Na vertigem do mundo real

Desde o advento da literatura beat, de forma mais programática, e até em alguns precursores isolados, a escrita entrelaçada de prosa e poesia aparentando delírios verbais, mas calcada na observação da realidade, delineou uma nova estética literária.

Os epígonos do gênero pecam, de maneira geral, por sucumbirem a uma exploração de sonoridades e significados aparentemente inovadores, com ressonâncias muito mais pessoais que sociais. Exploram, tateiam, amalgamam a linguagem, porém muitas vezes se parecem com bêbados falando com o próprio umbigo. Utilizam imagens espetaculosas, eventualmente até belas, mas de significado obscuro, que não dialogam com o conjunto da escrita ou com o seu tempo-espaço. Pouca pepita pra muito cascalho.

Alguns cacoetes são tão recorrentes que chegam a cansar. O uso de & em vez de e, a escrita sem pontuação ou lógica aparente. Raros são os escritores que se apropriam da riqueza que uma escrita libertária permite sem perder de vista o mundo de fato, a dimensão do social, e, principalmente, o leitor. Whisner Fraga é um desses.

Usufruto de Demônios (Ofícios Terrestres, 2022) é uma coletânea de textos curtos e cortantes do romancista e contista mineiro. Cultor de imagens contundentes e adjetivos inusitados, Fraga faz a gentileza de permitir ao leitor, o tempo todo, estabelecer conexões com a vida real.  Escrito sob o impacto da pandemia, mas expandindo sua visão a outros episódios, o livro pode ser lido como uma série de reflexões amadurecidas durante o trágico período.

Mas não se trata apenas disso. Os pequenos textos (poucos ultrapassam uma página) vão lentamente tecendo uma trama de significados e personagens que se delineiam no aparente caos. A interlocutora helena (whisner fraga não utiliza letras maiúsculas em sua escrita) surge no início, e retorna em vários momentos. Pode-se até supor que o autor dialoga com um ideal helenístico de civilização enquanto relata as agruras da peste, mas esse simbolismo se esvai nos textos seguintes, quando começa a relatar a relação com a criança, a filha. Fraga está falando de gente, de pessoas palpáveis.

O autor descreve, de forma muito original, o desmoronamento das instituições, das relações, dos alicerces de um mundo em desequilíbrio. A segurança fictícia, o emprego esgarçado, a frieza das estatísticas, a desumanidade da medicina comercial, a ruína de um Brasil flertando com o fascismo, a inoperância dos movimentos coletivos perante a perversidade do sistema.

Tudo isso emerge através uma escrita extremamente trabalhada, que amplia o universo de significados através de fragmentos onde brilham momentos de intensa carga imagética e dramática.  

“Um boi uiva a trégua

É o sexto da fila e ainda mais três horas para o caminhão estacionar: o motorista abrirá o baú, como a mãe, na infância, descerrava as franjas da janela, quando uma recendência azul se movia pelas narinas dos irmãos, desviados como ele, talvez andarilhos como ele, os que restaram, estaria algum ali, naquela vastidão de farrapos sinuosamente enfileirada atrás de si? , não pode averiguar, não vale o risco de perder o lugar, dali a pouco o rugido do diesel estacará a poucos metros, e pode sonhar a janta, o almoço, o homem desliga o motor, desce, vasculha a carga; não será suficiente para todos, mas é preciso começar: um osso pra cada um.”

Whisner Fraga, autor de diversas obras, é também um dedicado divulgador da literatura brasileira contemporânea, mantendo um canal no Youtube (Acontece nos Livros), onde comenta autores novos e também clássicos.  Ou seja, um escritor que lê muito, gesto mais civilizado que escrever, como afirmava Borges. Só isso já o diferencia da multidão de individualistas que escreve para si ou, no máximo, para seu pequeno grupo.  E o seu provocativo talento se revela essencial num “tempo de homens partidos” como o Brasil de 2022, território devastado que se tornou usufruto de demônios, e que precisamos recuperar.

A despedida de Milton

Numa semana marcada por grandes perdas para a cultura brasileira, a despedida dos palcos de Milton Nascimento adquiriu uma carga de significados que talvez demore um pouco para ser completamente absorvida.

O evento, realizado no estádio Mineirão, em Belo Horizonte, teve uma planejada superprodução. Telões, efeitos pirotécnicos e distribuição de cartazes para a plateia foram feitos pensando na transmissão televisiva, mas a formação da banda, a escolha de repertório e o roteiro de apresentação foi gestada muito antes disso.

O início do show se deu através da forte introdução percussiva de Tambores de Minas, reafirmando uma ancestralidade negra sempre presente na obra do compositor. No centro do palco, Milton, 80 anos, surge sentado numa espécie de trono, vestindo um traje que remete ao Manto da Apresentação de Bispo do Rosário, com um colorido mais forte. Uma homenagem a um artista negro marginalizado, mas também uma sutil referência à proximidade do fim, ou do reencontro com o sagrado. Rosário passou anos preparando o manto com que iria subir ao céu, como dizia. O manto de Milton foi criado pelo estilista mineiro Ronaldo Fraga.

Visualmente está dada uma das chaves para compreender a amplitude do show. A proximidade da morte, criativamente elaborada como uma celebração da vida. Dualidade presente em várias canções de Milton e seus parceiros. Estamos falando de cultura.

Após a explosão percussiva da abertura, Milton estabelece outra conexão, agora com sua infância. Pega a sanfoninha, celebrizada em uma de suas fotos mais conhecidas, e toca Ponta de Areia, canção que fala de coisas perdidas, de estradas de ferro abandonadas, símbolo tão caro a Minas Gerais. Por extensão, do Brasil. É bom lembrar que Ponta de Areia era o porto no litoral da Bahia, que “ligava Minas ao mar”, nos versos precisos de Fernando Brant.  

O mergulho no universo das lembranças torna-se mais denso com Morro Velho, também de Milton/Brant. Uma canção que realiza o milagre de amalgamar Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes e todos os sociólogos que se debruçaram sobre a estrutura de classes no mundo rural brasileiro, sintetizados em versos livres, que só um gênio conseguiria musicar de forma tão perfeita.

