Via Urbis

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                Fiz um programa diferente nessa Sexta Feira da Paixão. Fui assistir ao espetáculo de dança-teatro-poesia-música VIA URBIS, criação de Isabel Marques e Fábio Brazil. Protagonizado por três bailarinos, Kátia Oyama, Nigel Anderson e Renata Baima, secundados por um grande elenco de apoio, o espetáculo refaz os 14 passos da Via Sacra.

                O grande achado é colocar a Cidade no lugar de Cristo. Encenada ao ar livre, numa escadaria da Lapa, com música ao vivo e coro, acompanhamos a Cidade sendo condenada, carregando sua cruz, encarando sua verdade, caindo, sendo roubada, morrendo, sendo erguida e renascendo.

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                Há grandes momentos cênicos. A morte da cidade é uma imagem fantástica, com os três atores-dançarinos crucificados simbolicamente no chão. Até um salvador da cidade (Cirineu, o candidato corrupto) aparece distribuindo folhetos de propaganda política e prometendo cadeiras de rodas. Os poemas de Fábio, declamados durante o trajeto, são contundentes:

A cidade é tua face

 A cidade é o que tu fazes

faz-se a face que fizeres

 faz-se a face que fizeres.

Ou:

Como urubus na carniça

o Juiz posa de miss

nos Tribunais de Justiça.

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                                O espetáculo é gratuito, e será apresentado só até domingo de Páscoa. Em caso de chuva, há um plano B, pois o estúdio da companhia fica a poucos metros. Dei sorte/azar, nesta sexta. O clima fica mais intimista, e há um belo jogo de luzes e sombras nas paredes. Mas vendo estas fotos, fiquei com vontade de rever no domingo, no cenário originalmente concebido! Sinta o  clima do espetáculo e confira os horários aqui.

Flanando pelo Rio

                Faz tempo que não escrevo aqui no Fósforo, né? Ando meio preguiçoso, ou melhor, meio atolado de outros afazeres. O que é imperdoável, visto que um de meus afazeres é justamente escrever. Estou na reta final de meu segundo romance, mas a trajetória tem sido cheia de interrupções e incidentes. Faz-me falta a concentração que tive para escrever o Terno de Reis.

                Que, aliás, foi lançado no Rio, na semana passada, no aprazível bar Sabor da Morena, no Botafogo. Noite agradável, com a presença de vários amigos de longa data. Devagarinho, o romance vai se espalhando por aí, de mão em mão. Aliás, cometi o erro imperdoável de não levar um maço de notas de cinco reais para usar de troco, e alguns amigos acabaram dando 50 reais, em vez de 45. Tentei compensar pagando umas cervejas, mas certamente alguns ficaram no prejuízo. Perdão, prometo me redimir na próxima. Vocês tem crédito comigo!

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                Na verdade, fui para o Rio uma semana antes, para o aniversário de dois anos do neto. Festa bonita, no Museu do Índio, também no Botafogo. Apesar do tempo cinza e chuvisquento, a criançada se esparramou pelo belo espaço, e a alegria do aniversariante era visível. É muito legal essa apropriação dos espaços públicos que o carioca faz, e que o paulista nunca soube fazer (ou desaprendeu). Mesinhas na calçada, choro nas praças, a rua como lugar de convívio, não de conflito.

                Durante os dias, fiz algumas caminhadas pelo bairro. Na rua Guilhermina Guinle um prédio me chamou a atenção. Com uma fachada vegetal exuberante, o edifício Conde de Paris parece devolver para a cidade um pouco do verde que derrubou para poder existir. Um projeto arquitetônico digno de destaque, que deveria ser mais copiado. Infelizmente, estava sem a máquina fotográfica…

Árvores x

                Andei até o Jardim Botânico, um de meus lugares favoritos na Cidade Maravilhosa. Rever árvores centenárias, passear por alamedas sombreadas, comer pitangas no pé, admirar os jacus e saracuras que passeiam pelos gramados com desenvoltura, não tem preço. O belo lago, coalhado de ninfeias, é o sonho de um Monet tropical.

Lago Fósforo

             Fiz boas caminhadas na Enseada do Botafogo, do Clube Guanabara até o Aterro. Gaivotas e garças, atletas e idosos, sujeira e beleza. A paisagem do Pão de Açúcar é o que é, merecidamente. Bem no início da praia, uma sentinela fiscalizava atentamente o movimento dos cardumes que ainda passeiam por lá. Aqui e ali, uma tartaruga vinha à tona para respirar. Apesar da poluição, sobrevivem.

Sentinela x

   E que tal encontrar os amigos na Praça São Salvador, em Laranjeiras? Música rolando toda noite, cervejinha gelada, clima de confraternização. O lugar pegou de tal forma que uma infeliz vereadora resolveu fechar a praça, alegando perturbação da ordem. Misteriosamente, a luz se apagou às 20 horas, deixando todos no escuro. Parece que é um blecaute intencional, para esvaziar o pedaço. O pessoal? Nem aí, continuaram tocando, cantando, conversando, paquerando, convivendo. Isso numa terça-feira!

