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Marrom, amarelo e magistral

Paulo-Scott_Marrom-e-Amarelo

Outro dia, numa conversa de amigos sobre literatura, confessei minha implicância com finais abertos. Na maioria das vezes, parece que o autor não soube como terminar a história. Fui devidamente esculhambado pelos interlocutores, final fechado é coisa do século XIX, narrativa com começo-meio-e-fim é algo careta, assim como a palavra careta. Felizmente estávamos num bar, e não num simpósio.

Relembrei meus tempos de estudante de cinema, do impacto que me causou assistir filmes de mestres como Antonioni e Fellini com geniais e inovadores finais abertos (nos anos 60!), e de como isso se tornou fórmula simplista nas décadas seguintes, banalizando um recurso que rompia com a narrativa tradicional, mas que logo foi absorvido pelo “sistema”.

Parece ser um estigma das estéticas do século XX do pós-guerra, em todas as artes. Brilharem por algum tempo e depois serem canibalizadas pela incansável e voraz tribo dos diluidores. Efeito perverso da era das comunicações, onde toda novidade é copiada ad nauseam. Não há achado interessante no cinema, por exemplo, que não seja vulgarizado pela publicidade um ano depois. Nas artes plásticas, então, melhor nem comentar. Aspirante a artista de Xiririca da Serra copia o que causou impacto no MoMA no mês anterior, graças à internet.

Todo esse preâmbulo é pra tentar disfarçar o impacto que me causou a leitura do romance Marrom e Amarelo (Alfaguara, 2019), do gaúcho Paulo Scott. Autor premiado e estimado pela crítica, Scott encara o desafio de desenvolver um romance sobre a questão racial brasileira sem parecer panfletário ou sabichão. E manda muito bem!

Lourenço e Federico são irmãos, um mais “marrom”, outro mais “amarelo”, nascidos em Porto Alegre. Federico é o narrador, militante, dirigente de ong, que é convidado a participar em Brasília de um grupo ministerial voltado para a questão das cotas raciais nas universidades. Perto dos 50 anos, fracassado na vida amorosa, relembra momentos cruciais da infância e juventude vividos com o irmão “mais preto”, hoje técnico de basquete da seleção gaúcha.

A narrativa nervosa flui com facilidade, à medida em que novos ingredientes são acrescentados à trama. A sobrinha Roberta é presa numa manifestação estudantil, e Federico retorna a Porto Alegre para ajudar o irmão. O pai, policial aposentado, nunca discutiu racismo dentro de casa. A mãe, idem. O diálogo entre as três gerações não será fácil.

Quase nunca é, independente do tema. Mas Paulo Scott consegue com sabedoria mesclar dilemas familiares, lembranças estudantis, amores erráticos, amizades (e inimizades) que atravessam décadas, orquestrando tudo de forma brilhante. Traçou um retrato atualíssimo dos efeitos do racismo numa família negra de classe média, sem apelar para ancestrais africanos ou rituais de candomblé. O patriarca reza um Pai Nosso antes das refeições, e isso é de uma ironia fina, sem julgamento de valor.

A bela capa reproduz um guache de Sidney Amaral, de 2015. Coragem editorial de abdicar dos elogios habituais propagandísticos de quarta capa, fazendo com que apreciemos o conjunto gráfico. Mais que tudo, um grande romance, admiravelmente bem escrito, contundente e necessário. Apesar do final aberto…

Alice no país da desigualdade

Quarenta Dias

Maria Valéria Rezende é uma das mais prestigiadas escritoras brasileiras contemporâneas. Além de vasta obra infanto-juvenil, escreveu contos, crônicas e romances que conquistaram uma legião de admiradores.

Quarenta Dias, lançado em 2014, talvez seja sua obra mais visceral. A autora revela que viveu por vários dias nas ruas de Porto Alegre para criar a história de Alice, uma professora aposentada que é coagida pela filha a abandonar seu apartamento em João Pessoa para cuidar de um futuro neto, na capital gaúcha.

A narrativa, escrita em forma de diário, revela de forma quase brutal a perturbação emocional de Alice, que mal chega à cidade e é abandonada pela filha, que vai estudar no exterior com o marido. Um velho caderno, com uma Barbie na capa, passa a ser o depositário das frustrações e da revolta da protagonista. Inconformada, sai pelas ruas procurando o filho desaparecido de uma amiga da Paraíba.

Algumas referências são evidentes. Os quarenta dias do título ecoam o episódio bíblico de Jesus andando no deserto, em jejum. O nome da protagonista nos remete à personagem de Lewis Carroll, em suas aventuras erráticas por outras realidades.

A Alice de Maria Valéria Rezende passa fome e frio, enquanto peregrina pela periferia de Porto Alegre, entrando em favelas e canteiros de obras, dormindo em bancos da rodoviária, tentando assimilar o golpe de ter sido enganada pela própria filha. Sua procura por um incerto Cícero tem algo de auto-flagelo, mas também de sublimação, como se o reencontro do filho de outra preenchesse o vazio surgido em sua vida.

Mais que o enredo, somos envolvidos pelo domínio narrativo da escritora, que alterna trechos do diário com um relato posterior, deixando intencionalmente algumas páginas incompletas, frases sem ponto final. Estes diálogos com a Barbie do caderno refletem o estado aflitivo e confuso da personagem, que vai encontrar alívio em algumas figuras que cruzam seu caminho, seres que também vagam pela cidade, mas que guardam alguns valores como solidariedade e gratidão.

Leitura perturbadora, que leva o leitor a penetrar em um mundo invisível, uma Porto Alegre negra, nordestina, pobre e desigual, distante da mídia e do cartão postal. Mas é nesse país sem maravilhas que Alice, sem nenhum coelho para guiá-la, encontra a saída para seu pesadelo.


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