Outra chave se abre: a do observador das desigualdades sociais, da discriminação, da injustiça do mundo. Nunca panfletário, mas sempre atento, consciente do papel de artista. E emenda com Outubro, que se encerra com os premonitórios versos “minha história está contada/ vou me despedir”.

Em seguida desfiou um bloco de canções do chamado Clube da Esquina, com a presença no palco de Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta e, um pouco depois, Wagner Tiso.

Pense num único negro num grupo de brancos. Mas um negro cujo talento é tão superior, cuja voz é tão sublime, cuja musicalidade é tão rica, que acaba envolvendo todos de tal forma que os parceiros-letristas são contaminados por sua visão ingênua e libertária da vida. Quando escrevem com Milton, eles se tornam Milton, constroem e verbalizam imagens e sentimentos que jamais teriam se o crooner do grupo fosse um louro italiano ou anglo-saxônico.

Mas a voz de Milton, 80, não é a mesma. As mãos já não fazem aqueles acordes dissonantes e inovadores que o tornaram reverenciado por músicos do mundo inteiro. Cercado por uma afiada banda de novos músicos, com destaque para o vocal de Zé Ibarra, Milton desfila uma série de sucessos que fazem a plateia do Mineirão cantar e pular feito como um show de rock. “Para Lennon e MacCartney”, “Como um Girassol da Mesma For dos Teus Cabelos”, “Tudo o Que Você Podia Ser”, “Nada Será como Antes”, “Fé Cega, Faca Amolada”, e muitas outras (não cito aqui em ordem cronológica).

Uma nova conexão fica evidente: com tudo o que o mundo estava vivendo nos anos 60, 70, 80. Não de forma explícita, mas no comportamento. Lembranças do flower power, dos festivais, da liberdade sexual, da oposição aos padrões sociais. O desfile de canções começa a ultrapassar divisas e fronteiras, e as parcerias com seus companheiros de geração iluminam a noite. “Paula e Bebeto” (Milton/Caetano) é um hino libertário, até hoje. Gravado por ele e Gal Costa, a quem o show é dedicado. O Clube cruza acordes e versos com a Tropicália, de forma amorosa.

Abre-se mais uma porta sensorial, com Cálix Bento, seguida de Peixinhos do Mar e Cuitelinho. Temas folclóricos, ancestrais, recolhidos e perpetuados através de gerações. Milton mostra, sem necessidade de nenhum discurso rebarbativo, sua ligação com o Brasil mais profundo, com as tradições mais singelas e originais de nossa cultura. Tudo é coroado pela magnífica canção Cio da Terra, (Milton/Chico Buarque), hino-síntese sobre o qual não é preciso dizer nada, só ouvir. Outro grande ausente da semana, Rolando Boldrin, certamente sorriu nesse momento.

Milton não esquece o continente onde nasceu, a América Latina. Os camponeses, os operários, os explorados estão também do outro lado da fronteira, seja lá qual for. E Violeta Parra é lembrada, assim como a amiga Mercedes Sosa. Volver a Los 17 é cantada de forma emocionada por uma plateia onde predominavam jovens (ou será que as câmeras da Globo Play foram seletivas?). É sintomático que, terminado o espetáculo e Milton sendo levado do palco pelo filho e amigos, o playback soasse a Canción por La Unidad Latinoamericana, do cubano Pablo Milanez, celebrizada por aqui pela versão de Chico Buarque e do próprio Milton.

Para completar, não faltou o discurso político, direto, universal. Após “Coração de Estudante”, emblemática parceria com Wagner Tiso, é encerrada com uma frase curta: “Viva a democracia”. A plateia emendou um Lulalá, com centenas de mãos fazendo um “L” para as câmeras.

Avaliar a influência de obra tão imensa, tão intensa, é coisa para as próximas gerações. Em um último gesto público, Milton levanta importantes questões para o Brasil, para a nossa cultura. Que maléficos mecanismos fizeram com que a grande canção popular brasileira deixasse de ser “popular”? O que faz com que talentos como Milton, Chico, Gil, Paulinho, Caetano, Melodia, Sérgio Santos, os velhos e novos sambistas e tantos outros, sejam escanteados para nichos obscuros, enquanto coisas execráveis, poética e musicalmente, ocupem os holofotes da mídia televisiva e radiofônica?  Que tipo de rebaixamento cultural a imprensa promoveu nos últimos anos, e com que interesses?

Só temos de agradecer a esse imenso artista que nos deu tanto, e que nos proporciona em sua despedida dos palcos, mais que excelente música, várias reflexões.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda e Revista Música Brasileira)

César Vallejo, antifascista genial

Poucos nomes da literatura latino-americana são tão reconhecidos mundialmente e tão pouco divulgados no Brasil quanto o de César Vallejo (1892/1938). Alçado ao nível de poetas como Neruda, Girondo e Huidobro, o peruano semeou a sua vida atribulada com poesia, prosa, teatro e artigos militantes.

A primeira edição completa de seus poemas no Brasil teve a tradução de Thiago de Melo, publicada em 1984. Pelo caráter vanguardista de sua poesia, com elementos formais inovadores, já havia chamado a atenção dos concretistas brasileiros. Uma nova tradução foi lançada este ano, pelas mãos de Fabricio Corsaletti e Gustavo Pacheco (Editora 34). Em 2021 a Iluminuras lançou o romance Tungstênio, que aborda a exploração das minas peruanas e a miséria dos trabalhadores indígenas.

 A prosa de Vallejo acaba de ganhar uma edição preciosa da editora Bandeirola. O volume reúne Escalas Melografiadas, narrativas breves escritas na prisão, e Fábula Selvagem, publicadas em 1923. Nesse mesmo ano o autor deixou o Peru e partiu para a Europa. Primeiramente para a França, de onde foi expulso, e depois a Espanha, onde conheceu Lorca e Alberti, e se juntou ao movimento antifascista.

Nos 112 dias em que ficou preso em Trujillo, no Peru, acusado de “instigação intelectual”, Vallejo produziu as fantásticas narrativas curtas das Escalas, que levam os sugestivos nomes de Muro Noroeste, Muro Antártico, Muro Este, Muro Duplo e Muro Ocidental, que é composto por apenas uma frase misteriosa. A exceção é o pungente Parapeito, onde um episódio de infância é rememorado de forma… digamos, vallejiana.