Praça São Salvador

                Enfim, voltei para Sampa pensando em tudo que nos une e tudo que nos separa. A frieza da megalópole faz com que os espaço de convívio sejam mais restritos, mais caros. Felizmente moro no Butantã, e logo me deparei com o Jazz na Kombi bombando ali no beco do Amorim Lima, pertinho do também lotado Bar Amazonas. Público se esparramando pela calçada, com um jeitinho brasileiro de ser que a maioria dos bairros paulistanos já perdeu. Ainda há esperança.

Jazz na Kombi

O Centenário + 20 de Ladário Teixeira

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                É provável que você, mesmo sendo um amante da música brasileira, nunca tenha ouvido falar de Ladário Teixeira. Se nasceu em Minas Gerais, a chance aumenta. Se é de Uberlândia, deve estar sorrindo, orgulhoso, pois é nome de praça e escola pública. Pois foi ali, em 10/09/1895 que nasceu o grande compositor e saxofonista Ladário Teixeira, uma lenda da musica brasileira.

Sua biografia é daquelas que dariam um belo filme, cheia de episódios incomuns. Pra começar, Ladário era cego. Interessou-se por música ao encontrar um velho sax de seu pai, abandonado no porão de sua casa. Pense numa sequência de imagens onde os moleques da rua sobem em árvores, empinam pipas, jogam bola no terreno baldio. Esqueça essa última parte, o futebol ainda não havia chegado a Uberlândia. Corta para o jovem Ladário tocando solitário no porão, desvendando os mistérios do instrumento.

Ladário logo percebeu que era capaz de produzir sonoridades inacreditáveis no seu sax. As primeiras apresentações se deram em dupla com o clarinetista (e futuro maestro) Barraca, que escondia Ladário atrás da cortina e pedia para a plateia adivinhar qual instrumento estava sendo tocado. Violino, flauta, celo, clarineta, voz humana…

 Aos 24 anos, Ladário obviamente não sabia ler ou escrever. Após tocar no Instituto Benjamin Constant, em Belo Horizonte, foi convidado a fazer um curso, e em pouco tempo se tornou professor de Brayle, e por toda a vida um militante em defesa dos direitos dos deficientes visuais. Mas de volta ao triângulo mineiro, percebeu que na pequena Uberlândia do século XIX não havia espaço para se desenvolver como músico.

Antes que virasse uma atração de circo, resolve ir para São Paulo e presta concurso para o Conservatório Paulista. Na apresentação escolheu uma música que era um clássico do violino. O professor Altério Mignone (pai do maestro e compositor Francisco Mignone), membro da banca, deu a seguinte sentença: “Teremos prazer em admiti-lo no Conservatório para aprender qualquer outro instrumento, pois para o sax não temos professor que possa ensinar mais do que já sabe”.

Uma vez formado (em violino), Ladário excursionou pela Europa. Suas primeiras gravações, sempre com o sax, foram em 1928, para o selo Parlophon: “Fantasias de concerto 1 e 2” de Wilhelm Popp (erradamente atribuídas a Patápio Silva em vários locais de referência, como o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira), o fox-trot Soluços de Jegue e o tanguinho Canto do Galo, ambos de sua autoria. Registrou também a Canção Sem Palavras (W. Hauer) e Serenata (H. Sitt). Na Odeon gravou Fantasia Brilhante (J.B. Singelée) e Airoso (J.S. Bach).

A história registra que em Barcelona o filho do inventor, Adolphe Sax, beijou-lhe as mãos e disse: “Meu pai inventou o saxofone, mas o senhor fez dele um instrumento digno da admiração do mundo inteiro.” Outro bom causo diz que após se apresentar no Salão Pleyel, em Paris, teve os impostos devolvidos pelo prefeito da cidade em homenagem à sua maestria. O público jamais havia ouvido alguém tocar Rimsky-Korsakov, Liszt ou Berlioz daquela maneira.

 Fato comprovado é que criou um tipo especial de sax conhecido como “Modelo Ladário”, desenvolvido por ele mesmo junto ao fabricante Selmer, adotado nas principais orquestras do mundo. Fez outras turnês pela Europa e Estados Unidos, sendo reconhecido neste país como um dos grandes do instrumento. Ladário casou-se com a pianista e maestrina carioca Aída Dias Teixeira, com quem teve seis filhos.

Esse formidável músico, que teria completado 120 anos em setembro de 2015, morreu em Belo Horizonte em 1964. Merece ser mais conhecido por todos os brasileiros. Sua maestria pode ser comprovada nesta gravação do concerto de Popp. Ladário Teixeira era mesmo genial, confira:

(Publicado originalmente em http://www.revistamusicabrasileira,com.br)

O Canto magistral de Cida Moreira

Cida Moreira é um caso raro na música brasileira. Pianista, atriz e cantora refinada, demonstrou seu talento em dezenas de palcos, seja em peças, musicais, filmes  ou shows de variados formatos. Entertainer completa, é capaz de magnetizar plateias apenas com voz e piano. E quando escolhe os músicos que tocarão com ela, é de bom gosto à toda prova.

Cuidadosa nas escolhas, já gravou de tudo um pouco, passeando por diversos gêneros com segurança e inteligência. Um de seus discos mais memoráveis trazia canções de filmes brasileiros, outro homenageava Chico Buarque. Soledade, seu CD de 2015, é o corolário de uma carreira feita de pequenas obsessões. Estão de volta Milton e Ronaldo Bastos (Um Gosto de Sol), numa interpretação arrepiante, e temas clássicos do folclore brasileiro (Moreninha e Viola Quebrada, de Mario de Andrade), onde opta pelo acompanhamento de violões, violas e acordeom para sublinhar a sonoridade telúrica destas canções.

Chico Buarque também retorna, e de forma surpreendente. Quem mais teria coragem de regravar Construção, depois daquele arranjo original e espetacular de Rogério Duprat?  A resposta é: Cida Moreira. E a canção virou um tango trágico, com sotaque piazzollesco, em arranjo brilhante de Arthur de Faria para quinteto de cordas. Sublime!

Cida recupera preciosidades como a festivalesca Bom Dia, de Gil e Nana Caymmi, e Outra Cena, de Taiguara, faixa que encerrava o antológico LP Ymira, Tayra, Ipy, de 1976. Mergulha no rock do Joelho de Porco, com A Última Voz do Brasil, de Tico Terpins, Zé Rodrix, Ferrante Jr. e Próspero Albanese, e relembra a inusitada parceria de Macalé com Brecht (Poema da Rosa).

Mas Cida não seria Cida Moreira se ficasse apenas presa ao passado. Há várias canções novas, de músicos-parceiros que tocam no disco. A bela Forasteiro, parceria de Thiago Pethit e Helio Flandres, a provocante Oitava Cor, de Luiz Felipe Gama e do português Tiago Torres da Silva, a feroz O Pulso (Titãs), em arranjo eletroacústico que vira de cabeça pra baixo a gravação original, inserindo uma citação de Queda, de André Frateschi. O amigo Nico Nicolaiewski, morto em 2014, é lembrado com a existencial Feito Um Picolé no Sol.

Completam o CD um poema de Alice Ruiz, e duas vinhetas musicais, uma de Arthur Nogueira e Dand M (Preciso Cantar) e outra de Noel Rosa e João de Barro (Pastorinhas), que encerra o disco. Uma viagem magistral por um país onde, segundo a própria cantora, coisas belas estão desaparecendo, enquanto outras vão surgindo. Uma escolha muito pessoal, mas que Cida Moreira interpreta com tal força que acaba dividindo com todos os ouvintes a sua emoção. Um disco definitivo de uma magnífica cantora, com arranjos primorosos e músicos excepcionais. Ouça aqui:

Manzano, o poeta-escravo

Poeta-escravoNão se tem notícia, no Brasil, de qualquer texto escrito por escravos. Conhecemos alguma música, pintura, escultura ou arquitetura feita por mãos negras, muitas vezes sob a ameaça da chibata. Mesmo considerando que a imensa maioria não sabia escrever, é razoável pensar que os primeiros alfabetizados narrassem suas histórias. Há poeta negros libertos e escritores descendentes de escravos (aliás, estão entre os maiores de nossa literatura), mas relatos coetâneos da escravidão, se houve,  foram ocultados ou destruídos.

Em toda a América Latina, o único autor-escravo conhecido é o cubano Juan Francisco Manzano (1797-1854). Seus escritos foram traduzidos para o inglês em 1840, patrocinado por um grupo de abolicionistas britânicos. Nos Estados Unidos houve estímulo para que ex-escravos contassem suas histórias, e isso propiciou o surgimento de vários documentos históricos testemunhais, como o famoso 12 Anos de Escravidão, de Solomon Northup, adaptado para o cinema e laureado com o Oscar de melhor filme em 2014. Na América de colonização ibérica, isso não ocorreu.

 Pelas mãos do escritor Alex Castro, finalmente Manzano é traduzido entre nós. Num cuidadoso trabalho de pesquisa, o brasileiro viajou a Cuba para conhecer o manuscrito autógrafo, organizou as versões do texto-base, cotejou as interpretações existentes e fez duas recriações: uma tradução fiel, mantendo a grafia e sintaxe original, e uma transcriação em português contemporâneo, dentro da norma culta. É claro que a leitura desta transcriação é a indicada para quem quer ter um primeiro contato com a vida de Manzano, ficando a primeira para estudiosos que queiram se aprofundar na obra do pioneiro cubano.

