Posts Tagged 'literatura americana'

A injustiça de Deus

Nêmesis

Philip Roth (1933-2018) é um dos mais destacados escritores da virada do século XX para o XXI. Escreveu muito, e foi devidamente premiado e congratulado por isso. Romances como Complexo de Portnoy ou Pastoral Americana são indispensáveis para quem quer conhecer a literatura americana contemporânea.

Embora tenha escrito contos e ensaios, é como romancista que conquistou seu lugar na eternidade. Nêmesis, uma obra menor, retoma de forma angustiada o desafio presente em suas últimas obras: a ação do acaso sobre nossas vidas, a catástrofe das escolhas impulsivas, a impotência do indivíduo perante o drama coletivo.

Nêmesis acaba se notabilizando por ser a última peça de ficção de Roth. Como sucede com vários escritores, não tem o brilho intenso das obras mais famosas (vide Machado de Assis e seu Memorial de Ayres), mas carrega em sua escritura toda a sabedoria e clareza de quem sabe onde quer chegar.

O início tem a objetividade de uma reportagem: “O primeiro caso de poliomielite naquele verão foi registrado no começo de junho, logo depois do Memorial Day, feriado que marca o começo da estação, num bairro pobre de italianos do outro lado da cidade.” Estamos no ano de 1944, na cidade de Newark, Nova Jersey. O protagonista é um jovem judeu atlético, professor de esportes, que sofre por ter sido dispensado da Guerra em virtude de seu alto grau de miopia. Por trás dos óculos fundo-de-garrafa, Bucky Cantor é adorado pelos alunos, tem uma noiva ideal, sente falta dos amigos que estão lutando no Pacífico. Um sujeito do bem, portanto.

Mas a doença começa a entrar em sua vida. Primeiro, roubando seus alunos. Depois, fazendo com que saia da cidade, atormentado por uma crise de consciência: deveria ficar e lutar para minimizar os efeitos maléficos da epidemia, ou se resguardar para salvar a própria vida? Vale lembrar que Nêmesis, na mitologia grega, é a deusa da vingança divina, da retaliação.

Em menos de 200 páginas, acompanhamos o drama de Bucky Cantor, sua noiva, seus alunos, com a Ceifadeira fazendo estragos previsíveis (o presidente americano, Franklin D. Roosevelt foi uma vítima ilustre da polio, também conhecida como paralisia infantil). Seria um relato competente, mas comum, se não fosse o último capítulo, um verdadeiro golpe de mestre literário.

Alguns anos depois, um ex-aluno reencontra o protagonista, e entabulam uma conversa sobre o período infernal. É então que emergem todas as inseguranças, os rancores, as suspeitas, as descrenças na medicina e na fé, que dão uma dimensão mítica ao relato. A impotência do homem perante as circunstâncias é cruamente colocada, ao mesmo tempo em que se demonstra que muitas vezes fazemos a escolha mais insensata diante da perspectiva da tragédia.

Roth reafirma seu talento com as palavras, e encerra a brilhante carreira de forma digna, com a velha lâmina, ainda afiada, cortando fundo em nossas convicções.

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Jack London, sempre atual

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            Quem foi bom leitor na juventude certamente deve ter se deliciado com algum livro de Jack London. Caninos Brancos e O Lobo do Mar foram traduzidos por Monteiro Lobato, e tiveram dezenas de edições no Brasil. Outro campeão foi O Chamado da Selva, que narra a história de um cão que puxa trenós no Alaska. Depois de muitos sofrimentos (naturais ou causados pelo homem) une-se a um bando de lobos, tornando-se líder da alcateia.

            O Chamado da Selva (também traduzido como Apelo da Selva e O Grito da Floresta) é obra fundamental da literatura norte-americana, e tornou o nome de Jack London reconhecido mundialmente. Autor de vários romances e contos, ele refletiu em sua obra muito das experiências que teve durante toda a vida.