Na segunda parte, Coro de Ventos, estão alguns dos mais célebres contos do peruano, onde a loucura parece rondar vários personagens. Mirtha, a bela jovem do conto homônimo, pode muito bem ter inspirado a última obra de Buñuel, Este Obscuro Objeto de Desejo, onde um homem se envolve com uma mulher, que é interpretada por duas atrizes. No conto, todos os amigos do protagonista veem duas mulheres, menos ele, apaixonado. Embora os créditos do filme indiquem que foi inspirado num romance do francês Pierre Louÿs (La femme et le pantin), as ligações poéticas e afetivas do universo buñuelesco com a literatura de Vallejo não parecem ser apenas coincidência.

Surrealismo? Não no sentido estrito. A literatura do mestiço andino antes mergulha nos mistérios da realidade, no espelho estilhaçado da vida, em que as imagens não formam um todo cartesiano e coerente. Como apontou Mariátegui, “em sua literatura, Vallejo é sempre uma alma ávida de infinito, sedenta de verdade. A criação é nele, simultaneamente, inefavelmente dolorosa e exultante.”

A narrativa Fábula Selvagem, publicada no mesmo ano de Escalas Melografiadas, trabalha justamente com o simbolismo do espelho, que ao se partir começa a transforma a vida do camponês Balta. Ele passa a se sentir perseguido por um estranho visto de relance nos cacos, que pode ou não ser real. Projeção inconsciente, sombra ancestral de um rival que perturbará seu feliz casamento com a chola Adelaida. Descrevendo com detalhes o ambiente rural andino, é a última obra publicada pelo autor em sua pátria. Parte para o exílio no mesmo ano, unindo militância política e poesia numa vida sofrida e miserável, e sempre inconformista.

A escrita de César Vallejo ora remete a Kafka, ora lembra Poe, e em muitos momentos antecipa o realismo fantástico que se tornaria um estilo da literatura latinoamericana. Sua marca mais original é a presença ostensiva da poesia, seja através de imagens, de construções inusitadas ou de adjetivações metafóricas. Cintilam em cada página achados poéticos de alto calibre. Um pastor açoita as costelas do vento, o apaixonado abriga-se sob a unha anil do firmamento, o chinês aposta tudo nos belos cubos divinos, sentimos a cor das colheitas da tarde limão. Vallejo se revela um autor profundamente original e surpreendente, nestes tempos tão desprovidos de beleza.

A edição especial do espanhol Antonio Merino serviu de base para a editora brasileira. A tradução é de Ellen Maria Vasconcellos, e contou com um iluminador prefácio de João Mostazo (“A Literatura em que o ético, o poético e o político se complementam”), que situa com precisão Vallejo na história e no panorama literário mundial.   

No balanço das dunas

Qual a diferença fundamental entre Mick Jagger balançando a bunda nos anos 60 e Anitta em 2022? Bem, fundamental mesmo é que um é homem e outra mulher. Mas… há muita indústria por trás, muito protesto contido, muita autoafirmação, muito preconceito. Não vou nem falar da qualidade da música, mas da postura pública, midiática. Vale o que pesa? Valem o que pesam?

Artistas se colocam na vitrine. Sabem que são vistos, analisados, copiados, mitificados, detestados, amados, ignorados, e mais um monte de ados. Ou pelo menos deveriam saber. Quando assumem posições políticas, no sentido amplo do termo, incomodam. Alguns, mais intelectualizados, incorporam isso no discurso, e se tornam representantes de segmentos da sociedade: ídolos LGBT, exaltadores da classe trabalhadora, machistas empedernidos, pacifistas ambientalistas. Outros, mais instintivos, viram mito sem saber. Alguns até depois da morte, como a história demonstra.

O uso do corpo como expressão sempre foi reservado aos dançarinos, no mundo ocidental, até o século XX. Cantores deviam mostrar seu talento estáticos, ou no máximo mexendo os braços. Obviamente, muitos e muitas dançarinas cantavam bem, e vice versa. Isso fermentou os cabarés, o teatro musical, as danças cantadas, as coreografias cinematográficas, os videoclipes. Muito antes, culturas populares de todo o mundo já uniam o canto ao corpo rebolante, sem pudor.

A indústria musical, nascida com a era do rádio, teve de se adaptar ao advento da televisão, nos anos 50. Frank Sinatra, de terno e gravata borboleta, cedeu espaço para Elvis, the Pelvis. E o rock dos anos 60 repetiu o confronto, com os Beatles de terninho de um lado e Mick Jagger rebolando do outro. Por que será que nenhum Beatle dançava?

E havia, sempre houve, as mulheres. Historicamente dançantes, em todas as culturas. Homens tocam, mulheres dançam. Mas quando mulheres dançam e cantam, ou tocam e compõem, começam a mudar alguns conceitos. Na música pop, de Carmen Miranda a Tina Turner, toda uma tradição de cabarés e boates passou a integrar o repertório midiático que desembocou em Anitta.

Repare: Elis Regina, Ella Fitzgerald, Edith Piaf ou Janis Joplin nunca rebolaram no palco. Essa coisa de balançar as coisas estava mais para a avenida, para a escola de samba, o Mardi Gras ou o puteiro.

Os povos mais tropicais, naturalmente usando menos roupas, se notabilizam pela exibição mais despudorada (e orgulhosa) do corpo. Seja no Zimbábue, em Parintins ou na Bahia, cantores e cantoras se apresentam com leves plumas, envoltos em suor e desejo. Boa parte dessa cultura foi absorvida e padronizada pela axé music, pelo funk, pela música pop. E foi Madonna que personificou, na era dos videoclipes, de maneira mais radical essa exposição do corpo como mensagem, como parte integrante e indissolúvel da música que produzia.

Chegamos, pois, em 2022. Melhor dizendo: chegamos, pois, em Anitta. Uma Madonna latinizada, a mais bem sucedida de várias epígonas (esta palavra deveria existir no gênero feminino!), de uma vasta sequência pan-americana. Em comum, uma postura consciente como cidadã, defensoras de direitos civis e liberdades democráticas, além da condução bem sucedida da carreira.

