Posts Tagged 'Literatura africana'

Os da minha rua (com um mar no meio)

Ondjaki

A literatura angolana contemporânea é bastante influenciada pela cultura brasileira. Escritores, músicos, dramaturgos, atores e atrizes estão presentes no imaginário angolano, muito por causa da televisão. A língua portuguesa é a ponte evidente, além de uma identificação étnica, um anseio anti-colonialista e muitos desafios de Terceiro Mundo. E, lógico, podemos também dizer que a cultura brasileira é bastante influenciada pela angolana, em suas origens.

Ondjaki é um dos mais conhecidos autores angolanos no exterior. Nascido em 1977 em Luanda, graduou-se em Lisboa, morou na Itália, estudou em Nova Iorque, passou temporadas no Brasil. Estreou com poesia, publicou contos e romances, experimentou o teatro e o cinema, tem vários títulos infanto-juvenis editados.

Os da Minha Rua, lançado no Brasil em 2007 pela Língua Geral, é uma coleção de pequenos contos de caráter memorialístico, que evocam a infância do autor em Luanda. Também pode ser lido como um romance fragmentado, já que vários personagens são recorrentes em cada capítulo.

Ondjaki consegue equilibrar com destreza a descrição de ambientes e situações com o uso de uma linguagem lírica, próxima da fala infantil, revelando aos poucos um cenário de descobertas e significados.

Para um leitor brasileiro, é curioso perceber a influência de novelas como O Bem Amado e Roque Santeiro no cotidiano de sua geração. É provável que através delas tenha crescido a curiosidade pela literatura de ficção aqui praticada.

A citação a Manoel de Barros no final do livro não é gratuita. Ondjaki se aproxima, em alguns momentos, da sintaxe do mestre matogrossense das miudezas poéticas. O olhar infantil sobre o mundo revela o homem atento à construção de uma realidade onde a pobreza material é preenchida por brincadeiras, sonhos e afetos. Não faltam as lembranças de escola, de professores cubanos, de cenas de filmes, de quintais, festas, carnavais e comícios de Primeiro de Maio.

Um pequeno glossário, no final, ajuda o entendimento de alguns vocábulos. Infelizmente é muito incompleto, pelo menos para um leitor brasileiro desacostumado com as falas d’além-mar. Isso não desfaz o encanto deste pequeno livro, que ganha densidade no final, quando o autor, já um jovem, vai abandonar o cenário da infância para estudar no estrangeiro. Terminamos a leitura com a certeza de que “nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de verdade.”

A Confissão da Leoa

mia-couto

     Confesso que minha relação com a obra de Mia Couto era dúbia. Um sujeito simpático, humanista, cultor de pequenos achados poéticos disfarçados em prosa. O primeiro livro que li dele, O Último Voo do Flamingo, era assim, assim. Um começo original, uma mistura entre realidade e magia onde o ponto ideal estava sempre um pouco além (ou aquém). Hábil na linguagem, algumas coisas mal resolvidas no enredo. A influência de Guimarães Rosa na literatura africana é algo ainda a ser devidamente avaliado, mas Mia Couto certamente bebeu dessa fonte.
Fiquei tentado a ficar apenas nos epigramas engenhosos que me chegam à tela do computador. Até que ganhei de uma amiga querida A Confissão da Leoa. Já faz algum tempo, mas como há sempre uma pilha de livros em minha cabeceira, a vez só chegou agora.
Na semana passada terminei a leitura, dentro de um ônibus de viagem entre Guaratinguetá e São Paulo. Comovido até as lágrimas, que enxuguei discretamente, reli vários trechos. É simplesmente maravilhoso, no sentido original da palavra. Os limites entre real e fantástico, entre ficção e estudo antropológico, são dissolvidos com muita habilidade.
Em uma aldeia nos confins de Moçambique, leões começam a matar as pessoas. Um caçador profissional é chamado da capital para resolver o problema. Narrado em duas vozes, pelo próprio caçador e por uma mulher da aldeia, logo percebemos que houve algo entre eles, há alguns anos. Um escritor acompanha a jornada do caçador, embora não seja nunca o protagonista das ações. O próprio Mia Couto indica, no prefácio, que esteve numa situação parecida, e dali extraiu o seu relato. Nada é o que parece ser, e os papéis vão se metamorfoseando durante o entrecho, ao mesmo tempo em que se revelam as mazelas tribais: o machismo onipresente, a voz sufocada das mulheres, a religiosidade obscurantista, a política local. Tribais, eu disse? Não, presentes até hoje numa aldeia do tamanho de São Paulo.
Diziam os gregos, lá no início dos tempos e das lendas, que a paixão depende muito mais do sujeito que do objeto. De repente, num belo dia, aquele/a jovem acorda predisposto a se apaixonar, e o primeiro ser bípede que passa à sua frente vira objeto de desejo e adoração. Não sei se em literatura a coisa funciona assim, mas A Confissão da Leoa me pegou de guarda baixa, e fui totalmente enredado. Vou reler muitas vezes, como quem revisita um poema favorito.


Arquivos