            Jack (nascido John Griffith Chaney) nasceu pobre, em San Francisco, Califórnia. Não conheceu o pai, e teve uma infância difícil. Começou a trabalhar muito cedo numa fábrica de enlatados, numa época em que a jornada de trabalho tinha com frequência dezoito horas, e nunca menos que doze. Com dezesseis anos virou grumete, e em pouco tempo tinha seu próprio barco de ostras, perdido num incêndio. Alistou-se numa escuna pesqueira, e foi até o Japão. Na volta trabalhou numa fábrica de juta (experiência que rendeu o conto O Herege), e participou das primeiras revoltas de trabalhadores de Oakland, onde viu despertar sua consciência de classe. Foi vagabundo e andarilho, esteve preso algumas vezes, e aos 21 anos resolveu tentar a sorte no Alaska, em busca de ouro.

            Além de não encontrar nada, ainda contraiu escorbuto. As terríveis situações que vivenciou, porém, inspiraram sua nascente veia literária. Tentou estudar na Universidade da California, foi admitido nos exames, mas a falta de dinheiro impediu que concluísse os estudos. Trabalhava à noite na lavanderia limpando a roupa dos colegas, e acabou desistindo.

            Felizmente, foi salvo pela literatura. Ao ganhar 25 dólares com um conto publicado num jornal de San Francisco (Tufão na costa do Japão), London percebeu que este seria o caminho para ascender socialmente. Em 1902 publicou o primeiro volume de contos. Em 1903 vendeu os originais de O Chamado da Selva por 750 dólares. Dois dias depois outra editora, a poderosa Macmillan, comprou os direitos do livro por 2000 dólares, desenvolvendo uma ampla campanha publicitária para o lançamento. As vendas explodiram, e London nunca mais passou fome.

            A vida sofrida, a doença e as experiências humilhantes não fermentaram apenas um escritor, mas um militante. Filiou-se ao Partido Socialista, e dedicou grande parte de sua obra adulta a descrever o mundo dos operários, dos desempregados, dos miseráveis. A luta pela sobrevivência, seja na natureza, seja na civilização industrial, é o motor de sua criação.

Jack London

            Uma boa seleção destes contos “adultos” foi lançada no Brasil pela editora Expressão Popular. O volume é aberto com dois textos confessionais (O Que a Vida Significa Para Mim e Como Me Tornei Socialista) onde somos apresentados à visão de mundo do escritor.

            A ficção propriamente dita é desenvolvida nos nove contos seguintes, onde acompanhamos aventureiros solitários no Alaska, operários em greve em San Francisco, mexicanos miseráveis que sobrevivem lutando boxe, chineses estoicos condenados à morte, ladrões de joias, pais que não reconhecem o filho. Sem deixar de lado valores como o amor (Ao Sul da Fenda) e a amizade (O Pagão), o autor demonstra sua enorme capacidade de descrever um universo social até então pouco abordado na literatura americana, de forma intensa e profundamente humana.

            Jack London escreve de forma direta, sem rodeios. É um dos fundadores da moderna prosa ocidental, e influenciou dezenas de escritores, em todo o planeta. Nos últimos anos de vida projetou e construiu um barco, velejando até o Pacífico, e construiu um rancho na Califórnia, que hoje é tombado como Marco Histórico Nacional. Sua morte, aos 40 anos, é controversa. Segundo alguns, teve uma acidente ao ingerir uma dose excessiva de heroína, que tomava para aliviar as dores de uma uremia. Para outros foi realmente um suicídio.

            Não importa. A obra de Jack London ainda pulsa forte, e é leitura prazerosa e marcante. Evoluindo de um feroz individualismo para a construção de um ideal coletivo, como fez na própria vida, o escritor antecipou em sua literatura o grande dilema do capitalismo no século XX. Sua mensagem fundamental continua válida para todos que não desistiram de enfrentar o desafio de transformar o mundo: “Vejo à frente um tempo em que o homem deverá caminhar para alguma coisa mais valiosa e mais elevada que seu estômago.”


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