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Sentinelas da Tradição: um estudo abrangente

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Você já parou pra pensar que Ernesto Nazareth, um dos patriarcas do choro, nunca compôs um choro? No seu catálogo constam tangos brasileiros, tanguinhos, schotisch, sambas, quadrilhas, marcha infantil, fox-trot, cançoneta, maxixe, mazurca e muitas valsas e polcas, entre outras denominações. Nenhum choro.

Bom, você pode achar que se trata de uma questão de nomenclatura de época, pois um clássico como Apanhei-te Cavaquinho só pode ser um choro! Só que foi registrado como polca… Assim ocorre também com a obra de mestres-fundadores como Joaquim Calado, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga. Quando aparece a palavra “choro” denominando alguma composição, desconfie: pode ter sido colocada postumamente.

O que tornou a palavra “choro” dominante, como gênero musical brasileiro por excelência? Ou melhor, o que transformou a palavra “choro” num conceito, numa identidade nacional? E o samba, este gênero carioca, vindo do morro, da cidade ou do coração, o que o fez se tornar o gênero nacional, mesmo que nos sertões, florestas, praias remotas, caatingas, plantações de café, cerrados e fronteiras, os gêneros musicais ouvidos e praticados por brasileiros fossem outros?

Sentinelas da Tradição é o apropriado título do ensaio de Dmitri Cerboncini Fernandes, lançado em 2018 pela Edusp. Adaptação da tese de doutorado “A inteligência da Música Popular: A Autenticidade no Samba e no Choro”, o estudo pretende investigar de que forma o choro e o samba se constituíram em modelos brasileiros de cultura popular, em detrimento de outras formas musicais.

A grande sacada do autor é examinar a história do samba e do choro não através de seus compositores e intérpretes, como é usual, mas através de seus historiadores e formuladores matriciais. Em resumo, Cerboncini Fernandes quer demonstrar que a fetichização do samba “autêntico” e do choro é resultado do empenho de um grupo de jornalistas, pesquisadores e folcloristas que em sucessivas gerações adotaram a música popular como o principal elemento identitário brasileiro, optando por uma classificação doutrinária.

Premiada com Melhor Tese de Doutorado de 2010, a versão publicada tem 532 páginas, e é material fértil para alimentar a discussões sobre os conceitos de nacional, popular, autêntico, comercial, MPB, samba, pagode e outros babados. Fundamentado em sólida pesquisa, e alimentado por prestigiosas referências teóricas (Bordieu, Elias, Adorno), Fernandes destaca o papel inseminador de estudiosos como Mario de Andrade, e repórteres-partícipes como Vagalume, Animal e Orestes Barbosa.

Vagalume é o pseudônimo do primeiro historiador do samba, o mulato Francisco Guimarães (1904-1933). Seu livro Na Roda do Samba, de 1933, é considerado o documento primeiro, o atestado de credibilidade de uma testemunha ocular e auditiva das rodas de samba de Tia Ciata. Orestes Barbosa, o primeiro intelectual-compositor a arriscar uma história da música popular, coloca Vagalume como uma referência.

Animal, pseudônimo de um carteiro negro frequentador de várias rodas de choro do início do século (Alexandre Gonçalves Pinto, data e morte incertas, mas entre 1870 e 1940), foi o sujeito que colocou no papel em 1936, para a posteridade, “O Choro – reminiscências dos chorões antigos”. Reeditado pela Funarte em 1978, é referência do gênero, compilando 285 músicos do gênero que passou a ser chamado de choro. “A obra de Animal, portanto, foi massivamente utilizada para a criação e legitimação das verdades que demarcaram a formação do gênero musical em pauta” (p. 162)

Cerboncini Fernandes relata com detalhes essa fase pioneira e passa para o período Vargas, onde a construção de uma identidade nacional ganha força. Mário de Andrade e Villa-Lobos são invocados como intelectuais “éticos”, externos, que chancelam a autenticidade de sambas e choros. O início da era do rádio e a formação de um circuito de compra e venda de canções instaura uma divisão. O samba “puro” não é comercial, para ser autêntico não pode ter sido composto pra tocar no rádio. É feito para ser tocado em terreiros, quintais, morros, em comunidades. Assim pensam os intelectuais “êmicos”, ou endógenos, aqueles formados no próprio meio da música popular.

