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A chama da dor e o vento da ficção

chama e o vento

O longo e tenebroso período de ditadura militar no Brasil ainda é fonte pouco explorada pelos nossos autores de ficção. O pioneiro parece ter sido Carlos Heitor Cony, que em 1967 lança Pessach – A Travessia, onde um intelectual se envolve com uma guerrilheira e acaba participando da luta armada.

            Ao lado de reportagens, biografias e livros históricos que enfocam o período, a literatura de ficção aos poucos vai conquistando seu espaço nesta prateleira. Pelo menos uma dúzia de títulos foi lançada na última década, com abordagens bem distintas. Há memorialismo ficcional, tramas policiais, romance psicológico, enredos de amor e narrativas do ponto de vista infantil.

            Um dos mais curiosos romances desta vertente é A Chama e o Vento, do escritor mineiro Sérgio Mudado. Autor experiente, com outros títulos publicados, Mudado lançou em 2015 esta pungente narrativa sobre uma estudante de medicina que é presa, torturada e libertada em troca de um embaixador sequestrado pela guerrilha. A história é contada pela ótica de seu irmão caçula, também estudante de medicina, que mantém forte relação com a imagem da irmã distante.

            O autor partiu de uma personagem real, a Dodora, uma das mais emblemáticas e trágicas vítimas da repressão militar. O irmão-narrador, no entanto, é ficcional, assim como as figuras que o cercam. Ficcional? O ambiente da escola de medicina, a residência, os doentes, as freiras, tudo parece ter sido vivenciado pelo próprio Mudado, também médico de formação.

            Temos portanto um engenhoso enlace entre ficção e realidade, onde o chumbo se transforma em ouro sem que tenhamos exata noção dos momentos em que isso ocorre. Como bom alquimista, o autor busca nos envolver em uma atmosfera meio espectral, onde seu inegável talento narrativo nos conduz até o desfecho dolorido, porém terrivelmente real.

            Lançar mão de um recurso meio esotérico, como a figura de um cirurgião-alquimista, pode parecer um tanto indigesto para os fãs do realismo cru. Mas a forma habilidosa e surpreendente com que Mudado promove o encontro final entre os irmãos, afinal, demonstra que há muitos entrelaçamentos possíveis entre ficção e realidade. O romance A Chama e o Vento é prova de que um período tão sombrio de nossa História pode ser abordado de maneira original e cativante, sem renunciar em nenhum momento à denúncia das atrocidades que ali foram cometidas.

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A perversa elegância do mal

O punho e a renda

Este romance é um exemplo perfeito de como a ficção pode jogar luz sobre o passado, iluminando meandros sombrios e revelando homens e ratos. O autor, Edgard Telles Ribeiro, é diplomata de carreira, e também escritor premiado, jornalista e professor de cinema.

O livro é aberto com a tradicional advertência “O presente livro é obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou falecidas é mera coincidência.” Bem, a ficção começa aqui. Se devemos lembrar-nos de um cineasta (e vários são citados no enredo), é de Orson Welles. Um pouco de Cidadão Kane, e muito de Verdades e Mentiras.

O cenário é real”, concede o autor. A história começa em 1968, e avança numa montagem bem engendrada, com flashbacks e reflexões no tempo presente (o livro foi publicado em 2010). E bastam algumas páginas para começarmos a reconhecer personagens reais, figuras históricas e situações vividas. Alguns nomes são ligeiramente modificados, outros estão lá, com todas as letras.

O narrador é um jovem funcionário do Itamaraty, discreto, amante de jazz e literatura. Primeiro de maneira próxima, depois à distância, tenta traçar o perfil de um amigo mais velho, Max, que domina como poucos o jogo do poder. Sua ascensão profissional é favorecida por sua aproximação com os militares, envolvendo-se em jogadas tenebrosas que aos poucos vão se descortinando.

O personagem, transferido para o Uruguai, articula de forma subterrânea a colaboração entre a ditadura brasileira e os militares uruguaios, e depois os chilenos. Promove contatos com empresários que financiam a tortura, se alinha com a CIA, mantém contato com o M16 inglês. Os respingos de sangue dos golpes militares no continente não parecem manchar os punhos de renda de Max, que mais adiante terá papel de destaque na aquisição das usinas nucleares alemãs. Sempre de forma não oficial, claro. Fica claro que o sonho dos generais brasileiros era ter a bomba, coisa que não interessava aos norte-americanos. No entorno do personagem, somos convidados a entrever o ambiente diplomático, suas festas e jantares, os almoços regados a bons vinhos, as disputas de poder, os ciúmes e as vaidades.

Vários livros têm sido escritos sobre o período, mas poucos tão originais como este. Ficamos espantados não com a banalidade do mal, no sentido proposto por Arendt, mas com a elegância do mal, vestido em ternos de corte impecável e fumando cigarrilhas cubanas. E o talento de Edgard Telles Ribeiro é demonstrar que não por isso seja menos odioso.

            Não é um romance político, no sentido estrito, mas antes uma investigação sobre um homem que vendeu a alma para o diabo, quando este vestia farda e comandava ditaduras. Através do agente americano, compreendemos melhor as articulações políticas subversivas da CIA no continente, desestabilizando governos e treinando aparatos de repressão.

Quem conhece o Itamaraty de perto deve saber quem é o retratado. Homem culto, observador perspicaz e espírito maquiavélico, soube aproveitar a redemocratização para vestir uma nova pelagem, chegando aos degraus mais altos da carreira. Os fantasmas que arrasta em seu passado não apontam o dedo para um colaboracionista. E se apontam, não conseguimos enxergar.

Outros personagens aparecem. A mulher de Max tem papel relevante na trama, assim como o citado agente. São estes que revelam pistas importantes para o narrador, dando um clima de thriller de espionagem ao enredo.

Escrito com maestria e inteligência, O Punho e a Renda é obra fundamental para entendermos as sombras e luzes daquele lamentável período da História. São 550 páginas de uma leitura arrebatadora, da qual emergimos com um travo amargo na boca, ao percebermos quão perto estamos dos mesmos podres interesses que fermentaram o golpe de 1964.


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