As Aparências

Escrevo contos há um bom par de décadas, embora só tenha publicado em antologias esparsas e alguns sites literários (portanto, obscuros e desconhecidos da grande maioria).

Sinceramente, nunca me animei muito em publicar um livro de contos. Publiquei um romance em 2016, Terno de Reis, que foi bem recebido num círculo restrito de amigos. Enquanto rascunhava causos e histórias, tive a ideia de escrever um romance de contos. Uma trama de fundo, onde cada capítulo fosse entremeado por um conto. Não se tratava de nenhuma invenção revolucionária, uma vez que desde as 1001 Noites isso não é novidade: histórias dentro da história.

Para resumir, um jovem ator se envolve com uma professora de literatura, e vai mostrando para ela sua produção. O toque de pimenta da narrativa era o romance que emergia entre um rapaz de vinte e poucos anos e uma mulher próxima dos quarenta. Ordenei os contos que estavam na gaveta em uma certa ordem, mexi em um ou outro, escrevi dois novos. As coisas se encaixavam. A professora fazia certas críticas, e o aluno tentava corrigir. Brigavam, e isso se refletia no próximo conto. Passavam um fim de semana perfeito na praia, e isso resultava em novo conto.

Ficou interessante, mas resultou em mais de 300 páginas. Em tempos de crise, recessão editorial, custos de gráfica proibitivos e política cultural sombria e obscurantista, um escritor quase desconhecido lançar um romance com tal pretensão me pareceu loucura. Minhas primeiras-leitoras se dividiram: minha sogra, Maria Alice, adorou a novela, achou que os contos atrapalhavam. Minha filha disse que final feliz era um ato ousado, nos dias de hoje. Minha amiga (e editora) Sandra Abrano se declarou fã dos contos.

Após conversa com os meus editores, resolvi lançar um livro apenas com os contos. Uma espécie de antologia pessoal dos últimos 20 anos. Alguns, até premiados, ficaram de fora. Um conto de ficção científica, por exemplo, não se encaixava. Fica pro próximo volume, se houver. Semana que vem conto mais um pouquinho das peripécias de montar um livro de contos, e o orgulho de ter uma capa de Lenio Braga e um prefácio de Edmar Monteiro Filho. A editora Penalux já colocou à venda através de seu site, ,(http://www.editorapenalux.com.br/catalogo…/as-aparencias). Aliás, visite o catálogo da editora, tem muita coisa interessante!

A Justiça e a boiada

As artes plásticas, historicamente, portam características narrativas muito específicas, como a capacidade de tocar de forma sensível corações e mentes. Por “mente” entenda-se a cultura, a inteligência, a capacidade de interpretar símbolos e mensagens ocultas. O antigo adágio de que uma imagem vale por mil palavras nada mais é que uma definição popular desta qualidade.

Mais velha que a palavra, a imagem está presente desde os primórdios da humanidade, como guardam testemunho cavernas e rochedos em todo o mundo. Mesmo após a revolução de Gutemberg, continuou tendo espaço em todo tipo de publicação, através de gravuras, desenhos e pinturas. Com o advento da fotografia, abriu um novo campo de atuação simbólica, que só se ampliou na era digital.

A velha charge, aquele desenho-comentário sobre situações ou pessoas, geralmente com conteúdo crítico ou irônico, surgida em meados do século XVIII e indispensável a partir da popularização da imprensa escrita, continua presente e forte em todas as redes sociais. E é sobre uma delas que me detenho, após um 7 de setembro de tantas expectativas e tanto fiasco.

Marcos Ravelli, que assina suas charges como Quinho, tem produzido peças antológicas. Aliando economia de traços com humor atento e refinado, é um artista com pleno domínio dos recursos narrativos da imagem. Atentem para a capacidade de síntese da ilustração acima, divulgada em vários veículos nos últimos dias.

Quinho coloca com central a figura da Justiça. Não uma justiça qualquer, mas aquela representada pela escultura de Alfredo Ceschiatti, que ornamenta o Ministério da Justiça, em Brasília, reconhecível pela cabeça singular, com a parte superior coberta pela tradicional venda (“A justiça é cega”). A estátua original está placidamente sentada, com a espada sobre as coxas. Na obra de Quinho, a estátua se levanta, empunhando a espada em atitude de defesa. No outro braço, segura um pano vermelho, que imediatamente nos remete à figura de um toureiro.

Completando a analogia, vemos a sombra de um enorme touro, reconhecível pelos chifres, projetar-se sobre a personagem central. Ao lado, várias outras sombras simbolizam o gado, a boiada que acompanha o líder, o chifrudo-mor.

É perfeita a representação do embate atual entre os poderes, no Brasil. De um lado a Justiça, poder absoluto – que não pode ser confundida com alguns de seus representantes terrenos, por vezes covardes e caricaturais -, de outro o ocupante do Executivo, insuflador de golpes e ataques à democracia.

Algum distraído poderá argumentar que falta nesse embate a presença do povo, das organizações sociais e populares que também estão na rua defendendo o Estado de Direito. Bem, voltemos ao pano vermelho. A cor da fraternidade, conforme os princípios da revolução francesa, pode também ser entendida como uma provocação a uma das frases favoritas dos ativistas de direita: “nossa bandeira jamais será vermelha”.

Mas quando a Justiça empunha uma bandeira vermelha para enfrentar os desvarios totalitaristas do presidente e seus sequazes, abre-se caminho para duas linhas de interpretação. Ou a Justiça usa o povo para defender seus próceres, ou, o que é mais provável, precisa do povo para enfrentar os ataques aos seus princípios. Partindo de um humanista como Quinho, optamos sem dúvida pela segunda hipótese, embora a ironia da primeira não possa ser totalmente descartada.

