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O artista e suas obsessões

Na Literatura, como em outras artes, há dois tipos bem definíveis de artista: o que experimenta de maneira insaciável formas diferentes, explorando ângulos, texturas, materiais, técnicas, linguagens, caminhos e bifurcações, e os que mergulham de forma obsessiva num objeto de estudo (de desejo?), traçando uma rota de aprofundamento progressivo, numa tentativa heroica e vã de chegar ao âmago, ao deslindamento final e definitivo, ao cristal límpido e absoluto.

Há outras motivações, sabemos, mas fiquemos com estes dois opostos, por enquanto. E antes que optemos pelo generalista ou pelo especialista (categorias que não funcionam muito bem quando se trata de arte), é importante fazer uma ressalva: esse tipo de classificação não implica num juízo de valor.

De fato, há experimentadores ruins e obsessivos maravilhosos, e vice versa. A radicalidade sintética do haicai, por exemplo, é uma das mais traiçoeiras armadilhas para os poetas iniciantes. Bashô é genial, mas tem uma legião universal de seguidores medíocres, com poucas exceções.

Como não admirar o mergulho suprematista de um Malevitch, que lhe custou caro na Rússia stalinista, e ao mesmo tempo não se espantar com seu retorno ao figurativismo? E aqui surge mais um dado complicante: há artistas que são “especialistas” em certa fase da vida e “generalistas” em outra. Mestres absolutos em dado momento, e auto diluidores em outro. Os que tem vida longa são mais visados por esse tipo de crítica, é óbvio, uma vez que o conjunto de obras tende a ser desigual quanto mais vasto for.

Alguém supõe que Mozart pudesse manter a excelência se vivesse mais quarenta anos? Ou Rimbaud? Será mais fácil ser gênio morrendo jovem? Novamente, não podemos estabelecer uma regra. Há artistas geniais e longevos, que criaram obras-primas provocativas na chamada terceira idade, como Verdi, que estreou sua ópera Falstaff (baseada na peça As Alegres Comadres de Windsor, de Shakespeare) aos 80 anos, ou Oscar Niemeyer, que inaugurou o Museu de Arte Contemporânea de Niterói com 89 anos (e continuou criando até os 105). Outros explodiram cedo, como fogos de artifício, passando o resto da vida tentando reacender as cinzas de sua obra gloriosa. Ou procurando outros caminhos, movidos por uma inquietação que, dependendo do caso, pode ser confundida com falta de objetividade, oportunismo, pura sobrevivência ou até relaxamento estético. E há o inevitável apelo do mercado editorial, que joga seus dados em obra de fácil digestão, consumidas rapidamente e trocadas por outras. Muito citado no Brasil é o caso de Jorge Amado, radical em suas primeiras obras, que à medida em que se torna um grande vendedor de livros, cede à tentação do erotismo temperado com dendê, como apontam vários críticos*.

A literatura brasileira é terreno onde medra toda espécie de escritor. De contistas geniais e sintéticos, como Dalton Trevisan, até caudalosos autores de obra pouco lembrada, como Otávio de Faria, cuja Tragédia Burguesa, prevista para vinte volumes, teve treze publicados em vida e mais dois póstumos. No entanto, estes dois exemplos são obsessivos, cada qual a seu modo. Enquanto um esmiúça a relação de amor, ciúme e ódio entre joões e marias, outro busca dissecar a sociedade carioca sob o ponto de vista de classe, sem desviar o foco do cenário.

A literatura brasileira contemporânea, assim como a música ou as artes plásticas, é multifacetada e permeável a muitas influências, típicas de uma era midiática e globalizante. Apesar disso, ainda é possível observar obsessões estéticas criativas (ou paralisantes, dependendo do caso).  A legião de epígonos de Rubem Fonseca, por exemplo, buscando emular o clima dos primeiros contos do mestre. A empreitada ambiciosa de Alberto Mussa, construindo uma história do Rio de Janeiro por cinco séculos, em tramas policiais. A lupa de Chico Lopes sobre a vida interiorana das pequenas cidades em modificação/estagnação num Brasil que é sempre um conjunto de frustrações. Escritoras feministas que rompem amarras e, paradoxalmente, se enredam em novos cercados. O esforço do escritor Chico Buarque em alcançar a excelência do compositor Chico Buarque. Os cronistas da periferia que martelam temas essenciais, porque é impossível não falar sobre violência, preconceito, fome ou miséria, assuntos que atravessam séculos sem perder a urgência. Cada qual a seu modo sustenta suas obsessões da forma possível, com as ferramentas que têm ao seu alcance.

Arte permite várias visões, interpretações, audições e leituras, e essa natureza multiforme encerra toda a graça e mistério da coisa. Espelho distorcido do mundo em que vivemos, pode ampliar ou reduzir qualidades e defeitos, mas nunca deixa de ser um termômetro das ansiedades da época em que foi produzida. Feita por casmurros obcecados ou panteístas delirantes, sempre pode nos fornecer algumas chaves para compreensão do mundo, do céu ou do inferno em que vivemos.

