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O instrumento da discórdia

Sergio Ricardo

A morte do grande compositor Sérgio Ricardo (1932/2020), há poucos dias, provocou uma série de comentários sobre sua obra e também sua militância política. Homem de múltiplos talentos, diretor de cinema, compositor, músico, escritor, ator, pintor e produtor, também ficou conhecido pela posição intransigente em defesa de seus ideais, o que o fez ser perseguido pela ditadura, sofrendo censura e boicotes.

Sérgio Ricardo, autor das trilhas sonoras dos filmes mais marcantes de Glauber Rocha, também foi intransigente na música. Defendia com afinco as raízes brasileiras, rurais, populares, mesmo tendo formação clássica (foi pianista no início de carreira, nos anos 50, tendo até gravado como instrumentista) e composto suas primeiras canções sob influência da bossa nova. Repudiava a influência anglo-americana do rock e combatia o uso da guitarra na música brasileira.

No famoso Festival de Música Brasileira da Record, de 67, onde ficou imortalizada a imagem de SR quebrando o violão e jogando na plateia, a disputa ideológica acerca de como deveria soar a música brasileira chegou a ponto de provocar uma inusitada passeata, capitaneada por Elis Regina, “contra a guitarra elétrica”. Elis comandava um programa na emissora chamado Frente Única, que acabara de estrear, e vinha enfrentando os crescentes índices de audiência da Jovem Guarda, liderada por Roberto e Erasmo Carlos.

Em 17 de julho de 1967 subiu a avenida Brigadeiro Luiz Antônio, rumo ao teatro Paramount, uma passeata da qual participaram Elis, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Zé Keti, os rapazes do MPB-4 e outros, com uma faixa onde estava escrito “Frente Única – Música Popular Brasileira”. Outros artistas já estavam esperando no teatro, como Juca Chaves e Ataulfo Alves, conforme o registro minucioso de Zuza Homem de Mello, em “A Era dos Festivais, uma Parábola” (Editora 34, 2003). Sergio Ricardo estava no Rio, nas certamente era um dos apoiadores do movimento.

Por que a guitarra elétrica suscitava tanta polêmica? Surgida com os bluesmen americanos, era um instrumento ligado às classes populares, operárias. Ganhou o status de instrumento-símbolo de rebeldia da juventude americana nos anos 50, pelas mãos de Chuck Berry, com o nascente rock’n roll.  Granjeou tal popularidade que rapidamente foi assimilada pela “indústria cultural”, fazendo parte da trilha sonora das gerações seguintes, através de bandas como Beatles e Rolling Stones e mitos como Jimi Hendrix. Ironicamente, quebrar guitarras no palco passou até a fazer parte do show, em bandas como The Who e The Clash.

Que motivos teriam os músicos brasileiros para repudiarem um instrumento surgido “negro”, pobre e rebelde? “Uma disputa de mercado” pode ser uma resposta simplista. O forte debate ideológico da época propiciava um discurso anti-imperialista, e a guitarra passou a ser um símbolo invasor na nossa cultura. Podemos detectar ecos ludistas no discurso de Sérgio Ricardo e seus companheiros de jornada?

Longe dos festivais, nos anos 40, os baianos Dodô e Osmar já haviam eletrificado seus instrumentos de corda, de corpo maciço, e colocado o povo pra pular atrás do trio elétrico. Não à toa, Caetano e Gil, habituados com essa sonoridade, foram os introdutores da guitarra elétrica no histórico festival, acompanhados respectivamente pelos Beat Boys e pelos Mutantes. É notável a ambiguidade de Gil, que participou da passeata e dias depois se apresentou no palco do Paramount acompanhado pela guitarra do mutante Sérgio Dias. Casado à época com Nana Caymmi, Gil estava profundamente dividido esteticamente entre Luiz Gonzaga e os Beatles. Mas, como sabemos, pouco depois se rendeu aos encantos do instrumento maldito.

Sergio Ricardo não. Com alguns outros combatentes, cada vez mais isolados, defendeu o violão acústico, o piano acústico, a música que acreditava ser realmente “brasileira”. A antropofagia oswaldiana não lhe caía bem. Nem Ben, futuro Benjor, violão rítmico visionário que também depois aderiu à guitarra elétrica, fazia seu estilo. Discreto, participou de muitos atos pela democracia, ouviu e aconselhou vários artistas jovens, mantendo a coerência. O músico paulista Kiko Dinucci, em comentário recente sobre a morte do artista, disse que SR elogiou as canções de seu grupo Metá Metá, mas “só as que não tinham guitarras”.

É curioso imaginar qual o motivo de outros instrumentos, como o piano e o contrabaixo, não terem se tornado tão polêmicos quando foram eletrificados. Qualquer artista “puro” da MPB, inclusive Elis, logo percebeu a versatilidade do baixo elétrico. Até um sambista como Paulinho da Viola, durante muitos anos, gravou discos e se apresentou acompanhado pelo baixo elétrico de Dininho, filho do grande violonista Dino. Artistas como Egberto Gismonti gravaram discos inteiros com sintetizadores e teclados eletrônicos, sem serem menosprezados por isso. Baterias programadas são usadas ad nauseam, e só os instrumentos de sopro escaparam da polêmica porque, bem, dependem do fôlego humano.

