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palindromo

José Olivário (1912/1974) era apaixonado pelas palavras. Escrevente de cartório, coloria sua cinzenta existência criando palíndromos. Consumiu milhares de madrugadas debruçado sobre papéis e dicionários, rabiscando aquele que seria sua invenção máxima.

Após quinze anos de trabalho, deu por concluída a sua tarefa. Levou a vários editores o calhamaço de 45 páginas, sendo recebido com desconfiança e até desprezo. Ninguém deu valor àquele cipoal de palavras, algumas de idiomas obscuros e desconhecidos,

Olivário sucumbiu ao alcoolismo, e morreu sem ver sua obra prima publicada. Sua filha Ana usou a papelada para forrar a gaiola do papagaio, e a humanidade ficou sem conhecer o maior palíndromo do mundo.  (Daniel Brazil)

 

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Rodapés da História

Há algum tempo venho anotando pequenos textos, criados em circunstâncias pouco usuais: Num restaurante, numa viagem, no meio de uma conversa, numa noite mal dormida.

Versam, de modo geral, sobre personagens anônimos que por algum motivo fizeram algo extraordinário. Nada impede, porém, que em algum momento eu fale de personagens extraordinários fazendo um ato absolutamente banal. Creio que a maior parte das ações humanas não passam de rodapés da história…

Não sei se terei tempo e disposição para reuni-los num volume impresso, e cada vez mais duvido da necessidade disso. Portanto, aqui vão três rodapés, publicados recentemente na rede,  apenas para registro.

Garimpeiro

O CATADOR DE DIAMANTES

O velho Antônio das Almas, neto de quilombola e garimpeiro, passou a vida a peneirar cascalho na beira do rio Bagagem, lá nos confins das Geraes. Sonhava com o grande diamante, que nunca surgiu. Vez ou outra, muito de vez em quando, relampeava um xibiu no fundo da peneira.

Certo dia, ao matar uma galinha para o almoço, viu faiscar nas entranhas da ave uma pequena gema. Atraída pelo brilho, certamente a galinha engoliu a pedrinha, que ficou retida no papo.

O velho Antônio passou a noite pensando no ocorrido, e ao alvorecer tinha um plano infalível. Mapeou todas as propriedades ribeirinhas da região, e começou a furtar as galinhas mais papudas. Nas primeiras vinte achou outra “joia”, o que o deixou animado. Afinal, era um resultado muito melhor que o de meses rachando o lombo na beira do rio.

Antônio das Almas morreu na prisão, após ser pego em flagrante roubando galinhas de um juiz. É até hoje lembrado como o maior ladrão de galinhas da região.

fotógrafo lambe lambeO FOTÓGRAFO DE ALMAS

José Eulálio era fotógrafo. Herdou a profissão do pai, o lambe-lambe mais famoso, talvez porque único, de Caetés de Goiás, nas décadas de 1930 e 40. Na escola, ouviu uma professora dizer que alguns índios não se deixavam fotografar, pois acreditavam que isso lhes roubava a alma.

Zelálio, como era conhecido, não foi atrás de índios, mas de almas. Fotografou quase todos do município, com tal habilidade que as pessoas sentiam certa estranheza ao se verem assim tão cruamente retratadas. Os de bom coração ficavam felizes, os outros nem tanto. Infelizmente estes eram maioria.

Vieram as eleições e um candidato comprou várias fotos de Zélalio, que ficou feliz. Estranhamente, só comprou fotos dos adversários. Quando o coronel Ildefonso Mineiro, prefeito por quatro mandatos, começou a sofrer de dores estranhas e perdeu o pleito, mandou matar o fotógrafo, julgando-o culpado de sua derrota.

A mãe do coronel era índia.

 

Auscultador de pedras

O AUSCULTADOR DE PEDRAS

Existiu em Ilhabela um homem, chamado José Mariano, cuja especialidade era partir pedras. Não pedras pequenas, paralelepípedos, pois isso ainda é comum. Partia rochas maiores que um homem. Quem conhece as formosas praias da ilha sabe que há muitas pedras, de grande tamanho, amontoadas pelos cantos. Também proliferam nos meios dos terrenos, o que obriga os moradores a fazerem estranhas arquiteturas e brutas engenharias para construir sua casas.

    Pois a função desse homem era justamente partir os monólitos que estivessem no meio do caminho. Para isso utilizava um método que espantava a todos, tanto pelo inusitado quanto pelos resultados. Aproximava-se da rocha com cuidado, rodeava, apalpava, alisava como se estivesse amansando um elefante mineral. Então encostava o ouvido e dava leves pancadinhas com uma pequena marreta. Demorava alguns minutos assim, auscultando a pedra por todos os lados. Ao chegar no ponto certo, pegava uma talhadeira comum, encostava com cuidado e dava uma pancada seca e certeira. A rocha partia-se em dois como uma noz, um marisco de quatro toneladas, revelando suas graníticas entranhas.