Podemos afirmar que A Autobiografia do Poeta-Escravo (Hedra, 2015, 224 páginas) é uma obra única, fundamental para entendermos melhor as relações escravagistas na América colonial. Conta com uma esclarecedora introdução do professor Ricardo Salles, fotografias, reproduções do manuscrito e um cuidadoso trabalho de pesquisa  linguística, histórica e social empreendida por Alex Castro. Suas notas enriquecem a leitura com preciosos detalhes históricos, sociológicos e linguísticos.

Percebe-se, durante a leitura, o medo que Manzano tinha de ser censurado, de ver sua obra desaparecer. Evita falar mal de seus senhores, e mesmo quando descreve os castigos terríveis, os açoites, as privações desumanas, culpa no máximo os feitores e capatazes, não os amos. Uma literatura de oprimido, que não consegue se desvencilhar do medo, e que mesmo assim revela um universo doloroso e sombrio, capaz de impressionar seus leitores quase dois séculos depois.

Alex Castro não se limitou ao livro, publicado no Brasil e em Cuba. Criou também uma página na internet onde podemos conhecer um pouco mais sobre essa figura incrível. Ali está o soneto mais famoso de Manzano, Meus Trinta Anos, tão rico em significados. Confira!

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Alguns dias de molho por causa de uma contratura muscular, e aproveitei o repouso forçado para encarar a curiosa distopia passadista de Haruki Murakami. São três volumes, 1272 páginas, milhões de exemplares vendidos em mais de quarenta países. Um best seller, portanto, o que costuma deixar os literatos meio desconfiados.

A linguagem é fluente, a leitura corre fácil. Mas algumas referências culturais, logo no início, mostram que o japonês não pretende entregar pãozinho quente no balcão, mas um croissant diferente. Aliás, dois, pois a ação se passa num estranho mundo paralelo, muito parecido com o nosso, onde duas luas são avistadas no céu. E apenas por algumas pessoas, o que aumenta o grau de estranheza da narrativa.

A trilha sonora que pontua a primeira passagem da protagonista, Aomame, para esta dimensão, é a Sinfonietta, de Leos Janacek, que só os tchecos devem conhecer de cor. A ação se passa em Tóquio, em 1984, e muitas referências ocidentais povoam a narrativa. Orwell (claro), Proust, músicos de jazz, Churchill, Sean Connery, atrizes de cinema, cantores pop. Estamos numa das maiores metrópoles do mundo, imersos num mundo midiatizado e, naturalmente, corrupto.

Aomame é personal trainer (precisamos traduzir essa profissão, urgente! Treinadora particular, que tal?), e sonha reencontrar um amor de infância, Tengo. Este é professor de matemática num cursinho, e quer ser romancista. Desnecessário dizer que ele também sonha em reencontrar o amor da meninice. Pressionado por seu editor, aceita reescrever um original escrito por uma adolescente de 17 anos, que narra uma história fantástica sobre uma seita ocultista, que abre portas dimensionais para o Povo Pequenino, que se dedica a fiar Crisálidas de Luz (nome do romance-dentro-do-romance), com uma finalidade não muito clara.

O livro se transforma num sucesso, mas Tengo e seu editor passam a ser perseguidos por membros da seita, como se aquilo fosse real. Muitas peripécias vão rolar, ampliando o leque de protagonistas com um detetive sagaz e asqueroso, a partir do terceiro volume.

Qual a grande novidade? Em princípio, uma fantasia para adolescentes, tão aventurosa e cheia de reviravoltas quanto um Harry Potter. Para disfarçar isso, Murakami introduziu cenas de sexo, e dotou sua heroína de uma estranha amoralidade. Ela elimina, digamos assim, alguns homens em seu percurso. Para suavizar seu crime, fica explícito que todos eram acusados de machismo, por vezes violento.

Tengo é mais certinho, mas não santo. Tem uma amante casada e dez anos mais velha, enquanto espera o reencontro com Aomame. Personagens mais complexos são o editor, o líder da tal seita, a adolescente de 17 anos e seu tutor. O que afinal, torna 1Q84 um sucesso tão estrondoso?

Primeiro, a habilidade narrativa do autor. Sua capacidade de fabulação mantém os eventos fantásticos da história no limite do provável, para os mais crédulos. Segundo, o uso inteligente de arquétipos. Quer coisa mais manjada que casal de crianças que eram rejeitadas na escola se reencontrarem na vida adulta, superando todas as dificuldades? Manjado, mas eficiente. É um enredo romântico, imerso numa era poluída, conturbada, onde estado e instituições quase não tem papel. São indivíduos lutando contra corporações, e vice versa. Estamos caminhando para isso, em 2016.

Murakami escreveu outros romances, mas nenhum tão bem sucedido como esse. Difícil dizer se conseguirá se superar. Certamente me proporcionou bons momentos de leitura, apesar de ter provocado também alguma irritação com a mania de citar as marcas das roupas, dos relógios, dos carros que os personagens utilizam. Merchandising é altamente poluente, em qualquer forma de arte.