Nesse retrato sintético do momento convulso que vivemos, a bandeira precisa ser vermelha (também de forma simbólica, claro), uma vez que a boiada ameaçadora usurpou a tradicional verde-amarela. Tanto para preservar o que nos resta de Justiça, como para reforçar a necessidade da fraternité, driblando divergências políticas eventuais, é com ela que vamos superar a crise e restaurar a plena democracia, da qual experimentamos o gosto não faz tanto tempo assim.

Tinhorão e a música na literatura brasileira

Longe de ser em ensaio ou artigo acadêmico, este artigo é uma rememoração pessoal. Posto isso, vamos começar situando (sempre achei “contextualizando” meio pedante) época e local.

São Paulo, anos 90. Trabalhava numa emissora de TV, e fui escalado para dirigir uma entrevista com o famoso e temido crítico musical José Ramos Tinhorão. Digo dirigir, porque a nossa repórter era fraquinha, e precisava de um apoio. Não tinha envergadura, bagagem e traquejo para entrevistar um Tinhorão. Por prudência, lá fui eu, roteirista e diretor-adjunto, com ela e a equipe. Cá entre nós, eu também não era lá essas coisas. Sabia quem era o cara, e isso bastou para que eu fosse escolhido “diretor de reportagem”.

Tinhorão havia acabado de lançar um livro interessantíssimo (com a devida vênia a Mario de Andrade), onde mapeava a Música Popular no Romance Brasileiro (Oficina de Livros, 1992). O primeiro volume analisava a produção literária dos séculos XVIII e XIX.

Passei umas dicas para a apresentadora do programa, a entrevista foi razoável. Difícil foi arrumar um local adequado para gravação, já que o apartamento na rua Maria Antônia era atulhado de livros de tal forma que para ir ao banheiro você tinha de andar de lado. As paredes dos corredores eram ocupadas por prateleiras abarrotadas com alfarrábios de vários séculos, além de centenas de discos de muitas rotações.

Após meia hora de entrevista gravada, dispensei a equipe e o camburão da emissora. Tínhamos muito mais que o necessário para um programa matinal de variedades, mas decidi ficar. Já era fã de seu clássico ensaio Os Sons Que Vem das Ruas, onde pesquisou os pregões, serenatas e cirandas, muitas vezes anônimos, que eram a trilha sonora das ruas urbanas antes do rádio e da televisão. Eu, aluno, dei um golpe de mestre: abri a mochila e pedi um autógrafo no volume, publicado por “Edições Tinhorão”. Puxei uma conversa, me declarei amante da música popular brasileira, cantarolei um samba do Nelson Cavaquinho, e perguntei sobre onde almoçar ali perto.

Bom, ele foi até o boteco comigo, dividimos um franguinho (era uma quinta-feira. A entrevista de “cultura” do programa ia ao ar sempre na sexta). Tinhorão comentou que havia um movimento dos moradores do prédio para expulsá-lo, porque o peso dos livros e discos estaria comprometendo as estruturas do edifício.  Falei do meu interesse pelo choro, ele me indicou a leitura do Animal*, que eu não conhecia. Lembro que depois de uma(s) cerveja(s) fiz uma provocação.

– Não é possível ler toda a produção ficcional brasileira, mestre! Certamente há obras menos conhecidas, que não entraram na pesquisa…

Não seria uma tarefa normal para um humano, claro. Mas Tinhorão era sobre-humano. Na volta ao apartamento, que ele havia transformado num verdadeiro apertamento, me levou até um quarto e apontou para a parede atulhada:

– Aqui estão os romances brasileiros publicados desde O Filho do Pescador, de Teixeira e Souza, de 1843. Abra qualquer um, e veja se não tem marcações e anotações!

Nem tentei. De todos os volumes sobressaíam papeizinhos marcadores de páginas. Não havia só ficção, mas também a obra crítica. Creio ter sido a primeira vez com que me deparei com os sete volumes de História da Inteligência Brasileira, de Wilson Martins, sem estar numa biblioteca pública. Ou os livros de José Veríssimo e Sílvio Romero.

Havia confirmado minha suspeita: o cara era o mais obsessivo e meticuloso pesquisador da música popular desse país. O ambicioso projeto de ler todos os romances brasileiros rendeu vários ensaios: os sons que vem das ruas, a música popular, a origem do fado, as polcas e marchinhas, os lundus e as matrizes do samba.

Além de efetuar minuciosa pesquisa em todas as mídias existentes (sua discoteca de 78 rpm era fenomenal!), jornalista que era, intuiu que o universo ficcional poderia trazer referências sentimentais, memorialísticas, até documentais, que a imprensa cotidiana não registrava. Dessa leitura percuciente surgiram várias obras fundamentais para a cultura brasileira e portuguesa. Tudo isso virou artigo, ensaio e livro.

A leitura de “Música Popular no Romance Brasileiro” – e me refiro aqui apenas ao primeiro volume! –  é fonte inesgotável de revelações. Aponta incongruências, preconceitos, descrições errôneas, idealizações romantizadas de escritores célebres e obscuros. Também destaca acertos, intuições e achados preciosos de nossos beletristas. A forma como a música popular permeia as relações sociais, como se torna elemento deflagrador de vários relacionamentos amorosos (principalmente através da dança), como pontua estados emocionais dos personagens, como é utilizada para dar clima à narrativa.

No decorrer deste inesquecível dia, não ousei levantar o tema bossa-nova ou tropicália. Conhecia a ojeriza do historiador à moderna MPB. Lembro-me apenas de uma pequena referência a Gilberto Gil, que tocou no alto-falante do boteco. Ele concedeu que o baiano era “muito talentoso”, mas que devia parar de copiar aquelas estrangeirices, guitarra elétrica, etc.

