O entomólogo

Entomólogo

Alexandre Nemésio Brownson (1870/ 1942) dedicou toda sua vida à entomologia. Famoso por descobrir, classificar e catalogar mais de 200 espécies, várias vezes homenageou professores e colegas ao nomear um novo artrópode.

Todos estranharam quando, na volta de sua última excursão à Amazônia, batizou uma espécie desconhecida de aranha com o nome da ex-esposa, com quem não falava há mais de quinze anos. Picado, não resistiu ao potente veneno, vindo a morrer de complicações respiratórias.

Anúncios

O eletricista de cinema

Crucificação

Inácio de Lima Neto era apaixonado por cinema. Nascido na favela do Buraco Quente, em São Paulo, cresceu ajudando o pai eletricista. Depois de muitos choques, conseguiu uma vaga numa equipe de filmagem.

Liminha, como era chamado, tornou-se um nome requisitado nas produções da Boca do Lixo, em São Paulo, nos anos 70. Trabalhou em pornochanchadas, em documentários, em filmes de época. Chegou a aparecer como figurante em duas ou três produções.

Certo dia Liminha teve a mão esmagada pela queda de uma grua, em pleno set de filmagem. O técnico de som gravou tudo. O editor utilizou seu grito de dor e os gemidos subsequentes para uma famosa cena de crucificação.

Os críticos detestaram a cena, alegando que os sons eram muito exagerados, pareciam falsos. Liminha, desgostoso, abandonou o cinema.

 

As penas do preconceito

pássaro pintado

Este livro já morava há alguns anos na prateleira de casa. Escrito em 1965 por um autor polonês, foi um sucesso mundial. Nos últimos anos pouco se ouve falar dele, mas marcou época. Algo me fez passar os dedos por sua lombada, no início desse ano, e decidir pela leitura.

            Que narrativa impressionante! A história de um menino, durante a Segunda Guerra Mundial, que é entregue pelos pais a camponeses para ser protegido dos nazistas. Num país de louros de olhos azuis, o menino moreno será sempre visto como diferente: ou é judeu ou é cigano. O título provém de um personagem que captura um pássaro, pinta suas penas com cores variadas, e se diverte vendo as tentativas da ave de retornar ao seu grupo e não ser reconhecida, sendo atacada pelo bando até morrer.

            E tome sofrimento, maus tratos, fugas, tortura e sadismo, passando por várias aldeias e patrões diferentes, inclusive um padre católico. A impressão é de que estamos na Idade Média, tal a quantidade de superstições e crendices que povoam a história. O instinto de sobrevivência faz com o menino vá se transformando de forma assustadora, até o ponto em que tememos que se torne uma besta assassina, como seus perseguidores.

            A guerra, como sabemos, só acaba quando chega o Exército Vermelho, e pela primeira vez o menino, subnutrido e ferido, se vê tratado com respeito, num hospital de campanha. Agradecido, passa a admirar de tal forma a farda soviética que sonha em partir para a Rússia, e reluta em ser devolvido aos seus.

            O autor, Jerzy Kosinski, é polonês, naturalizado americano. Nascido em 1933, de família judia, viu de perto os horrores da guerra.  Sua obra mais conhecida talvez seja Being There, que no Brasil se chamou O Videota, e foi adaptado para o cinema como Muito Além do Jardim, com Peter Sellers e Shirley MacLaine. Mas enquanto esta se situa no campo da sátira, O Pássaro Pintado tira sua força da descrição da violência, do preconceito, da vilania a que humanidade pode chegar.

              Apesar da intensidade do texto, escrito em primeira pessoa, é bom frisar que não é um relato autobiográfico. Kosinski aproveita lembranças da infância vivida numa Polônia em guerra, mas enfeita, acrescenta, recria, aumenta, inventa. Foi considerado persona non grata em seu país, e teve seu livro proibido, por retratar um povo estúpido, ignorante e cruel. Acusado de plágio, nunca comprovado, acabou suicidando-se em 1991.

            Rico em imagens e símbolos, o Pássaro Pintado provoca reflexões sobre sua atualidade em pleno século XXI. Pessoas perseguidas por serem “diferentes”, lugares onde o tecido social está tão esgarçado que anseiam por uma intervenção militar – a ilusão da ordem -, exploração do trabalho infantil, apologia ao estupro, banalidade do mal: “fizemos isso porque outros fazem”.

            Um livro forte, profundo e dolorido, que deixa entrever em suas brechas uma rude poesia, permeada de sonho.

 

Leituras de 2017

DSC_0021

2017 foi um ano atípico. Afinal, todos são. Existe ano típico? Dei um tempo na literatura, confesso. Perdi dezenas de horas escrevendo bobagens nas redes sociais, respondendo a provocações, abraçando virtualmente velhos amigos e editando fotos de passarinho. Plantei algumas árvores, mas isso é outro assunto.

Li, porque ler é um vício que não quero perder. Alguns ensaios, reportagens, biografias. do Barão de Itararé a Lima Barreto, passando por Neruda, Marighella e Honestino Guimarães.

Noto agora que deveria ter lidos mais coisas relacionadas à música popular, já que escrevo sobre o tema. Vou tirar o atraso em 2018, começando pelo livro de Luciana Sales Worms e Wella Borges Costa, Ao Pé da Letra da Canção Popular, que está na minha cabeceira.

