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Morrer na praia

Nevil Shute

Nestes tempos de coronavírus, é natural relembrarmos clássicos literários que abordaram o clima pré-apocalíptico de destruição e morte. A Peste, de Camus, logo vem à baila. Aqui mesmo abordei o último romance de Philip Roth, Nemesis, que se situa num EUA, em 1944, açoitado pela poliomielite.

Ontem lembrei de uma leitura da adolescência: On the Beach, de Nevil Shute (curioso, não consigo lembrar do nome em português!). Num cenário de pós-guerra atômica mundial, o hemisfério norte está totalmente destruído. A nuvem radioativa pouco a pouco se estende para os últimos rincões meridionais da terra. A ação se passa em Melbourne, na Austrália, e as noticias de um fim inevitável afetam de forma diversificada a vida das pessoas. Num clima parecido com o do filme Melancolia, de Lars von Trier, uns tentam levar uma vida normal, outros enlouquecem, as crianças tentam entender, os adultos tentam desentender.

Há uma certa tradição de escritos sobre desgraças, epidemias e misérias decorridas da guerra. Lembro de Fome, do prêmio Nobel Knut Hamsun, que me marcou muito em tradução de Carlos Drummond de Andrade, assim como Sadako Quer Viver, da coleção Jovens de Todo o Mundo. Há toda uma biblioteca sobre o holocausto, os pogroms, as guerras coloniais, a peste medieval e até a Aids. São exercícios dolorosos, tentativas de compreender a dimensão da tragédia que ameaça a espécie humana e todo o planeta.

Nevil Shute (1899/1960) era inglês, engenheiro aeronáutico e piloto, e passou os últimos anos da vida na Austrália, escrevendo. On the Beach é seu romance mais famoso, e foi filmado duas vezes. Nunca assisti ou soube de alguma versão em português. Sem grande profundidade psicológica, mas com conhecimento técnico suficiente para descrever um cenário de contaminação progressiva, fez o que tinha que fazer.

A literatura cumpre seu papel. Lembrar, para que não se repita; alertar, para que não erremos; assustar, para que não ousemos trilhar o caminho da destruição. Mas como agir quando, cada vez mais, somos governados por ignorantes eleitos por ignorantes, que jamais tiveram a literatura como referência?


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