Despedimo-nos com a promessa de um novo encontro, que nunca ocorreu. O acervo está nas mãos do Instituto Moreira Salles, depois de uma epopeia mirabolante, e a lembrança do crítico sarcástico e impiedoso com seus coetâneos já foi devidamente esmiuçada em vários artigos provocados por sua morte recente, aos 85 anos. Resta a nós, que algum contato tivemos com esse personagem fascinante, colorir um pouco a história de sua vida, nesse país onde a cultura é tão menosprezada.

O ensaio “Música Popular no Romance Brasileiro” foi pesquisado em mais de cinco mil obras, das quais são citados mais duzentos (informação da orelha da edição de 1972, da Oficina de Livros, de Belo Horizonte) Herança fundamental para todos os estudiosos da cultura brasileira, deixada por um iluminista-marxista que nunca se submeteu aos modismos.

*Animal – Pseudônimo de Alexandre Gonçalves Pinto, carteiro e músico amador (1870-1940). Publicou em 1936 o livro “O Choro – reminiscências dos chorões antigos” referência fundamental para a história da música brasileira.

Borba Gato Vive!

Borba Gato, símbolo paulista mais que quatrocentão, bandeirante de vasta folha corrida, foi um dos primeiros genocidas de nossa história. Além de matar centenas de brasileiros originários, estuprava jovens e crianças indígenas, conforme registros. Serviu aos interesses colonialistas com denodo até se envolver numa treta com o ourives real, Rodrigo de Castelo Branco, que foi encontrado morto numa pirambeira. Borba Gato passou anos escondido no mato, depois desse evento.

Brasil, século XXI. Aldeias indígenas são queimadas de forma criminosa, e um representante da Funai é pego numa gravação dizendo que tem que “mandar bala” nos povos isolados. Favelas encravadas na cidade, em regiões de alto interesse imobiliário, são incendiadas de forma “misteriosa”. Mendigos são queimados com gasolina em via pública. Terreiros de umbanda e candomblé são carbonizados por mãos supostamente cristãs, brancas e defensoras de valores evangélicos. Florestas, campos e cerrados são destruídos por incêndios criminosos, para que novos bandeirantes ocupem aqueles territórios.

Borba Gato está vivo. No espírito do dirigente da Funai, no discurso do Ministro do Meio Ambiente, do Presidente da República, dos dirigentes da Fiesp. Borba Gato é o ídolo oculto de pastores fundamentalistas, dos latifundiários, das elites que acham conveniente elogiar capangas e capachos cumpridores de seu dever.

Incendiar uma estátua de Borba Gato não vai reparar nenhum crime que ele cometeu. Não vai restituir a vida dos milhares de brasileiros que morreram queimados em aldeias, favelas, pontos de ônibus e florestas desde 1718, ano da morte do facínora. Mas certamente vai indignar todos aqueles que se beneficiaram, mesmo sem saber, de sua atuação premonitória e seminal.

Não importa se era uma estátua horrorosa, um bonecão de pastilha, uma homenagem ingênua de Julio Guerra aos bonecos de barro nordestinos, ou um símbolo do bairro de Santo Amaro, erigido em 1963. Não importa o irrelevante valor histórico da obra, que materializa o discurso estético de certa elite paulista decadente. 

O que importa é que o espírito de Borba Gato continua vivo. Infelizmente.

(Publicado originalmente em aterraeredonda.com.br)

A humanidade está ficando burra?

Um pequeno artigo de Christophe Clavé tem causado certo rebuliço nas redes e nas comunidades científicas da área de humanas desde 2020, quando foi publicado. Ele afirma categoricamente que o QI da humanidade, que vinha em constante crescimento, entrou em declínio nos últimos 20 anos. Seria uma inversão da tese proposta em 1982 pelo psicólogo americano James Flynn, que detectou o aumento constante do índice de acertos da população mundial em testes de QI.

Um dos fatores, segundo Clavé, é o empobrecimento da linguagem. Segundo o franco-suíço, “não se trata apenas da redução do vocabulário utilizado, mas também das sutilezas linguísticas que permitem elaborar e formular pensamentos complexos. O desaparecimento gradual dos tempos (subjuntivo, imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado) dá origem a um pensamento quase sempre para o presente, limitado no momento: incapaz de projeções no tempo. A simplificação dos tutoriais, o desaparecimento das letras maiúsculas e a pontuação são exemplos de “golpes fatais” à precisão e variedade da expressão.”

O primeiro impulso dos indivíduos que foram formados lendo livros, enfrentando dissertações e escrevendo artigos acadêmicos é aplaudir com entusiasmo, mas a cautela aconselha colocar uma pitada de sal em algumas dessas afirmações.

Em primeiro lugar, quem é Clavé? Uma rápida pesquisa nos informa que não é um linguista ou cientista social, longe disso. É “professeur de stratégie & management”, e presidente de uma empresa de consultoria e investimentos com sede na Suíça. Tudo bem, pode até ser um executivo bem intencionado, preocupado com o que o que ele afirma ser um “empobrecimento linguístico” dos jovens. Preocupação lídima, independente da formação do indivíduo. Um médico, um engenheiro ou um músico podem ter o mesmo receio, ao ouvir o filho adolescente se comunicar com um vocabulário de trezentas palavras.

Em segundo lugar, falta comprovação científica da bombástica afirmação. De onde ele tirou esses dados? Tudo bem, vamos considerar que é apenas um pequeno artigo opinativo, não uma tese acadêmica. Podemos conceder o direito da dúvida, mas seria de bom tom trabalhar com informações, senão estatisticamente comprovadas, ao menos aceitas pelo senso comum.