Mas a guitarra, ah, a guitarra… símbolo de uma cultura imperialista, universalista, opressora dos valores locais, atravessou o embate ilesa, pois a vitória era inexorável. Hoje podemos falar tranquilamente de uma guitarra africana, asiática, latina, e até lembrar de fraseados de canções brasileiras marcados pela sua sonoridade. A partir daquele histórico festival, sem esquecer da Jovem Guarda, os músicos foram assimilando, adaptando, incorporando definitivamente seus timbres à uma música em transformação permanente.

Dá pra imaginar uma canção tão marcante como Ovelha Negra, da Rita Lee, sem o famoso solo de guitarra? Ou Anunciação, de Alceu Valença, sem a luminosa guitarra de Paulo Rafael? Magrelinha, de Luiz Melodia? Gal duelando com a guitarra em Meu Nome é Gal? A própria obra de Caetano, Gil e os demais tropicalistas não existiria sem a guitarra. Os exemplos são muitos, o leitor pode acrescentar de memória um rol quase infinito. Tente imaginar a música paraense, com as famosas guitarradas, sem o instrumento-fetiche…

Militante de uma causa idealista e ilusória, musicalmente falando, Sérgio Ricardo tem a seu favor a própria obra, grande, honesta e plena de belezas. Sim, é possível compor sem guitarra. A rigor, até sem instrumento. Mas eleger a tecnologia como inimigo é um problema secular, que parece ainda não estar resolvido por completo.

(Publicado originalmente em aterraeredonda.com.br).

Sebastião Biano, 100 anos

Biano

Rolava o ano de 1972 quando Gilberto Gil, de volta do exílio de três anos em Londres, lançou o (até hoje) fantástico disco Expresso 2222. Aprimorando a mistura tropicalista de tradição com modernidade, o LP abria com uma faixa instrumental que para muita gente revelava uma sonoridade estranha, meio sertão, meio medieval. A música era creditada a Sebastião Biano e interpretada pela Banda de Pífanos de Caruaru.

O que parecia ser só uma bizarrice folclórica de Gil revelava, na verdade, um tesouro musical fora da mídia, longe de gravadoras, microfones e holofotes. Surgida no interior de Alagoas em 1924, migrando para Pernambuco em 1939, era uma típica banda familiar, formada para animar os bailes, feiras e festas religiosas que animam a dura vida do nordestino no meio da caatinga.

Caetano colocou letra e batizou a música: Pipoca Moderna. “E era nada de nem noite de negro não/ e era nê, de nunca mais…”. Gravada no disco Jóia de 1975, a letra escancara a influência concretista, mesclada à admiração pela matriz popular, vestida por um sofisticado arranjo de cordas de Perna Fróes. Mas quem era o tal Sebastião, afinal?

A família Biano, como muitas outras, faz parte de uma tradição secular de cultura popular, inserida no contexto (expressão dos anos 70!) por esta geração de artistas que revolucionou a música brasileira. Os integrantes, até hoje, são filhos ou sobrinhos dos fundadores. Fizeram shows no Rio de Janeiro e São Paulo nos anos 70, e lançaram o primeiro disco em 1972, pela CBS.

Em 1973 Marcus Pereira patrocinou um disco da Banda, pelo seu histórico selo. Os irmãos Benedito e Sebastião, líderes da banda, já eram acompanhados pelos filhos. As melodias de “Esquenta Muié” e “A Briga do Cachorro com a Onça”, de Sebastião Biano, se tornaram populares. Não no sentido radiofônico, mas nas praças e terreiros de todo o Nordeste, assim como “Marcha de Procissão”, do mano Benedito. Os dois tocavam pifes (pífanos) de bambu, feitos por eles mesmos. A filharada acompanhava na percussão. E rodaram o país, tocando em praças, acompanhando cantoras e cantores, animando festas e bares.

Toda essa história parece reminiscência, mas não é. Benedito já se foi, mas Sebastião Biano está fazendo um século de vida, e na ativa. A banda continua tocando (é mais velha que os Demônios da Garoa e os Rolling Stones, acredite!) e se apresentando por aí. Às vezes o fôlego falta, mas tem o apoio do segundo pife, hoje a cargo de Junior Caboclo. A memória guarda muita coisa, e boa parte está registrada no documentário de Helder Lopes, Pipoca Moderna, lançado em junho nos festejos de São João, em Caruaru. Tocou pra Lampião, em 1927, mudou-se para São Paulo em 1979, ganhou um Grammy Latino com a banda em 2004, foi condecorado com a Ordem do Mérito Cultural pelo presidente Lula em 2006 e lançou seu primeiro disco solo aos 96 anos, pelo Sesc, acompanhado por Eder “O” Rocha (percussão), Renata Amaral (baixo) e Filpo Ribeiro (viola e rabeca).

Seu Tião (desculpe a intimidade!), como é bom comemorar o centenário de um cabra da peste tocador, compositor, vivo e com alguns dentes de chupar cana resistindo no sorriso. A festa foi no dia 23 de junho, mas está rolando até agora!

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira. Foto, Itaú Cultural).


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