Posts Tagged 'Ná Ozzetti'

Vanguarda paulista: de volta ao futuro

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                Certas palavras, de tão usadas, perdem o sentido original. Algumas entram na moda e são repetidas, limadas, desgastadas, até virarem bagaço, sem gosto e sem graça. Algumas passam por um período de repouso no labirinto dos dicionários e, de repente, renascem revigoradas. Ainda espero o dia em que a palavra supimpa, que eu acho bem bacaninha, volte a ser usual. Aliás, bacaninha também anda meio fora de moda…

Conheço uma moça que sempre declara que aquele… (show, disco, filme, sorvete, etc.) é o máximo. A vida dela é feita apenas de máximos, o que acaba dando a impressão de que ela tem uma sensibilidade mínima.  Mas todo esse preâmbulo é para dizer que o encontro entre Ná Ozzetti e o Passo Torto é sensacional, arrepiante, tortuosamente belo, supimpa. Ou, como diria minha amiga, simplesmente o máximo!

A trajetória de Ná Ozzetti, uma de nossas maiores cantoras, é bem conhecida. Principal voz do grupo Rumo, na chamada vanguarda da música paulistana do final da década de 70 e meados dos anos 80, sempre foi antenada com o que de mais instigante rolou na música popular brasileira. Gravou Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e, claro, Luiz Tatit, fez releituras de Rita Lee, foi do pop ao rock sem perder a elegância. Inteligente, percebeu que uma vã-guarda não se sustenta se não tiver enraizada no passado. Fez dupla caipira com Suzana Sales, cantou com violeiros, mergulhou nos antigos com o Rumo, estudou e regravou o legado de Carmen Miranda. Também toca e compõe, o que faz com prestemos muita atenção nas canções que escolhe para interpretar.

Já o Passo Torto, com dois CDs no currículo e centenas de shows na memória do público, é venerado pelos modernos de Sampa. O quarteto formado por Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes e Marcelo Cabral reúne instrumentistas-compositores-criadores de radical musicalidade. Existe uma intersecção com outras formações, como o merecidamente festejado Metá Metá (Kiko Dinucci, Thiago França e Juçara Marçal). Pra aumentar a confusão, o CD de Ná Ozzetti e Passo Torto chama-se… Thiago França!

O sax de Thiago não comparece no disco, que está disponível para audição e download gratuito na rede. Mas o espírito criativo e inquieto que liga estes grupos está ali, plasmado em composições intrigantes, angulosas, estranhamente belas. Caos urbano, flashes da realidade, crônicas líricas e cruéis extrapoladas em uma música nervosa, tensa, e… (caramba, será que todos os adjetivos estarão gastos?)

Enfim, música brasileira urbana do século XXI. E, para encerrar de forma contemporânea, “boa pra caralho!”

PS: Pela primeira vez na vida uso essa expressão em público. Espero que as mocinhas do século XX me perdoem…

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira)

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Ná e Zé, definitivos

[CAD3 - 4]  DIARIO/CAD3/1_MATERIAL ... 08/04/15

                 De vez em quando pinta um álbum assim em nossa frente. Um momento de serena beleza, onde tudo se encaixa com perfeição. Ná Ozzetti, uma das cantoras mais completas desse país, retoma a velha parceria com um dos compositores mais sensíveis e originais de nosso tempo. Retoma, sim, pois desde o início da carreira Ná Ozzetti grava Zé Miguel Wisnik. O primeiro disco solo, de 1988, já trazia quatro composições com sua assinatura. Ela gravou outros autores, foi da vanguarda ao baú da história, mostrou sua versatilidade em todos os gêneros, mas sempre se manteve fiel ao início de tudo. E no início de tudo estava o poeta e músico Wisnik.

Mas não se trata de um songbook, longe disso. O CD Ná e Zé é construção conjunta, arquitetura sonora elaborada a duas vozes (em algumas faixas) e dois corações. Há músicas novas e antigas, e a colaboração de ótimos músicos. Sérgio Reze, Swami Jr, Guilherme Kastrup e Marcio Arantes, também produtor do disco. Há  uma participação vocal muito bem sacada de Arnaldo Antunes, outra de Marcelo Jeneci, a guitarra de Gui Held, um arranjo luminoso de Lethieres Leite. E para rebater quem reclama que a melancolia investigativa de Wisnik contamina suas melodias, temos aqui o contraponto da diversidade: rock (ou quase-rock), melodias juvenis, batidas ritmadas, acordes densos, e, claro, também melancolia existencial. Wisnick faz mais do que refletir sobre o fazer musical. Suas letras costuram observações sobre fazer a vida, ou sobre o que a vida faz de nós. E aí encontramos alegria e tristeza, poesia e beleza.

É notável também sua identificação com o espírito poético de outros autores. Ao musicar poemas de Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, Cacaso e Leminski, o resultado é tão sintético que parece ser fruto de um trabalho a quatro mãos. O que acontece, de fato, nas boas parcerias com a inquieta Alice Ruiz, a delicada Marina Wisnik e o surpreendente Paulo Neves. Zé também toca piano em todas as faixas, com a sutileza habitual.

E Ná continua sendo Ná. Cantora excepcional, com pleno domínio de seu ofício, capaz de modular emoções de modo leve e profundo ao mesmo tempo. Ouvi-la cantar é penetrar num universo de prazer sonoro que se desdobra a cada nota. Para outras cantoras (e cantores), é uma aula de entonação, respiração exata, emissão perfeitamente calibrada. Jamais imaginei que uma canção tão perfeita quanto A Olhos Nus, de seu primeiro elepê, pudesse ser melhorada. Pois aqui ela renasce, tão bela como o sol que admiramos num amanhecer. É o mesmo velho sol, mas ao mesmo tempo é novo e apaixonante. Ná faz isso com as canções que lapida.

O CD pode ser ouvido inteiro aqui: https://www.youtube.com/watch?v=ltVMa2oWqYU. Em breve , será lançado em CD físico (Circus, 2015). Aquisição mais que recomendável, pelo valor intrínseco do trabalho artístico envolvido. Disparado um dos grandes lançamentos de 2015.

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(Publicado originalmente na revistamusicabrasileira.com.br)