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Tarso de Melo, poeta

Em minha mais recente visita à Alpharrabio (que comentei aqui), saí de lá com este livro:

 Tarso de Melo0001

Li alguns poemas, coloquei o volume na cabeceira (poucos são os escolhidos, o criado-mudo é pequeno) e fui aos poucos convivendo com a poética de Tarso de Melo. Mal o conheço, trocamos meia dúzia de palavras na vida. Melhor assim, distanciamento faz bem quando temos de falar mal. Ou falar bem.

                Não sou grande leitor de poesia, confesso, e boa parte dos poetas contemporâneos me parecem monótonos, repetitivos, engraçadinhos ou, na melhor das hipóteses, epígonos. A poesia sempre me pareceu um jeito meio preguiçoso de expor um ponto de vista (perdão, Euterpe!), o que me fez optar pela prosa como porta principal de percepção deste e de outros mundos. Ainda assim, de vez em quando a leitura de um poema pega na veia, me deixa extasiado. Pode ser Lorca, Kaváfis ou Ademir Assunção. Pode ser Fábio Brazil, pode ser Airton Paschoal. Ou Cabral, ou Mistral. Ou Sérgio Vaz, tanto faz.

                Tarso começou a publicar em 1999. Sua antologia é uma viagem na contramão do tempo, começando com poemas recentes e indo até A Lapso, o volume inicial. E o primeiro poema publicado poderia ser o mais recente. Dá pra sentir maturidade, coesão, perceber o olhar reflexivo e inquiridor frente aos mistérios do mundo. Fala de Marcel Marceau, o mímico francês.

Lúdico

Antimúsico

Guardando

Um pássaro

Em cada pulso.

 

                Por vício de formação, gosto de imagens. Coisas introspectivas, que falam da alma, dos sentimentos, costumam me entediar. Como não visualizar o que está sendo dito? E Tarso de Melo é uma festa para meus olhos cansados. Pinta cada verso com cores que reconheço de cara:

Poderia falar do azul,

Seus resíduos, lugares

Que frequenta, outros

– não este sufoco cinza

E sólido, diário suicídio.

                O amor por versos encadeados (o tal do enjambement) é recorrente. O estilo vai se encorpando com o tempo, e vemos o verso abrir espaço para reflexões maduras, como o poema de abertura da coletânea, inspirado no aniversário de Oscar Niemeyer.

 104, quase 105 anos cedendo a vez à morte alheia

 

Mas o que é uma coletânea? O que são quinze anos na vida de um poeta? Passeio pelo volume de capa dura, abrindo ao acaso algumas páginas. Imagens. Às vezes lancinantes.

 

Imigrantes ilegais ateiam fogo ao próprio corpo.

 

                Fala sério. Depois de ler uma linha como essa, fecho qualquer volume e fico remoendo os males do mundo no escuro. Mas o final do poema tripudia:

­desempregados ganham chutes, manifestantes, chumbo.

Fronteiras – cada vez mais – precisam de muralhas.

O vocabulário é persistente: fome, seca, sede, guerra,

Por seu turno, líderes mundiais lideram o mundo

(atores sempre atuam) o poema, estranhamente mudo.

 

                Mundo mudo. Folheio o livro, busco saídas. Há coerência em cada degrau da trajetória. Originalmente nem eram livros, daqueles que param em pé, mas plaquetas de um jovem poeta andreense. Alguns motivos amarram os feixes. Cenas Mudas descreve fotogramas de um filme imaginário. Em Nenhum Canto o longo poema é pontuado por um quase-refrão (a lua cansada/ e um sol inquieto eram tudo/ o que vinha do céu) onde os adjetivos são trocados a cada página. Por Nada faz uma contagem regressiva (e aflitiva) da paisagem urbana. Tememos pela explosão no final… Planos de Fuga exercita a prosa poética de alta densidade. Era de Aquário reúne poemas que tem apenas CEPs como título. 01005-010. 09041-300. Fica o desafio de descobrir a que logradouro se refere, após a leitura. Este último é o CEP da livraria Alpharrabio, vejam só. Uma fotografia da paisagem urbana.

Os que passam no ônibus

(que parecem querer entrar

na livraria) olham para cá

e encontram seus sustos

 

dentro do aquário

confortados

alguns tomam café, outros

mexem nos livros (há um jardim

que ofende o asfalto)

 

quem são aqueles – ? –

que não vão a lugar algum,

parecem ter chegado

aonde queriam

 

                Confesso não saber se cheguei onde queria. Mas poemas assim dialogam comigo, não buscam uma verdade absoluta, são quase uma interrogação. “Os loucos do bairro tragam a tarde e não se abalam”. Coloco o livro de volta na cabeceira e apago a luz, esperando sonhar com os versos da contracapa:

É pouco o que as poças dizem

Sobre a chuva, é mínima a memória

Que os mapas guardam do mundo

O suor na camisa, na calça, nas meias,

Tudo trai a violenta passagem do sol.

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