Não é raro festejarmos a inclusão de uma palavra nova no dicionário. Mas também é comum esquecermos aquelas palavras que ali jazem entre pares, sem utilidade na era moderna. Se um parnasiano, ou mesmo um modernista, pudesse viajar no tempo e ouvir nossas conversas em pleno século XXI, haveria de achar nossa linguagem muito pobre. As reuniões sociais, discursos e artigos jornalísticos extinguiram os rapapés verbais e cafunés adjetivos, adotando formas mais diretas. Tornamo-nos mais pobres de sentido – ou inteligência, vá lá –  por esse motivo?

Arrisco sugerir que outras linguagens e veículos foram ocupando o espaço da língua escrita do século XIX. Antes tudo deveria ser transmitido através da palavra, do verbo, o que exigia uma gama bastante ampla de vocábulos. Com a explosão midiática da segunda metade do século XX, as coisas, situações, estados, emoções, etc., podem ser sugeridas de outras formas. Não é à toa que uma expressão como “uma imagem vale mais que mil palavras” só poderia ter surgido no século da fotografia, do cinema, da televisão e da internet, embora seja tão gasta que alguns supõem que exista desde a Grécia antiga.

No entanto, é preciso dar crédito a Clavé por levantar a lebre. (Repare, leitor, que estou usando algumas expressões fora de moda para acrescentar certo tempero ao debate). Uma coisa é a capacidade de síntese, outra coisa apelar pra um emoji. E aproveito para, do fundo de minha ignorância multidisciplinar, sugerir que se de fato há um declínio do QI da humanidade, também se deve ao abandono de algumas questões básicas de matemática e raciocínio lógico.

Ninguém mais faz conta de dividir ou multiplicar. Somar, só se for com menos de dois dígitos. O celular, o computador e todos os aplicativos fazem isso em três toques. É corriqueiro chegarmos ao caixa da padaria e vermos o funcionário calcular numa maquininha quanto é um litro de leite mais 4 pãezinhos, coisa que o Seu Manoel da esquina dos anos 60 (20? 30? 40?) fazia num piscar de olhos. Nem vou falar de regra-de-três! Mas devemos concluir que o Seu Manoel era mais inteligente que o atendente da padaria de hoje? Ou apenas que ele não tinha outras ferramentas senão o treinamento para fazer contas mentais?

Lembro-me vagamente de um conto de ficção científica, que li quando jovem, em que num longínquo porvir as pessoas perderam completamente a capacidade de fazer cálculos. Os computadores fazem tudo, e não ocorre a ninguém usar os métodos primitivos do lápis, papel e cérebro. Até que surge um garoto-prodígio que sabe fazer contas. A rede mundial detecta outros, que são colocados numa escola especial, e o conto termina com um monitor-cientista declarando de forma triunfante que “em breve a humanidade saberá extrair uma raiz quadrada!”.

Enfim, são ilações. Não posso concordar com a afirmação de Clavé de que a humanidade está ficando mais burra, sem provas concretas, aferidas e sistematizadas. Sei que em vários momentos isso nos parece evidente, como no Brasil em 2021, mas é um raciocínio movido mais pela emoção que pela razão. A população do planeta aproxima-se de 8 bilhões, e tudo cresce de forma exponencial: a quantidade de ignorantes, de gênios, de pessoas cultas, de artistas e de criminosos. Sempre vai parecer que estamos cada vez mais cercados de gente estúpida, porque não conseguimos distinguir os demais da multidão. Mas isso é uma questão estatística, não linguística.

O artigo de Clavé termina com um apelo para que pais e professores “ensinem e pratiquem o idioma em suas mais diversas formas. Mesmo que pareça complicado. Principalmente se for complicado. Porque nesse esforço existe liberdade. Aqueles que afirmam a necessidade de simplificar a grafia, descartar a linguagem de seus “defeitos”, abolir gêneros, tempos, nuances, tudo que cria complexidade, são os verdadeiros arquitetos do empobrecimento da mente humana.” 

É evidente que há uma motivação humanista, quase iluminista, em nosso professeur. O problema do artigo se circunscreve, portanto, ao desenvolvimento de uma boa ideia a partir de um argumento sem comprovação. É uma casa bonita erguida sobre areia fofa.

Uma Noite em Miami

Quero aqui chamar a atenção para um filme que tem passado despercebido do público brasileiro, mesmo tendo sido indicado a três Oscars em 2021 (ator coadjuvante, roteiro adaptado e canção original).

O filme marca a estreia na direção da atriz Regina King (Oscar de coadjuvante em 2019 por Se a Rua Beale Falasse). Impossível deixar de destacar o fato de uma mulher negra, multipremiada como atriz, se lançar como diretora de um filme onde todos os protagonistas são homens. Não foi indicada para melhor direção, num ano marcado pela forte presença de mulheres, mas poderia. O filme é um poderoso relato sobre personagens reais, reunidos num encontro fictício.

Estamos em fevereiro de 1964. Kennedy fora assassinado em novembro de 63. Os EUA vivem uma forte onda de lutas pelos direitos civis, contra a guerra do Vietnã, contra o racismo. Em Miami, o jovem pugilista Cassius Clay derrota Sonny Liston e conquista o título mundial de pesos-pesados. Vários militantes, esportistas e artistas negros estão na cidade para assistir a luta. Entre eles, Malcolm X, que entrara em rota de colisão com o líder da Nação muçulmana norte-americana, Elijah Muhammad; Jim Brown, aclamado jogador de rugby, detentor de vários recordes na temporada e iniciando carreira de ator; e Sam Cooke, destaque da soul music, autor e produtor de sucessos radiofônicos.