Pelo menos assim defendiam os integrantes da geração reunida em torno de Lúcio Rangel, editor da Revista de Música Popular, que durou apenas de 1954 a 1956, mas teve papel fundamental na sedimentação dos conceitos de samba e choro. Por ali passaram nomes como Manuel Bandeira, Sérgio Porto, Jota Efegê, Almirante, Nestor de Holanda, Rubem Braga, Marisa Lira, Haroldo Barbosa e outros, que consolidavam as formas consagradas dos gêneros ao mesmo tempo em que espinafravam as forma “impuras”. Samba canção era visto com desconfiança, enquanto que Pixinguinha era beatificado como o grande mestre do choro.

A indústria fonográfica crescia, o rádio ampliava seu alcance, e as duas coisas se retroalimentavam. A discussão normativa sobre o popular bom X popular ruim adentra os anos 50, influenciando a terceira geração de críticos: Ary Vasconcelos, Tinhorão, Sérgio Cabral, Hermínio Bello de Carvalho. O bastão vai sendo passado para os novos “radicais”, que assumem também a função de redescobridores de talentos “puros” e promotores de espetáculos (Cabral e Hermínio), ou constroem sólida obra de pesquisa, fora dos muros acadêmicos (Tinhorão).

Tudo isso vai ganhar complexidade com a chegada da televisão, no final dos anos 50, e a diversificação de gêneros ocorrida depois do advento da Bossa Nova. Os festivais, a Jovem Guarda, a Tropicália, a música de protesto, nada disso concorria diretamente com o samba “autêntico”, o que permitiu duas linhas de pensamento, na quarta geração de críticos: os puristas, mais ortodoxos, e os universalistas, que falam tanto de rock como de baião, mas reconhecem o samba como forma consagrada da nacionalidade. Temos aí nomes como Tárik de Souza, Ana Maria Bahiana, Mauro Ferreira, Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches e outros, sendo escrutinados sob a premissa de “sentinelas da tradição”.

Ainda nos anos 60, um problema vem complicar o esquema gênero-carioca-nacional-autêntico construído por estes críticos. O problema tinha nome e sobrenome, e nasceu em São Paulo: Adoniran Barbosa. Um capítulo inteiro é dedicado a analisar o ruído causado por um italiano que falava errado, compunha torto e não tocava nenhum instrumento. Para os xiitas do samba, era uma distorção. Lúcio Rangel implicava até com o sotaque paulista de uma Isaurinha Garcia, por exemplo. Pra ser boa, tinha que cantar em “carioquês”. Mas como não chamar de “popular” um proletário, filho de imigrantes, profundamente ligado ao povo (ao “nacional”), no embate ideológico dos anos 60? Pra piorar, o cara ganha o concurso de marchas de Carnaval do Rio, em 1965, com Trem das Onze…

O problema Adoniran foi assimilado, a contragosto de alguns. O samba podia ser também paulista, não apenas carioca. Nacional em outro sentido, um pouco além do umbiguismo da capital federal. (E aqui, confesso, senti a falta de referência ao samba de outras fontes, como a Bahia. Infelizmente Cerboncini Fernandes não faz referência a Batatinha, Riachão, Rufino, Gordurinha ou Roque Ferreira. Seu ensaio polariza o eixo Rio-São Paulo, talvez por questões de mercado, que fazem parte de sua análise, ilustrada por gráficos).

E são estas questões que coroam a tese, quando entra em cena um personagem muito mais assustador que Adoniran: o pagode. Os últimos capítulos rememoram a entrada em cena do Fundo de Quintal, e a avalanche comercial dos grupos de pagode dos anos 80 e 90. Novamente, a discussão entre puros X impuros reverbera e divide a opinião pública. Apocalípticos X integrados, puristas X comerciais, autênticos X diluidores. O que é samba, afinal?

O choro, fora dos esquemas comerciais de radiodifusão, longe das grandes vendagens, volta a ser contemplado com um capítulo dedicado aos “novos chorôes”. Até esta Revista Música Brasileira entra na lupa do minucioso pesquisador, juntamente com outros sítios virtuais e revistas vendidas em bancas de jornal.

