Posts Tagged 'Penalux'

Literatura crônica

Abraço dos Cegos

Dizem que a crônica, como gênero literário, nasceu no Brasil. Há certo exagero ufanista nisso, mas de fato se desenvolveu em terras tupiniquins uma forma curta de literatura que não encontra similar dentro do cânone ocidental (como diria Harold Bloom).

O curioso é que a crônica brasileira surgiu por uma espécie de darwinismo intelectual. Em nome da sobrevivência, poetas, romancistas e contistas ofereceram seus serviços à imprensa, em forma de colunas periódicas mensais, semanais e, em casos extremos, até diárias.

Mestres da ficção, como Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector, fizeram das crônicas um porto seguro para garantir os caraminguás no fim do mês. Poetas do calibre de Drummond, Vinicius, Cecília Meireles e Mario Quintana foram cronistas dedicados. Dramaturgos como Nelson Rodrigues, Plínio Marcos ou Mário Prata produziram centenas de textos curtos, publicados em jornais e revistas. E há os, digamos, autênticos, que tiveram seus nomes imortalizados pelas crônicas: João do Rio, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) e muitos outros fora do eixo Rio-São Paulo. Gaúchos, cearenses, baianos, mineiros, todos têm seus cronistas de estimação, e a literatura de seus estados não seria a mesma sem eles.

Mas, pressionada por desígnios mercadológicos, a crônica literária mudou de território. Rareia nos jornalões, desaparece nas revistas, sofre uma mutação tecnológica e se dispersa no labirinto informático. Passa a ser confundida com resumos de impressões cotidianas, opiniões aleatórias, críticas sociológicas e políticas, palpites estéticos sem lastro. Textos que seriam lidos de forma condescendente nas páginas do diário de uma adolescente são chamados de crônica, nas redes sociais. Gente incapaz de escrever um conto com um enredo aceitável se apresenta como escritor por escrever comentários irrelevantes em páginas virtuais.

Por tudo isso, é admirável ver um escritor de renome lançar uma coletânea de crônicas nesse mar revolto do século XXI, como quem solta um barquinho de papel, manuscrito dos dois lados, na enxurrada. Mas basta ler as primeiras páginas de O Abraço dos Cegos, de Chico Lopes (Editora Penalux, 2018), para perceber que estamos pisando no terreno consagrado da Literatura, e não no pantanal das futilidades descartáveis.

A maior parte das crônicas de Chico Lopes são narrativas em primeira pessoa, que oscilam entre a reflexão filosófica e a mirada, ora crítica ora nostálgica, de uma realidade muito peculiar: a de um escritor nascido e vivido em pequenas cidades do interior. Mas o autor, como queria Tolstói, transcende a geografia e se revela universal, ultrapassando os limites de sua aldeia. A literatura, a música e o cinema abriram as portas, e por elas o mundo entrou e se acomodou em sua mesa de trabalho.

Escritas em épocas variadas, como toda coletânea, devem ser lidas com a compreensão de que estamos contemplando uma paisagem acidentada, não uma planície. Há picos e vales, e isso é que torna interessante o conjunto. Às vezes desafiador como uma escarpa, outras vezes convidativo como um gramado à beira de um lago cujas águas ocultam um monstro.

Muitas crônicas do volume não escondem a ambição poética, outras brincam de ser quase-conto. Mesmo as poucas que nos remetem a um lugar concreto, um filme ou uma música, exalam um aroma existencial, levantam a ponta do lençol proibido, indagam sobre o significado oculto das coisas. Ao terminarmos a leitura, fica a certeza de que a crônica, enquanto gênero, pode ser muito mais profunda do que vem sendo praticada por aí, nos blogs da vida. Escritores como Chico Lopes são essenciais, não para apontar caminhos já trilhados, mas por desvelar a amplidão estrelada dos descaminhos.

