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Escritura do desejo

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É possível mapear, na literatura brasileira contemporânea, uma vertente ficcional que tem como característica a narrativa em primeira pessoa e que entremeia ficção e vivência real do(a) autor(a), deixando de lado a pesada carga de criar um universo diegético próprio, fundamento do romance clássico que marca boa parte da produção dos séculos XIX e XX. Na prática, estes autores se apropriam do mundo real como cenário de suas narrativas, e com calibragens variadas reportam experiências ouvidas, lidas, assistidas ou vividas, citando ruas reconhecíveis, fatos que presenciamos, botecos que frequentamos ou escolas quase idênticas às nossas. Às vezes dão a impressão de que descrevem bocas que um dia beijamos.

O primeiro romance de Marcos Kirst, Eu Queria Que Você Soubesse, pode ser colocado nesta prateleira. No entanto, percebemos de cara que não é um noviço. Kirst se coloca de forma consciente e madura nessa corrente, mas se diferencia dos autores jovens pelo amplo arco narrativo, que abarca mais de três décadas.

A forma límpida, quase coloquial, com que a narrativa se inicia, vai sendo sutilmente acrescida de lembranças, reflexões e observações irônicas. Apesar do início trágico e do clima sofrido de acerto-de-contas no final, há um fino e amargo humor nas entrelinhas, que emerge aqui e ali em frases cortantes e inesperadas.

É evidente a intenção de fugir do denominador comum de gênero literário. A narrativa começa em tom policial, mas não sai em busca de um criminoso. Finge ser um romance de formação, mas logo se afasta dos chavões do gênero. Contorna com habilidade o surrado tema da paixão não correspondida, demarcando desde o início a impossibilidade de uma consumação. Por fim, cria mulheres fortes, bem delineadas, que fazem bom contraponto com o inseguro protagonista.

Pela biografia do autor, gaúcho de Ijuí, e  pela narrativa em primeira pessoa, supomos que muito do que está sendo dito/escrito seja reflexo do próprio. Afinal, a história tem início numa pequena cidade do Rio Grande do Sul, na década de 70, desdobrando-se depois em Porto Alegre, Camboriú, São Paulo…  O truque de criar um narrador mais velho serve como álibi, mas não elimina as suspeitas de que o que estamos lendo marcou a vida de Marcos Kirst. Parafraseando Pessoa, poderíamos dizer que o romancista é um fingidor.

O que emerge nas 150 páginas da trama é a forte pulsão sexual, catalisadora de uma série de ações que determinam, para o bem e para o mal, o desenrolar da narrativa. O clima de ditadura dos anos 70 e 80 é descrito em pinceladas rápidas, deixando no ar o ambiente sombreado pela censura e a impunidade que até hoje grassa no país. O foco é o do narrador, um contador (pode existir profissão mais anti-heroica?) que idealiza uma paixão de juventude a tal ponto que toda a sua vida adulta vai ser determinada por isso.

Até que surge outra mulher…