Posts Tagged 'samba'

Criolo e o samba paulista

capa-criolo-espiral

Nas décadas de 80 e 90 o samba ainda dominava a trilha sonora nas quebradas da periferia de São Paulo. A onda sertaneja já se fazia sentir, mas a música de feitura coletiva, cantada nas rodas e botecos, ainda era marcada pelo cavaquinho, pandeiro e violão. Nos grandes bailes, Benjor e Tim Maia imperavam, mas era comum se mesclarem com Fundo de Quintal e Benito de Paula.

No extremo sul da cidade, em bairros como Campo Limpo, Grajaú e Jardim Ângela, a rapaziada que cresceu ouvindo samba (e Michael Jackson, claro) manifestava seu inconformismo contra o “sistema” através do rap. Mais incisivo, não requerendo instrumentos e nem sequer saber cantar, o discurso rimado e ritmado mobilizou uma legião de seguidores, e não tardou em formar ídolos locais (depois nacionais) como os Racionais MC’s, surgidos em 1988.

O garoto Kleber, nascido em 1975, logo identificou nas rinhas de rap o seu clã. Seus amigos e colegas ali se reuniam e improvisavam versos. Nesse meio, já conhecido como Criolo, destacou-se pelas letras e por iniciativas como a Rinha dos MC’s, circuito hip hop de grande prestígio até hoje.
Mas Criolo admite que ouvia muito samba em casa. Martinho da Vila, Paulinho da Viola e Moreira da Silva eram constantes na vitrola de seu pai, ao lado de Nelson Gonçalves, Adoniran e Luiz Gonzaga. A contaminação era inevitável, e vinha misturada com uma relação familiar afetuosa. Como poderia o garoto pobre do Grajaú se revoltar contra a música que seus pais curtiam?

Aos poucos, Criolo foi colocando pitadas de samba em seus trabalhos. Confessa hoje abertamente que compõe sambas faz tempo, sem deixar de lado o rap. Desde o álbum Nó na Orelha (2011) incorporava outros gêneros à sua obra. Esta mescla se aprofundou em Convoque Seu Buda (2014), e ao mesmo tempo em que participava de homenagens a sambistas famosos, como Adoniran Barbosa, fazia duetos em discos de MPB e participações especiais em shows e programas de TV.

Em 2017, estabelecido como cantor e compositor, finalmente lança um CD só de sambas (Espiral de Ilusão). Dez sambas autorais, sendo oito assinados por ele, um em parceria com Ricardo Rabelo e Jefferson Santiago, e apenas Hora da Decisão feitos por outros (Rabelo e Dito Silva).
A identificação explícita com o samba se dá desde a primeira faixa, Lá Vem Você, aberta por um cavaquinho. O sotaque paulista de Criolo, carregado nos erres, desfila por letras originais, algumas das quais, sem música, poderiam até soar como rap. As variantes rítmicas (samba de roda com direito a coro feminino, toques de jongo, samba de breque, embolada, pagode e samba rural paulista) comprovam a desenvoltura do intérprete e a ginga do compositor. Pra completar, a capa de Elifas Andrato estabelece mais um vínculo com a tradição discográfica brasileira.

Enfim, Criolo cresce e aparece para a turma do samba e da MPB. Mais que isso, demonstra que pode existir mais afinidade que rivalidade entre samba e rap, gêneros nascidos nas periferias, favelas e morros desse tão maltratado país.

(Publicado na Revista Musica Brasileira em junho de 2017)

Anúncios

Assis Valente e suas mulheres

Carmen Miranda e Assis Valente

Março é mês de falar das lutas, das dores e das alegrias das mulheres. Na música popular brasileira a alma feminina tem espaço garantido, não apenas através de suas grandes compositoras e intérpretes, mas também pela criatividade de homens que ampliaram o repertório com letras de gênero trocado.

Claro que a primeira lembrança é o contemporâneo Chico Buarque, já suficientemente louvado. Mas ele não foi o primeiro. É bom lembrar que as divas do samba-canção, nas décadas de ouro (1930, 40 e 50), sempre gravaram letras com personagens femininas que se tornaram clássicas.