O que incomoda em Anitta? A música ruim, para os mais exigentes. O apelo sexual extremado, a sensualidade ostensiva, para os moralistas. Até Betty Boop sofreu esse tipo de acusação, em meados dos anos 30. As pessoas esquecem que jornais populares exibiam mulheres em trajes sumários nas bancas de revistas durante a ditadura militar. Aliás, a expressão “trajes sumários” vem de antes, dos anos 50, dos tempos das vedetes de teatro rebolado, das certinhas do Lalau. Revistas ditas “masculinas” exibiam seios nus nas capas, de “atrizes globais”. E dentro, exibiam o resto.

As bancas de revistas, quase extintas, estão muito mais pudicas. Não se vê nudez nas capas dos jornais, também caminhando para a extinção. A sociedade brasileira contemporânea, cada vez mais mercantilizada, evangelizada, retrógrada nos costumes e elitista nos anseios, aponta o dedo culposo para as manifestações artísticas. Tenta censurar exposições, condenar performances, silenciar artistas.

Anitta acaba de vencer o VMA (Video Music Awards) de melhor clipe latino. A coreografia, de forte apelo sexual, é provocativa. Como era o rebolado de Elvis, de Mick, de Ney Matogrosso. De Tina, de Madonna, das Frenéticas. Não vai mudar o mundo balançando a bunda, mas acompanhando a coreografia com declarações públicas de combate ao machismo, à censura e ao moralismo obscurantista das igrejas neopentecostais. Como Madonna deve ter influenciado milhões de jovens, em todo o mundo, incentivando o uso de preservativos e lutando contra a Aids e o preconceito.

Mick? Bom, politicamente errático, nunca se posicionou de forma muito clara sobre classe social ou desigualdade econômica, como Roger Waters ou John Lennon. Mas levou os Rolling Stones pra Cuba, e balançou a bunda por quase 6 décadas provocando os conservadores. 

Enfim, Anitta é jovem, e tem muito chão pela frente. Só para lembrar as hermanas platinas, Isabelita Perón foi dançarina de cabaré antes de casar com Perón e virar presidente. Evita não foi dançarina porque o talento era pouco, mas bem que tentou. E foi mais longe, se o propósito era virar mito.

O conto-crônica de Luís Pimentel

A crônica de costumes brasileira nasceu na antiga capital federal, em meados do século XIX. Alcançou cedo a maturidade, pelas mãos de autores tão distintos quanto Machado de Assis, Lima Barreto e João do Rio. Retratos às vezes impiedosos, sarcásticos, outras vezes ternos, quase poéticos, de uma realidade sempre multiforme e desigual numa nascente metrópole na periferia do mundo.

O gênero ganhou características bem brasileiras, e muitas vezes não se distingue o que é observação e o que é imaginação, ou ficção. Crônica ou conto curto? Mestres como Rubem Braga e Paulo Mendes Campos tornaram-se paradigmas, coadjuvados por escritores do calibre de Cecilia Meireles, Nélson Rodrigues e Carlos Drummond de Andrade, cada um com estilo próprio e inconfundivel.

A ficção cada vez mais se imiscuiu de forma gaiata na obra de cronistas como Stanislaw Ponte Preta ou Aldir Blanc, sempre enraizada na observação do cotidiano, do povo nas ruas, do povo que parece não ter outro palco senão as ruas. Outros, mais trágicos, aprofundam o retrato do inferno urbano, como Rubens Fonseca em seus primeiros escritos.

De todas estas fontes bebe o escritor Luís Pimentel, e destila em seu novo livro de contos, Ainda Tem Sol em Ipanema (Faria e Silva, 2022).  Traquejado em vários gêneros, do infanto-juvenil ao teatro, passando pelo jornalismo do Pasquim e por programas de humor na TV, Pimentel cristaliza neste volume toda a sua vivência como morador e observador atento da paisagem humana do Rio de Janeiro. Afiado nos diálogos, conciso nas tramas e surpreendente nos desfechos, o autor consegue nos levar do riso ao espanto em poucas linhas.

O livro foi premiado em Portugal e é agora publicado no Brasil. Demonstrando conhecimento pleno da lição dos mestres que o antecederam, o escritor-repórter cria, ou recria, um leque de personagens que permanecem na memória depois da leitura. A gama de sentimentos explorados é a de toda a humanidade, e para quem for atento, ultrapassa os limites urbanos e se torna brasileiro, universal. Podemos imaginar cenas semelhantes na Cidade do Cabo, Londres ou Singapura, mas o sotaque é inconfundível: estamos lendo um autor que, mesmo tendo nascido na Bahia, se tornou carioca através de tombos, goles, dribles e risadas. E consegue, em trinta contos curtos, sintetizar o Rio de Janeiro do século XXI, com todas suas dores, mazelas e malandragens. E um pouquinho de poesia porque, apesar de tudo, ainda tem sol em Ipanema.

Chico e Caetano, um pacto

Música e Literatura muitas vezes caminham juntas, permitindo comparações, contrastes, analogias e cruzamentos simbólicos. Alguns de nossos maiores compositores, como Chico e Caetano, são também prolíficos escritores, pensadores cada qual à sua maneira. Caetano, autor do meticuloso e autobiográfico Verdade Tropical, mantém um constante trabalho de observação da música e da cultura brasileira através de artigos publicados em diversos veículos. Experimentou o cinema também, com o curioso O Cinema Falado. Chico, além de compositor de obras primas incontestáveis, é romancista, escreveu para teatro, mas no cinema só trabalhou como ator, de forma discreta.

Os dois são amigos desde os anos 60, quando se conheceram nos festivais da Record. Fizeram shows juntos, gravaram discos, tiveram programa de TV em dupla, mas curiosamente muita gente pratica um certo Fla x Flu entre eles. Turma do Chico, supostamente mais engajada, mais politizada, turma do Caetano supostamente mais libertária, mais, digamos, odara.

