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Um fuçador de dicionários

Dicionario

Já comentei algumas vezes aqui no Fósforo sobre a minha paixão por dicionários. Desde que comecei a ler jamais consegui procurar o significado de uma palavra sem espiar, curioso, para as anteriores e seguintes. O próprio ato de abrir um dicionário em qualquer página faz com que alguns verbetes saltem aos olhos, luzindo feito pirilampos. Palavra enrosca em palavra, remete a outra e mais outra, e mais de uma vez  acabei me esquecendo do que fui procurar no início.

            Com isso, me tornei um craque na antiga brincadeira de “dicionário”. Um grupo de pessoas numa mesa, munidas de papel e caneta. E um dicionário, claro. Uma por vez abria o Aurelião numa página, escolhia uma palavra esquisita e copiava ou inventava um significado. Em cada rodada, os papéis são lidos em voz alta. Quem acertar, ganha pontos, mas quem inventar o significado mais verossímil e enganar os outros ganha pontos também. Eu adorava inventar coisas do tipo “prostigmato: ambiente reservado às prostitutas, na Roma antiga”, e ainda acrescentava que estava ali embutida a palavra estigma. Porém todo mundo caía na risada quando era revelado que prostigmato é uma ordem de ácaros, com mais de 14 mil espécies…

            Brincadeira em extinção, parece. Cada vez menos os lares abrigam um dicionário impresso, que possa rodar sobre a mesa. Eu mesmo, embora ainda guarde meu Aurelião, adotei o Houaiss eletrônico na labuta diária. Mas tenho um dicionário de tupi-guarani, um de folclore, outro de comunicação, um de música, um de mitologia, um de antônimos e sinônimos, e vários bilíngues.  Se você procurar, existe até dicionário de palavrão!

          Hoje mesmo fiquei abismado ao tropeçar na palavra próstoma. Inventei na hora que seria um hematoma na próstata, mas não havia ninguém brincando de dicionário comigo. Segundo o Houaiss, é “pequeno furo pelo qual as formigas penetram no tronco das embaúbas, onde costumam estabelecer colônias.”

          Pense na especificidade desse substantivo! Se fosse um furo em qualquer outra árvore não teria este nome, só é válido para a embaúba. Se pelo furo entrasse um besourinho, em vez de formiga, talvez nem fosse dicionarizada. Nossa língua não conseguiu inventar uma palavra pra definir mulher (ou homem) sem filhos, por exemplo, mas criou defenestrar (ato de atirar algo ou alguém pela janela) e próstoma. Intrigante, não acha?

          Nasci em Salvador, e muitas vezes vi expressões de espanto quando dizia ser soteropolitano. Imagine se tivesse nascido em Jerusalém! Faz ideia? Respire fundo: hierosolomita ou hierosolomitano. Pode-se trocar o h por j. Também está lá, devidamente qualificado. Vou calar sobre o que inventaria sobre a palavra hierosolomita no velho jogo de dicionário…

          Costumo evitar termos científicos ou técnicos, sejam químicos, zoológicos, médicos, etc. Senão fica muito fácil enganar os leigos! Saber que um cálutron é um separador eletromagnético de isótopos de urânio e outros elementos não me tornaria mais sabido, apenas oportunista. O melhor da brincadeira é descobrir palavras que estão (ou estariam) à tua volta, no cotidiano. Você, que nasceu no interior, sabe que é um hinterlandiense? E você, mulher que não é mais virgem, sabe que é bulida? Tu, gordinho e baixinho, sabes que é um buzarate? E que teu oposto, um indivíduo alto e magro, é um escanifre?

            Infelizmente, não inventaram uma palavra que defina “fuçador de dicionários”. Algo como glosso-adepto (ou amante, fanático, devotado, adicto). Parece que foi Borges quem respondeu, certa vez, ao ser perguntado sobre qual livro levaria para uma ilha deserta: “Um dicionário. Nele está contida toda a literatura.” Não sei se as palavras foram exatamente estas, mas está no meu analecto de estimação.


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