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Manuscritos reencontrados

DIARIO_DA_CASA_ARRUINADA

Por coincidência, li dois romances em sequência que se iniciam com o mesmo artifício: são “transcrições” de manuscritos encontrados por acaso. Veneza, do veterano Alberto Lins Caldas, remete a um códice do século XVII ou XVIII, e aproveita para mergulhar numa linguagem erudita, tentando captar o espírito da época (ver resenha anterior).

Diário da Casa Arruinada, do cearense Tiago Feijó, trilha outro caminho. A trama se passa em pleno século XXI. Um caderno encontrado num cofre aberto, dentro de uma casa em ruínas, que vai revelar um casamento em crise e um segredo pecaminoso.

Renderia um ensaio esse pretexto de escrever a partir de um documento alheio. Lembro-me de João Ubaldo Ribeiro, atribuindo a uma mulher desconhecida os originais d’A Casa dos Budas Ditosos, publicado em 1999. Outros exemplos podem ser garimpados na história da Literatura, se alguém tiver tempo e disposição para mergulhar nessa pesquisa. (dicas: Monogatari, Cervantes, Potocki, Poe…)

Mas vamos ao romance de Feijó, publicado pela Penalux em 2017. A ação se passa no curto tempo de 25 dias, quando o autor-narrador resolve parar de fumar. Num preâmbulo cheio de citações, o personagem se revela um escritor frustrado, preocupado com forma e estilo, ao mesmo tempo em que nos apresenta seu casamento em crise e o progressivo distanciamento da mulher, Madalena. Parêntesis: ninguém aguenta mais romance-de-jovem-autor-em-crise! Deve haver mais de trinta na literatura brasileira contemporânea. Fecha parêntesis.

Feijó (ou o personagem Quim?) transubstancia com afinco a gradativa tensão causada pela síndrome de abstinência do cigarro, ao mesmo tempo em que vai clareando as relações corrompidas entre Quim e Madalena. Sem fumaça, vemos as coisas de forma mais transparente. A pequena Selene, filha do casal, e a caseira Irene, gravitam em torno do personagem, de forma discreta. Quem domina a mente de Quim é Madalena, a jovem artista plástica de costumes libertários por quem se apaixonou há alguns anos. Construída de forma ambígua, como uma moderna Capitu, ela é ao mesmo tempo solar e lunar, ilumina e sombreia os seus pensamentos.

A relação está tão degradada que a abstinência também é sexual. Os volteios da imaginação febril de Quim passam por suspeita de traição, a lembrança de um estranho amigo de juventude, os raros encontros com o pai, a presença obsessiva do desejo de fumar e de ser amado por Madalena.

Há certa ansiedade de romancista estreante em mostrar que leu os clássicos, polvilhando de citações e referências cada capítulo. Um deles é escrito em forma de peça teatral, outro descreve o personagem raspando a barba, como se isso, de forma simbólica, o transformasse em outra pessoa.

Como Joa(quim) Maria Machado de Assis faria, o último capítulo encerra uma revelação, a chave de ouro tão cara aos mestres do século XIX. Alguns certamente irão se surpreender, outros desconfiarão. As referências a autores gregos são indícios, pistas que Tiago Feijó vai plantando no caminho, ao mesmo tempo em que usa seu talento para construir alternativas ilusórias, regadas a vinho, erudição e pitadas de ironia. O romance, longe de ser perfeito (existe perfeição, em literatura?), deixa entrever um autor capaz de voos maiores.

(Diário da Casa Arruinada, Ed. Penalux, 167 páginas, 2017)

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