Pode ser cansativo para alguns encarar um volume com mais de 500 páginas. Mas para quem realmente se interessa pela música brasileira, por samba e choro, por questões culturais, sociais e políticas, recomendo a leitura deste ensaio do doutor Dmitri, formado em São Paulo, com passagem em Paris e atualmente professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. O cara pode não dar resposta pra tudo, mas sabe provocar um bom debate, com opiniões profundamente embasadas. E certamente é um amante da música popular brasileira, ora pois…

(Publicado originalmente na revistamusicabrasileira.com.br)

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O adeus de Célia

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Final dos anos 60. A jovem Célia, dona de voz potente e bem calibrada, é incentivada pelos amigos a arriscar a sorte em programas de calouros, herança da era radiofônica que acabou conquistando espaço na televisão. O trampolim acaba sendo o programa Flavio Cavalcanti, no ano de 1970, e Célia logo consegue suas primeiras gravações.

            O primeiro disco recebe vários prêmios, e lança holofotes em direção à jovem cantora de rosto bonito e corpo renascentista. Com um repertório oscilando entre o romântico (Roberto Carlos), o pop e a MPB, emplacou alguns sucessos. Cantava Joyce, Lô, Marcio Borges, Toninho Horta e Fernando Brant, entre outros. Mas Adeus, Batucada, de Sinval Silva, velho sucesso de Carmen Miranda, mostrou que havia ali uma intérprete diferenciada de samba, capaz de unir força e delicadeza, controlando as rédeas da emoção com uma entonação perfeita e um timbre envolvente.

            Estava dada a receita. A gravação de Onde Estão os Tamborins (Pedro Caetano), um sucesso nacional, apontou o caminho, mas o mercado foi cruel. Nenhuma gravadora queria uma cantora de samba branca e paulista, depois da efervescência dos festivais da década anterior. Alguma coisa parecia estar fora do lugar.

Paulista sim, e da gema. Célia pouco se afastou da cidade que amava, e tornou-se um nome conhecido da noite, cantando em casas noturnas, teatros e cruzeiros marítimos. Profissional da voz, diversificou o repertório, e se virava bem em vários estilos. Quem a viu no palco conheceu uma diva errante, cuja luminescência deixava marcas indeléveis na memória.

Célia cantou valsas, toadas, boleros, mambos, tangos, merengues (gravou um disco delicioso com a banda Son Caribe!), revisitou várias vezes Roberto Carlos, recriou muitos clássicos da MPB. Em 1998 divide o palco do Tom Brasil com outro grande cantor da noite, Zé Luiz Mazziotti, no show Ame, e a mistura foi tão boa que rendeu um dos mais perfeitos songbooks já gravados em nosso país: o CD Pra Fugir da Saudade (2000) , onde a dupla repassa algumas obras primas de Paulinho da Viola.

            Sucesso de crítica e de estima entre os cultuadores da MPB, mas nada de tocar no rádio. O destino parecia selado para Célia. Outro encontro bem sucedido, com o violonista Dino Barioni, resulta no CD Faço no Tempo Soar minha Sílaba, de 2007, onde vai de Caetano até Lamartine Babo, passando por Elton Medeiros, Dominguinhos, Chico Buarque e Martinho da Vila, incluindo duetos com Zélia Duncan e Beth Carvalho. Quem não se emocionar ouvindo sua interpretação de Mãe, Eu Juro! (Adoniran), só pode ter a alma sebosa e o coração peludo!

            Só estes dois CDs bastariam para colocar Célia no panteão das grandes cantoras brasileiras. Mas em 2010 ela ainda ataca com O Lado Oculto das Canções, ampliando o repertório com autores como Adriana Calcanhoto, Ângela Roro, Ana Carolina, Zeca Baleiro, Tim Maia e Zélia Duncan, sem deixar de lado os amados Vinicius e Baden Powell.

            A voz esplêndida e a risada generosa de Célia calaram-se no dia 29 de setembro, após uma luta inútil contra um câncer de pulmão. Tinha 70 anos plenos de jovialidade e uma voz intacta. Ouço, reouço e proclamo: tivemos a felicidade de viver na mesma época de uma das maiores cantoras que esse país já teve. Pena que poucos prestaram a devida atenção…

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira).

