Arquivo de fevereiro \25\UTC 2013

A blogueira cubana e o bloqueio econômico

Yoani e Sarney

                É curioso como alguns conhecidos se espantam ao me ouvir fazendo críticas à blogueira cubana Yoani Sanchez. Já li várias textos escritos por ela, e sempre estranhei o fato de não se posicionar com clareza em relação ao criminoso bloqueio econômico que os EUA promovem em relação a Cuba. 

                É como se esse crime de lesa-humanidade, sufocar um país de 11 milhões de habitantes, fosse algo “normal”. Afinal, as pessoas nasceram e cresceram ouvindo inúmeras vezes que Fidel é um ditador, que Cuba não tem liberdade, etc. É justo tentar matar 11 milhões de pessoas de inanição, parece ser o hediondo corolário desse tipo de raciocínio.

                A nação mais poderosa do mundo apoia as ditaduras que lhe convêm. As sanguinárias ditaduras latino-americanas dos anos 60 e 70, com seus milhares de assassinatos, torturas e “desaparecimentos”, recebiam apoio técnico e político do Grande Irmão do Norte. Várias ditaduras africanas, árabes e orientais também contaram (e contam) com o beneplácito ianque. Alguém imagina Obama decretando um bloqueio econômico à China, por exemplo? Não, a covardia é tanta que isso só é feito com o pequeno país caribenho.

                E deploro que brasileiros, que sofreram com mais de vinte anos de ditadura apoiada pelos gringos, achem normal que se persigam os cubanos, por serem “comunistas”. Outro mito, herdado da Guerra Fria, que se enraizou no cérebro de  vários jovens que nunca viveram de fato a “nossa” ditadura. O comunismo tropical de Cuba jamais teve as tintas sombrias de alguns países do Leste Europeu. E a vida na ilha é, até hoje, apesar dos pesares, bem melhor que a de seus vizinhos apoiados pelo capitalismo. Você prefere viver em São Domingos, Haiti, Jamaica, etc? Vai lá, meu filho, e boa sorte! Sem a revolução, Cuba seria mais um desses “paraísos”.

                E repetem, nas redes sociais, chavões dignos do jornalismo de sarjeta praticado pela revista Veja. “A blogueira é censurada em seu país”. Mentira. Até já foi, mas logo perceberam sua irrelevância e desde 2011 escreve à vontade. Julian Assange é censurado nos EUA, assim como Fernando Gabeira. O blog de humor Falha de SP é processado pela Folha, que impede a livre manifestação de um blogueiro aqui no Brasil. É, Joãozinho, a velha imprensa brasileira posa de defensora da liberdade, mas manipula informações, esconde fatos, inventa outros e censura, quando lhe convêm. A sessão de cartas do Estadão é uma das coisas mais patéticas e censuradas que existem na imprensa brasileira. Só publicam ataques ao Lula e ao PT, mesmo que sejam mentiras deslavadas. Tente defender, utilizando dados reais da economia. Jamais será publicado, caro leitor!

                Mas voltemos a Yoani. Alguém soprou a ela que não soaria bem no Brasil declarar apoio ao embargo econômico. Nas entrevistas, ela diz que é contra. Mas não assina manifestos, não reclama em sua coluna, comprada e traduzida em mais línguas que o blog do Obama. Comprada por quem? Pela velha imprensa conservadora de direita, que não suporta a existência de Cuba.

                A Anistia Internacional, que tem ajudado Yoani com frequência, admitiu em relatório de 2011 que Cuba é o país latino-americano onde mais se respeitam os direitos humanos. Surpresa? Lembre-se de que o conceito de direitos humanos inclui direito à educação pública e gratuita, à saúde, à moradia, ao trabalho. Quem chega a Cuba vê um cartaz muito simbólico, logo que sai do aeroporto: “200 milhões de crianças dormem na rua, em todo o mundo. Nenhuma é cubana.”

                Mas o burguesinho (falar de Cuba sempre traz à tona expressões em desuso), de barriga cheia, com bom emprego e shopping center pra passear, diz que “a liberdade de expressão é fundamental.” Concordo. Se eu morasse em Cuba, provavelmente estaria engajado em movimentos contra a censura.

                A diferença entre eu e o burguesinho é que aqui, no Brasil, eu também estou nessa luta! Participei da Confecom, quero um novo marco regulatório para as comunicações (o nosso é de 1962!), defendo o fim dos monopólios midiáticos, desejo que a comunicação não seja vista como um negócio privado, mas como um bem público. Apoio a corajosa medida de Cristina Kirchner, que ousou enfrentar o grupo mais poderoso de lá (com uma notável folha corrida de apoio a golpes militares, torturas e atos de arbítrio). Imprensa não deve ser monopólio de poucos. A opinião de cinco famílias milionárias representa a opinião de todo o povo brasileiro?