                Seu José morreu em 1979. Não deixou discípulos, nem transmitiu a nenhum conhecido os segredos de sua profissão. Sua misteriosa ciência ficou na memória de alguns, como minha tia Adelaide, que construíram casas ou aplainaram terrenos nas décadas anteriores, e testemunharam seu humilde e inigualável ofício.

 

1Q84 para convalescentes

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Alguns dias de molho por causa de uma contratura muscular, e aproveitei o repouso forçado para encarar a curiosa distopia passadista de Haruki Murakami. São três volumes, 1272 páginas, milhões de exemplares vendidos em mais de quarenta países. Um best seller, portanto, o que costuma deixar os literatos meio desconfiados.

A linguagem é fluente, a leitura corre fácil. Mas algumas referências culturais, logo no início, mostram que o japonês não pretende entregar pãozinho quente no balcão, mas um croissant diferente. Aliás, dois, pois a ação se passa num estranho mundo paralelo, muito parecido com o nosso, onde duas luas são avistadas no céu. E apenas por algumas pessoas, o que aumenta o grau de estranheza da narrativa.

A trilha sonora que pontua a primeira passagem da protagonista, Aomame, para esta dimensão, é a Sinfonietta, de Leos Janacek, que só os tchecos devem conhecer de cor. A ação se passa em Tóquio, em 1984, e muitas referências ocidentais povoam a narrativa. Orwell (claro), Proust, músicos de jazz, Churchill, Sean Connery, atrizes de cinema, cantores pop. Estamos numa das maiores metrópoles do mundo, imersos num mundo midiatizado e, naturalmente, corrupto.

Aomame é personal trainer (precisamos traduzir essa profissão, urgente! Treinadora particular, que tal?), e sonha reencontrar um amor de infância, Tengo. Este é professor de matemática num cursinho, e quer ser romancista. Desnecessário dizer que ele também sonha em reencontrar o amor da meninice. Pressionado por seu editor, aceita reescrever um original escrito por uma adolescente de 17 anos, que narra uma história fantástica sobre uma seita ocultista, que abre portas dimensionais para o Povo Pequenino, que se dedica a fiar Crisálidas de Luz (nome do romance-dentro-do-romance), com uma finalidade não muito clara.

O livro se transforma num sucesso, mas Tengo e seu editor passam a ser perseguidos por membros da seita, como se aquilo fosse real. Muitas peripécias vão rolar, ampliando o leque de protagonistas com um detetive sagaz e asqueroso, a partir do terceiro volume.

Qual a grande novidade? Em princípio, uma fantasia para adolescentes, tão aventurosa e cheia de reviravoltas quanto um Harry Potter. Para disfarçar isso, Murakami introduziu cenas de sexo, e dotou sua heroína de uma estranha amoralidade. Ela elimina, digamos assim, alguns homens em seu percurso. Para suavizar seu crime, fica explícito que todos eram acusados de machismo, por vezes violento.

Tengo é mais certinho, mas não santo. Tem uma amante casada e dez anos mais velha, enquanto espera o reencontro com Aomame. Personagens mais complexos são o editor, o líder da tal seita, a adolescente de 17 anos e seu tutor. O que afinal, torna 1Q84 um sucesso tão estrondoso?

Primeiro, a habilidade narrativa do autor. Sua capacidade de fabulação mantém os eventos fantásticos da história no limite do provável, para os mais crédulos. Segundo, o uso inteligente de arquétipos. Quer coisa mais manjada que casal de crianças que eram rejeitadas na escola se reencontrarem na vida adulta, superando todas as dificuldades? Manjado, mas eficiente. É um enredo romântico, imerso numa era poluída, conturbada, onde estado e instituições quase não tem papel. São indivíduos lutando contra corporações, e vice versa. Estamos caminhando para isso, em 2016.

Murakami escreveu outros romances, mas nenhum tão bem sucedido como esse. Difícil dizer se conseguirá se superar. Certamente me proporcionou bons momentos de leitura, apesar de ter provocado também alguma irritação com a mania de citar as marcas das roupas, dos relógios, dos carros que os personagens utilizam. Merchandising é altamente poluente, em qualquer forma de arte.

Algumas leituras de 2015

 

  Leituras 2015

        Não, não pretendo fazer análises políticas ou sociológicas do ano que agoniza. Analistas adoram fazer ‘leituras” da realidade, mas no meu caso se trata de literatura mesmo.