Uma das pioneiras, a internacional Carmen Miranda, tinha um séquito de compositores ansiosos para verem suas criações interpretadas pela voz brejeira da estrela. Entre outras coisas, era lucro certo. Carmen gravou muita gente, mas o seu favorito é o nosso homenageado do mês.

            O baiano José de Assis Valente nasceu no dia 19 de março de 1911, e começou a compor na década de 30. Espírito depressivo e perturbado, acabou suicidando-se em 1958, após algumas tentativas frustradas. Sempre às voltas com problemas financeiros, Assis Valente logo percebeu o potencial das canções em voz feminina, e com seu talento nato emplacou uma série de sucessos.

            Carmen gravou 24 composições do artista, muitas na voz feminina. Quem não conhece Camisa Listrada, onde a mulher descreve o seu homem caindo na farra? “Rompeu minha cortina de veludo pra fazer uma saia/ abriu o guarda-roupa e arrancou minha combinação”. Ou E o Mundo Não se Acabou, onde quem cai na farra é a própria: “Beijei na boca de quem não devia/ Peguei na mão de quem não conhecia/ Dancei um samba em traje de maiô/ E o tal do mundo não se acabou”.

            Em Recenseamento, Valente revela o drama da mulher que se vê diante de um recenseador na favela: “E quando viu a minha mão sem aliança/ encarou para a criança que no chão dormia/ E perguntou se meu moreno era decente/E se era do batente ou era da folia”. O final ufanista condiz com o espírito da época e com a estratégia de marketing de Carmen, que se colocava como propagandista do Brasil no exterior. A mulher se orgulha do moreno, que “é brasileiro, é fuzileiro/e é quem sai com a bandeira de seu batalhão”.  Já a protagonista de Por Causa de Você, Yoiô, é mais provocadora: “É por causa de você Ioiô/ que eu agora vou desacatar/ E vou andar toda bonita, meu bem/ p’rá todo mundo ver tudo o que você me dá”.

Em Tão Grande, tão Bobo a coisa muda de figura. A mulher esculhamba o parceiro sem rodeios: “Você dorme de dia que nem um danado/ ronca de noite que nem um lobo/ é por isso que você é assim, tão grande, tão bobo”. Em “E Bateu-se a Chapa” o repisado tema da mulher abandonada se renova com uma imagem inusitada: “Não sei se te lembras, amor, qual foi a razão/ que minha cabeça ficou em cima de teu coração/ A minha cabeleira ficou despenteada/ só para esconder tua camisa de malandro toda esburacada.” No final, surge a mulher vingativa: “Olha que eu te estranho e mando a navalha/ e corto esse chapéu de palha e essa calça de flanela/ que fui eu quem dei .”

A segunda canção de Assis Valente gravada por Carmen, Good Bye, em 1933, abriu a trilha para essa visão crítica da mulher sobre o homem. A letra espicaçava: “Good-bye, good-bye boy, deixa a mania do inglês/ É tão feio p’rá você, moreno frajola/ que nunca frequentou as aulas da escola.”

E teve Cabaret no Morro, Lulu, Sapateia no Chão, Recadinho de Papai Noel, a marchinha Ô (“Meu amor era um Pierrô, eu gosto mais de um Arlequim”), além de algumas sem sexo determinado.  

O estilo de Carmen Miranda era agitado, carnavalesco, com letras irônicas e bem humoradas. As criações mais doloridas de Assis Valente foram destinadas a outras cantoras, como a pungente Fez Bobagem (“Quando eu penso que outra mulher/ requebrou pro meu moreno ver”), sucesso na voz de Aracy de Almeida. No lado B dessa obra prima, lançada em 1942, outro samba do compositor, com um título bem malandrinho: “Amanhã Eu Dou”.

A lista está incompleta, mas estes exemplos bastam para delinear um “universo feminino” muito rico na obra de Assis Valente. Fugindo do estereótipo da mulher sofredora, traída ou abandonada, o baiano criou mulheres fortes, engraçadas, orgulhosas, vaidosas… protagonistas, enfim.

Não foi o único, certamente. Outros compositores seguiram seus passos, e emplacaram sucessos nas vozes das rainhas do rádio. Mas pela qualidade da obra e pela riqueza de abordagem, Assis Valente merece ser lembrado neste mês de março. Feliz aniversário, mestre!

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira)