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O encantador de tainhas

Tainha

Na praia onde eu nasci, na Baía de Todos os Santos, havia um encantador de tainhas. Jamais conheci, em nenhum outro lugar da imensa costa brasileira, alguém com tal dom. O homem, de quem infelizmente só lembro o prenome, Pedro, era um negro magro, meio calvo, cujos fios de barba começando a clarear indicavam idade avançada ou penúria vivenciada.

Quando chegava o inverno os cardumes de tainhas costeavam a baía, e os pescadores saíam com suas redes e barcos tentando cerca-las. Alguns se penduravam nos penedos e atiravam bombas juninas no meio do cardume, o que fazia com que as tainhas tivessem morte imediata, boiando de barriga para cima. Aí era só mergulhar e catá-las.

Muitas vezes o cardume era visto passando ao largo, sem se aproximar da falésia. Então Pedrão, como o xamã era chamado, encarapitava-se na pedra mais avançada sobre o oceano e entoava um estranho canto, algo parecido um aboio. O cardume mudava de rumo e se dirigia para as proximidades da praia, onde as redes, barcos e bombas completavam o serviço.

Não conheci mais ninguém que dominasse esta arte. Talvez  Pedro tenha sido o último dos homens na face da Terra a se comunicar com as tainhas.

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