O filme é uma adaptação da peça teatral homônima de Kemp Powers, de 2013, que coloca estes quatro personagens num quarto de hotel discutindo política, religião, ideologia e questão racial. O roteiro adaptado, que contou com a colaboração do próprio Powers, alargou os horizontes da peça, criando um eletrizante prólogo onde a luta polariza todas as atenções. Introduz também os outros personagens, contextualizando os dramas pessoais de cada um. Quando nos vemos confinados no quarto de hotel, já temos informações suficientes para pesar cada diálogo, que muitas vezes são agressivos e cortantes.

As estratégias de cada um para se colocar num mundo dominado por brancos, política e economicamente, são bem distintas. Sam Cooke, além de artista talentoso, é um empresário sagaz, e se torna notável dentro do sistema “jogando o jogo”. Seu embate com Malcolm X é emblemático: embora se admirem mutuamente, discordam em quase tudo. Clay, que está prestes a se converter ao islamismo, não é um intelectual, mas tem uma percepção clara de como pode ser útil ao movimento de resgate do orgulho negro. Brown é mais reservado, porém faz observações argutas como, por exemplo, sobre Malcolm X ter a pele mais clara do que a dele (A mãe de Malcolm era filha de uma negra estuprada por um branco).

Mais não vou contar, para não estragar o prazer de assistir um filme inteligente e provocativo. Mas acordei no dia seguinte com uma velha questão que assombra minha mente há algumas décadas:  quando teremos um filme, romance, documentário ou peça teatral sobre a questão negra brasileira desse período? Não sobre protótipos como Zumbi, Chica da Silva ou Pelé, mas sobre o MNU, Movimento Negro Unificado, que surgiu durante a ditadura de 64? Sobre a Frente Negra Brasileira, criada na década de 30? Sobre Abdias do Nascimento, intelectual militante que fundou o Teatro Experimental do Negro? Sobre a grande atriz Ruth de Souza, dona de trajetória única na dramaturgia brasileira? Ou, mesmo que não sejam protagonistas, que pelo menos apareçam no enredo de uma trama como porta-vozes de uma (imensa) minoria. Obviamente me refiro a personagens questionadores, não meramente ilustrativos.

O Cinema Novo, momento de inflexão estética no Brasil, criou vários personagens negros, mas mitificados, idealizados. As interpretações memoráveis de artistas como Antônio Pitanga, Grande Otelo ou Zezé Motta ficam no plano do simbólico, enquanto a fragmentada realidade política do período era representada por personagens majoritariamente brancos. A recente experiência do filme Marighella, de resgatar um personagem negro que combateu a ditadura, esbarra no fato de que a questão racial passa muito ao largo da trama. É um ícone da esquerda branca, que muitas vezes esquece de sua origem negra por parte de mãe, valorizando o pai italiano. Foi um lance de ousadia do diretor Wagner Moura colocar no papel um ator indiscutivelmente negro, Seu Jorge.

Nos anos 90 entrevistei o professor Clóvis Moura, sociólogo com vasta obra sobre a questão racial brasileira. Ele terminou a conversa com a marcante frase “nós, negros, temos de ser a esquerda no Brasil!”, que acabou sendo a fala de encerramento do documentário Além de Trabalhador, Negro, que produzíamos na época.  Hoje, quando o povo vai às ruas em plena pandemia para enfrentar um governo genocida, penso que indígenas, negros, mamelucos, mulatos e imigrantes de todas as nacionalidades deveriam colorir um pouco mais a estética da esquerda branca no Brasil.

Voltando ao Oscar: não há como deixar de aplaudir a magnífica direção da sino-americana Chloé Zhao, por Nomadland, que denuncia um capitalismo sem saídas, no qual muitos não encontram opções dignas para viver. Mas convém prestar atenção em Regina King, que se coloca de forma muito promissora num ano em que as mulheres se destacaram no establishment cinematográfico norte-americano.

Costurando com talento fatos reais e possibilidades ficcionais, King equipara-se ao talento provocativo de um Spike Lee, vocalizando os anseios de uma população que sistematicamente se vê agredida, discriminada e violentada em seus direitos.  Como diz a emblemática canção de Bob Dylan, tocada num momento essencial no filme de King, “How many years can some people exist before they’re allowed to be free?”

Manguebeat revisitado

Pense numa pessoa que se envolve profundamente com a música de sua geração, a ponto de transformá-la em motivo central de sua carreira acadêmica. Assim é Luciana Mendonça, que publicou em 2020 este ensaio sobre o manguebeat, o movimento musical gestado em Recife que se tornou uma das mais influentes correntes culturais da década de 1990.

Surgido como tese de doutoramento pela Unicamp, em 2004, o trabalho se estendeu com o acompanhamento da cena mangue (expressão cara à autora) e acabou gerando uma detalhada análise sobre o impacto cultural, ético, político e estético, causado pela turma de Chico Science e Fred Zeroquatro, à frente das bandas fundadoras Nação Zumbi e Mundo Livre S/A.

Cumprindo o rito acadêmico, o livro é balizado por um conjunto de referências sociológicas que dão munição ao debate sobre indústria cultural, massificação, identidade nacional, cultura popular e modernidade. Autores como Adorno, Benjamin, Eco, Canclini, Hobsbawm e, principalmente, Bordieu e Stuart Hall, fundamentam os arrazoados sobre cultura e mercado, nacional e estrangeiro, erudito e popular, música autêntica e world music.

Luciana costura com habilidade esses teóricos com os pesquisadores brasileiros que se debruçaram sobre a música popular. Estão lá os questionamentos de Tinhorão, Suassuna, Vianna, Sandroni (autor do prefácio), Wisnick e outros, junto com o material “quente” de dezenas de artigos, entrevistas, ensaios e manifestos, muitos surgidos do próprio movimento.

