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A narrativa rebelde

Mil Homens

Valter Hugo Mãe é um dos mais aclamados autores portugueses contemporâneos. Com vários romances publicados, além de poesias e crônicas, é traduzido em vários países e tem uma relação profícua com o Brasil.

O Filho de Mil Homens, lançado em 2015, retoma alguns temas caros ao autor, e comprova sua capacidade de fabulação. Os personagens são quase arquétipos, mas construídos de forma original, em contextos que subvertem as narrativas convencionais.

Neste aspecto VHM mostra-se um discípulo de Saramago, não apenas pela escrita rebelde, que obedece mais ao fluxo do sentimento que às regras gramaticais, mas pela capacidade de criar personagens quase irreais, sempre banhados de profunda humanidade.

Como não lembrar do Saramago de O Conto da Ilha Desconhecida, ao iniciar a leitura do Filho de Mil Homens? O homem que vai ao rei pedir um barco, no conto de Saramago, transfigura-se num pescador de 40 anos, em VHM, que anseia por um filho.

Não é possível pedir filhos a um rei. Com habilidade, Valter Hugo Mãe insere outros personagens, com dores e ansiedades próprias, que vão entrelaçar suas vidas com a do pescador. Crisóstomo, que quer ter um filho mas não pensa em uma mulher, encontra um órfão, Camilo, que vai apontar para ele a incompletude familiar em que vivem.

Personagens desajustados, como bem aponta Alberto Manguel na contracapa da edição brasileira. Mas que vão compor a delicada tapeçaria de sentimentos que o escritor trama com habilidade . A camponesa ingênua que perde a virgindade e é abandonada pelo noivo prometido, a mãe que se recusa a reconhecer o filho “maricas”, a anã que desconhece o pai de seu filho. Toda a sordidez da humanidade é também ponto de partida para uma possível redenção.

O Filho de Mil Homens pode ser até acusado de pieguice, em alguns momentos. Mas o poder encantatório da escrita de Valter Hugo Mãe é convincente o bastante para arrebatar o leitor ávido por invenção, num mundo em que o realismo banal nos invade cada vez que ligamos a televisão, e é reproduzido de forma monótona em tantos escritos que não almejam mais que serem “retratos verossímeis”. Criticar a realidade pode ser revolucionário.


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