Bem, isso talvez tenha feito sentido em algum momento do século passado, visto de uma maneira rasa, linear. Mas a realidade não é isso, nunca foi. Qualquer mente mais arejada consegue enxergar a grandeza e a beleza da obra destes dois gênios. Não cresceram de forma isolada, pois pertencem à extraordinária geração que também nos deu Milton, Gil, Paulinho, Tom Zé, Melodia e outros criadores originais, mas estes nunca foram colocados em confronto, como tentaram fazer com Chico e Caetano.

 Ambos compuseram fados inesquecíveis, e aproveito essa deixa sonora para atravessar o Atlântico. Em Portugal há dois luminares da literatura contemporânea, um já falecido e outro com a idade de Caetano: Saramago e Lobo Antunes. Escritores de grande talento, originais na forma e críticos do status quo, mas se detestavam. Depois que Saramago ganhou o Nobel, piorou. Lobo Antunes, rancoroso, vendo desaparecer no horizonte a sua chance – imagine dois escritores portugueses ganhando o Nobel! – passou a desprezar o prêmio, falando mal em toda a oportunidade. E obviamente há uma torcida pró-Saramago e outro pró-Antunes em Portugal.

Chico Buarque ganhou o Prêmio Camões de Literatura. Caetano aplaudiu. Uma lição que os dois artistas brasileiros deixam, nas entrelinhas. No campo da arte, a competição mais depõe do que enobrece.  Vejam estas palavras de Caetano, em artigo recente, sobre o ilustre filho de Sérgio Buarque de Holanda:  

“O Brasil é capaz de produzir um Chico Buarque: todas as nossas fantasias de autodesqualificação se anulam. Seu talento, seu rigor, sua elegância, sua discrição são tesouro nosso.

Amo-o como amo a cor das águas de Fernando de Noronha, o canto do sotaque gaúcho, os cabelos crespos, a língua portuguesa, as movimentações do mundo em busca de saúde social.

(…)

Suas canções impõem exigências prosódicas que comandam mesmo o valor dos erros criativos.

(…)

O samba nos cinejornais de futebol do Canal 100, Antônio Brasileiro, o Bruxo de Juazeiro, Vinicius, Clarice, Oscar, Rosa, Pelé, Tostão, Cabral, tudo o que representou reviravolta para nossa geração foi captado por Chico e transformado em coloquialismo sem esforço. Vimos melhor e com mais calma o quanto já tínhamos Noel, Haroldo Barbosa, Caymmi, Wilson Batista, Ary, Sinhô, Herivelto.

A Revolução Cubana, as pontes de Paris, o cosmopolitismo de Berlim, o requinte e a brutalidade de diversas zonas do continente africano, as consequências de Mao.

Chico está em tudo.

Tudo está na dicção límpida de Chico. Quando o mundo se apaixonar totalmente pelo que ele faz, terá finalmente visto o Brasil.

Sem o amor que eu e alguns alardeamos à nossa raiz lusitana, ele faz muito mais por ela (e pelo que a ela se agrega) do que todos nós juntos.”

Caetano, que os inimigos acusam de ególatra e vaidoso, é pura paixão pela obra de Chico. Este, mais contido, não escreve artigos derramados, porém não deixa de homenagear o companheiro de ofício. Ou você não percebeu que sua mais recente composição, Que Tal um Samba, cita explicitamente versos do “rival”?

Um filho com a pele escura/ com formosura/ Bem brasileiro, que tal?/ Não com dinheiro, mas a cultura.” (Chico Buarque, 2022)

Lembra de algo? “Não me amarra dinheiro não/ mas formosura/ Dinheiro não/ a pele escura/ Dinheiro não.” (Caetano Veloso, 1979)

Desculpem, portugueses, mas nossos dois gênios dão uma aula de civilidade, respeito e amor nos de vocês!

A caricatura política

Houve um tempo em que o teatro ocupava o imaginário das pessoas com fantasias, ídolos e exemplos de bem e de mal. Não só os arquétipos gregos, até hoje lembrados, mas os personagens de Shakespeare, Moliére ou Rostand, no século 17, também criaram modelos de comportamento que se refletem até nossos dias. Era comum nos séculos seguintes as pessoas serem classificadas, de acordo com seu comportamento, aparência ou algum feito inusitado, como Romeus, Julietas, Tartufos, Dons Juans ou Cyranos de Bergerac (este um personagem real, celebrizado pela peça de Rostand).

A literatura tornou-se o veículo ideal para a disseminação de personagens que acabam tornando-se modelos comparativos de comportamento. Figuras como o sonhador Quixote, a insatisfeita Emma Bovary, o ciumento Bentinho ou o dividido Raskolnikov ainda são lembradas pelos mais cultos ao se depararem com figuras reais que emulam aqueles comportamentos.

O cinema, arte do século XX, introduziu novos parâmetros culturais, absorvendo e adaptando os exemplos teatrais e literários, mas também criando novos personagens paradigmáticos. Muitos homens tentaram imitar Humphrey Bogart, Errol Flynn ou John Wayne, em seus papéis mais famosos, enquanto as mulheres queriam ser Olivia de Havilland, Vivian Leigh ou Rita Hayworth. Ou melhor, as personagens que viveram nas telas.

O cinema falado é o grande culpado de promover esta sutil alteração na construção de modelos. Introduz personagens sem passado. Não têm história, não têm vivência, surgem feitos e morrem – quando morrem – como surgiram, sem alterar suas características. Personagens-síntese, modelos, arquétipos, que têm seu epítome nos heróis de histórias em quadrinhos e desenhos animados.

E o grande público foi se acostumando – ou sendo acostumado – a isso: a não precisar de história, de construção psicológica e histórica, contentando-se com ações e aparências. É uma espécie de regressão intelectual, se compararmos com o público do teatro grego ou elisabetano, com as românticas leitoras de folhetim do século XIX, com os leitores do século XX. A televisão, como mais poderoso meio de comunicação de nosso tempo, exerce papel fundamental nesse status quo. Não é à toa que os roteiristas mais espertos de cinema e quadrinhos perceberam isso, procurando construir um passado psicologicamente mais elaborado para alguns personagens, como Batman, Coringa ou Homem-Aranha. 

