Posts Tagged 'Zé Luiz Mazziotti'

Uma arquitetura musical

Futuro e memória

O edifício São Pedro, inaugurado em 1951 na Praia de Iracema, em Fortaleza, foi o primeiro da orla. Seu perfil elegante e original marcou a memória de muita gente. Hoje é uma ruína, e suas lembranças assombram poetas, músicos, artistas plásticos e mendigos.

Partiu da dupla Rogério Franco e Dalwton Moura a ideia de construir um disco-show-homenagem ao marco arquitetônico (Futuro e Memória, Jazz, 2018). O projeto ambicioso conta com as fotos de Luiz Alves, encartadas em uma caprichada caixa-poster, projeto gráfico de Caio Castelo, e uma plêiade de músicos cearenses de várias gerações.

Dez composições são de Rogério e Dalwton. Uma conta com a ajuda de Paulo César Oliveira, e outra é só de Dalwton.

A faixa-título abre o disco e conta com um convidado especial, Zé Luiz Mazziotti. Acompanhado de piano e violoncelo, a voz macia do cantor desfia as “feridas que o passado esculpiu”, em clima nostálgico. O clima de bossa-nova saudosista marca a segunda faixa, Mais Que Sonhar, bem cantada por Kátia Freitas, e com belo desempenho nas cordas de Cristiano Pinho.

A balada A Quem Sonhou o Amor é interpretada com delicadeza por David Duarte, e prepara o clima para Uma Canção A Mais, um fox onde o veterano Rodger Rogério constrói um clima de boate, junto com o trompete de Ricardo Abreu e a guitarra de Hermano Faltz. Téti, claro, conduz a quinta faixa, Reinvenção, lembrando que “o tempo prende quem quiser/ lhe escapar/ lhe iludir”.

Gilmar Nunes é a voz da faixa de sabor pop Ao Pé do Ouvido. Eudes Fraga conduz O Compositor, e o próprio Rogério Franco interpreta O Que Virá, com o auxílio luxuoso de Nonato Luíz ao violão. Dispensando os vibratos, a afinada Paula Tesser retorna ao clima de bossa na nona faixa, Surpresas.

Mais sacudida, a canção Tudo é conduzida por Edmar Gonçalves, e prepara o clima mais telúrico de Vida-Sol, onde a percussão marca o arranjo de Ítalo Almeida, com um leve acento de maracatu. Calé Alencar entoa versos que convidam a “passear pelo ontem/ pelas faces de nossa cidade”. E o conjunto de doze canções é fechado por Cantarte, outra balada de letra melancólica, na voz de Paulo Cézar Oliveira.

É óbvio que as composições não “descrevem” o velho edifício, mas remetem a sensações e sentimentos que estão ligados à sua memória. Falam também de pessoas, de amores, de tristezas, ausências. Senti falta de faixas alegres, festivas, apaixonadas, pois isso também fez parte do microcosmo humano que povoou a histórica edificação. Imagine quantas traições, mentiras, declarações, gargalhadas, ódios e rancores também marcaram momentos no São Pedro!

Mas a opção do belo disco-objeto Futuro e Memória é outra, mais introspectiva. E, a partir do mote arquitetônico, estabelece relações entre artistas de variados calibres do edifício musical cearense. Não é pouco.

(publicado em http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

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O adeus de Célia

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Final dos anos 60. A jovem Célia, dona de voz potente e bem calibrada, é incentivada pelos amigos a arriscar a sorte em programas de calouros, herança da era radiofônica que acabou conquistando espaço na televisão. O trampolim acaba sendo o programa Flavio Cavalcanti, no ano de 1970, e Célia logo consegue suas primeiras gravações.

            O primeiro disco recebe vários prêmios, e lança holofotes em direção à jovem cantora de rosto bonito e corpo renascentista. Com um repertório oscilando entre o romântico (Roberto Carlos), o pop e a MPB, emplacou alguns sucessos. Cantava Joyce, Lô, Marcio Borges, Toninho Horta e Fernando Brant, entre outros. Mas Adeus, Batucada, de Sinval Silva, velho sucesso de Carmen Miranda, mostrou que havia ali uma intérprete diferenciada de samba, capaz de unir força e delicadeza, controlando as rédeas da emoção com uma entonação perfeita e um timbre envolvente.

            Estava dada a receita. A gravação de Onde Estão os Tamborins (Pedro Caetano), um sucesso nacional, apontou o caminho, mas o mercado foi cruel. Nenhuma gravadora queria uma cantora de samba branca e paulista, depois da efervescência dos festivais da década anterior. Alguma coisa parecia estar fora do lugar.

Paulista sim, e da gema. Célia pouco se afastou da cidade que amava, e tornou-se um nome conhecido da noite, cantando em casas noturnas, teatros e cruzeiros marítimos. Profissional da voz, diversificou o repertório, e se virava bem em vários estilos. Quem a viu no palco conheceu uma diva errante, cuja luminescência deixava marcas indeléveis na memória.

Célia cantou valsas, toadas, boleros, mambos, tangos, merengues (gravou um disco delicioso com a banda Son Caribe!), revisitou várias vezes Roberto Carlos, recriou muitos clássicos da MPB. Em 1998 divide o palco do Tom Brasil com outro grande cantor da noite, Zé Luiz Mazziotti, no show Ame, e a mistura foi tão boa que rendeu um dos mais perfeitos songbooks já gravados em nosso país: o CD Pra Fugir da Saudade (2000) , onde a dupla repassa algumas obras primas de Paulinho da Viola.

            Sucesso de crítica e de estima entre os cultuadores da MPB, mas nada de tocar no rádio. O destino parecia selado para Célia. Outro encontro bem sucedido, com o violonista Dino Barioni, resulta no CD Faço no Tempo Soar minha Sílaba, de 2007, onde vai de Caetano até Lamartine Babo, passando por Elton Medeiros, Dominguinhos, Chico Buarque e Martinho da Vila, incluindo duetos com Zélia Duncan e Beth Carvalho. Quem não se emocionar ouvindo sua interpretação de Mãe, Eu Juro! (Adoniran), só pode ter a alma sebosa e o coração peludo!

            Só estes dois CDs bastariam para colocar Célia no panteão das grandes cantoras brasileiras. Mas em 2010 ela ainda ataca com O Lado Oculto das Canções, ampliando o repertório com autores como Adriana Calcanhoto, Ângela Roro, Ana Carolina, Zeca Baleiro, Tim Maia e Zélia Duncan, sem deixar de lado os amados Vinicius e Baden Powell.

            A voz esplêndida e a risada generosa de Célia calaram-se no dia 29 de setembro, após uma luta inútil contra um câncer de pulmão. Tinha 70 anos plenos de jovialidade e uma voz intacta. Ouço, reouço e proclamo: tivemos a felicidade de viver na mesma época de uma das maiores cantoras que esse país já teve. Pena que poucos prestaram a devida atenção…

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira).


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