Anúncios

Uma resenha possível

Escher-DrawingHands

 Mergulhar na arte de Escher é sempre uma experiência fascinante. A princípio somos levados a acreditar que sua obra é uma demonstração cerebral de virtuosismo, levada a cabo com uma precisão que só um absoluto domínio técnico pode concretizar. Aos poucos somos conduzidos a outros mundos, onde luzes e sombras se permeiam de tal forma que passam a ser metáforas de realidade e fantasia. Ao invés de esconder seus truques, ele expõe de maneira sistemática o processo de criação, mostrando seu ponto de partida e as etapas que atravessa para alcançar o efeito desejado.

torre de babel

Escher pode partir de experiências concretas, como as anotações feitas durante suas viagens, para expandir nossa percepção com a revelação de detalhes que só uma mente inquieta e astuciosa poderia descrever. Outras vezes parte de um mito, como a lendária Torre de Babel, para delinear uma fantástica hipótese sobre a ambição e a pequenez do ser humano. Seu repertório de maravilhas também é criado a partir de objetos imaginários, como o Anel de Möbius, envolvendo nossa percepção com um jogo de ir-e-vir, de citações e invenções, que embaralham tempo e espaço, ordem e caos.

wallup.net

Acima de tudo, Escher é um perfeccionista. Aquilo que oferece ao nosso olhar é a obra perfeita, burilada com paciência, fruto de uma rigorosa pesquisa cujos rascunhos não nos é permitido ter acesso. Mas antes que algum desavisado leitor conclua que louvo apenas a feitura impecável, peço que redobre a atenção para as frestas intencionalmente presentes em toda a sua obra, por onde vislumbramos a presença impalpável da poesia, as marcas da experiência vivenciada, a sombra imemorial da morte, as nuances delicadas da emoção.

escher_auto-retrato

Mergulhar na arte de Edmar Monteiro Filho é sempre uma experiência fascinante. A princípio somos levados a acreditar que sua obra é uma demonstração cerebral de virtuosismo, levada a cabo com uma precisão que só um absoluto domínio técnico pode concretizar. Aos poucos somos conduzidos a outros mundos, onde luzes e sombras se permeiam de tal forma que passam a ser metáforas de realidade e fantasia. Ao invés de esconder seus truques, ele expõe de maneira sistemática o processo de criação, mostrando seu ponto de partida e as etapas que atravessa para alcançar o efeito desejado.

Dia e noite

Edmar pode partir de experiências concretas, como as anotações feitas durante suas viagens, para expandir nossa percepção com a revelação de detalhes que só uma mente inquieta e astuciosa poderia descrever. Outras vezes parte de um mito, como a lendária Torre de Babel, para delinear uma fantástica hipótese sobre a ambição e a pequenez do ser humano. Seu repertório de maravilhas também é criado a partir de objetos imaginários, como o Anel de Möbius, envolvendo nossa percepção com um jogo de ir-e-vir, de citações e invenções, que embaralham tempo e espaço, ordem e caos.

Ordem e Caos

Acima de tudo, Edmar é um perfeccionista. Aquilo que oferece ao nosso olhar é a obra perfeita, burilada com paciência, fruto de uma rigorosa pesquisa cujos rascunhos não nos é permitido ter acesso. Mas antes que algum desavisado leitor conclua que louvo apenas a feitura impecável, peço que redobre a atenção para as frestas intencionalmente presentes em toda a sua obra, por onde vislumbramos a presença impalpável da poesia, as marcas da experiência vivenciada, a sombra imemorial da morte, as nuances delicadas da emoção.

livro do edmar

(Atlas do Impossível, Ed. Penalux, 244 p. Quinze contos inspirados em gravuras de M C. Escher).

O Rei Condenado à Morte

Livro Edmar0001

                Há contistas que são fiéis a um estilo, que modelam suas narrativas com a mão firme de um alfaiate que sabe como fazer o melhor terno, e não perde tempo arriscando-se a fazer outras peças. Outros são múltiplos, experimentadores e, muitas vezes, surpreendentes. Após terminarem uma história, dão uma guinada e apontam o sextante para outra direção. Ambos podem errar ou acertar, e isso faz parte do encanto da literatura. Um trem que anda sempre nos trilhos também descarrilha. Um pássaro de voo livre pode trombar com uma vidraça.

                Edmar Monteiro Filho é do segundo tipo. Contista várias vezes premiado, também se arrisca na poesia, no romance e na crítica literária. E acaba de lançar sua ultima coletânea de contos, O Rei Condenado à Morte & outras histórias, pela Editora Penalux. Passei o feriado lendo e relendo, deliciado, as oito narrativas do volume de 200 páginas.

