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Por que escrevi um romance?

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                Escrevo, como a maioria das pessoas alfabetizadas, desde os seis anos de idade. Depois de incontáveis redações, composições, provas, formulários, bilhetes, cartas, cartões postais, recados, trabalhos escolares e algumas subversões, me profissionalizei na área de audiovisual. Continuei escrevendo. Centenas de sinopses, ensaios, projetos, roteiros, avaliações, declarações de amor, cartões diversos, legendas de fotografias, listas de música, receitas e compras de supermercado.

                A internet abriu um novo campo. Passei a escrever também mensagens eletrônicas, comentários virtuais, artigos periódicos, ensaios isolados, bilhetes digitais. Depois de ouvir muitas histórias, resolvi contar algumas. Garatujei alguns contos, fui publicado em algumas coletâneas, recebi alguns prêmios. Continuei escrevendo muitos roteiros, o que se tornou o meu ganha-pão desde que saí da universidade.

                Pois um dia tive uma boa ideia (repare que é um incidente raro nessa trajetória), e escrevi um romance. Demorei muito tempo para publicá-lo, mais que o desejável. Até comecei a escrever outros, por falta do que fazer. Mas em 2015, finalmente, é editado meu primeiro romance, Terno de Reis. Festa, abraços, congratulações. “Agora você é um escritor!”

                Como assim? Não valem nada as trezentos-e-cinquenta-milhões de palavras que escrevo desde o curso primário? Ganho a vida escrevendo, me comunico com as pessoas através da escrita, tenho centenas de amigos que só conheço por estradas literárias, e só agora sou um “escritor”?

O Houaiss traz duas definições dessa palavrinha pernóstica. “1. Aquele que escreve” (era eu, até ontem). “2. Autor de obras literárias, culturais, científicas etc., especialmente o ficcionista” (sou eu, agora). Classificação aceita universalmente, mas que me incomoda.

Sempre admirei os contadores de histórias. Os piadistas talentosos, os mentirosos de bar, os advogados, os políticos (nem todos!), os indígenas pré-históricos (por que alguém definiu que a história começa com a escrita?), os narradores da aldeia, os lunáticos loquazes. Os compositores e suas canções. Os atores no momento em que improvisam. As mães que inventam histórias para embalar os filhos. Sempre desejei ter este dom!

Desde o último sábado, passei a ser chamado de “escritor”. Vai demorar até que eu me acostume com este estranho título. Preferiria ser um contador de histórias, mas nunca tive a fluência e o talento necessário para entreter plateias, mesmo as de berço. E o motivo de escrever esse post é que irão me fazer perguntas inevitáveis, a partir de agora. Para poupar tempo e trabalho, adianto algumas respostas.

– Por que o título Terno de Reis?

– É um título polissêmico. (Isso não está no Houaiss, neguinho vai ter de pesquisar!) É um livro escrito em primeira pessoa por um personagem que se chama Reis. Tem esse sobrenome por ter nascido no dia de Reis, 6 de janeiro. A tradicional festa popular chamada reisado, que ocorre nesta data, também é chamada de folia de reis e terno de reis. A narrativa do romance é dividida em três partes. A expressão “terno de reis” também é usada no jogo de baralho, é o mesmo que trinca de reis. O acaso tem um papel importante na narrativa.

– Por que o personagem nasce em Amparo, interior de São Paulo?

– É uma homenagem póstuma à terra natal de minha mãe, Muriel. Só estive em Amparo uma vez, conheço pouco. Por coincidência meus sogros, Patrício e Maria Alice, nasceram em Amparo. Para quem acredita em coincidências…

– Em que gênero você encaixaria o teu romance?

– Essa é difícil. Tem um pouco de policial (há um crime), algo de Bildungsroman, por acompanhar a trajetória de um personagem por mais de cinquenta anos, um quê de romance histórico, por atravessar a história real do Brasil desde os anos 50 até o século XXI, com nuances políticas. Pra completar, tem um pezinho no fantástico. É, portanto, um romance transgênero, em vários sentidos.

– Você é formado em Cinema. Pretende transformar o romance num filme?

– Não. É infilmável. Por isso virou romance, não roteiro.

– Pretende prosseguir na carreira de escritor?

– Não de escritor, mas de contador de histórias, em qualquer mídia. Com um violão na mão, no meio de uma roda de conversa, na mesa do bar, embalando meu neto. Mas se você se refere a obras publicadas em papel, sim, tenho outras em andamento. Estou escrevendo um romance de contos, um negócio também difícil de definir. Não é nenhuma invenção revolucionária, as 1001 Noites é um exemplo clássico desse gênero. Trata-se de uma forma de colocar várias histórias curtas dentro de uma história maior. Serve pra quebrar a monotonia, não acha?

Capa Daniel Brasil 07-05-2015.indd

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