E ficção? Bom, li alguns romances marcantes, outros nem tanto. O Nobel de literatura Pamuk me impressionou, com sua saga turca passada no século XV.  Dois espanhóis, Javier Cercas e Javier María, me ensinaram algumas coisas sobre escrever uma boa história. O português Miguel Souza Tavares foi outra revelação.

Dos brasileiros, o mais marcante foi Edmar Monteiro Filho, com seus contos inspirados em Escher. Proposta ambiciosa, plenamente realizada.  Encontrei um irmão literário em Sérgio Mudado, me deliciei com Marcos Kirst, apreciei a contemporaneidade de Michel Laub, curti a viagem temporal de José Luiz Passos.

Quem não saiu de minha cabeceira foram alguns livros de poesia, embora todos saibam que sou leitor bissexto do gênero. Os setenta poemas de Dalila Teles Veras, coletânea produzida para comemorar seus setenta anos, são preciosos, para dizer o mínimo. Tive a satisfação de indicar um dos poemas do livro, e fico feliz de ser um dos 70 vezes 7 leitores dessa grande figura.

O camarada Airton Paschoa me antecipou algumas provocações do seu Levante, e o Caderno de Intermitências de Rosana Chrispim abriu meus olhos para coisas que eu não via.

Meu amigo Chico Lopes traduziu o livro mais apavorante que li em 2017: O Grande Deus Pã, de Arthur Machen, referência obrigatória para quem gosta de literatura de terror.  Com muitos anos de atraso, finalmente me encantei com um grande livro do americano Cormac McCarthy, e entendi porque é apreciado por tanta gente, como meu amigo-escritor Jadson Barros Neves, que me enviou o volume lá de Tocantins.

Obviamente nem tudo que eu li está representado aí em cima. Alguns foram volumes emprestados que devolvi, outros eram meus mas emprestei,  e há até os que sumiram. E quem reconhecer um livro seu na imagem, fique tranquilo: vou devolver! É só me lembrar de quem é…

Comecei a publicar no Facebook uma série de pequenas biografias mais ou menos imaginárias, que traçam uma espécie de arqueologia da estupidez humana. Crio um texto a partir de uma imagem anônima, geralmente tosca, ou escrevo e depois tento encaixar uma imagem correspondente.  Alguns exemplos podem ser lidos nos posts anteriores.

Se isso vai virar livro, não sei. Não foi concebido pra isso. Mas faço aqui uma promessa de ano novo, já no final de janeiro: terminar o romance policial que comecei a escrever e abandonei há um semestre.

A arma secreta

Antonina Dolores

Antonina Dolores era a caçula das três irmãs mais afamadas da zona de meretrício de Santana do Livramento, na fronteira com a Argentina, no ano de 1816. Quando os soldados de Artigas ocuparam a vila ela não fugiu, como boa parte da população.

Sua contribuição na resistência aos invasores é inestimável. A beleza sensual de Nina, como era conhecida, provocou mais baixas nas tropas invasoras que os soldados do Exército brasileiro. A sífilis ajudou, claro.

O inventor de palíndromos

palindromo

José Olivário (1912/1974) era apaixonado pelas palavras. Escrevente de cartório, coloria sua cinzenta existência criando palíndromos. Consumiu milhares de madrugadas debruçado sobre papéis e dicionários, rabiscando aquele que seria sua invenção máxima.

Após quinze anos de trabalho, deu por concluída a sua tarefa. Levou a vários editores o calhamaço de 45 páginas, sendo recebido com desconfiança e até desprezo. Ninguém deu valor àquele cipoal de palavras, algumas de idiomas obscuros e desconhecidos,

Olivário sucumbiu ao alcoolismo, e morreu sem ver sua obra prima publicada. Sua filha Ana usou a papelada para forrar a gaiola do papagaio, e a humanidade ficou sem conhecer o maior palíndromo do mundo.

 

O encantador de tainhas

Tainha

Na praia onde eu nasci, na Baía de Todos os Santos, havia um encantador de tainhas. Jamais conheci, em nenhum outro lugar da imensa costa brasileira, alguém com tal dom. O homem, de quem infelizmente só lembro o prenome, Pedro, era um negro magro, meio calvo, cujos fios de barba começando a clarear indicavam idade avançada ou penúria vivenciada.

Quando chegava o inverno os cardumes de tainhas costeavam a baía, e os pescadores saíam com suas redes e barcos tentando cerca-las. Alguns se penduravam nos penedos e atiravam bombas juninas no meio do cardume, o que fazia com que as tainhas tivessem morte imediata, boiando de barriga para cima. Aí era só mergulhar e catá-las.

Muitas vezes o cardume era visto passando ao largo, sem se aproximar da falésia. Então Pedrão, como o xamã era chamado, encarapitava-se na pedra mais avançada sobre o oceano e entoava um estranho canto, algo parecido um aboio. O cardume mudava de rumo e se dirigia para as proximidades da praia, onde as redes, barcos e bombas completavam o serviço.

Não conheci mais ninguém que dominasse esta arte. Talvez  Pedro tenha sido o último dos homens na face da Terra a se comunicar com as tainhas.


Anúncios