Já os desenhos animados, teoricamente destinados a um público infantil, dispensam este aprofundamento. A criança quer ver ação e conhecer as qualidades e defeitos presenciais de seus heróis e vilões, dispensando seu passado. É comum, e natural, vermos crianças assumir gestos e comportamentos de personagens de animação. O preocupante é ver cada vez mais jovens e adultos fazerem o mesmo.

Um forte sintoma de que a humanidade se adaptou bem a essa infantilização cultural é o fato de que os protagonistas do cenário político mundial cada vez mais se assemelham a personagens de desenho animado. Pinochet, Ulstra, Boris Johnson, Trump, Bozo, são caricaturas do mal. Seres de biografia obscura, que se firmam no imaginário popular mais pelo aspecto grotesco que por algum conteúdo humano.

Alguns dirão que o Papa, Mandela ou Lula também são caricaturáveis. Bem, todos nós somos, mas nem todos somos caricaturas. A diferença é que o ex-presidente tem uma biografia conhecida, construída em termos sociais e humanísticos, desde que era um líder operário, assim como Bergoglio ou Madiba. Quem conhece de fato a biografia de Trump? Ou de Dória, Musk ou Moro? O que é Bolsonaro senão um Dick Vigarista que anda de moto e cujos golpes acabam dando errado, e que mesmo assim tem muitos “seguidores”?

Mas embora esse retrato raso (e também caricatural) se encaixe bem em ambições eleitorais e outras atividades escusas, é preciso frisar sempre que representam mais que isso. São fantoches, manipulados por interesses maquiavélicos e totalitários, que sufocam cada vez mais a cultura, o conhecimento e a História, buscando um novo período de Trevas. Para estes, o ideal é um mundo onde a política seja reduzida a um filme de má qualidade, para ser assistido no sofá, comendo pipoca, enquanto devastam o planeta.

O dilema de Torto Arado

Este breve comentário sobre um dos mais bem sucedidos romances brasileiros contemporâneos é mais uma especulação sobre alternativas ficcionais do que uma crítica ao minucioso trabalho do autor, Itamar Vieira Junior. Alguns leitores hão de achar que faço revelações sobre o final, o que não é exatamente verdade. Espero que meus devaneios sirvam para aguçar a curiosidade, jamais para desanimar a leitura. Assim como também anseio que todo o mistério e encanto da palavra revelação nunca possa ser substituída pelo vulgar e exótico spoiler.

As qualidades do romance Torto Arado (Todavia, 2018) já foram suficientemente enaltecidas nos meios literários. Premiado no Brasil e em Portugal, recoloca em discussão o Brasil rural, a população negra espoliada de seus direitos básicos, a exploração do trabalho no campo, a omissão da Justiça e a ausência de políticas públicas em meados do século XX. Sem colocar datas, o autor soube, de forma muito hábil, retratar uma situação que ainda perdura, garantindo sua atualidade. Geógrafo de profissão, e funcionário do Incra, conviveu por muitos anos com a questão agrária, e conhece de perto o mundo que retrata. Ou recria.

O ponto de partida é promissor. Duas irmãs, descendentes de escravos, nascidas na roça, passam por uma experiência (um acidente?), ainda meninas, que vai marcar suas vidas. Bibiana é a narradora da primeira parte, e desenha o cenário, coloca dados históricos e apresenta os principais personagens. O início é magnífico, como realização literária. Uma escrita plena de cores, sabores e sentidos, que evoca e revitaliza autores ligados ao regionalismo, como Graciliano e Rachel de Queiroz.

O livro é dividido em três partes. A narradora da segunda parte é a outra irmã, Belonísia, e aqui há uma dolorida ironia, uma vez que ela não tem voz fisiológica. Os contornos dos personagens ganham nitidez e também nuances. Ambas são filhas de Zeca Chapéu Grande, um líder comunitário e espiritual que incorpora entidades nos jarês, rituais de origem africana com influências indígenas e espíritas.

Podemos dizer que com estes recursos o autor se afasta do realismo cru do regionalismo e se aproxima de autores como Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, mestres baianos na mestiçagem entre gêneros. E também do chamado realismo mágico latino americano, que marcou de forma profunda a formação de muitos escritores contemporâneos.

Este forte confronto, nunca resolvido, entre o misticismo e a realidade, o subjetivo e o objetivo, a fé e a materialidade nas lutas sociais, é o grande nó da terceira parte. A voz narrativa é entregue a uma entidade, Santa Rita Pescadeira. E o momento culminante, em termos dramáticos, onde se misturam sentimentos de justiça e vingança, é determinado por um fator sobrenatural.

Há criação nisso tudo, há certa poesia. Fazendo uma analogia, um dos momentos mais memoráveis do romance Pastores da Noite, de Jorge Amado, se dá quando uma entidade do candomblé baixa num padre, dentro de uma igreja em Salvador. Alguns podem fazer leituras psicanalíticas destes momentos de transe, em que um personagem toma decisões cruciais inspirado, conscientemente ou não, por seus fantasmas, suas lembranças ou suas crenças. Para ficar no cânone ocidental, Shakespeare utilizou bem esse estratagema em Hamlet e outras obras.

O problema que a terceira parte de Torto Arado nos coloca é até onde dependemos de soluções externas, místicas ou religiosas para resolvermos o problema material da questão agrária, da luta no campo, do reconhecimento de direitos do povo negro, dos indígenas, dos imigrantes. Um personagem bem terreno, Severo, surge desde o início. Ganha corpo na segunda parte, e torna-se fundamental no desenlace do enredo. Vai estudar na cidade, torna-se sindicalista, casa-se com Bibiana, e volta para a terra natal organizando os campesinos. Mas não será por suas mãos que a justiça será feita. Ele fará parte do que Frantz Fanon denominou de condenados da terra.

Está colocado aí um dos grandes dilemas do romance. Entre a fantasia e o enfrentamento da realidade, há uma larga correnteza de possibilidades artísticas. Se Itamar Vieira Junior mantivesse o desenlace dramático nos trilhos do realismo, receberia aplausos de alguns e críticas de outros. Os tradicionais defensores de classe, de gênero e de raça, torceriam o nariz.

