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Tudo já foi dito?

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Um pequeno comentário do grande compositor e intérprete Sergio Santos, postado na rede, provocou surpresa, questionamentos e muitos aplausos. Sergio dizia estar cansado de ouvir canções de novos compositores e compositoras repisando velhos temas tão banais. Por onde andam a originalidade, a visão crítica, a busca pelo novo, o esforço para criar algo diferente?

É fato que a enorme maioria das canções, de todos os gêneros, em todo o mundo e em todas as épocas, são construídas em torno do amor. Procuro um amor/ perdi meu amor/ achei meu amor é a fórmula mais universal e desgastada de passar alguma mensagem, seja no pop, no rock, no pagode ou no breganejo. Uma parte significativa fala da solidão (ou falta de amor), o que não deixa de ser uma derivação da velha fórmula. Compositor adora falar de suas dores quando está sozinho com seu violão…

Há estudos acadêmicos que falam da “quantidade de informação”, que distribuem temas em gráficos e tabelas. Em todos os estudos publicados, a menor fatia fica com os “outros temas”, algo tão amplo que contempla a vida e a morte, as questões sociais, a fome e a miséria, a luta de classes, a ciência, a natureza, a liberdade, a igualdade, a fraternidade, etc. Como pode tal gama de assuntos ficar confinada num espaço tão pequeno?

Uma das explicações é a de que o caminho mais fácil é o mais seguro. Para falar de amor, não é preciso estudo nem diploma. Todos (pensam que) dominam o assunto. Falar de “outras questões” requer mais cuidado, apuro, atenção para os deslizes. E o componente ideológico também deve ser ponderado: com quem o compositor deseja ser identificado? Certos temas são “de esquerda” ou “de direita?” Fazer música engajada é algo perigoso? Mas se for engajada na questão ambiental, pode ter um público mais amplo? É certo um garoto branco de classe média falar de preconceito, ou deve deixar isso para os manos da periferia? E se eu quiser ser original, tenho que abdicar de fazer canções de amor?

Os mestres tem a resposta. Ouvir e reouvir os grandes compositores, que não são grandes à toa, pode dar pistas para resolver estas questões. Muitos estão vivos e atuantes, como Caetano, Chico, Gil, Paulinho, Milton e tantos outros, inclusive o próprio Sergio Santos. Continuam compondo e propondo novos temas e novas abordagens para os ditos “velhos temas”. E boa parte da melhor música popular brasileira de hoje é criada e distribuida de forma independente, alternativa. A geração que criou este conceito continua aí, produzindo e surpreendendo. A turma do Lira Paulistana, o pessoal de Pernambuco, os novos sambistas, cancionistas de todos os naipes.

Um cronista urbano contemporâneo como Maurício Pereira, por exemplo, faz uma composição em seu novo disco (Outono no Sudeste) sobre mulheres de bengalas. A visão inusitada se harmoniza com a observação aguda de que ali há, antes de tudo, mulheres. Um gênio reconhecido como Chico Buarque nos surpreende com a observação de que “até posso virar menina, para ela me namorar” (Blues para Bia). Caetano ironiza o lugar comum quando canta “estou sozinho, estou triste, etc.” (Etc.). Gil faz um disco recheado de termos científicos (Quanta), e criadores engenhosos como Luiz Melodia, Djavan, Itamar Assumpção ou Tom Zé partem para uma poética de grande originalidade, ampliando também a escolha de temas. Outros bambas, como Paulo César Pinheiro ou Aldir Blanc, mergulham fundo na cultura brasileira, recuperando expressões e palavras e inventando novas rimas.

Os que dizem que a atual safra de jovens compositores, marcada pela crescente presença feminina, peca pela falta de originalidade, devem prestar mais atenção. No meio do cascalho sempre surgem diamantes. É valorizando estas faíscas que a crítica cumpre seu papel, influenciando os que estão começando agora, iluminando obras pouco divulgadas, atribuindo valor ao “poder da criação”.
Mas você, jovem compositor/a, que se acha novo só porque está começando agora, cuidado. Você pode estar sendo velho sem notar…

(publicado originalmente em http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

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Prosódia e música popular

 

     Prosódia

         Meu irmão, que é ótimo violonista, arranjador e professor de música, é desses sujeitos que não se preocupam apenas com as notas no pentagrama. Atento aos tropeços de prosódia, me chamou a atenção para a quantidade de canções contemporâneas cujas letras entortam o vernáculo sem o menor pudor. São as chamadas silabadas. Virou moda?