Releituras 2016, primeiro semestre

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Como já comentei algumas vezes por aqui, há bom tempo coloco na minha meta anual de leitura pelo menos um clássico. Como pratico isso há mais de trinta anos, já deu pra ampliar um pouco a visão. Creio que se viver até uns 180 anos terei o conhecimento de um Harold Bloom. Como infelizmente acho que não chegarei lá, fico satisfeito em me tornar um pouquinho menos inculto.

            2016 começou diferente. Passei o réveillon (caramba, ninguém ainda inventou uma tradução para essa palavra?) na praia e, sei lá por que, resolvi reler Raízes do Brasil, do mestre Sérgio Buarque de Holanda, do qual só havia lido alguns capítulos na faculdade. Leitura indispensável para quem se interessa pela formação do povo brasileiro, da nossa cultura. É primorosa a diferenciação que ele faz entre a colonização espanhola e portuguesa, a partir do traçado básico das ruas, das cidades. Leitura tão rica que me fez ler trechos em voz alta, empolgado, para a seleta plateia que me acompanhava. Felizmente ninguém reclamou.

            Na mesma semana, em Barequeçaba, li O Relato de Um Náufrago, de Gabriel Garcia Marquez. O livro surgiu de uma entrevista que o então  jovem jornalista GGM fez com um sobrevivente do naufrágio de uma corveta da Marinha colombiana, ao voltar uma reforma nos EUA. O cara sobreviveu dez dias agarrado a destroços, em pleno Caribe, até pisar em terra firme. Virou herói nacional, e o ditador de plantão (Pinilla) fez questão de condecora-lo.  O ponto alto da narrativa é a revelação de que o navio vinha carregado de muamba, eletrodomésticos e bebidas, e a denúncia custou a Márquez seu primeiro exílio, aos 28 anos, além da retirada da medalha do marinheiro. “O que não sabíamos, nem o náufrago nem eu, quando tentávamos reconstituir minuto a minuto a sua aventura, era que aquele rastrear esgotante haveria de nos conduzir a uma nova aventura, que causou uma certa agitação no país, que custou a ele sua gloria e sua carreira e que a mim poderia ter custado a pele”. Nada mau!

            Imagino quantas reportagens poderiam ser feitas no Brasil, envolvendo militares das três armas, sobre desvios, contrabandos, subornos, etc. São muitos anos de ditadura, e poucos jornalistas dispostos a desvendar pequenas histórias. Ninguém até hoje sabe direito quanto custou a ponte Rio-Niterói…

            Um mês depois estava em Cunha, no alto da Serra do Mar, e me bateu uma vontade de reler Guimarães Rosa. Sagarana, o volume de contos que o consagrou, é uma delicia absoluta. Se algum autor brasileiro merece ser chamado de genial, é ele. Penso na velha diferenciação criada por Pound: gênio inventa novas formas, mestre domina com perfeição as formas de seu tempo. Temos alguns mestres, certamente, e Machado talvez seja o maior deles. Mas o velho Rosa… Até arrisquei escrever um conto depois da releitura de Sagarana, mas tranquei num cofre com instruções expressas para que seja publicado quando eu tiver 180 anos. Meu tataraneto compreenderá.

            De lá pra cá o semestre tem sido mais conturbado. Leituras incidentais, alguns contemporâneos, um pouco de mainstream (outra palavrinha demandando tradução), poesia rarefeita, muito debate político virtual. Quando achei que a temporada de clássicos estava encerrada, minha amiga Fernanda me presenteou com dois volumes, em maio. A compilação definitiva da obra de Gregório de Matos feita por seu pai, James Amado. Como resistir?

            Estou há vários dias convivendo com o Boca do Inferno. Leitura de cabeceira, ora lírica, ora satírica. Quando ele dirige invectivas alexandrinas para o governador Tucano, sinto uma estranha sensação de atualidade. O semestre já valeu, e levarei essas releituras para sempre. Serão úteis, mesmo que minha memória comece a falhar depois dos 120…

 

Um novo romance

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         Terminei mais um romance. Não, Joãozinho, não estou falando de minha vida afetiva, mas de um livro. Um volume que, de acordo com certas normas, precisa ter X páginas para ser considerado romance. Abaixo disso, é novela. Se for mais econômico, é conto. Não há fronteiras definidas, mas um senso comum, estabelecido pelo cânon ocidental.

    O primeiro romance, Terno de Reis, publicado em junho de 2015, foi uma boa experiência. Custei a me acostumar com esse papo de ser autor publicado. Um autor não-publicado é menos autor? Acho que não, mas na sociedade do espetáculo é assim que funcionam as coisas. Exposição.

     Refleti um pouco sobre a oportunidade de iniciar outro romance. Não é atividade lucrativa, com raras exceções. O investimento em tempo e energia é considerável, e você pode ter retorno dali a uma década. Ou nunca. Mas se você escreve para os amigos, vale a pena. Os elogios costumam ser generosos – amigo é amigo! – e algumas vezes até honestos. Obviamente há os que se calam, os que compraram o livro e não leram, os que leram mas não gostaram, os que não gostaram e mudam de assunto e falam de futebol quando te encontram. Continuam amigos, e isso é o que importa.

