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A literatura fantástica de Sergio Papi

Sergio Papi construiu sua trajetória como designer gráfico desde os tempos heroicos da imprensa alternativa, nos anos 70/80. Ouviu e anotou muitas histórias, acompanhou episódios tenebrosos, ilustrou e diagramou libelos e diatribes.

Com a reconquista da democracia aflorou o narrador, o contador de causos, o escritor. E em 2020, com o país novamente flertando com a escuridão, publica 99 Histórias (Terra Redonda Editora), onde sua imaginação se esparrama em pequenos contos e crônicas que formam uma intrincada tapeçaria de miçangas de cores variadas.

De origem judaica, como muitos de nós, volta e meia Papi se refere ao Oriente Médio, às questões árabes, à geografia imemorial dos persas. Também mergulha na história do Brasil, na tragédia latino-americana, nas descobertas da Ciência. Isso confere certo sabor borgeano às suas narrativas, que oscilam entre o verossímil e o fantástico. Existe mesmo aquela cidade no Iêmen? Terá ocorrido aquela batalha entre incas e espanhóis? Haverá existido mesmo aquela loja de chocolates no Butantã?

A prosa fluente de Papi às vezes toma a forma de crônica, descrevendo cenários urbanos (geralmente São Paulo), viagens ou sonhos estranhos. O insólito surge com frequência, como se uma porta de outra dimensão se abrisse no concreto cotidiano. O uso constante de termos científicos – seja de química, medicina ou astronomia – confere uma estranheza à qual não falta certa dose de humor. Não por acaso, um de seus orixás inspiradores é o velho Barão de Itararé, de quem reeditou em fac-símile os Três Almanaques, entre 1989 e 1995.

Em outros momentos a narrativa já se configura como conto curto desde o início, criando cenários e personagens, diálogos e situações. Essa mistura de gêneros, cada vez mais característica de nossa época, não pode ser confundida com desleixo formal em 99 Histórias. É resultado evidente de uma vida de muita leitura, de um esforço profissional para traduzir um texto em imagens. Aqui, de forma curiosa, o designer-escritor Sergio Papi muitas vezes parte de uma imagem, real ou imaginária, para transformá-la em texto.

Essa operação inversa nos remete a um dilema cada vez mais presente no oceano de informações virtuais em que estamos submersos. Quando o jornalismo eletrônico encolhe textualmente, optando pela imagem como suporte preferencial, coloca-se em risco todo um edifício cultural construído por séculos de experiência. Voltaremos aos hieróglifos?

É sobre essa estrutura em convulsão que se equilibra a literatura de Sergio Papi. Os 99 textos curtos, publicados anteriormente na internet, traçam um distópico panorama desta época, retratando o Aleph estonteante de informações cuja veracidade é cada vez mais difícil de comprovar. Mas no terreno devidamente sinalizado da ficção, é possível falar de água como se fosse vinho, e transmitir ao leitor a sensação de ter provado algo novo.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda)

O cronista Aldir Blanc

Aldir-Blanc-cronista

Abalados pela morte do letrista, compositor e poeta Aldir Blanc (1946-2020), os comentaristas e o público amante da música popular inundaram as redes sociais com versões de seus grandes sucessos, como O Mestre-Sala dos Mares e O Bêbado e a Equilibrista, feitos com o parceiro maior, João Bosco. Jornalistas relembraram sua criatividade, sua verve, suas firmes posições políticas, seu humor sarcástico, sua carioquice. Alguns analistas lembraram a sua capacidade de concretizar em letra de música verdadeiras crônicas, cenas populares, relatos mordazes de situações urbanas.

Nada mais justo, se prestarmos atenção a obras primas como De Frente pro Crime, Incompatibilidade de GêniosA Nível De… ou Siri Recheado e o Cacete, retratos cheios de graça de um certo jeito de ser carioca, entre malandro e trouxa, convivendo com a violência, o desacato, o compadrio, a traição e outros desvios. Bebeu de fontes preciosas, como Noel Rosa, Geraldo Pereira, Wilson Batista, Billy Blanco e mais uns poucos. Não é fácil contar uma história, criar um enredo com abertura e desfecho, em poucos versos.

