Posts Tagged 'Sandra Abrano'

Crimes de ontem, negócios de hoje

Vestígios

Releio com prazer este policial, recém lançado pela debutante editora Bandeirola. Escrevi “releio” porque fiz uma leitura há alguns meses, quando ainda era inédito. Sandra Abrano conseguiu o feito de fazer com que eu voltasse a mergulhar na trama como se fosse a primeira vez, e ainda plantou umas surpresinhas pelo caminho.

Vestígios tem uma trama complexa e bem concatenada, desenvolvida na cidade de São Paulo. Um policial de conotações políticas, que atravessa algumas décadas de nossa história. Um enredo embebido de paulistanidade, mas de compreensão universal.

Personagens reais entremeiam-se com personagens ficcionais sem provocar dissonâncias. A narrativa flui com destreza, mesmo com várias interferências de linguagem (notícias de jornal, relatórios policiais, roteiros de cinema). Não há exatamente um protagonista, mas um conjunto de personagens principais cuja intersecção com os secundários movimenta o suspense. A ação se inicia na Vila Maria e se desdobra até a Bolívia, uma vez que os tentáculos do crime são hoje globalizados.

Há policiais, há assassinatos, há ex-agentes da repressão, há jovens esperançosos, há mães dedicadas, há um padre cujo irmão desapareceu durante a ditadura. E, principalmente, há uma trama polifônica de surpreendente desenlace, ingrediente básico para a receita de qualquer bom policial.

Sandra Abrano faz parte do seleto time de escritores paulistas contemporâneos cujas palavras exalam o cheiro das ruas, picham os muros da ascensão social, reverberam o ruído de fundo da megalópole. Seu cenário não é a favela nem a cobertura de luxo, mas o caótico cosmo que se esparrama entre estes extremos.

A edição é bem cuidada, atenta aos pequenos detalhes. Há páginas brancas, cinzas e negras, e o leitor atento vai perceber o motivo. A editora Bandeirola mostra que é possível inovar, mesmo em tempos árduos.

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Um novo romance

writer

         Terminei mais um romance. Não, Joãozinho, não estou falando de minha vida afetiva, mas de um livro. Um volume que, de acordo com certas normas, precisa ter X páginas para ser considerado romance. Abaixo disso, é novela. Se for mais econômico, é conto. Não há fronteiras definidas, mas um senso comum, estabelecido pelo cânon ocidental.

    O primeiro romance, Terno de Reis, publicado em junho de 2015, foi uma boa experiência. Custei a me acostumar com esse papo de ser autor publicado. Um autor não-publicado é menos autor? Acho que não, mas na sociedade do espetáculo é assim que funcionam as coisas. Exposição.

     Refleti um pouco sobre a oportunidade de iniciar outro romance. Não é atividade lucrativa, com raras exceções. O investimento em tempo e energia é considerável, e você pode ter retorno dali a uma década. Ou nunca. Mas se você escreve para os amigos, vale a pena. Os elogios costumam ser generosos – amigo é amigo! – e algumas vezes até honestos. Obviamente há os que se calam, os que compraram o livro e não leram, os que leram mas não gostaram, os que não gostaram e mudam de assunto e falam de futebol quando te encontram. Continuam amigos, e isso é o que importa.

      Há amigos críticos. Sei lá, deve haver. Nenhum chegou na minha cara e disse “não gostei”, por isso e aquilo. Como leitor, também evito esse tipo de constrangimento. Como dizer à minha irmã que o livro dela é uma droga? Veja bem, é uma situação hipotética, não tenho nenhuma irmã que escreva. Que eu saiba.

        Mas voltemos ao segundo romance. Será que alguém começa escrevendo um romance, de cara? Em geral, os jovens arriscam poesias ou crônicas. Alguns tomam fôlego e passam pro conto. Numa comparação rasteira, é como um velocista se tornar um fundista. Alguns serão ótimos velocistas a vida toda, e merecem aplausos. Outros percebem que a explosão muscular já não é a mesma, e direcionam seus esforços para as provas de resistência. Já reparou que a maioria dos romancistas é madura, idosa, grisalha, enquanto há muitos poetas jovens, imberbes, sem filhos? Talvez poetas maduros sejam eternamente jovens e romancistas sejam poetas que envelheceram. Quem sabe?

      Nel mezzo del cammin (citar Dante é sempre chique, né não?), com um romance publicado, percebi que tinha vários contos na gaveta. Alguns premiados, outros inéditos, e até uns desprezados. Publicar um livro de contos nunca me animou, nem sei explicar direito o porquê. Mas aí resolvi escrever um romance-de-contos, uma história com um monte de historinhas dentro. Não é alguma invenção revolucionária, longe disso. Desde as 1001 Noites contar histórias dentro de uma história é recurso manjado.

     O grande desafio foi tornar o negócio orgânico. Ou seja, fazer com que os contos dialogassem com o entrecho do romance, sendo ora causa, ora consequência. Descartei alguns, aproveitei outros, reescrevi uns, inventei outros tantos. E fechei um volume de vinte e um capítulos, intercalados por vinte contos. O romance-de-contos foi submetido a alguns leitores, com o pedido expresso de serem críticos, sem desviar para os pênaltis perdidos pelo Corinthians no próximo encontro.

      A primeira leitora, Sandra Abrano, batizou o volume: Entre Contos, um Romance. Definição objetiva, com um subtexto que será logo percebido por quem lê. Obviamente pinta um romance entre os personagens do “romance”. Nesse momento os originais (como é antiga essa expressão! Para quem escreve em computador não existe original, mas cópias, cópias rasuradas, cópias esquecidas, cópias mexidas, cópias definitivas) estão nas mãos dos editores. Que podem perfeitamente achar que o resultado é frustrante, e que talvez seja melhor eu escrever um romance tradicional, como o primeiro. Que nem é tão tradicional assim, mas vá lá.

         Por via das dúvidas, iniciei um terceiro romance…


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