      Há amigos críticos. Sei lá, deve haver. Nenhum chegou na minha cara e disse “não gostei”, por isso e aquilo. Como leitor, também evito esse tipo de constrangimento. Como dizer à minha irmã que o livro dela é uma droga? Veja bem, é uma situação hipotética, não tenho nenhuma irmã que escreva. Que eu saiba.

        Mas voltemos ao segundo romance. Será que alguém começa escrevendo um romance, de cara? Em geral, os jovens arriscam poesias ou crônicas. Alguns tomam fôlego e passam pro conto. Numa comparação rasteira, é como um velocista se tornar um fundista. Alguns serão ótimos velocistas a vida toda, e merecem aplausos. Outros percebem que a explosão muscular já não é a mesma, e direcionam seus esforços para as provas de resistência. Já reparou que a maioria dos romancistas é madura, idosa, grisalha, enquanto há muitos poetas jovens, imberbes, sem filhos? Talvez poetas maduros sejam eternamente jovens e romancistas sejam poetas que envelheceram. Quem sabe?

      Nel mezzo del cammin (citar Dante é sempre chique, né não?), com um romance publicado, percebi que tinha vários contos na gaveta. Alguns premiados, outros inéditos, e até uns desprezados. Publicar um livro de contos nunca me animou, nem sei explicar direito o porquê. Mas aí resolvi escrever um romance-de-contos, uma história com um monte de historinhas dentro. Não é alguma invenção revolucionária, longe disso. Desde as 1001 Noites contar histórias dentro de uma história é recurso manjado.

     O grande desafio foi tornar o negócio orgânico. Ou seja, fazer com que os contos dialogassem com o entrecho do romance, sendo ora causa, ora consequência. Descartei alguns, aproveitei outros, reescrevi uns, inventei outros tantos. E fechei um volume de vinte e um capítulos, intercalados por vinte contos. O romance-de-contos foi submetido a alguns leitores, com o pedido expresso de serem críticos, sem desviar para os pênaltis perdidos pelo Corinthians no próximo encontro.

      A primeira leitora, Sandra Abrano, batizou o volume: Entre Contos, um Romance. Definição objetiva, com um subtexto que será logo percebido por quem lê. Obviamente pinta um romance entre os personagens do “romance”. Nesse momento os originais (como é antiga essa expressão! Para quem escreve em computador não existe original, mas cópias, cópias rasuradas, cópias esquecidas, cópias mexidas, cópias definitivas) estão nas mãos dos editores. Que podem perfeitamente achar que o resultado é frustrante, e que talvez seja melhor eu escrever um romance tradicional, como o primeiro. Que nem é tão tradicional assim, mas vá lá.

         Por via das dúvidas, iniciei um terceiro romance…

O Rei Condenado à Morte

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                Há contistas que são fiéis a um estilo, que modelam suas narrativas com a mão firme de um alfaiate que sabe como fazer o melhor terno, e não perde tempo arriscando-se a fazer outras peças. Outros são múltiplos, experimentadores e, muitas vezes, surpreendentes. Após terminarem uma história, dão uma guinada e apontam o sextante para outra direção. Ambos podem errar ou acertar, e isso faz parte do encanto da literatura. Um trem que anda sempre nos trilhos também descarrilha. Um pássaro de voo livre pode trombar com uma vidraça.

                Edmar Monteiro Filho é do segundo tipo. Contista várias vezes premiado, também se arrisca na poesia, no romance e na crítica literária. E acaba de lançar sua ultima coletânea de contos, O Rei Condenado à Morte & outras histórias, pela Editora Penalux. Passei o feriado lendo e relendo, deliciado, as oito narrativas do volume de 200 páginas.

                Deixarei de lado o pernosticismo de chama-lo de Monteiro Filho, como fazem alguns resenhistas. Edmar tornou-se um amigo, nos caminhos literários da vida, e é pelo prenome que me sinto à vontade de nomeá-lo. Mas quando acabei de ler a última página, soltei um PQP e berrei para as estrelas, da varanda da casa onde estava, no último feriado, no interior de São Paulo: “Edmar Monteiro Filho, você escreve bem pra c*!”

                O conto-título, que abre o volume, é um denso, reflexivo e emocionante relato sobre futebol. O Rei, bem, todos sabem quem é. O foco são os personagens secundários, os coadjuvantes, as vítimas tombadas no campo de batalha. Viajamos da Copa de 58 até certa noite de domingo no Maracanã, onde a expressão “milésimo gol” passou a ser propriedade del Rei. E somos convidados a meditar sobre alguns centímetros ou uma fração de segundo, que podem ser decisivos para a glória ou o opróbio.

                O conto seguinte, 1º De Janeiro É o Dia dos Mortos, já nasceu antológico. Vencedor do Prêmio Guimarães Rosa, da RFI francesa, é simplesmente um dos melhores contos policiais que já tive o prazer de ler. Cenário noturno paulistano, com uma pitada de Cortazar temperando o final.