Mas o enorme compositor-letrista acabou ofuscando o escritor. Aldir Blanc é cronista mesmo, refinado (ou grosso, dependendo da hora), com vários livros publicados. Convidado pela turma do Pasquim, publicou seu primeiro volume de crônicas, Rua dos Artistas e arredores, em 1978. Ali se revelava um arguto investigador dos hábitos, costumes e idiossincrasias populares, herdeiro legítimo de uma tradição que vinha do pioneiro João do Rio, incorporando o inconformismo de um Lima Barreto e compartilhando o senso de humor de um Stanislaw Ponte Preta.

As coletâneas seguintes (Porta de Tinturaria, Brasil Passado a SujoUm Cara Bacana na 19ª, Direto do Balcão) confirmaram o talento literário do compositor-letrista. Sua formação acadêmica (fez medicina, com especialização em psiquiatria) se mesclava em química perfeita com o amor pela literatura, destilando o exímio retratista de tipos humanos, de situações hilariantes, de pequenas e grandes malandragens de um Brasil que se transforma a cada dia, deixando de sorrir e mostrando os dentes. Talvez não escrevesse crônicas, mas diagnósticos…

Reler Aldir Blanc hoje é se reencontrar com esta quase perdida tradição de cronistas satíricos metropolitanos. Os textos de humor crítico migraram para a TV, para as comédias stand-up, para as redes sociais. Apenas Luiz Fernando Veríssimo pode ser comparado, no cenário da literatura brasileira contemporânea.

Mesmo quando Blanc se aventurou por outros gêneros, como memórias (Vila Isabel – Inventário de Infância), livros infantis (Uma Caixinha de Surpresas), ou relatos saborosos em homenagem a seu time de coração (Vasco – A Cruz do Bacalhau), o espírito de “cronista carioca” esteve impregnado de forma indelével. Aldir Blanc ainda será lembrado como um dos mais originais escritores de nossa época, último recriador de um Rio de Janeiro que, depois da pandemia, nunca mais será o mesmo.

(publicado originalmente em A Terra é Redonda)

 

Conversa íntima e pública

conversa-comigo

Foi na metrópole moderna, seus conflitos, o ruído do progresso e a pressa desenfreada, subprodutos do modo de viver que os grandes aglomerados urbanos instituíram, que (a crônica) encontrou seu espaço privilegiado (…)”

O erudito prefácio de Edmar Monteiro Filho à Conversa Comigo (Penalux, 2019) situa com precisão o terreno por onde transita o cronista: a relação tumultuada do indivíduo com a urbe. Nesse caso, a cidade é São Paulo, e o autor o consagrado (na literatura infanto-juvenil) Ricardo Ramos Filho.

O título do volume oculta uma engenhosa artimanha, da qual só nos damos conta lá pelas tantas páginas. A primeira crônica, que batiza o livro, mostra um diálogo entre um casal num automóvel. A necessidade de conversar surge em todo relacionamento, e imersos no trânsito caótico, pode ser quase um pedido de socorro. Não à toa, muitas das crônicas se passam no meio do trânsito, com o mundo passando pelas janelas como um ciclorama.

O autor passeia pelas ruas, anda de metrô com o ouvido atento, espia vitrines com olhos cobiçosos, sobe e e desce ladeiras, faz compras em supermercados, apaixona-se por um quadro abandonado na calçada, toma café na padaria da esquina. Presta atenção ao mundo, às pessoas, a tudo que possa ganhar um novo significado através da palavra escrita. Missão primeira de qualquer cronista inteligente. 

Mas Conversa Comigo também pode ser interpretado como “conversa consigo próprio”. Eu entabulo uma conversa comigo. E Ricardo Ramos Filho se torna confessional, expõe manias e ranhetices, se desnuda aos olhos do público, relembra episódios familiares, sem nunca perder o senso de humor. Algumas páginas depois volta lampeiro à observação do cotidiano, certo de ter fisgado nossa atenção da forma mais honesta possível: se revelando. “Talvez a gente apenas queira ser ouvido, não procure diálogos”, constata, numa crônica sobre donos de animais de estimação.

É nesse jogo de luzes, ora focando a calçada cinzenta e suja de cocô, ora iluminando os recantos do coração onde moram os afetos, que o conjunto de crônicas acaba nos cativando. O escritor premiado, o militante das letras, o incentivador de novos autores, o onipresente em lançamentos literários Ricardo Ramos Filho, torcedor do Santos (ninguém é perfeito!), calça as chuteiras, ergue o meião e entra no jogo em um campo onde pululam mestres: o território da crônica. E, nas primeiras jogadas, mostra que veio pra ganhar aplausos da torcida. Que venha o tao esperado romance, anunciado numa das últimas crônicas do volume!


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