um pirata-cartógrafo. Algumas mulheres dão depoimentos sobre a bela e misteriosa Jerônima, algumas solidárias, outras invejosas.

Embora a solução proposta pelo escritor-detetive surpreenda pelo inusitado, toda a construção da trama segue, de forma engenhosa, as convenções do gênero, plantando suspeitas na cabeça do leitor e levando-o a elaborar conjecturas e deduções. Mussa enriquece a narrativa com citações dos primeiros narradores-viajantes, interpretações etimológicas, paralelos com autores policiais modernos, cinema – ele está escrevendo no século XXI, não no XVI, lembrem-se! -, culminando com uma ardilosa aproximação da Comédia de Dante.

A Primeira História do Mundo é parte de um projeto ambicioso, uma série de cinco policiais contando a história do Rio de Janeiro, um pra cada século. Este é o terceiro publicado (os outros são O Trono da Rainha Ginga, sec. XVII, e O Senhor do Lado Esquerdo, sec. XX). Alberto Mussa, consagrado com diversos prêmios literários, é certamente um dos mais originais escritores brasileiros, e exercita nesse romance suas melhores qualidades, aumentando a nossa expectativa para a conclusão do inusitado ciclo.

Mapa RJ0001


Arquivos