                Apoio racionalmente o controle social da mídia. Como ocorre, em diferentes graus, na Inglaterra, na França, em Portugal, na Holanda e mais um bom punhado de países civilizados. Os jagunços da imprensa brasileira (vejam o lamentável exemplo da Veja, que descamba para o pior tipo de partidarismo em defesa de seus obscuros interesses) são contra a democratização dos meios, como são contra a reforma agrária (que os tais países de Primeiro Mundo também fizeram, aliás). E defendo internet livre, sem censura, em Cuba, na China ou aqui. Cadê os valentões que não se mobilizam para pedir liberdades democráticas na China? Bater em pequeno é fácil, né?

                Grupos de jovens de esquerda resolveram protestar contra a blogueira cubana. Vivemos num país livre, podemos protestar contra Yoani, Berlusconi, o Papa, o escambau. Mas, em minha opinião, só encheram a bola da moça, que seria muito menos percebida sem aquela “recepção”. Deram relevância a quem não merecia…

                Ontem me deu um estalo. Perguntei a um detrator de Cuba se ele sabia como funcionava o bloqueio econômico. Calou-se, mergulhado na própria ignorância. É assim que neguinho toma posição: ouve o galo cantar, não sabe onde nem porque, mas apoia. Aprendeu, desde pequenino, que é preciso odiar Cuba. E faz isso, sem raciocinar. Claro que você, meu querido leitor ou leitora, sabe bem como funciona, mas vou resumir para algum incauto que aqui apareça. Suponha que você é dono de uma frota de navios. Marinha mercante, claro. Os EUA te avisam que se levar qualquer carga para Cuba, não poderá aportar na terra do Tio Sam. Entendeu? Conhece a CVC, maior companhia de turismo popular do Brasil? Recebeu um aviso singelo: Se fizer algum pacote para Cuba, está fora de Miami. Entendeu, Joãozinho, ou preciso desenhar?

                Sou a favor da diversidade biológica, social, estética e política. Nós, a humanidade, precisamos de Cuba, é mais uma experiência dentro da grande aventura da espécie sobre a face da Terra. O neoliberalismo já deu com os burros nágua, a Europa está se debatendo em uma crise feroz, com milhões de desempregados. Será que não temos nada a aprender com Cuba? Como resistiu tanto tempo ostentando bons índices de desenvolvimento humano e social? Como ganha tantas medalhas no esporte? Como é tão rica na música, na dança, na literatura?

                Ah, quase ia me esquecendo. O lugar onde mais se desrespeitam os direitos humanos em Cuba chama-se Guantánamo. Adivinhe quem administra?

Um carnaval dos diabos

Faz algum tempo que não escrevo, né? Confesso que a tragédia de Santa Maria me deixou meio perturbado. Não quis comentar o assunto, mas também não me animei a falar de outra coisa.

E chegou o Carnaval, para desanuviar o espírito. Duas semanas antes, com dois dedos do pé trincados, arrisquei ir a um baile de pré-carnaval. Uma festa linda, promovida pelo pessoal da Banda Vai Quem Quer, uma das mais animadas de São Paulo. Uma bela banda, que tocou marchinhas clássicas e modernas, com um repertório autoral que me cativou pelo bom humor e criatividade. E ainda desencavaram coisas divertidas como Fantasia de Diabo:

A minha fantasia de diabo

Só falta o rabo, só falta o rabo

Eu vou botar um anúncio no jornal:

Precisa-se de um rabo

Pra brincar no carnaval.

Carnaval Vai Quem Quer

Carnaval Vai Quem Quer 2

Fiquem ligados no repertório da Vai Quem Quer, assim como nas marchinhas que concorrem anualmente na Fundição Progresso, no Rio.

Passada a farra, o pé se ressentiu. Durante o Carnaval fui para uma praia em Paraty, sem luz elétrica, telefone ou celular. Um paraíso chamado Saco do Mamanguá, onde aluguei uma casa com um grupo de amigos queridos. Quatro dias de sol, mergulhos, remadas, caminhadas leves, fotografias, comidinhas, boas conversas, noitadas de violão e hectolitros de cerveja (além de uma boa parati, claro).

A casa

Pico do Mamanguá

Amanhecer no Mamanguá

Pois não é que em pleno domingo de Carnaval, o paraíso foi invadido por diabos? No dia seguinte o papa renunciou. Sei lá, há uma certa sincronicidade nisso tudo…

Diabos

Diabão