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As aves e seus estranhos nomes

      Sempre tive uma queda por Biologia. Desde menino me encantava com o voo das aves, a beleza das flores, o silêncio dos peixes. Biologia foi minha segunda opção no vestibular, mas acabei entrando em Cinema na USP.  A turma ficava espantada quando eu dizia que queria fazer filmes como… Jacques Cousteau! Todos citavam mestres do cinema, nomes de vanguarda, glauberes e godardes como ídolos.  Sempre gostei de ficção, não nego, e este lado criativo do cinema também me pegava. Meu favorito era Chaplin. “Oh…”, respondiam, com surpresa e desdém. Não parecia moderno, mas era eterno.

     Muita ave migrou por cima da ponte depois disso, e acabei virando um ornitólogo amador, depois de comprar uma máquina fotográfica mais robusta. Antes só tive daquelas compactas, nunca liguei muito para a tecnologia. Clicá-las em seu ambiente virou um passatempo, às vezes uma obsessão. Até hoje tenho amigos que não entendem o fato de eu passar a noite tomando cerveja, batendo papo e tocando violão na praia, e às sete horas da manhã já estou no meio do mato, procurando uma espécie nova. Cada um tem sua forma de combater o estresse.

     Mas a curiosidade não é só visual. Como gosto de etimologia, sou fascinado pelo nome das aves. Os populares são regionais, e variam muito. O nome científico é rigoroso, único, mas ambos trazem surpresas deliciosas. Vou deixar o latim para outra ocasião, fiquemos com a linguagem do dia a dia.

     Há nomes curiosos, engraçados e enigmáticos. Alguns até corriqueiros, nem prestamos muita atenção neles. Viuvinha, freirinha, noivinha… Por que a insistência no gênero feminino? Não existe um viuvinho ou noivinho. Fradinho sim, só que é uma ave ártica, não existe no Brasil.

fradinho

      Vamos ficar com os nativos. Você conhece um pássaro chamado garrinchão-pai-avô? Parente da simpática corruíra de nossos quintais. Ninguém sabe se é pai ou avô. E casaca-de-couro-da-lama? Primo do joão-de-barro, claro. Tem o gibão-de-couro também, mas é primo das andorinhas. Já o ferro-velho, um simpático passarinho da Mata Atlântica, tem um nome bem misterioso. Alguns relacionam com sua vocalização, mas é preciso muita imaginação para achar que aqueles trinados pareçam… ferro velho!

      A curiosa família das marrecas, com várias espécies brasileiras, também capricha nos nomes. A marreca-toicinho já cliquei, na represa de Guarapiranga, em São Paulo, assim como a marreca cri-cri. Ela não é chata, como o nome faz supor, mas tem uma voz, digamos, meio esganiçada. A campeã do grupo é a marreca-pé-na-bunda (juro!), que só ocorre no sul do país. Não encontrei razão satisfatória para este nome, até hoje…

     A vocalização das aves muitas vezes influencia seu nome. Temos risadinha, gritador, assobiador, piador, cantador, chorão, chorona-cinza e chororó, além de inúmeros onomatopaicos. Até aí parece lógico, até uma criança chama cachorro de au-au e gato de miau. Mas o universo não é tão simples.

     A categoria dos joões está bem representada. Temos joão-bobo, joão-de-pau, joão-baiano, joão-chaquenho, joão-botina-do-brejo, joão-xique-xique, joão-da-palha e joão-corta-pau, além do já citado joão-de-barro. Um dos primos do joão-bobo se chama rapazinho-dos-velhos, mas também é conhecido como apara-bala e bico-latão. Esse caprichou!

rapazinho-dos-velhos

      As marias, pra variar, ganham dos joões: maria-cabeçuda, maria-faceira, maria-cavaleira, maria-leque, maria-ferrugem, maria-fiteira, maria-picaça, maria-preta-bate-rabo e maria-te-viu, além da gaivota maria-velha. A maria-te-viu não é parente do bem-te-vi, nem do pitiguari, que em algumas regiões é chamado de gente-de-fora-vem.

      Meu sonho é registrar o cambada-de-chaves, um pequeno tangará azulado que ocorre em grande parte da Mata Atlântica. Fala sério: cambada-de-chaves? Dizem que tem a ver com a vocalização, mas vamos combinar que o coletivo de chave nunca foi cambada, certo?

Cambada-de-chaves

       E tem o gavião-bombachinha, o ferreirinho-relógio, o beija-flor-brilho-de-fogo, a corujinha-sapo, o periquito-testinha, o tuim-santo, o mocho-diabo, a mãe-da-lua, a mãe-de-taoca (taoca é formiga em língua indígena), o saci, a saracura-três-potes, o chora-chuva, a curica-urubu, o rabo-branco-de-bigodes, o capitão-de-bigode-limão…  São mais de 1800 espécies no Brasil, e tem muito nome regional que ainda não foi registrado.

      Ou seja, não se trata apenas de fotografar aves, mas de fazer um verdadeiro mergulho na cultura popular brasileira.

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