A autora mudou-se para Recife, e hoje é professora de Sociologia e Pós-Graduação em Música da UFPE. Mas, atenção: não é uma musicóloga, e sim uma mestra em antropologia social, que estuda o impacto sociocultural do chamado manguebeat sobre Pernambuco, abordando temas como revalorização do folclore, projetos sociais, dança, moda e redefinição dos espaços de vivência cultural da cidade de Recife.

Não esperemos análises de composições, estrutura musical ou elementos melódicos e harmônicos. Aqui a música popular é tratada como um produto social, um fenômeno de viés identitário capaz de portar mensagens impactantes e motivadoras. Ou, em outros cenários, como anestesiadora de conflitos e maquiadora da realidade.

Um dos capítulos mais interessantes do livro é quando são levantadas e discutidas as comparações do movimento mangue com a axé music baiana, analisando a velha rivalidade Recife x Salvador. O impacto social do Olodum, que introduziu uma nova estética, criou um mercado próprio e turbinou a música baiana, transformando-se num projeto com várias vertentes, levou a comparações com a cena mangue, muitas vezes impróprias. A principal diferença é o forte componente de identidade racial do movimento baiano, de valorização da cultura negra.

Os “caranguejos da lama” apostaram na mistura, na miscigenação, na busca de elementos da música pop mundial (rock, rap, reggae e outras), sobre uma base percussiva oriunda dos maracatus. Mas não só: a pesquisa da autora incorpora músicos tão diversos quanto os cultores do punk-rock do Alto José do Pinho (principalmente os Devotos), o rabequeiro Siba e a banda Mestre Ambrósio, a cirandeira Lia de Itamaracá, DJ Dolores ou os posteriores Mombojó e Cascabulho. Luciana Mendonça constata que a cena mangue criou condições para a convivência de todas estas ramificações, reunindo-os em festivais como o Rec-Beat, que rola durante o Carnaval.

Outro capítulo provocante é quando a autora aborda as relações conflituosas entre o movimento Armorial, capitaneado por Ariano Suassuna, e o mangue. Tradição versus modernidade? Erudito x popular? O próprio Suassuna, durante seu período como secretário de cultura de Recife (1994/98), estabeleceu diálogos e criou algumas condições (verbas) para os mangueboys. No entanto, em público sempre deu declarações ácidas contra as misturas promovidas por Chico Science e Zeroquatro. Mas no velório de Chico (1997) estava lá, contrito, derramando sua lágrima pelo jovem catalisador de energias criativas.

Contraditório? Claro, mas como bem sublinha a autora do estudo, o panorama cultural pernambucano é cheio de contradições. Em certa medida, ela parece demonstrar que as contradições são o próprio motor de transformação, pois do atrito de ideias surgem faíscas que podem gerar uma nova combustão.

Podemos traçar paralelos do caso pernambucano com outros cenários brasileiros: samba tradicional x pagode, escolas de samba x MPB, música caipira x sertanejo, invenção x tradição. Do choro ao pop, da bossa nova ao jazz, as inovações nunca surgiram sem superarem vários obstáculos ideológicos, sociais e financeiros. Mas poucas vezes veremos estes conflitos serem expostos de maneira tão consciente e minuciosa quanto nesse livro, desde já fundamental para os estudos de nossa música popular e suas transformações.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda e Revista Música Brasileira).

Jornalismo-de-retratinho

O que levou o jornalismo a níveis tão baixos quanto os que vemos hoje       nos jornalões, rádios e emissoras de TV? Como pode o avanço tecnológico ter aberto a porteira para tanta mediocridade, mau-caratismo e bajulação? Em que momento histórico foi que as escolas de jornalismo – policiadas em tempos de ditadura por serem “antros de esquerda” – formaram tantos direitistas, conservadores e reacionários?

A profissão de jornalista surgiu como uma necessidade social, e não demorou muito pra ser reconhecida. Claro que antes disso havia os arautos, os narradores, os cantadores de feira, os fofoqueiros, os emissários do rei, os pichadores de muros (sim, são mais antigos que o jornalismo!).

            Com a invenção de Gutemberg, passaram a existir como profissão. Relatores de notícias, no início. Com o tempo, alguns se tornaram colunistas, outros até editorialistas. Mas, até o final do século XX, constituíam um grupo quase secreto, desconhecido do grande público. O anonimato lhes garantia a possibilidade de se misturar ao povo, ouvir conversas em bares, clubes e reuniões sociais, partidos políticos e sindicatos. Muitos usavam pseudônimos. Quem conhecia algum jornalista pessoalmente já detinha certo poder, positivo ou negativo. Poderia delatá-lo ou abrir portas. O prestígio do jornalismo cresceu tanto que, ainda no século passado, passou a ser chamado de Quarto Poder.

            Com o advento da televisão, o jornalista passou a ter um rosto, e virou estrela. Aquele sujeito ou sujeita que aparece todo dia no horário nobre passou a ser tietado em aeroportos, restaurantes e hotéis, fotografado, idolatrado, virou assunto de revistas de fofocas, pedem autógrafos quando ele é visto em praça pública. Aliás, pediam, no século XX. Hoje fazem selfies.

            A explosão da internet, como sabemos, revolucionou completamente o trânsito de informações no planeta. A tiragem dos jornalões e revistas semanais desabou, e rapidamente os empresários de comunicação criaram sites para recuperar o prejuízo. Cresce aí o jornalismo-de-retratinho, imitando a TV, onde cada colunista ganha forma, sorriso ou carranca. A mídia impressa adotou o conceito, e cada vez mais se vê o jornalismo-de-retratinho estampado nas colunas, matérias e comentários. Na rede, nas revistas, nos jornais, na mídia em geral. 