E vice versa. A opção por um final motivado pela força imemorial e inconsciente das tradições pode cativar alguns e atrair antipatias de outros. Num país dilacerado por um governo genocida, racista e destruidor do meio ambiente, é ingênuo crer que os deuses irão salvar os indígenas, os quilombolas, os desempregados, os sem teto e sem comida.  Ou mesmo que um deus semita tornado branco irá salvar a classe média, se ela continuar cordata e conivente.

Longa e próspera vida ao Torto Arado (nome extraído de um verso do arcadista Tomás Antonio Gonzaga, in Marília de Dirceu), por seus evidentes méritos estilísticos e sociológicos, apesar das ressalvas. Aguardemos com atenção as próximas obras do autor, que promete aprofundar e ampliar o tema. E que a epígrafe de Raduan Nassar citada no livro inspire a sua pena.

A terra, o trigo, o pão, a mesa, a família (a terra); existe neste ciclo, dizia o pai nos seus sermões, amor, trabalho, tempo.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda)

A luz e as trevas

O relacionamento historicamente conflituoso entre o conhecimento científico e a vida cotidiana das pessoas vem de longa data. Antes mesmo de Galileu Galilei ser condenado à prisão por heresia, pensadores e cientistas da Antiguidade já enfrentavam a desconfiança de seus compatriotas.

A construção de centros de excelência da pesquisa e conhecimento foi penosa, e passou por igrejas e reinados que os moldavam de acordo com suas conveniências. Na Europa medieval esta necessidade de congregar conhecimento ganhou a forma de universidade, sendo a de Bolonha, criada em 1088, considerada a pioneira. Salamanca e Oxford surgiram logo depois, comprovando que o projeto pedagógico de um conhecimento científico podia ser falado em várias línguas. Mas as primeiras “universidades” surgiram na Ásia e África, como Nalanda, na Índia, Taxila (Paquistão), Alazar (Egito), e al Quaraouiyine, no Marrocos, fundada em 859, que é considerada pela Unesco a mais antiga em atividade.

Através dos tempos, com a preciosa ajuda do Iluminismo e do Racionalismo, a ciência foi ganhando espaço e reconhecimento, até chegar ao século XX com a ilusão de ter sido plenamente reconhecida pela sociedade. O crescimento das metrópoles, a expansão midiática, a bomba atômica, a televisão, os foguetes espaciais, a erradicação de doenças, os computadores, a indústria automobilística, a música portátil em vinil (depois em CD, depois em streaming), a cerveja em lata, o raio laser, o forno de micro ondas, o telefone celular, tudo nos fazia crer que a ciência, para o bem e para o mal, estava inexoravelmente mesclada com a humanidade.

Não é bem assim. Primeiro, que boa parte dos seres humanos não usufrui de todas a maravilhas tecnológicas, ou não sentem no dia a dia os efeitos dos avanços científicos. É só acompanhar um dia na vida de um trabalhador rural no interior do Brasil (ou da Guatemala, do Gabão ou da Indonésia) para notarmos que estão muito mais próximos do estilo de vida da Idade Média.

Segundo, a sofisticação atingida em setores de ponta da ciência fez com que se descolassem do senso comum, seja através de um vocabulário impenetrável, seja porque as elaborações teóricas muitas vezes não tem aplicação prática imediata no mundo real. Em paralelo, ocorre um crescimento também exponencial das seitas obscurantistas, dos charlatães midiáticos que lucram com a desinformação, dos negacionistas e dos pseudocientistas.

Uma das tentativas mais bem sucedidas de superar essa cisão tornou-se um gênero literário e multimidiático: a divulgação científica. Cria do século XX, celebrizou alguns nomes, e tem ajudado a universidade a repensar seu relacionamento com a sociedade.

Um belo exemplo desta postura pode ser encontrada no livro A Ilusão da Lua (Editora Contexto, 2021) uma coletânea de artigos escritos pelo físico e ex-reitor da Unicamp, Marcelo Knobel. Cientista respeitado por seus pares e com artigos publicados nas principais revistas científicas do planeta, Knobel dedica boa parte de sua produção intelectual a construir pontes entre o saber acadêmico e a realidade que nos cerca.

O volume traz saborosas explicações sobre fenômenos que nós, leigos, não compreendemos bem (ondas eletromagnéticas, matéria e energia, bioacústica, calor específico, laser), decodificados em exemplos bem humorados (como cozinhar um peru, observar ondas no mar ou ouvir o canto de um canário). Também aborda temas urgentes e “humanísticos” (vacina contra o Covid-19, refugiados, ética científica), e joga alguma luz sobre as trevas ameaçadoras que ressurgem neste século XXI.

Knobel reafirma a importância do diálogo permanente e democrático com todos os segmentos da sociedade, e não só sobre divulgação científica. “Mais do que nunca, neste momento de obscurantismo, negacionismo e de ataques à ciência e à educação, é fundamental entender o que pensa a sociedade sobre os diversos temas que estão permeando o debate público e que afetam direta ou indiretamente a nossa vida.”

Ao dividir em três partes os capítulos-artigos do livro, Knobel chamou a terceira de “Pseudociência, Negacionismo e suas Consequências”. São cinco artigos que exemplificam de forma perturbadora como as mistificações campeiam em nossa mídia, corroborada por políticos inconsequentes. O exemplo mais risível é a proibição de uso de telefone celular nos postos de combustível no município de São Paulo. Sem nenhum fundamento científico, a proibição torna-se ridícula com a evidente contradição de que a máquina onde você paga com o cartão, ao lado da bomba de gasolina, funciona da mesma maneira que um celular!

Estes e outros exemplos da ignorância científica em que estamos imersos reiteram a necessidade da leitura de cientistas como Marcelo Knobel, que não teme apontar os erros da própria Academia em sua relação com o mundo em que vivemos.

(publicado originalmente em A Terra É Redonda)

A Guernica de Bergman

Não é raro ler ou ouvir, em diversas mídias, a expressão “ovo da serpente”, com o sentido de algo maligno que está sendo gestado ou chocado. Pode ser uma referência ao passado recente da Ucrânia, pode ser ao presente do Brasil. O sentido está inexoravelmente ligado ao surgimento do nazismo, por causa de um filme de Ingmar Bergman, lançado em 1977: O Ovo da Serpente.