            Lembrarei de 2015 como o ano em que passei de pedra a vidraça. Ou seja, publiquei um livro, sujeito a todo tipo de avaliação. E minhas primeiras leituras do ano foram, na verdade, releituras do original, que estava arquivado há algum tempo. Mesmo assim, sobraram alguns erros de revisão, que não escaparam a alguns amigos atentos. Sofro de um mal que a ciência ainda não explicou direito, e que acomete também outras pessoas: sou craque em ver erros nos textos alheios, mas péssimo em enxergar os meus. Tem gente que é assim na vida…

            Lancei o Terno de Reis em junho. No segundo semestre, voltei às leituras de ficção. Quebrando uma tradição de muitos anos, não li nenhum romance clássico em 2015. Li coisas fracas, medianas e boas. Muitos artigos, ensaios, alguns blogs. Andei relendo O Homem e Seus Símbolos, do velho Jung e seus discípulos, e de vez em quando me surpreendi com a impressão de que estava lendo uma inventiva ficção. Bem, talvez esse seja considerado um clássico…

            O melhor romance de espionagem que li não é ficção. Os Últimos Soldados da Guerra Fria, do Fernando Moraes, é uma eletrizante narrativa sobre um dos episódios mais incríveis da luta dos cubanos para conseguirem sobreviver ao criminoso embargo dos EUA. Os contras, sediados em Miami, fizeram vários atos de terrorismo contra a população da ilha, colocando bombas e soltando panfletos em voos ilegais. Para neutralizá-los, um pequeno grupo de cubanos, fingindo-se de refugiados, infiltrou-se na organização dos contras, conseguindo evitar vários ataques. Foram descobertos e estão presos até hoje nos EUA, pelo crime de defenderem seu país contra bandidos financiados pela direita estadunidense, que continuam soltos. Fernando Moraes tem uma capacidade impressionante de farejar boas histórias, e sua escrita meticulosa nos faz reviver cada episódio com absoluta nitidez.

            No campo da ficção propriamente dita, curti muito A Viagem de James Amaro, de Luis Biajoni, que comentei aqui. Li contos esparsos de vários autores. Me chamou a atenção a coletânea Desordem, editada de forma colaborativa pela Bookstorming, de jovens escritores brasileiros. Ficam marcadas na lembrança as boas histórias de piratas de Paulo Bullar. Quem mais escreve sobre piratas, hoje em dia?

            Um fim de semana chuvoso fora de casa me obrigou a pegar um best seller. E não é que gostei de Garota Exemplar, da americana Gillian Flynn? Escrito em ritmo trepidante, mistura suspense, humor e crítica social com uma ótima criação de personagens. Parece que o filme nem chegou perto, não vou arriscar.

            Ian McEwan, mais uma vez, não me decepcionou. Li (com muito atraso) o ótimo Sábado, de 2005. É incrível a capacidade do homem de nos envolver com uma história fascinante que se passa em apenas um dia! Escrita rigorosa, firme, fruto de muita pesquisa, mas que flui com elegância.

            O gênero policial parece ser eterno. Sempre descubro com prazer novas tramas, cenários diferentes, estilos inovadores. Li  P.D. James e Ruth Rendell, mas quem abafou a banca foi mesmo Henning Mankell, com O Homem de Beijing. Ambicioso, inventou uma trama que se passa em quatro continentes e em dois séculos. E se saiu muito bem!

            Finalmente encarei O Trem Noturno para Lisboa, de Pascal Mercier, outro caso de transposição frustrada para o cinema. Leitura saborosa, trama original, com um final um tantinho decepcionante. Mas creio que tenho esta impressão da maioria dos livros que leio. Deve ser difícil bolar um grande final, ou talvez esteja fora de moda, como a chave de ouro dos sonetos acadêmicos.

              Ué, não pintaram latino-americanos em minha cabeceira? Felizmente Ricardo Piglia me salvou da vergonhosa omissão. Respiração Artificial já é quase clássico, e sua escritura engenhosa marcou a literatura argentina na década de 80. Inovador na época, ainda não perdeu a força e a originalidade.

            O ano se encerra com a leitura do pungente Corpos Furtivos, de Chico Lopes, que concluí nesta semana. Ele mergulha na alma insatisfeita de uma personagem, Eunice, solteirona com desejos mal reprimidos, que mora com a irmã mais velha. São furtivos os corpos masculinos que passam por sua vida, querendo apenas sexo, não envolvimento. O cenário é uma cidade do interior que já foi pequena e bucólica, mas que inchou e se contaminou com os males da modernidade: bairros pobres na periferia, violência e uma multidão de anônimos pelas ruas.

            Chico conduz com muita habilidade a narrativa, personificando os medos, vacilos, avanços e recuos da protagonista, que luta contra o machismo onipresente e a falta de horizontes afetivos e pessoais. Um retrato dolorido, pintado com cores fortes, de uma das muitas formas de solidão que impregna e estiola a vida de tanta gente.

            Li outros livros? Sim, mas alguns viraram fumaça. Um, certamente, muito ruim. Como o autor é uma pessoa esforçada, já escreveu coisas bem melhores, vou lhe conceder a benção do anonimato, na esperança de que se redima em breve. Em 2016 espero retomar a tradição de ler (ou reler) algum clássico. E vou lançar meu segundo romance, claro, mas aí já é outra história!


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