            E o jornalista se tornou uma celebridade. Qual o artista que não quer ter seu retrato publicado no jornal diariamente? Músicos, atores, artistas plásticos, bailarinos e escritores tentam, poucos conseguem. Jornalista, sim. A receita de abobrinha assada, a fofoca do meio artístico, a intriga palaciana ou a análise econômica é encimada pelo retratinho. São tietados em aeroportos, restaurantes e hotéis, etc.

            Esse personagem não pode mais investigar uma notícia. Não pode entrar numa assembleia sindical, num café, numa passeata, num congresso, num estádio de futebol, e fazer seu trabalho de observador-analista. É um simulacro de jornalista, um mero apresentador de notícias, um talking-head. O mais trágico: virou notícia. O povo quer saber o que ele faz nas horas de lazer, o que come, por que casou, por que descasou. Um jornalista nunca deveria ser notícia, já dizia um dos pioneiros da profissão.

            Isso explica o ocaso do jornalismo investigativo na grande imprensa. Para fazer uma investigação decente, aprofundada e imparcial o jornalista (ou o detetive) tem como uma de suas principais ferramentas o anonimato. Seu rosto não pode ser reconhecido, sua vida privada não deve estar exposta. Mas a vaidade é um dos sete pecados capitais, como sabemos. E cada vez mais vemos jovens entrando numa faculdade de jornalismo não para enfrentar governos, revelar esquemas de poder ou investigar crimes, mas para ter… um retratinho nos jornais! Essa vaidade é naturalmente explorada pelos donos de empresas de comunicação, cujos interesses são bem outros. Informação é negócio, é jogo de interesses, é mercadoria. E o(a) jovem que quer ter o retratinho no jornal vai aprender rapidinho o jogo do poder para alcançar seu objetivo. Abanar o rabo para os patrões e latir para os inimigos dos patrões.

 “O tempora! O mores!”, como diria Cícero, político e orador romano que não tem nenhum retrato na galeria de precursores do jornalismo. “Vanitas vanitatum, et omnia vanitas”, complementaria Santo Agostinho…

(Publicado originalmente no Fósforo, em 2016, com alterações).

O artista e suas obsessões

Na Literatura, como em outras artes, há dois tipos bem definíveis de artista: o que experimenta de maneira insaciável formas diferentes, explorando ângulos, texturas, materiais, técnicas, linguagens, caminhos e bifurcações, e os que mergulham de forma obsessiva num objeto de estudo (de desejo?), traçando uma rota de aprofundamento progressivo, numa tentativa heroica e vã de chegar ao âmago, ao deslindamento final e definitivo, ao cristal límpido e absoluto.

Há outras motivações, sabemos, mas fiquemos com estes dois opostos, por enquanto. E antes que optemos pelo generalista ou pelo especialista (categorias que não funcionam muito bem quando se trata de arte), é importante fazer uma ressalva: esse tipo de classificação não implica num juízo de valor.

De fato, há experimentadores ruins e obsessivos maravilhosos, e vice versa. A radicalidade sintética do haicai, por exemplo, é uma das mais traiçoeiras armadilhas para os poetas iniciantes. Bashô é genial, mas tem uma legião universal de seguidores medíocres, com poucas exceções.

Como não admirar o mergulho suprematista de um Malevitch, que lhe custou caro na Rússia stalinista, e ao mesmo tempo não se espantar com seu retorno ao figurativismo? E aqui surge mais um dado complicante: há artistas que são “especialistas” em certa fase da vida e “generalistas” em outra. Mestres absolutos em dado momento, e auto diluidores em outro. Os que tem vida longa são mais visados por esse tipo de crítica, é óbvio, uma vez que o conjunto de obras tende a ser desigual quanto mais vasto for.

Alguém supõe que Mozart pudesse manter a excelência se vivesse mais quarenta anos? Ou Rimbaud? Será mais fácil ser gênio morrendo jovem? Novamente, não podemos estabelecer uma regra. Há artistas geniais e longevos, que criaram obras-primas provocativas na chamada terceira idade, como Verdi, que estreou sua ópera Falstaff (baseada na peça As Alegres Comadres de Windsor, de Shakespeare) aos 80 anos, ou Oscar Niemeyer, que inaugurou o Museu de Arte Contemporânea de Niterói com 89 anos (e continuou criando até os 105). Outros explodiram cedo, como fogos de artifício, passando o resto da vida tentando reacender as cinzas de sua obra gloriosa. Ou procurando outros caminhos, movidos por uma inquietação que, dependendo do caso, pode ser confundida com falta de objetividade, oportunismo, pura sobrevivência ou até relaxamento estético. E há o inevitável apelo do mercado editorial, que joga seus dados em obra de fácil digestão, consumidas rapidamente e trocadas por outras. Muito citado no Brasil é o caso de Jorge Amado, radical em suas primeiras obras, que à medida em que se torna um grande vendedor de livros, cede à tentação do erotismo temperado com dendê, como apontam vários críticos*.

A literatura brasileira é terreno onde medra toda espécie de escritor. De contistas geniais e sintéticos, como Dalton Trevisan, até caudalosos autores de obra pouco lembrada, como Otávio de Faria, cuja Tragédia Burguesa, prevista para vinte volumes, teve treze publicados em vida e mais dois póstumos. No entanto, estes dois exemplos são obsessivos, cada qual a seu modo. Enquanto um esmiúça a relação de amor, ciúme e ódio entre joões e marias, outro busca dissecar a sociedade carioca sob o ponto de vista de classe, sem desviar o foco do cenário.

