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Poética do relento

Evandro

De tudo que li durante o ano de 2019, nada me marcou tanto quanto este romance de Evandro Affonso Ferreira. Demorei meses remoendo a narrativa, acordando no meio da noite a relembrar imagens saídas de suas páginas, me surpreendendo com a linguagem inovadora.

Evandro é um escritor consagrado, inventor absoluto, embora pouco conhecido do grande público. Transita por uma estrada literária que pouquíssimos ousam trilhar, sem nunca abrir mão da originalidade. Neste romance de 2017, acompanha a vida de cinco meninos de rua, narrada de forma fragmentada pela memória do (talvez) único sobrevivente, anos depois.

Eurídice é a figura central do romance. O nome evoca a ninfa grega que Orfeu tenta resgatar do Hades. O inferno, no caso, é a metrópole sombria e desigual por onde rastejam os desvalidos, os abandonados, os decaídos e amaldiçoados. Debaixo de pontes, em becos imundos, tomando banho nas enxurradas, comendo restos, praticando pequenos furtos e, às vezes, sonhando, o quinteto perambula entre ranhos e remelas, e convive com o fantasmagórico personagem que os abraça toda noite: o Relento.

Eurídice é figura materna para os menores do grupo, amante para os mais velhos, paixão para o narrador, Seleno. “Menina-mulher de corpo inflamável”. Seus comentários mordazes sobre a vida contrastam com o lirismo das observações de Ismênio, o menor, um anjo decaído e alucinado capaz de chegar para uma cega e dizer “Ei, moça bonita, se quiser posso ser seu cachorro-guia pro resto da vida.”

Na literatura brasileira, talvez apenas Jorge Amado tenha enfocado um grupo de meninos de rua, no seu clássico Capitães de Areia. Evandro reinventa o mote e levanta o sarrafo bem acima, criando um Orfeu-narrador de voz poderosa: “Não há punhal flambado capaz de remover a umidade da noite, cujo nome é Relento. Cidade? Esquartejadora da nossa esperança: éramos todos forasteiros no próprio lugar onde havíamos nascido.”

Em pouco mais de 150 páginas, Evandro Affonso Ferreira nos oferece o mais pungente retrato da vertiginosa desigualdade em que estamos mergulhados, sem abdicar da poesia. Obra de mestre.

A danação da memória

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O ancestral tema do menino pobre que cresce e sai de casa para ganhar a vida em outras paragens se confunde com as próprias origens daquilo que se chamou humanidade. Seja migrante por instinto, espírito de aventura ou sobrevivência, o ritual de abandonar o lar e construir outro destino faz parte da cultura oral e escrita de todos os povos, criando um arquétipo universal.

Luís Pimentel, ele próprio nascido no sertão baiano e morador do Rio de Janeiro, onde construiu sólida carreira como jornalista e escritor, retoma a narrativa mitológica, posicionando-a no cenário contemporâneo. Em Danação (7 Letras, 2019, 109 páginas), seu primeiro romance, acompanhamos um José sem sobrenome, que se envolve em um violento incidente na cidade grande, passando a ser perseguido pela polícia. Ou talvez não, porque nunca sabemos ao certo quem são seus perseguidores. E não é à toa que a namorada de José se chama Eneida…

A narrativa alterna reminiscências da infância sertaneja, onde é marcante a figura materna e a ausência do pai, com o desconforto presente, onde a sensação de não-pertencimento acentua a insegurança. As passagens se sucedem em perfeito imbricamento, com a notável inclusão de versos que abrem cada capítulo, como coros de tragédia grega, criando um terceiro plano narrativo de grande densidade, como observa Antonio Torres na orelha do livro.

A escrita de Luís Pimentel tem a sabedoria de não nos intimar; antes, nos intimiza. O personagem em fuga vai se construindo para o leitor através de suas lembranças infantis e afetivas, num movimento reverso ao tempo diegético da ação, onde sua vida está sendo destruída. A delicadeza de certas lembranças, também presente em versos como “noite sem escuridão/ o corpo menor que o fardo”, faz-nos desconfiar que há muito da alma do autor no personagem.

A referência a versos da música popular é outra marca característica de Luís Pimentel, um apaixonado pela cultura brasileira. O que fica ao final de Danação é uma sensação de maravilhamento, provocada pela forte coesão dos capítulos finais, onde a linguagem poética, antes delimitada em epígrafes, se funde à prosa. O eterno retorno, seja em busca do paraíso perdido, da infância ingênua ou da felicidade entrevista em algum desvão do percurso, se transfigura de forma simbólica, pois “tem muita estrada pela frente até chegar a Danação.” 


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