Criolo e o samba paulista

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Nas décadas de 80 e 90 o samba ainda dominava a trilha sonora nas quebradas da periferia de São Paulo. A onda sertaneja já se fazia sentir, mas a música de feitura coletiva, cantada nas rodas e botecos, ainda era marcada pelo cavaquinho, pandeiro e violão. Nos grandes bailes, Benjor e Tim Maia imperavam, mas era comum se mesclarem com Fundo de Quintal e Benito de Paula.

No extremo sul da cidade, em bairros como Campo Limpo, Grajaú e Jardim Ângela, a rapaziada que cresceu ouvindo samba (e Michael Jackson, claro) manifestava seu inconformismo contra o “sistema” através do rap. Mais incisivo, não requerendo instrumentos e nem sequer saber cantar, o discurso rimado e ritmado mobilizou uma legião de seguidores, e não tardou em formar ídolos locais (depois nacionais) como os Racionais MC’s, surgidos em 1988.

O garoto Kleber, nascido em 1975, logo identificou nas rinhas de rap o seu clã. Seus amigos e colegas ali se reuniam e improvisavam versos. Nesse meio, já conhecido como Criolo, destacou-se pelas letras e por iniciativas como a Rinha dos MC’s, circuito hip hop de grande prestígio até hoje.
Mas Criolo admite que ouvia muito samba em casa. Martinho da Vila, Paulinho da Viola e Moreira da Silva eram constantes na vitrola de seu pai, ao lado de Nelson Gonçalves, Adoniran e Luiz Gonzaga. A contaminação era inevitável, e vinha misturada com uma relação familiar afetuosa. Como poderia o garoto pobre do Grajaú se revoltar contra a música que seus pais curtiam?

Aos poucos, Criolo foi colocando pitadas de samba em seus trabalhos. Confessa hoje abertamente que compõe sambas faz tempo, sem deixar de lado o rap. Desde o álbum Nó na Orelha (2011) incorporava outros gêneros à sua obra. Esta mescla se aprofundou em Convoque Seu Buda (2014), e ao mesmo tempo em que participava de homenagens a sambistas famosos, como Adoniran Barbosa, fazia duetos em discos de MPB e participações especiais em shows e programas de TV.

Em 2017, estabelecido como cantor e compositor, finalmente lança um CD só de sambas (Espiral de Ilusão). Dez sambas autorais, sendo oito assinados por ele, um em parceria com Ricardo Rabelo e Jefferson Santiago, e apenas Hora da Decisão feitos por outros (Rabelo e Dito Silva).
A identificação explícita com o samba se dá desde a primeira faixa, Lá Vem Você, aberta por um cavaquinho. O sotaque paulista de Criolo, carregado nos erres, desfila por letras originais, algumas das quais, sem música, poderiam até soar como rap. As variantes rítmicas (samba de roda com direito a coro feminino, toques de jongo, samba de breque, embolada, pagode e samba rural paulista) comprovam a desenvoltura do intérprete e a ginga do compositor. Pra completar, a capa de Elifas Andrato estabelece mais um vínculo com a tradição discográfica brasileira.

Enfim, Criolo cresce e aparece para a turma do samba e da MPB. Mais que isso, demonstra que pode existir mais afinidade que rivalidade entre samba e rap, gêneros nascidos nas periferias, favelas e morros desse tão maltratado país.

(Publicado na Revista Musica Brasileira em junho de 2017)

Assis Valente e suas mulheres

Carmen Miranda e Assis Valente

Março é mês de falar das lutas, das dores e das alegrias das mulheres. Na música popular brasileira a alma feminina tem espaço garantido, não apenas através de suas grandes compositoras e intérpretes, mas também pela criatividade de homens que ampliaram o repertório com letras de gênero trocado.

Claro que a primeira lembrança é o contemporâneo Chico Buarque, já suficientemente louvado. Mas ele não foi o primeiro. É bom lembrar que as divas do samba-canção, nas décadas de ouro (1930, 40 e 50), sempre gravaram letras com personagens femininas que se tornaram clássicas.