A literatura brasileira contemporânea, assim como a música ou as artes plásticas, é multifacetada e permeável a muitas influências, típicas de uma era midiática e globalizante. Apesar disso, ainda é possível observar obsessões estéticas criativas (ou paralisantes, dependendo do caso).  A legião de epígonos de Rubem Fonseca, por exemplo, buscando emular o clima dos primeiros contos do mestre. A empreitada ambiciosa de Alberto Mussa, construindo uma história do Rio de Janeiro por cinco séculos, em tramas policiais. A lupa de Chico Lopes sobre a vida interiorana das pequenas cidades em modificação/estagnação num Brasil que é sempre um conjunto de frustrações. Escritoras feministas que rompem amarras e, paradoxalmente, se enredam em novos cercados. O esforço do escritor Chico Buarque em alcançar a excelência do compositor Chico Buarque. Os cronistas da periferia que martelam temas essenciais, porque é impossível não falar sobre violência, preconceito, fome ou miséria, assuntos que atravessam séculos sem perder a urgência. Cada qual a seu modo sustenta suas obsessões da forma possível, com as ferramentas que têm ao seu alcance.

Arte permite várias visões, interpretações, audições e leituras, e essa natureza multiforme encerra toda a graça e mistério da coisa. Espelho distorcido do mundo em que vivemos, pode ampliar ou reduzir qualidades e defeitos, mas nunca deixa de ser um termômetro das ansiedades da época em que foi produzida. Feita por casmurros obcecados ou panteístas delirantes, sempre pode nos fornecer algumas chaves para compreensão do mundo, do céu ou do inferno em que vivemos.

*vale conferir Motta, Carlos Guilherme, in Ideologia da Cultura Brasileira (1933-1974).

(Publicado em aterraeredonda.com.br)

Relatos do Mundo, com filtro

Relatos do Mundo, filme protagonizado por Tom Hanks, deve receber uma penca de indicações para o Oscar. Um faroeste humanista, melancólico, com bela fotografia, direção e trilha sonora, que se encaixa bem na linha revisionista da história dos Estados-não-muito-Unidos da América.

O capitão Jefferson Kyle Kidd, veterano da guerra civil, tem como atividade levar notícias aos rincões mais isolados do Sul ainda marcado pela derrota. Lê jornais em troca de algumas moedas, em cada povoado. E logo no início da narrativa encontra uma garota órfã, Johanna, de origem alemã (vivida de forma impressionante por Helena Zengel), cujos pais foram mortos e foi criada por índios da nação Kiowa, também eliminados pelo sanguinário avanço branco nas pradarias. Ela é uma dupla órfã, abandonada e sem falar uma palavra de inglês.

O capitão toma como missão entregá-la a parentes distantes, tios que moram em outro estado, 500 km de distância. A jornada não será fácil, e a relação entre eles vai sendo construída de forma sutil, apoiada em imagens deslumbrantes e uma trilha sonora discreta e eficiente.

Quem quiser saber mais assista o filme, não irá se arrepender. Uma releitura sensível e introspectiva do faroeste clássico americano, onde os cinéfilos irão reconhecer de cara a óbvia referência ao clássico Rastros de Ódio, de 1956. Ali o também veterano da guerra civil John Wayne reencontrava uma garota, sua sobrinha, que teve os pais mortos e foi sequestrada e criada pelos índios.

Quero aqui chamar atenção para um detalhe, uma subtrama que pode passar desapercebida para algumas pessoas, e que não vai interferir na fruição da narrativa. O filme, baseado num romance de Paulette Jiles, News of the Word, acompanha um apresentador de notícias pré-rádio, pré-televisão. E as notícias que ele narra nem sempre são boas.

O diretor Paul Greengrass escancara as cicatrizes da guerra de Secessão, mostrando o rancor incontido dos sulistas quando a notícia se refere ao “governo central”. O público se comporta de maneira desigual: ou reage de forma figadal, xingando os políticos, ou passivamente, acatando bovinamente as informações selecionadas pelo capitão-leitor.

Poucas moedas pingam na sua caneca, o suficiente para que ele vá até outra localidade continuar sua tarefa. Numa delas, é rudemente cercado por uma gangue, chefiado por um sujeito que é a lei do lugar: é prefeito, delegado e juiz, e todos trabalham para ele. Imagine uma espécie de Serra Pelada, nos anos 70, com um repórter se deparando com um Major Curió…

A cena em que o torturado Capitão Kidd (sim, ele tem crises de consciência!) consegue maior empatia com o seu público é quando abandona os relatos políticos ou econômicos, que afetam diretamente a vida das pessoas, e narra um fait divers, uma mera curiosidade, que arranca risos gerais. A audiência aumenta, as moedas tilintam com mais ressonância.

Está ali retratado o embrião do “jornalismo” de nossos tempos. O entretenimento em lugar do que realmente interessa. A espetacularização da notícia, o destaque às bizarrices ao invés das manobras políticas e econômicas que irão afetar diretamente a vida das pessoas. A dramatização dos fatos, jogando poeira nos olhos do espectador. Em vez de dizer que a gasolina subiu 7%, e isso vai afetar toda a cadeia produtiva, até o preço do arroz no mercado, nossa TV envia um/a repórter (bonito/a, de preferência) até um posto, onde ele/a dirá de forma teatral que “a gasolina agora nesta bomba custa 5,10 o litro”. Ah, que raiva da bomba do posto de combustível!

Capitão Kidd nem precisa de tal artimanha. Intuitivamente descobre que falar do suposto morto que ressuscitou, do pai que jogou a filha pela janela, da briga de fulaninho com fulaninha no BBB, pode render mais audiência (e lucro) que falar de assuntos sérios que afetem a comunidade e a levem a uma mobilização. A notícia que não vai mudar nada na vida de ninguém, devidamente teatralizada, é um sucesso garantido. Trata-se de um precursor da mídia de nossos tempos, sem dúvida.

O capitão irá encontrar os tios e devolver a menina? Bem aí é com vocês. Preparem a pipoca e boa diversão!


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