              Aliás, Cortazar é uma influência importante na obra de Edmar. Mas não única, é bom salientar. O conto seguinte, Água Suja, lembra o cotidiano sufocante e burocrático de Kafka, e remete a procedimentos típicos do noveau roman, de Robbe-Grillet. Os mais sabidos hão de me lembrar que o próprio Cortazar também amava Kafka e foi influenciado pelo noveau roman, e não discordarei. A cultura literária de Edmar, que parece ter lido tudo, pode se dar ao luxo de brincar com todas estas referências, acrescentando novas clivagens.

               Então saltamos para Gêmeos, conto maravilhoso, fábula oriental com uma narrativa recortada em dois tempos/vozes, de beleza incomum. Talvez seja o conto onde a maestria da escrita, o domínio do léxico e a complexidade da arquitetura ficcional sejam mais evidentes. Mas para aceitar essa verdade temos de esquecer que a aparente simplicidade de outros contos pode ocultar uma profunda elaboração. É preciso dominar com perfeição todos os recursos narrativos para provocar essa deliciosa confusão em nossa mente.

                O Cavaleiro Negro contra o Matador de Cangaceiros tem um cenário mais familiar, e pela primeira vez senti ecos de um conto de outro livro do escritor, Que Fim Levou Ricky Jones? A narrativa pelos olhos de um menino, onde heróis e vilões se confundem com a vida real, é um tema caro ao autor, e essa visão aparentemente inocente de um ser que descobre as anfractuosidades do mundo comparece em outros momentos de sua obra.

            Em Voador, admirável quebra-cabeças narrativo, os personagens são Kublai Khan, Marco Polo, Italo Calvino, o rei V. e – por que não revelar – o próprio Edmar. Novamente somos introduzidos num clima de fábula, viajando no tempo e no espaço, indo da China à Florença, passando por Amparo, no interior de SP.

            Alfinete é o conto mais curto do livro. Mexe com nossos medos, com os limites da loucura e do improvável. Aí me senti num terreno mais borgiano que cortazariano, e aplaudi o final magistral. Sou meio antiquado, não resisto a uma chave de outro encerrando uma narrativa!

         O conto que encerra o volume, Raul, Raul, promove um reencontro com cenários brasileiros, com histórias de meninos, sinhás e empregados no ambiente rural. Bem distante do realismo dos modernistas, carrega uma atmosfera de vaga insanidade, de alguma coisa fora do lugar. É conto pra ler e reler, saboreando as sutilezas da escrita e as mudanças de perspectiva dramática que delineiam o personagem.

Este é um livro que vai morar em minha cabeceira por muito tempo, e certamente vai provocar novas leituras. Edmar se consolida como um dos melhores contistas brasileiros em atividade, e não cansa de me surpreender. Felizmente.

O gigante Fernando Faro

Fernando Faro

No dia 25 de abril o mundo musical brasileiro ficou mais pobre: Fernando Faro passou pro andar de cima, depois de uma vida ligada às artes, principalmente à nossa música.  Não fazia música, não tocava nenhum instrumento (pelo menos profissionalmente). Mas o programa Ensaio, criado e dirigido por ele na TV Cultura, é o mais importante acervo musical de nossa história. Não é pouco.

Faro nasceu em Aracaju, em 1927, cresceu em Salvador, e veio para São Paulo para estudar Direito. Logo abandonou o curso, ligando-se ao jornalismo, ao rádio e ao teatro. Foi através deste que se tornou um profissional de TV, gravando peças para o programa Ribalta, na extinta TV Paulista.

Nos anos 60, o Baixo (como era chamado e como chamava todos) realizou especiais de TV que reforçaram sua ligação com a música brasileira. Dirigiu o tropicalista Divino Maravilhoso, na TV Tupi, coordenou festivais de música e programas especiais com Chico Buarque, Caetano, Gil, Gal e Elis, entre outros. Em 1971 passou a integrar a equipe da TV Cultura, onde continuou dirigindo teatro e musicais.

Mas foi em 1990 que surgiu seu mais famoso filho: o programa Ensaio. Com uma estética inovadora, que incorporava o silêncio, as pausas durante uma entrevista, que ocultava o entrevistador (ele mesmo) e suas perguntas, que mergulhava seus entrevistados na penumbra, muitas vezes recortados em contra luz, Ensaio foi uma revolução. Diz a lenda que, quando jornalista, fez uma reportagem com um criminoso detido, e para que as grades não aparecessem na imagem, orientou a câmera para que fechasse em close no entrevistado. O resultado foi tão bom que inspirou, muito depois, a estética do Ensaio.

Seus críticos diziam que era televisão-feijoada, pois as imagens privilegiavam detalhes, pé, orelha, mãos, lábios. Na verdade, Faro compreendeu muito bem que o corpo fala, e que sua linguagem era perfeita para o veículo. Abdicando das perguntas, promoveu um instigante jogo com o telespectador, onde além do interesse na resposta pairava a curiosidade sobre o que havia sido perguntado. O resultado parecia ser algo como um confessionário íntimo, intercalado por canções.

