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Conversa íntima e pública

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Foi na metrópole moderna, seus conflitos, o ruído do progresso e a pressa desenfreada, subprodutos do modo de viver que os grandes aglomerados urbanos instituíram, que (a crônica) encontrou seu espaço privilegiado (…)”

O erudito prefácio de Edmar Monteiro Filho à Conversa Comigo (Penalux, 2019) situa com precisão o terreno por onde transita o cronista: a relação tumultuada do indivíduo com a urbe. Nesse caso, a cidade é São Paulo, e o autor o consagrado (na literatura infanto-juvenil) Ricardo Ramos Filho.

O título do volume oculta uma engenhosa artimanha, da qual só nos damos conta lá pelas tantas páginas. A primeira crônica, que batiza o livro, mostra um diálogo entre um casal num automóvel. A necessidade de conversar surge em todo relacionamento, e imersos no trânsito caótico, pode ser quase um pedido de socorro. Não à toa, muitas das crônicas se passam no meio do trânsito, com o mundo passando pelas janelas como um ciclorama.

O autor passeia pelas ruas, anda de metrô com o ouvido atento, espia vitrines com olhos cobiçosos, sobe e e desce ladeiras, faz compras em supermercados, apaixona-se por um quadro abandonado na calçada, toma café na padaria da esquina. Presta atenção ao mundo, às pessoas, a tudo que possa ganhar um novo significado através da palavra escrita. Missão primeira de qualquer cronista inteligente. 

Mas Conversa Comigo também pode ser interpretado como “conversa consigo próprio”. Eu entabulo uma conversa comigo. E Ricardo Ramos Filho se torna confessional, expõe manias e ranhetices, se desnuda aos olhos do público, relembra episódios familiares, sem nunca perder o senso de humor. Algumas páginas depois volta lampeiro à observação do cotidiano, certo de ter fisgado nossa atenção da forma mais honesta possível: se revelando. “Talvez a gente apenas queira ser ouvido, não procure diálogos”, constata, numa crônica sobre donos de animais de estimação.

É nesse jogo de luzes, ora focando a calçada cinzenta e suja de cocô, ora iluminando os recantos do coração onde moram os afetos, que o conjunto de crônicas acaba nos cativando. O escritor premiado, o militante das letras, o incentivador de novos autores, o onipresente em lançamentos literários Ricardo Ramos Filho, torcedor do Santos (ninguém é perfeito!), calça as chuteiras, ergue o meião e entra no jogo em um campo onde pululam mestres: o território da crônica. E, nas primeiras jogadas, mostra que veio pra ganhar aplausos da torcida. Que venha o tao esperado romance, anunciado numa das últimas crônicas do volume!

Leitura no busão

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Com o carro parado na oficina, andei muito de ônibus e metrô esta semana. Uma viagem do Butantã a São Bernardo envolve um ônibus, metrô, baldeação, outro metrô e mais um ônibus interurbano passando por três municípios. Fiz isso quatro vezes, acumulando razoável número de horas em trânsito.
Há dez ou quinze anos, num trajeto longo como esse, era comum ver pessoas lendo. Jornais, revistas, livros. Bastava erguer os olhos para ver alguém entretido na leitura. Valia tudo, de Machado de Assis até auto-ajuda, de Paulo Coelho até pulp fiction.
A má notícia é que os leitores sumiram por completo. Os únicos que vi – pouquíssimos! – eram estudantes universitários próximos à estação Butantã, com livros didáticos na mão. Leitura por obrigação. Boa parte das pessoas ficam grudadas em celulares, em pé ou sentadas, na escada rolante, andando, no ponto de ônibus. É a vitória da informação rasa sobre a cultura. Me pergunto se a mediocridade dos relacionamentos descartáveis não acaba tornando a vida também cada vez mais descartável. O que essas pessoas carregam de bagagem cultural? Que tipo de experiência estética mais profunda contarão para os netos? Nem ouso falar de música erudita, artes plásticas ou teatro, me refiro à literatura, a mais democrática das artes, a mais próxima dos olhos e do bolso. E dá uma pena, muita pena, das próximas gerações…

Ao ouvir a minha queixa, a amiga Mayra Alvornoz me enviou o link de uma maravilhosa entrevista com Antonio Cândido. O mestre reflete sobre a questão da leitura, da alta e e da baixa literatura. Sempre bom ouvi-lo!


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