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Literatura como vingança

             O excelente filme Animais Noturnos, de Tom Ford, de 2016, parte de uma situação aparentemente banal para trazer uma questão que paira sobre os escritores, como um espectro: alguém é capaz de escrever um livro por vingança?  O filme é baseado num romance de Austin Wright, “Tony and Susan”.

           Como muita gente não viu o filme nem leu o livro, cabe aqui uma pequena sinopse. Susan, uma galerista chique de Nova York, recebe um envelope com um texto original de seu ex-namorado, Edward. Trata-se de um romance, chamado Animais Noturnos, que ela começa a ler na mesma noite.

        A partir daí, entremeiam-se as narrativas. Notamos que Susan (vivida pela excelente Amy Adams, de A Chegada) tem uma relação terminal com o atual marido. A história-dentro-da-história mostra um casal (Amy e Jake Gillenhaal) que, acompanhados da filha adolescente, viajam pelo meio-oeste americano de carro, e são abordados por uma gangue liderada por um psicopata chamado Ray (Aaron-Taylor Johnson). A partir daí, tudo é terror.

         Voltando à primeira linha narrativa, alguns flashbacks mostram que o rompimento entre Susan e Tony se deu porque ela o considerava “fraco”, além da evidente distância social que os separava. Amy é rica, filha de uma mãe esnobe (Laura Linney), e fica dividida entre sacrificar seu amor ou seu modo de vida.

                Não vou entrar em detalhes, para não estragar o prazer de ver o filme. Mas a questão moral que se coloca é a de uma obra de arte – um romance -, servir de expiação, vingança, declaração de amor, ódio, desespero, desprezo, rancor. Esses sentimentos tão humanos e vitais levam a alguém a escrever um livro?

                Ouvimos algumas vezes que o que move os artistas é a vaidade. Pode ser verdade, se pensarmos na sociedade do espetáculo em que vivemos. Mas duvido que Camões, Shakespeare, Cervantes ou Dante tenham escrito por vaidade. Até o vil metal é um motivo mais justificável para estes artistas, no contexto em que viviam. Dante atirou vários desafetos ao Inferno, na Divina Comédia, lembrou-me um amigo internáutico. Mas não foi somente vingança que motivou toda a arquitetura da Divina Comédia, ou não haveria um Purgatório e um Paraíso.

                Claro que a vingança pode se dar pela forma da sátira, do humor, do sarcasmo, da caricatura. Gregório de Matos, ao desbancar o governador Tucano em versos, no século XVII na Bahia, estava se vingando. Mas isso geraria um romance? Podemos supor que uma obra moderna da literatura brasileira, como Um Copo de Cólera (Raduan Nassar), tenha sido escrita por vingança? Não, o último capítulo desmonta a tese. Escrita com raiva pode até ser, o título explicita isso, mas é uma (desesperada) declaração de amor.

            Outros exemplos ocorrerão, certamente, a quem se debruçar sobre a questão. Mas fica aqui a recomendação ao filme, muito bem dirigido, roteirizado e interpretado. A abertura é inesquecível, com aquelas mulheres velhas e obesas, completamente nuas, dançando como cheerleaders para o público. Esse filme jamais passará na TV aberta sem cortes… As passagens da ficção que assistimos para a ficção-dentro-da-ficção são muito bem feitas, e o desenlace é realizado com grande ousadia. Uma sequência de alguns minutos, estática e melancólica, que provoca reflexão e, para os mais atentos, iluminação.

      As mortes são simbólicas, e há vários outros símbolos espalhados pelo filme/narrativa. Separar o real-ficcional do real-real é o grande desafio deste filme memorável, que afinal nos faz pensar sobre quantas dessas questões se colocam em nossa própria existência.

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