*vale conferir Motta, Carlos Guilherme, in Ideologia da Cultura Brasileira (1933-1974).

(Publicado em aterraeredonda.com.br)

Movidos pela angústia

Passagem invisívelChico Lopes é escritor prolífico, com vários títulos publicados. Contista consagrado, experimentou também o romance, a poesia, a crônica e a crítica literária e cinematográfica.

Um dado curioso de sua biografia é o fato de ter nascido e morado em pequenas cidades do interior, como Novo Horizonte, Brotas ou Poços de Caldas. Isso não o impediu de acumular um conhecimento cosmopolita, espelhado principalmente em sua atividade crítica. Por outro lado, é determinante do universo onde seus personagens transitam, asfixiados por horizontes estreitos, ruas escuras, bares decadentes e certo pessimismo em relação à vida.

Chico já confessou, em entrevista, que sua literatura fala de perdedores, de marginalizados. Mesmo que vivesse numa megalópole, é bem provável que o enfoque fosse o mesmo, pois esta é uma postura estética e filosófica em relação ao mundo, que já rendeu vários clássicos da literatura universal.

A escrita de Chico Lopes não usa truques moderninhos, não depende de aparelhos eletrônicos, não é feita para consumo rápido e descartável. Em seus contos, desde que publicou seu primeiro livro, se aventura pelos becos mais tortuosos da alma humana, pisando em terreno onde o sórdido e o sublime podem germinar lado a lado. Leu os russos, os franceses, leu Machado e Graciliano, e destilou desses mestres a essência que anima suas narrativas.

A Passagem Invisível (Laranja Original, 2019) reúne 8 contos, sendo o último quase uma novela, com 46 páginas. Histórias densas e tensas, onde a violência subjacente às vezes explode de forma sangrenta, seja através de ciúme incontrolável, de revolta surda contra o destino ou de violência institucional.

Exemplo soberbo desta última situação é o admirável conto White Christmas, onde um homem é perseguido por dois policiais pelo “abominável” gesto de ter urinado numa árvore. As consequências deste ato atingem proporções inusitadas, num crescendo angustiante que nada fica a dever aos melhores autores de suspense, com um desfecho de grande impacto, que se iguala aos melhores momentos de um Rubem Fonseca.

Neste, como em outros contos, há algo também de Kafka. Não se procura apenas distrair o leitor com uma boa história, mas inquietá-lo, num sentido mais existencial. Os personagens são oprimidos pelas circunstâncias, pelo medo, pela angústia, pelo abandono, e é na exploração destas situações que a literatura de Chico Lopes cresce, ocupando um nicho incontornável no panorama da literatura brasileira contemporânea.

Literatura crônica

Abraço dos Cegos

Dizem que a crônica, como gênero literário, nasceu no Brasil. Há certo exagero ufanista nisso, mas de fato se desenvolveu em terras tupiniquins uma forma curta de literatura que não encontra similar dentro do cânone ocidental (como diria Harold Bloom).

O curioso é que a crônica brasileira surgiu por uma espécie de darwinismo intelectual. Em nome da sobrevivência, poetas, romancistas e contistas ofereceram seus serviços à imprensa, em forma de colunas periódicas mensais, semanais e, em casos extremos, até diárias.

Mestres da ficção, como Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector, fizeram das crônicas um porto seguro para garantir os caraminguás no fim do mês. Poetas do calibre de Drummond, Vinicius, Cecília Meireles e Mario Quintana foram cronistas dedicados. Dramaturgos como Nelson Rodrigues, Plínio Marcos ou Mário Prata produziram centenas de textos curtos, publicados em jornais e revistas. E há os, digamos, autênticos, que tiveram seus nomes imortalizados pelas crônicas: João do Rio, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) e muitos outros fora do eixo Rio-São Paulo. Gaúchos, cearenses, baianos, mineiros, todos têm seus cronistas de estimação, e a literatura de seus estados não seria a mesma sem eles.

Mas, pressionada por desígnios mercadológicos, a crônica literária mudou de território. Rareia nos jornalões, desaparece nas revistas, sofre uma mutação tecnológica e se dispersa no labirinto informático. Passa a ser confundida com resumos de impressões cotidianas, opiniões aleatórias, críticas sociológicas e políticas, palpites estéticos sem lastro. Textos que seriam lidos de forma condescendente nas páginas do diário de uma adolescente são chamados de crônica, nas redes sociais. Gente incapaz de escrever um conto com um enredo aceitável se apresenta como escritor por escrever comentários irrelevantes em páginas virtuais.

Por tudo isso, é admirável ver um escritor de renome lançar uma coletânea de crônicas nesse mar revolto do século XXI, como quem solta um barquinho de papel, manuscrito dos dois lados, na enxurrada. Mas basta ler as primeiras páginas de O Abraço dos Cegos, de Chico Lopes (Editora Penalux, 2018), para perceber que estamos pisando no terreno consagrado da Literatura, e não no pantanal das futilidades descartáveis.