            Não acompanho com tanta assiduidade a música de consumo rápido, midiática, feita pra tocar no rádio. Deixo de lado, portanto, os sertanejos, pagodes e funks, e ensaio algumas observações sobre a produção mais independente e alternativa da música popular, que busca mais apuro, profundidade e originalidade em suas letras.

            De que vamos falar, afinal? Prosódia é a parte da gramática que se ocupa da sonoridade das palavras, mais especificamente em relação à sílaba tônica. Caminha junto com o ritmo, envolve a entonação e o sotaque, e dominá-la é fundamental para qualquer letrista.

            Ocorre que em muitos casos a prosódia regida pela norma culta é intencionalmente subvertida, e isso não vem de hoje. Algumas vezes comparece como licença poética, outras vem revestida de intenção satírica, mas na grande maioria dos casos é adaptação fonética à melodia. Em alguns casos soa como uma invenção, outras como desleixo.

            Pegando um exemplo antigo, é evidente que Alvarenga e Ranchinho querem fazer graça quando cantam Romance de Duas Caveiras, de 1940:

            “Ao longe, uma coruja piava alegre/ ao ver os dois caveiros assim feliz/ e quando se beijavam, em tom funebre/ a coruja batia as asas pedindo bis”.

Existem variações da letra; enquanto alguns intérpretes tentaram melhorar a concordância, outros a pioraram. Mas a transformação de fúnebre em paroxítona faz com que rime com a palavra alegre, e a distorção é tão evidente que todos acabam caindo na risada.

            Este é um exemplo clássico de intencionalidade. Volta e meia nosso ouvido tropeça em alguma letra de Vinicius, Chico ou Caetano onde há uma rearranjada da prosódia, com finalidade estética. São licenças poéticas, desvios consentidos ou meros barbarismos?

Uma canção como O Velho Francisco, de Chico Buarque, está cheia de contravenções fonéticas. Não deixa de ser linda, talvez exatamente por isso. Experimente cantá-la colocando a silaba tônica corretamente nas palavras, e verá que é impossível. Os deslocamentos tônicos (a chamada divisão) são constantes, obrigando os intérpretes a serem muito atentos.

          “Já gozei de boa vida/ tinha até meu bangalô/ cobertor, comida, roupa lavada/ vida veio e me levou”.

            A palavra comida soa como proparoxítona (cômida), e roupa lavada vira algo como “rou palá vada”. A imbricação de letra e melodia é perfeita, e a obra de Chico não nos deixa dúvida de que ele está brincando com a sonoridade das palavras. Brincadeira muito séria, por sinal.

            Em parceria com Djavan, um dos nossos mais contumazes dribladores da prosódia, Chico pega o espírito do parceiro e tasca lá uma silabada: “Era tanta saudade/ É, pra matar/ Eu fiquei até doente/ Eu fiquei até doente, menina”. Se o verbo ficar fosse entoado de acordo com a norma (fiquei, com tônica no e), sairia do compasso. Transformado em algo como fíquei (soando como Mickey) adere perfeitamente à angulosa melodia. Pra completar, o a de até também ganha um reforço tônico.

            Desde as antigas parcerias com Vinicius (observe com atenção a letra de Valsinha, por exemplo), Chico aprimora sua ginga com as palavras, revelando acentos inesperados e dando um nó na cabeça dos acadêmicos. Esta lição dos mestres é aplicadamente seguida por várias gerações de compositores, uns mais originais, outros menos. Cuidado: algumas vezes pode soar como escorregão ou forçada de barra.

            Talvez o modo mais preciso de identificar a real intenção do autor seja prestar atenção ao conjunto da obra. Se é difícil identificar esta veia criativa nas letras de compositores breganejos, p. ex., por outro lado existe um embate constante entre letra e ritmo nas letras de rap. A métrica às vezes é atropelada, mas de certa forma está se construindo uma nova linguagem.

            Não é à toa que Chico já declarou que “gosto de ouvir o rap da rapaziada”.  Rap da rap(aziada), aliás, é uma discreta brincadeira sonora, coisa que Caetano faz muito bem. Na linda canção Trilhos Urbanos, com pequenos achados trocadilhescos (“no trole ou no bonde/ tudo é bom de ver”) brilha a preciosa “Krishna, maravilha/ Vixe Maria Mãe de Deus”, onde ecoam as sonoridades ishna e ishma. E o compositor baiano faz uma silabada com o xixi do Imperador, veja só que desrespeito…

            O assunto rende. Só nos resta aplaudir a invenção, quando o resultado é belo!

(Publicado em http://www.revistamusicabrasileira.com.br)


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