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Memórias de tempos sombrios

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A literatura brasileira ficcional sobre os anos da ditadura militar já rendeu muitos títulos, desde o pioneiro Pessach: a travessia (1967), de Carlos Heitor Cony até clássicos recentes, como K, Relato de uma Busca, de Bernardo Kucinski, lançado em 2011.

São dezenas de contos, novelas e romances, que abordam o período sem ainda terem esgotado todas as nuances do tenebroso período que estende sua mão sanguinária até nós, como um fantasma. Assim como a vasta literatura sobre o nazismo, o stalinismo ou a Segunda Guerra Mundial, é preciso relembrar sempre, para não esquecer nem repetir.

Milton Hatoum já havia ambientado obras anteriores, como Cinzas do Norte, na época da ditadura. Mas nessa trilogia, iniciada com A Noite da Espera e Pontos de Fuga, o governo militar golpista assume papel de protagonista, influenciando diretamente a vida dos personagens.

A partir de um personagem, Martim, jovem paulista cujos pais se separam e ele vai para Brasília, o primeiro volume retrata o movimento estudantil e artístico da Capital nos anos 60, até a invasão da Universidade pelas tropas e a perseguição e prisão de quem fazia qualquer espécie de resistência. Morando com o pai, um inescrupuloso vendedor de lotes da Novacap, Martim cada vez mais se apega à lembrança da mãe, que não consegue rever, e aos novos amigos da UnB, que se reúnem em torno de um grupo de teatro e de uma revista literária.

O primeiro volume é forte, realista, e delineia bem os personagens, mesmo quando entra nas fímbrias do poder. O livreiro de esquerda, o diplomata desiludido, a cafetina de luxo, estão todos lá. Brasília, então uma ilha formada por migrantes de todas as regiões do país, se afunda em perfídias e traições. A jovem atriz e militante Dinah, a primeira namorada, terá papel marcante na vida de Martim. Tudo isso é reconstruído através de memórias, papéis, diários, carta e relatos de vários coadjuvantes.

No segundo volume, o cenário é São Paulo dos anos 70. Martim abandona o pai e tenta fazer arquitetura na Usp. Passa a morar numa república na Vila Madalena, onde convive com novos personagens. A leitura fica mais complexa, uma vez que as datas dos depoimentos, cartas, diários, etc, saltam algumas décadas. Paris torna-se mais presente, com vários protagonistas no exílio, recordando as peripécias da época.

Tudo isso reflete a trajetória do próprio Hatoum, que morou em Brasília, em São Paulo, estudou arquitetura e foi para Paris. Ou seja, ele fala de uma realidade que conheceu de perto, através de personagens ficcionais. Aqui e ali pescamos referências a nomes e eventos reais, como a morte de Alexandre Vanucchi Leme e a missa na catedral da Sé, cercada por policiais.

No entanto, alguma coisa desengrena no segundo volume. As várias personagens femininas da república se confundem, ficam pouco definidas. A obsessão de Martim por reencontrar a mãe (caiu na clandestinidade?) o torna um sujeito ensimesmado e depressivo, pelo relato dos companheiros. O esquema de relatos, diários, cartas, etc, fica um pouco cansativo.

Como numa sinfonia, onde após um primeiro movimento vibrante passamos para um largo um tanto monótono (embora polifônico, conduzido com maestria), tudo pode ser salvo com o terceiro movimento, se Hatoum souber amarrar todas as pontas soltas e conduzir o leitor para um gran finale. Aguardemos!

Poética do relento

Evandro

De tudo que li durante o ano de 2019, nada me marcou tanto quanto este romance de Evandro Affonso Ferreira. Demorei meses remoendo a narrativa, acordando no meio da noite a relembrar imagens saídas de suas páginas, me surpreendendo com a linguagem inovadora.

Evandro é um escritor consagrado, inventor absoluto, embora pouco conhecido do grande público. Transita por uma estrada literária que pouquíssimos ousam trilhar, sem nunca abrir mão da originalidade. Neste romance de 2017, acompanha a vida de cinco meninos de rua, narrada de forma fragmentada pela memória do (talvez) único sobrevivente, anos depois.

Eurídice é a figura central do romance. O nome evoca a ninfa grega que Orfeu tenta resgatar do Hades. O inferno, no caso, é a metrópole sombria e desigual por onde rastejam os desvalidos, os abandonados, os decaídos e amaldiçoados. Debaixo de pontes, em becos imundos, tomando banho nas enxurradas, comendo restos, praticando pequenos furtos e, às vezes, sonhando, o quinteto perambula entre ranhos e remelas, e convive com o fantasmagórico personagem que os abraça toda noite: o Relento.

