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O violão-afro-brasileiro de Kiko Dinucci

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O músico e compositor paulista Kiko Dinucci é figura incontornável no atual cenário musical brasileiro. Multiforme e onipresente, integra ou integrou várias formações que dão um toque de invenção na canção contemporânea. Desde o Duo Moviola até Passo Torto e Metá Metá, passando pelo trabalho com figuraças como Elza Soares e Jards Macalé, Dinucci imprime sua marca pessoal através de canções provocativas, com letras desaforadas e sonoridades incomuns. Quem mais entregaria pra Elza Soares uma canção chamada Pra Fuder?

A herança punk da adolescência, somada à descoberta dos mestres do samba, fez com que o artista desenvolvesse um estilo violonístico original. A pegada rítmica lembra Baden Powell e seus afro-sambas, num primeiro momento. Mas, diferente de um solista, Dinucci mastiga e cospe pequenas frases melódicas que servem de base para as suas canções, quase sempre lastreadas em referências afro oriundas do candomblé. O ritmo comanda a criação, não no sentido dançante de um Benjor, mas no de transe de terreiro.

Em Rastilho, lançado neste início de 2020, Kiko Dinucci reforça seu lado violonista, em composições originais que acentuam as influências do violão brasileiro mais negro, do choro ao batuque. Bordões e primas, atabaque e reco-reco, ora modal ora tonal, o violão saracoteia em busca de uma síntese encantadora e encantatória.

O violão conduz, mas não só. Há canções interpretadas pelo autor e por convidados como Ava Rocha, Rodrigo Ogi e a parceira de longa data Juçara Marçal. Algumas faixas tem o apoio de um coro de yabás modernas, outras mostram um lado mais introspectivo, de solista. No conjunto, um trabalho de grande riqueza timbrística, que comprova a plenitude desse inquieto artista.

Para ouvir: Rastilho

(publicado originalmente na http://www.revistamusicabrasileira,com.br)

A Besta Fera está solta

Macalé

Há muito tempo que Jards Macalé estava devendo um disco como Besta Fera. Com uma carreira marcada por intervalos e descontinuidades, começou na praia generosa do samba, na década de 60, e fez de tudo um pouco. Estudou música com grandes mestres, flertou com a Tropicália, fez direção musical para Maria Bethânia, participou do Fa-tal de Gal Costa, foi pra Londres com Caetano, virou ator do Cinema Novo, compôs trilhas sonoras de filmes e peças teatrais, musicou poemas de Brecht, espantou a platéia de festivais com performances desconcertantes.

Algumas composições alcançaram merecido sucesso. Vapor Barato, imortalizada por Gal nos anos 70, recebeu novo fôlego com a versão do Rappa de 1996. Mal Secreto, Movimento dos Barcos (parceria com Capinam), Hotel das Estrelas ou Anjo Exterminado também fazem parte do repertório de uma geração.

Sempre arisco em relação à indústria cultural, rompeu com os tropicalistas e reaproximou-se dos mestres do samba, gravando clássicos de Nelson Cavaquinho, Lupiscínio, Geraldo Pereira e Paulinho da Viola (4 Batutas & 1 Coringa, de 1992) ou Ismael Silva (Peçam Bis, com Dalva Torres, em 1988). A admiração pelo velho malandro Moreira da Silva também rendeu shows e parceria.

Carregando o epíteto de maldito, Macalé parecia ser uma figura congelada no final do século XX. Poucas aparições na mídia, raros shows, nenhum disco relevante nos anos 2000. Uma homenagem aqui, outra ali, sempre despertando certa curiosidade entre os jovens pela postura meio anarquista. Zeca Baleiro fez música em sua homenagem, e chegou a convidá-lo para dividir o palco. Assim como a Tropicália e o Cinema Novo, parecia fazer parte de uma era perdida neste país sem memória.

É aí que entra na história o cada vez mais influente grupo paulista formado por Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Rodrigo Campos, Juçara Marçal, Thiago França, Nuno Ramos, Gui Amabis e mais alguns. Gente que propõe novas sonoridades sobre poéticas dissonantes, e que constrói com inteligência improváveis pinguelas entre o tradicional e o novo.

E, como já haviam feito com Elza Soares, colocam o excêntrico bardo carioca na turbulência do nosso século. Besta Fera é um conjunto de 12 canções autorais, algumas em parceria com gente como Ava Rocha, Rômulo Fróes, Clima, Capinam, Ezra Pound (!) e Gregório de Matos. O trabalho foi produzido por Kiko Dinucci e Thomas Harres, que também tocam em várias faixas. A guitarra de Guilherme Held e o baixo de Pedro Dantas são irretocáveis, e ajudam a criar texturas originais e estranhamente belas.

E dá-lhe samba elétrico, balada sombria, canção desvairada, rock desconstruído. As participações especiais de Tim Bernardes (vocal e parceria no samba-canção Buraco da Consolação) e Juçara Marçal (na linda Peixe, com citação de Dorival Caymmi) valorizam o intrigante e empolgante conjunto de canções. Pra completar, a foto de capa, do agora imortal Cafi, é antológica. O autor de mais de 300 capas da MPB morreu na virada do ano, e teve a sorte de não viver no país dos bolsonaros.

O tempo não existe/ e essa é a graça”, canta o artista em Tempo e Contratempo. Bem vindo ao nosso contratempo, Macalé, e permaneça por um bom tempo!

(publicado originalmente na http://www.revistamusicabrasileira.com.br)


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