Uma das pioneiras, a internacional Carmen Miranda, tinha um séquito de compositores ansiosos para verem suas criações interpretadas pela voz brejeira da estrela. Entre outras coisas, era lucro certo. Carmen gravou muita gente, mas o seu favorito é o nosso homenageado do mês.

            O baiano José de Assis Valente nasceu no dia 19 de março de 1911, e começou a compor na década de 30. Espírito depressivo e perturbado, acabou suicidando-se em 1958, após algumas tentativas frustradas. Sempre às voltas com problemas financeiros, Assis Valente logo percebeu o potencial das canções em voz feminina, e com seu talento nato emplacou uma série de sucessos.

            Carmen gravou 24 composições do artista, muitas na voz feminina. Quem não conhece Camisa Listrada, onde a mulher descreve o seu homem caindo na farra? “Rompeu minha cortina de veludo pra fazer uma saia/ abriu o guarda-roupa e arrancou minha combinação”. Ou E o Mundo Não se Acabou, onde quem cai na farra é a própria: “Beijei na boca de quem não devia/ Peguei na mão de quem não conhecia/ Dancei um samba em traje de maiô/ E o tal do mundo não se acabou”.

            Em Recenseamento, Valente revela o drama da mulher que se vê diante de um recenseador na favela: “E quando viu a minha mão sem aliança/ encarou para a criança que no chão dormia/ E perguntou se meu moreno era decente/E se era do batente ou era da folia”. O final ufanista condiz com o espírito da época e com a estratégia de marketing de Carmen, que se colocava como propagandista do Brasil no exterior. A mulher se orgulha do moreno, que “é brasileiro, é fuzileiro/e é quem sai com a bandeira de seu batalhão”.  Já a protagonista de Por Causa de Você, Yoiô, é mais provocadora: “É por causa de você Ioiô/ que eu agora vou desacatar/ E vou andar toda bonita, meu bem/ p’rá todo mundo ver tudo o que você me dá”.

Em Tão Grande, tão Bobo a coisa muda de figura. A mulher esculhamba o parceiro sem rodeios: “Você dorme de dia que nem um danado/ ronca de noite que nem um lobo/ é por isso que você é assim, tão grande, tão bobo”. Em “E Bateu-se a Chapa” o repisado tema da mulher abandonada se renova com uma imagem inusitada: “Não sei se te lembras, amor, qual foi a razão/ que minha cabeça ficou em cima de teu coração/ A minha cabeleira ficou despenteada/ só para esconder tua camisa de malandro toda esburacada.” No final, surge a mulher vingativa: “Olha que eu te estranho e mando a navalha/ e corto esse chapéu de palha e essa calça de flanela/ que fui eu quem dei .”

A segunda canção de Assis Valente gravada por Carmen, Good Bye, em 1933, abriu a trilha para essa visão crítica da mulher sobre o homem. A letra espicaçava: “Good-bye, good-bye boy, deixa a mania do inglês/ É tão feio p’rá você, moreno frajola/ que nunca frequentou as aulas da escola.”

E teve Cabaret no Morro, Lulu, Sapateia no Chão, Recadinho de Papai Noel, a marchinha Ô (“Meu amor era um Pierrô, eu gosto mais de um Arlequim”), além de algumas sem sexo determinado.  

O estilo de Carmen Miranda era agitado, carnavalesco, com letras irônicas e bem humoradas. As criações mais doloridas de Assis Valente foram destinadas a outras cantoras, como a pungente Fez Bobagem (“Quando eu penso que outra mulher/ requebrou pro meu moreno ver”), sucesso na voz de Aracy de Almeida. No lado B dessa obra prima, lançada em 1942, outro samba do compositor, com um título bem malandrinho: “Amanhã Eu Dou”.

A lista está incompleta, mas estes exemplos bastam para delinear um “universo feminino” muito rico na obra de Assis Valente. Fugindo do estereótipo da mulher sofredora, traída ou abandonada, o baiano criou mulheres fortes, engraçadas, orgulhosas, vaidosas… protagonistas, enfim.

Não foi o único, certamente. Outros compositores seguiram seus passos, e emplacaram sucessos nas vozes das rainhas do rádio. Mas pela qualidade da obra e pela riqueza de abordagem, Assis Valente merece ser lembrado neste mês de março. Feliz aniversário, mestre!

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira)


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