Eurídice é figura materna para os menores do grupo, amante para os mais velhos, paixão para o narrador, Seleno. “Menina-mulher de corpo inflamável”. Seus comentários mordazes sobre a vida contrastam com o lirismo das observações de Ismênio, o menor, um anjo decaído e alucinado capaz de chegar para uma cega e dizer “Ei, moça bonita, se quiser posso ser seu cachorro-guia pro resto da vida.”

Na literatura brasileira, talvez apenas Jorge Amado tenha enfocado um grupo de meninos de rua, no seu clássico Capitães de Areia. Evandro reinventa o mote e levanta o sarrafo bem acima, criando um Orfeu-narrador de voz poderosa: “Não há punhal flambado capaz de remover a umidade da noite, cujo nome é Relento. Cidade? Esquartejadora da nossa esperança: éramos todos forasteiros no próprio lugar onde havíamos nascido.”

Em pouco mais de 150 páginas, Evandro Affonso Ferreira nos oferece o mais pungente retrato da vertiginosa desigualdade em que estamos mergulhados, sem abdicar da poesia. Obra de mestre.

Um crime primordial

Mussa

Se considerarmos que o conceito de história se faz a partir da existência de pessoas, em termos bíblicos a primeira história do mundo envolveu desejo sexual e assassinato. Adão, Eva, Caim e Abel simbolizam esse início sangrento, do qual nunca fomos redimidos.

Mas Alberto Mussa reconta sua “primeira história” situando-a no Rio de Janeiro. Mais precisamente em 1567, pouco mais de dois anos passados da construção do forte no Morro do Castelo, onde tudo começou.

A vila tinha cerca de 400 habitantes, entre portugueses, vicentinos, mamelucos, índios e alguns poucos europeus de origem diversa. E então se registra o primeiro crime, o assassinato do serralheiro Francisco da Costa, em circunstâncias misteriosas. O fato de sua mulher, Jerônima Rodrigues, ser uma mameluca atraente, numa terra onde habitam muito mais homens que mulheres, dá contornos de passionalidade ao fato, com suspeitas de adultério. Alberto Mussa parte de um documento histórico, de um fato real, relatado em “Conquistadores e povoadores do Rio de Janeiro”, de Elysio Belchior, e promove uma admirável mescla de ficção e realidade.

Temos, portanto, uma trama policial. Um morto, vários suspeitos, uma possível causa. Mas os autos são incompletos e obscuros, e o julgamento soa apressado, uma vez que até entre os juízes há suspeitos. Só não existe um detetive, ou melhor, é Mussa quem se investe do papel, pedindo aos leitores que “dividam comigo a fascinante tarefa de reproduzir a investigação, de examinar os dados do processo, bem como outros documentos que iluminem o caráter das personagens envolvidas.”

O autor não se reporta ao antecedente bíblico, mas nos apresenta, em digressões deliciosas, aspectos históricos, culturais e antropológicos da Guanabara dos primórdios. A mitologia indígena, uma das paixões de Mussa, é apresentada em vários momentos, assim como a descrição acurada de hábitos e costumes da época.

Todos estes temperos dão ainda mais sabor à trama policial. Segundos os autos, o mameluco Simão Berquó foi considerado culpado e condenado à forca. Mussa dedica um capítulo a cada um dos suspeitos, levantando hipóteses: dois fidalgos-cavalheiros, o tesoureiro da câmara, o mordomo da confraria de São Sebastião, um judeu degredado, um cirurgião-boticário, um carcereiro, um pirata-cartógrafo. Algumas mulheres dão depoimentos sobre a bela e misteriosa Jerônima, algumas solidárias, outras invejosas.

Embora a solução proposta pelo escritor-detetive surpreenda pelo inusitado, toda a construção da trama segue, de forma engenhosa, as convenções do gênero, plantando suspeitas na cabeça do leitor e levando-o a elaborar conjecturas e deduções. Mussa enriquece a narrativa com citações dos primeiros narradores-viajantes, interpretações etimológicas, paralelos com autores policiais modernos, cinema – ele está escrevendo no século XXI, não no XVI, lembrem-se! -, culminando com uma ardilosa aproximação da Comédia de Dante.

A Primeira História do Mundo é parte de um projeto ambicioso, uma série de cinco policiais contando a história do Rio de Janeiro, um pra cada século. Este é o terceiro publicado (os outros são O Trono da Rainha Ginga, sec. XVII, e O Senhor do Lado Esquerdo, sec. XX). Alberto Mussa, consagrado com diversos prêmios literários, é certamente um dos mais originais escritores brasileiros, e exercita nesse romance suas melhores qualidades, aumentando a nossa expectativa para a conclusão do inusitado ciclo.

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Manuscritos reencontrados

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Por coincidência, li dois romances em sequência que se iniciam com o mesmo artifício: são “transcrições” de manuscritos encontrados por acaso. Veneza, do veterano Alberto Lins Caldas, remete a um códice do século XVII ou XVIII, e aproveita para mergulhar numa linguagem erudita, tentando captar o espírito da época (ver resenha anterior).

Diário da Casa Arruinada, do cearense Tiago Feijó, trilha outro caminho. A trama se passa em pleno século XXI. Um caderno encontrado num cofre aberto, dentro de uma casa em ruínas, que vai revelar um casamento em crise e um segredo pecaminoso.

Renderia um ensaio esse pretexto de escrever a partir de um documento alheio. Lembro-me de João Ubaldo Ribeiro, atribuindo a uma mulher desconhecida os originais d’A Casa dos Budas Ditosos, publicado em 1999. Outros exemplos podem ser garimpados na história da Literatura, se alguém tiver tempo e disposição para mergulhar nessa pesquisa. (dicas: Monogatari, Cervantes, Potocki, Poe…)

Mas vamos ao romance de Feijó, publicado pela Penalux em 2017. A ação se passa no curto tempo de 25 dias, quando o autor-narrador resolve parar de fumar. Num preâmbulo cheio de citações, o personagem se revela um escritor frustrado, preocupado com forma e estilo, ao mesmo tempo em que nos apresenta seu casamento em crise e o progressivo distanciamento da mulher, Madalena. Parêntesis: ninguém aguenta mais romance-de-jovem-autor-em-crise! Deve haver mais de trinta na literatura brasileira contemporânea. Fecha parêntesis.

Feijó (ou o personagem Quim?) transubstancia com afinco a gradativa tensão causada pela síndrome de abstinência do cigarro, ao mesmo tempo em que vai clareando as relações corrompidas entre Quim e Madalena. Sem fumaça, vemos as coisas de forma mais transparente. A pequena Selene, filha do casal, e a caseira Irene, gravitam em torno do personagem, de forma discreta. Quem domina a mente de Quim é Madalena, a jovem artista plástica de costumes libertários por quem se apaixonou há alguns anos. Construída de forma ambígua, como uma moderna Capitu, ela é ao mesmo tempo solar e lunar, ilumina e sombreia os seus pensamentos.

A relação está tão degradada que a abstinência também é sexual. Os volteios da imaginação febril de Quim passam por suspeita de traição, a lembrança de um estranho amigo de juventude, os raros encontros com o pai, a presença obsessiva do desejo de fumar e de ser amado por Madalena.

Há certa ansiedade de romancista estreante em mostrar que leu os clássicos, polvilhando de citações e referências cada capítulo. Um deles é escrito em forma de peça teatral, outro descreve o personagem raspando a barba, como se isso, de forma simbólica, o transformasse em outra pessoa.

Como Joa(quim) Maria Machado de Assis faria, o último capítulo encerra uma revelação, a chave de ouro tão cara aos mestres do século XIX. Alguns certamente irão se surpreender, outros desconfiarão. As referências a autores gregos são indícios, pistas que Tiago Feijó vai plantando no caminho, ao mesmo tempo em que usa seu talento para construir alternativas ilusórias, regadas a vinho, erudição e pitadas de ironia. O romance, longe de ser perfeito (existe perfeição, em literatura?), deixa entrever um autor capaz de voos maiores.

(Diário da Casa Arruinada, Ed. Penalux, 167 páginas, 2017)

Outra Veneza

VenezaPor mais familiar que seja seu nome, o narrador não está de fato presente entre nós, em sua atualidade viva. Ele é algo de distante, e que se distancia ainda mais.”

Com estas palavras Walter Benjamin inicia seu famoso ensaio O Narrador, onde questiona (entre outras coisas) a crise do romance como forma literária que atingiu o apogeu no século XIX, e mostrava certo esgotamento no início do século XX. Benjamin escreveu na década de 30, e provavelmente reveria esta opinião se vivesse mais algumas décadas.

O romance reinventa-se? Melhor dizer que alguns autores inventam, muitos repetem fórmulas, e alguns retomam paradigmas com uma nova abordagem.

Alberto Lins Caldas pertence à última categoria. Poeta praticante, contista experimentado e romancista reincidente, é antes de tudo um cultor da língua. Explora as possibilidades do verbo em todas as suas conjugações, flerta com o latim, manipula o sentido das palavras e persegue a recriação de mundos imaginários.

Em Veneza (Penalux, 2016, 181 páginas), o ponto de partida é atraente, mas não o principal atrativo. O autor afirma no prefácio ter encontrado um texto perdido num arquivo “de um Estado que não quero recordar o nome”, escrito em francês do século XVIII por um certo Pierre Bourdon, aventureiro cuja narrativa se inicia com uma fuga do leito de uma mulher casada, para fugir de um flagrante, em Veneza.

Acompanhado de seu fiel criado, Mouro, embarca num navio e vem parar em latitudes austrais. Desembarca numa outra “Veneza” nunca nomeada (mas não esqueçamos que o autor é pernambucano!), onde a descrição de cenários, comidas, cheiros e costumes remetem aos clássicos relatos de viajantes e naturalistas, que influenciaram até Gilberto Freyre.

A grande viagem de Veneza é a linguagem. Caldas se diverte escrevendo de forma barroca, cheia de latinismos e citações, ao mesmo tempo em que, na pele do personagem, coloca questões estéticas e existenciais. O narcisismo, a mulher como objeto idealizado de desejo, a relação nunca bem explicada entre servo e senhor, a imensidão de uma alma inquieta aprisionada numa existência pouco mais que medíocre, salva pela vontade de deixar um depoimento para a posteridade.

O cavaleiro Pierre encontra um tradutor à altura. O romancista Alberto escolhe um caminho árduo, mas pleno de delícias para quem ousar trilhá-lo. Na contramão do senso comum, escreve no século XXI um romance sem facilidades, sem mesmices, entranhado de humor temperado com certa dose de melancolia, onde talvez falte apenas um grande final. Mas é a transcrição de um manuscrito, um velho Códice, de onde não podemos esperar uma arquitetura romanesca como aquela que Benjamin julgou esgotada, certo? Grand finale é coisa de romance do século XIX, coisa com a qual Pierre Bourdon nunca chegou a imaginar.

A danação da memória

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O ancestral tema do menino pobre que cresce e sai de casa para ganhar a vida em outras paragens se confunde com as próprias origens daquilo que se chamou humanidade. Seja migrante por instinto, espírito de aventura ou sobrevivência, o ritual de abandonar o lar e construir outro destino faz parte da cultura oral e escrita de todos os povos, criando um arquétipo universal.

Luís Pimentel, ele próprio nascido no sertão baiano e morador do Rio de Janeiro, onde construiu sólida carreira como jornalista e escritor, retoma a narrativa mitológica, posicionando-a no cenário contemporâneo. Em Danação (7 Letras, 2019, 109 páginas), seu primeiro romance, acompanhamos um José sem sobrenome, que se envolve em um violento incidente na cidade grande, passando a ser perseguido pela polícia. Ou talvez não, porque nunca sabemos ao certo quem são seus perseguidores. E não é à toa que a namorada de José se chama Eneida…

A narrativa alterna reminiscências da infância sertaneja, onde é marcante a figura materna e a ausência do pai, com o desconforto presente, onde a sensação de não-pertencimento acentua a insegurança. As passagens se sucedem em perfeito imbricamento, com a notável inclusão de versos que abrem cada capítulo, como coros de tragédia grega, criando um terceiro plano narrativo de grande densidade, como observa Antonio Torres na orelha do livro.

A escrita de Luís Pimentel tem a sabedoria de não nos intimar; antes, nos intimiza. O personagem em fuga vai se construindo para o leitor através de suas lembranças infantis e afetivas, num movimento reverso ao tempo diegético da ação, onde sua vida está sendo destruída. A delicadeza de certas lembranças, também presente em versos como “noite sem escuridão/ o corpo menor que o fardo”, faz-nos desconfiar que há muito da alma do autor no personagem.

A referência a versos da música popular é outra marca característica de Luís Pimentel, um apaixonado pela cultura brasileira. O que fica ao final de Danação é uma sensação de maravilhamento, provocada pela forte coesão dos capítulos finais, onde a linguagem poética, antes delimitada em epígrafes, se funde à prosa. O eterno retorno, seja em busca do paraíso perdido, da infância ingênua ou da felicidade entrevista em algum desvão do percurso, se transfigura de forma simbólica, pois “tem muita estrada pela frente até chegar a Danação.” 


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