                Deixarei de lado o pernosticismo de chama-lo de Monteiro Filho, como fazem alguns resenhistas. Edmar tornou-se um amigo, nos caminhos literários da vida, e é pelo prenome que me sinto à vontade de nomeá-lo. Mas quando acabei de ler a última página, soltei um PQP e berrei para as estrelas, da varanda da casa onde estava, no último feriado, no interior de São Paulo: “Edmar Monteiro Filho, você escreve bem pra c*!”

                O conto-título, que abre o volume, é um denso, reflexivo e emocionante relato sobre futebol. O Rei, bem, todos sabem quem é. O foco são os personagens secundários, os coadjuvantes, as vítimas tombadas no campo de batalha. Viajamos da Copa de 58 até certa noite de domingo no Maracanã, onde a expressão “milésimo gol” passou a ser propriedade del Rei. E somos convidados a meditar sobre alguns centímetros ou uma fração de segundo, que podem ser decisivos para a glória ou o opróbio.

                O conto seguinte, 1º De Janeiro É o Dia dos Mortos, já nasceu antológico. Vencedor do Prêmio Guimarães Rosa, da RFI francesa, é simplesmente um dos melhores contos policiais que já tive o prazer de ler. Cenário noturno paulistano, com uma pitada de Cortazar temperando o final.

              Aliás, Cortazar é uma influência importante na obra de Edmar. Mas não única, é bom salientar. O conto seguinte, Água Suja, lembra o cotidiano sufocante e burocrático de Kafka, e remete a procedimentos típicos do noveau roman, de Robbe-Grillet. Os mais sabidos hão de me lembrar que o próprio Cortazar também amava Kafka e foi influenciado pelo noveau roman, e não discordarei. A cultura literária de Edmar, que parece ter lido tudo, pode se dar ao luxo de brincar com todas estas referências, acrescentando novas clivagens.

               Então saltamos para Gêmeos, conto maravilhoso, fábula oriental com uma narrativa recortada em dois tempos/vozes, de beleza incomum. Talvez seja o conto onde a maestria da escrita, o domínio do léxico e a complexidade da arquitetura ficcional sejam mais evidentes. Mas para aceitar essa verdade temos de esquecer que a aparente simplicidade de outros contos pode ocultar uma profunda elaboração. É preciso dominar com perfeição todos os recursos narrativos para provocar essa deliciosa confusão em nossa mente.

                O Cavaleiro Negro contra o Matador de Cangaceiros tem um cenário mais familiar, e pela primeira vez senti ecos de um conto de outro livro do escritor, Que Fim Levou Ricky Jones? A narrativa pelos olhos de um menino, onde heróis e vilões se confundem com a vida real, é um tema caro ao autor, e essa visão aparentemente inocente de um ser que descobre as anfractuosidades do mundo comparece em outros momentos de sua obra.

            Em Voador, admirável quebra-cabeças narrativo, os personagens são Kublai Khan, Marco Polo, Italo Calvino, o rei V. e – por que não revelar – o próprio Edmar. Novamente somos introduzidos num clima de fábula, viajando no tempo e no espaço, indo da China à Florença, passando por Amparo, no interior de SP.

            Alfinete é o conto mais curto do livro. Mexe com nossos medos, com os limites da loucura e do improvável. Aí me senti num terreno mais borgiano que cortazariano, e aplaudi o final magistral. Sou meio antiquado, não resisto a uma chave de outro encerrando uma narrativa!

         O conto que encerra o volume, Raul, Raul, promove um reencontro com cenários brasileiros, com histórias de meninos, sinhás e empregados no ambiente rural. Bem distante do realismo dos modernistas, carrega uma atmosfera de vaga insanidade, de alguma coisa fora do lugar. É conto pra ler e reler, saboreando as sutilezas da escrita e as mudanças de perspectiva dramática que delineiam o personagem.

Este é um livro que vai morar em minha cabeceira por muito tempo, e certamente vai provocar novas leituras. Edmar se consolida como um dos melhores contistas brasileiros em atividade, e não cansa de me surpreender. Felizmente.


Anúncios