A maior parte das crônicas de Chico Lopes são narrativas em primeira pessoa, que oscilam entre a reflexão filosófica e a mirada, ora crítica ora nostálgica, de uma realidade muito peculiar: a de um escritor nascido e vivido em pequenas cidades do interior. Mas o autor, como queria Tolstói, transcende a geografia e se revela universal, ultrapassando os limites de sua aldeia. A literatura, a música e o cinema abriram as portas, e por elas o mundo entrou e se acomodou em sua mesa de trabalho.

Escritas em épocas variadas, como toda coletânea, devem ser lidas com a compreensão de que estamos contemplando uma paisagem acidentada, não uma planície. Há picos e vales, e isso é que torna interessante o conjunto. Às vezes desafiador como uma escarpa, outras vezes convidativo como um gramado à beira de um lago cujas águas ocultam um monstro.

Muitas crônicas do volume não escondem a ambição poética, outras brincam de ser quase-conto. Mesmo as poucas que nos remetem a um lugar concreto, um filme ou uma música, exalam um aroma existencial, levantam a ponta do lençol proibido, indagam sobre o significado oculto das coisas. Ao terminarmos a leitura, fica a certeza de que a crônica, enquanto gênero, pode ser muito mais profunda do que vem sendo praticada por aí, nos blogs da vida. Escritores como Chico Lopes são essenciais, não para apontar caminhos já trilhados, mas por desvelar a amplidão estrelada dos descaminhos.

Um novo olhar sobre o velho faroeste

Homesman

              Uma conversa virtual com o escritor Chico Lopes, que além de grande ficcionista é cinéfilo, autor do excelente livro de ensaios Na Sala Escura – A Arte de Sonhar de Olhos Abertos, que comentei aqui, fez com que recordássemos alguns faroestes.

            Depois de relembrarmos nomes históricos e momentos sublimes, concordamos que Rastros de Ódio, de John Ford, é o melhor de todos os tempos, e não adianta chorar ou gritar “come back, Shane”. Falamos também dos western spaghettis, das trilhas de Enio Morricone, e terminamos lamentando a morte de um gênero tão rico.

            Dizem, aliás, que é o único gênero absolutamente cinematográfico. Aquele Oeste americano que conhecemos foi criado pelo cinema, estereotipado por Hollywood e mitologizado pelos italianos. A realidade era, digamos, um pouco mais suja e inglória.

            Mas era bela, quem há de negar? O Monument Valley, em Utah, tornou-se o cenário ideal de Ford e inúmeros outros cineastas de igual ou menor calibre. Alguns, ainda mais áridos, escolheram filmar nos Great Plains, o Meio-Oeste americano. A temática esgotou-se, como filme de cangaço no Brasil. Um ou outro cineasta contemporâneo ainda arrisca sua cartada, contra a vontade dos estúdios, que preferem apostar no que está na moda. Um deles foi Clint Eastwood, um herói do western spaghetti, que filmou o belo Os Imperdoáveis em 1992. Foi o último faroeste memorável que vi, declarei.

            E o Chico: “Ah, você precisa assistir Dívida de Honra.” Embatuquei. “Do Tommy Lee Jones, de 2014. Genial!”. Confessei minha ignorância, ao mesmo tempo em que comentava a admiração por outro filme dirigido por  Lee Jones, Três Enterros, de 2005. Um filme de fronteira, ensolarado e sombrio, cínico e lírico como poucos. Só que contemporâneo, não é um faroeste clássico.

            Neste sábado resolvi encarar o último grande faroeste do cinema. E, confesso, estou arrepiado até agora. Que filme! Fotografia belíssima, desde o primeiro plano. Lembra as grandes panorâmicas de Ford, claro, mas se passa totalmente nos Great Plains. Nebraska, para ser exato. A protagonista é Hillary Swank, soberba. Solteirona de posses numa cidadezinha perdida no meio do nada, assume a tarefa de levar três loucas para suas famílias em outro estado, cruzando o deserto. Salva um homem do enforcamento (Tommy Lee Jones) e obriga-o a acompanhá-la em sua jornada.

            Num cenário grandioso e arquetípico, com direito a encontros com índios e bandidos, tudo é novo. Uma mulher no comando das ações, mas oprimida pelas convenções da época. A insanidade, tratada com delicadeza e piedade, numa época em que as pessoas ditas normais muitas vezes agiam como loucas. Não deixa de ser uma espécie de loucura viver no meio daquele inferno, escaldante sob o sol e gelado sob a lua. E as ações se embaralham, há momentos em que não sabemos direito quem é o louco desta história.

            Lee Jones se supera, como ator, diretor e autor. Swank arrasa. As três coadjuvantes são perfeitas, e até sobra um pequeno papel para Meryl Streep, no final. Roteiro magnífico, sem duelos ou pancadarias. Talvez os saudosistas sintam falta disso, mas estamos falando de um novo olhar sobre uma época que se tornou lendária através do cinema. Um olhar pleno de perplexidade, mas humano. Ou cheio de humanidade, mas perplexo.

            Em uma palavra: imperdível!

            


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