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Um crime primordial

Mussa

Se considerarmos que o conceito de história se faz a partir da existência de pessoas, em termos bíblicos a primeira história do mundo envolveu desejo sexual e assassinato. Adão, Eva, Caim e Abel simbolizam esse início sangrento, do qual nunca fomos redimidos.

Mas Alberto Mussa reconta sua “primeira história” situando-a no Rio de Janeiro. Mais precisamente em 1567, pouco mais de dois anos passados da construção do forte no Morro do Castelo, onde tudo começou.

A vila tinha cerca de 400 habitantes, entre portugueses, vicentinos, mamelucos, índios e alguns poucos europeus de origem diversa. E então se registra o primeiro crime, o assassinato do serralheiro Francisco da Costa, em circunstâncias misteriosas. O fato de sua mulher, Jerônima Rodrigues, ser uma mameluca atraente, numa terra onde habitam muito mais homens que mulheres, dá contornos de passionalidade ao fato, com suspeitas de adultério. Alberto Mussa parte de um documento histórico, de um fato real, relatado em “Conquistadores e povoadores do Rio de Janeiro”, de Elysio Belchior, e promove uma admirável mescla de ficção e realidade.

Temos, portanto, uma trama policial. Um morto, vários suspeitos, uma possível causa. Mas os autos são incompletos e obscuros, e o julgamento soa apressado, uma vez que até entre os juízes há suspeitos. Só não existe um detetive, ou melhor, é Mussa quem se investe do papel, pedindo aos leitores que “dividam comigo a fascinante tarefa de reproduzir a investigação, de examinar os dados do processo, bem como outros documentos que iluminem o caráter das personagens envolvidas.”

O autor não se reporta ao antecedente bíblico, mas nos apresenta, em digressões deliciosas, aspectos históricos, culturais e antropológicos da Guanabara dos primórdios. A mitologia indígena, uma das paixões de Mussa, é apresentada em vários momentos, assim como a descrição acurada de hábitos e costumes da época.

Todos estes temperos dão ainda mais sabor à trama policial. Segundos os autos, o mameluco Simão Berquó foi considerado culpado e condenado à forca. Mussa dedica um capítulo a cada um dos suspeitos, levantando hipóteses: dois fidalgos-cavalheiros, o tesoureiro da câmara, o mordomo da confraria de São Sebastião, um judeu degredado, um cirurgião-boticário, um carcereiro, um pirata-cartógrafo. Algumas mulheres dão depoimentos sobre a bela e misteriosa Jerônima, algumas solidárias, outras invejosas.

Embora a solução proposta pelo escritor-detetive surpreenda pelo inusitado, toda a construção da trama segue, de forma engenhosa, as convenções do gênero, plantando suspeitas na cabeça do leitor e levando-o a elaborar conjecturas e deduções. Mussa enriquece a narrativa com citações dos primeiros narradores-viajantes, interpretações etimológicas, paralelos com autores policiais modernos, cinema – ele está escrevendo no século XXI, não no XVI, lembrem-se! -, culminando com uma ardilosa aproximação da Comédia de Dante.

A Primeira História do Mundo é parte de um projeto ambicioso, uma série de cinco policiais contando a história do Rio de Janeiro, um pra cada século. Este é o terceiro publicado (os outros são O Trono da Rainha Ginga, sec. XVII, e O Senhor do Lado Esquerdo, sec. XX). Alberto Mussa, consagrado com diversos prêmios literários, é certamente um dos mais originais escritores brasileiros, e exercita nesse romance suas melhores qualidades, aumentando a nossa expectativa para a conclusão do inusitado ciclo.

Mapa RJ0001


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