Os amantes do teatro sabem que a expressão não foi criada pelo genial cineasta sueco, mas extraída de uma fala shakespeariana, da peça Julio César. Quem a enuncia é Brutus, o contraponto ético e político de César, e que acaba por apunhalá-lo. “Pense nele como um ovo de serpente que eclodiria; como sua espécie se tornaria perniciosa, deve ser morto na casca.”

O drama elisabetano promove um conflito entre dois antagonistas que no fundo muito se assemelham. Secundados por personagens igualmente marcantes (Marco Antonio, Cassio, Pórcia, Calpúnia), a peça desvenda aos poucos a complexidade moral dos personagens, que tentam equilibrar suas ações com qualidades (idealismo, força, nobreza, ascendência sobre os pares) e defeitos (fraquezas, indecisões, covardia e dilemas éticos).

Bergman, grande entusiasta do teatro, aproveitou a deixa de Shakespeare para criar o seu filme mais explicitamente político. Produzido por Dino de Laurentiis, numa coprodução alemã e estadunidense, a ação se situa em Berlim, novembro de 1923. Devastada pela Primeira Guerra, com uma hiperinflação corroendo a economia, desemprego crescente e uma crise política incontornável, a república de Weimar agoniza.

O filme acompanha alguns dias da vida de um artista circense judeu norte-americano, Abel (vivido por David Carradine), após encontrar o irmão Max morto no quarto da pensão onde moram.  A revelação do suicídio, logo no início do filme, é uma aula de concisão dramática, um plano-sequência onde Abel sai de uma comemoração festiva, sobe uma escada e se depara como irmão morto na cama com um tiro na boca.

Abel vai procurar a ex-mulher do irmão, Manuela (a musa bergmaniana  Liv Ulmann), que trabalha num bordel. Pouco depois arruma um emprego numa clínica, onde estão sendo feitas experiências com pacientes. O pano de fundo de toda a trama é o clima desesperado onde está sendo chocada a serpente nazista.

Não podemos classificar o filme de Bergman como uma metáfora, mas como um relato histórico com a intenção, talvez didática, de iluminar a maior tragédia europeia do século XX. Os cinéfilos bergmanianos, acostumados aos silêncios existenciais e introspectivos, recheados de citações subliminares dos clássicos gregos e (talvez) nórdicos, não gostaram do enredo. Criticaram o ator americano, a produção roliudiana, a trama ostensivamente política.

É a Guernica de Bergman. Também alguns críticos de arte torceram o nariz para a denúncia da guerra explicitada no mural de Pablo Picasso. Não era inovadora, em relação à obra anterior do artista, abdicava das cores exuberantes das obras fundadoras do Cubismo, primas-irmãs do Fauvismo, utilizava apenas tons de bege, cinza, branco e preto, para acentuar a dramaticidade pictórica. Mas quem se importa com críticos de arte, quando o futuro da humanidade está em risco? O artista malaguenho configurou, de maneira urgente e simbólica, todo o horror da guerra que dilacerava sua Espanha natal.

 Muito já se escreveu sobre a Guernica de Picasso. Encontraram em sua superfície signos, símbolos, metáforas, metonímias, arquétipos e mitos. Bem menos papel foi gasto com a obra bergmaniana, o que é compreensível. Afinal, o cineasta realizou seu filme-denúncia do nazismo num espaço e tempo onde vários o antecederam. Não foi premonitório, nem absolutamente original, assim como Picasso também não fora. Os horrores da guerra já haviam encontrado seu grande tradutor espanhol em Goya, dois séculos antes.

No entanto, as lendas em torno da Guernica rodaram o mundo, e o impacto da obra se mostrou avassalador. A mais célebre das histórias conta que Picasso, em Paris, foi visitado por oficiais alemães, durante a guerra. Ao ver uma foto da Guernica, um oficial perguntou: “Foi você que fez?” Picasso teria respondido: “Não, foram vocês.”

Bergman não precisou se defrontar com oficiais nazistas, pelo que sabemos. Mas ao realizar o filme mais excêntrico de sua consagrada dramaturgia causou certo escândalo entre seus fãs, fez os puristas torcerem o nariz, e conquistou a admiração de uma legião de antifascistas em todo o mundo.

Lançado há 45 anos, O Ovo da Serpente é um filme para ser revisto, com urgência. Não apenas revisto, mas divulgado, debatido, principalmente entre os mais jovens. A assustadora semelhança com o que se passa hoje no Brasil, em diversos níveis, é didática. A formação de milícias, a perseguição aos artistas, o elogio da tortura e da ditadura militar, o desemprego, a inflação crescente, a miséria humilhante, o preconceito religioso ou racial exacerbado, tudo parece se repetir.

Se na Alemanha perseguiam judeus, aqui na república evangélica-miliciana são perseguidos os negros e as religiões de matriz africana. As motivações podem não ser as mesmas, mas os desastrosos efeitos se equivalem. Os sindicalistas são perseguidos pelo mesmo motivo, lá e cá. A esquerda, idem. A vocação autoritária, belicista e destrutiva nunca foi tão evidente como na recente declaração de um Secretário de Fomento à Cultura anunciando o patrocínio de projetos, com recursos da Lei Rouanet, para incentivar o uso de armas pelo cidadão comum.

Mesmo que seja bravata, é sintomático e preocupante que a Taurus, maior fabricante de armas de fogo do país, tenha investido no projeto “civilizatório” (pasme, é o adjetivo utilizado pelo governo!). Estamos ou não vendo o ovo da serpente sendo chocado?

Precisamos recuperar a Guernica de Bergman. Um filme que pode ganhar dimensões ciclópicas (e profiláticas), se for suficientemente divulgado. Deve ser exibido em escolas, clubes, associações, sindicatos e igrejas. Indicado para os filhos, sobrinhos, netos, vizinhos e amigos. Juntamente com A Onda ( Dennis Gansel, 2008) e A Fita Branca (Michael Haneke, 2010), é obra de denúncia do nazi-fascismo que, relativizando a opinião de cinéfilos e historiadores de arte, pode ser muito mais importante, em termos humanísticos, do que Morangos Silvestres, assim como a Guernica o é em relação às Demoiselles d’Avignon.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda)


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