Essas novidades não teriam repercussão se não fosse o extraordinário elenco que o programa reuniu, em todos seus 26 anos. Sem preconceito contra gêneros e estilos, Faro aproveitou suas relações mantidas desde o as anos 60 (e era um homem afetuoso e cordial) para estender seus contatos a músicos, cantores e compositores de todo o Brasil. Das maiores estrelas da MPB até astros regionais, de jovens talentosos a antigos ídolos esquecidos, Ensaio reuniu o maior patrimônio audiovisual da música brasileira de todos os tempos.

São mais de 700 entrevistados, alguns com direito a bis. A TV Cultura lançou uma série de DVDs comemorativos do programa, com uma seleção de nomes fundamentais da MPB.  Até hoje, uma passagem pelo Ensaio é um marco na vida de qualquer jovem artista, um reconhecimento. Embora a fórmula tenha experimentado algum esgotamento nos anos mais recentes, sua importância não pode ser mais questionada. Grande Fernando Faro!

(publicado na revistamusicabrasileira.com.br)

A perversa elegância do mal

O punho e a renda

Este romance é um exemplo perfeito de como a ficção pode jogar luz sobre o passado, iluminando meandros sombrios e revelando homens e ratos. O autor, Edgard Telles Ribeiro, é diplomata de carreira, e também escritor premiado, jornalista e professor de cinema.

O livro é aberto com a tradicional advertência “O presente livro é obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou falecidas é mera coincidência.” Bem, a ficção começa aqui. Se devemos lembrar-nos de um cineasta (e vários são citados no enredo), é de Orson Welles. Um pouco de Cidadão Kane, e muito de Verdades e Mentiras.

O cenário é real”, concede o autor. A história começa em 1968, e avança numa montagem bem engendrada, com flashbacks e reflexões no tempo presente (o livro foi publicado em 2010). E bastam algumas páginas para começarmos a reconhecer personagens reais, figuras históricas e situações vividas. Alguns nomes são ligeiramente modificados, outros estão lá, com todas as letras.

O narrador é um jovem funcionário do Itamaraty, discreto, amante de jazz e literatura. Primeiro de maneira próxima, depois à distância, tenta traçar o perfil de um amigo mais velho, Max, que domina como poucos o jogo do poder. Sua ascensão profissional é favorecida por sua aproximação com os militares, envolvendo-se em jogadas tenebrosas que aos poucos vão se descortinando.

O personagem, transferido para o Uruguai, articula de forma subterrânea a colaboração entre a ditadura brasileira e os militares uruguaios, e depois os chilenos. Promove contatos com empresários que financiam a tortura, se alinha com a CIA, mantém contato com o M16 inglês. Os respingos de sangue dos golpes militares no continente não parecem manchar os punhos de renda de Max, que mais adiante terá papel de destaque na aquisição das usinas nucleares alemãs. Sempre de forma não oficial, claro. Fica claro que o sonho dos generais brasileiros era ter a bomba, coisa que não interessava aos norte-americanos. No entorno do personagem, somos convidados a entrever o ambiente diplomático, suas festas e jantares, os almoços regados a bons vinhos, as disputas de poder, os ciúmes e as vaidades.

Vários livros têm sido escritos sobre o período, mas poucos tão originais como este. Ficamos espantados não com a banalidade do mal, no sentido proposto por Arendt, mas com a elegância do mal, vestido em ternos de corte impecável e fumando cigarrilhas cubanas. E o talento de Edgard Telles Ribeiro é demonstrar que não por isso seja menos odioso.

            Não é um romance político, no sentido estrito, mas antes uma investigação sobre um homem que vendeu a alma para o diabo, quando este vestia farda e comandava ditaduras. Através do agente americano, compreendemos melhor as articulações políticas subversivas da CIA no continente, desestabilizando governos e treinando aparatos de repressão.

Quem conhece o Itamaraty de perto deve saber quem é o retratado. Homem culto, observador perspicaz e espírito maquiavélico, soube aproveitar a redemocratização para vestir uma nova pelagem, chegando aos degraus mais altos da carreira. Os fantasmas que arrasta em seu passado não apontam o dedo para um colaboracionista. E se apontam, não conseguimos enxergar.

Outros personagens aparecem. A mulher de Max tem papel relevante na trama, assim como o citado agente. São estes que revelam pistas importantes para o narrador, dando um clima de thriller de espionagem ao enredo.

Escrito com maestria e inteligência, O Punho e a Renda é obra fundamental para entendermos as sombras e luzes daquele lamentável período da História. São 550 páginas de uma leitura arrebatadora, da qual emergimos com um travo amargo na boca, ao percebermos quão perto estamos dos mesmos podres interesses que fermentaram o golpe de 1964.



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