Jornalismo-de-retratinho

cabeca-de-porco

             O que levou o jornalismo a níveis tão baixos quanto os que vemos hoje nos jornalões, rádios e emissoras de TV? Como pode o avanço tecnológico ter aberto a porteira para tanta mediocridade, mau-caratismo e bajulação? Em que momento foi que as escolas de jornalismo – policiadas em tempos de ditadura por serem “antros de esquerda” – passaram a formar tantos direitistas, conservadores e reacionários?

               A profissão de jornalista surgiu como uma necessidade social, e não demorou muito pra ser reconhecida. Claro que antes disso havia os arautos, os narradores, os cantadores de feira, os fofoqueiros, os emissários do rei, os pichadores de muros (sim, são mais antigos que o jornalismo!).

                Com a invenção de Gutemberg, passaram a existir como profissão. Relatores de notícias, no início. Com o tempo, alguns se tornaram colunistas, outros até editorialistas. Mas, até o final do século XX, constituíam um grupo quase secreto, desconhecido do grande público. O anonimato lhes garantia a possibilidade de se misturar ao povo, ouvir conversas em bares, clubes e reuniões sociais, partidos políticos e sindicatos. Quem conhecia algum jornalista pessoalmente já adquiria um status, positivo ou negativo. Poderia delatá-lo ou abrir portas. O prestígio do jornalismo cresceu tanto que, ainda no mesmo século, passou a ser chamado de Quarto Poder.

                A partir dos anos 50, a TV transformou o jornalista em estrela. Aquele sujeito ou sujeita que aparece todo dia no horário nobre passa a ser tietado em aeroportos, restaurantes e hotéis, fotografado, idolatrado, vira assunto de revistas de fofocas, pedem autógrafos quando ele é visto em praça pública. Aliás, pediam, no século passado. Hoje fazem selfies.

                A explosão da internet revolucionou completamente o trânsito de informações no planeta. A tiragem dos jornalões e revistas semanais desabou, e rapidamente criaram sites para recuperar o prejuízo. Surge aí o jornalismo-de-retratinho, imitando a TV, onde cada colunista ganha forma, sorriso ou carranca. A mídia impressa adotou o conceito, e cada vez mais se vê o jornalismo-de-retratinho estampado nas colunas, matérias e comentários. Na rede, nas revistas, na mídia em geral.

                E o jornalista da mídia impressa, da internet, se tornou uma celebridade! Qual o artista que não quer ter seu retrato publicado no jornal diariamente? Músicos, atores, artistas plásticos, bailarinos, escritores, ninguém consegue. Mas jornalista, sim. São tietados em aeroportos, restaurantes e hotéis, etc.

                Esse personagem não pode mais investigar uma notícia. Não pode entrar numa assembleia, num café, numa passeata, num congresso, num estádio de futebol, e fazer seu trabalho de observador-analista. É um simulacro de jornalista, um mero apresentador de notícias, um talking head. O mais trágico: virou notícia. O povo quer saber o que ele faz nas horas de lazer, o que come, por que casou, por que descasou. Um jornalista nunca deveria ser notícia, já dizia um dos pioneiros da profissão.

                A vaidade é um dos sete pecados capitais, como sabemos. E cada vez mais vemos jovens entrando numa faculdade de jornalismo não para enfrentar governos, revelar esquemas de poder ou investigar crimes, mas para ter… um retratinho nos jornais! Essa vaidade é naturalmente explorada pelos donos de empresas de comunicação, cujos interesses são bem outros. Informação é negócio, é jogo de interesses, é mercadoria. E o(a) jovem que quer ter o retratinho em destaque vai aprender rapidinho o jogo do poder para alcançar seu objetivo. Bajular os patrões e latir para os inimigos dos patrões.

               “O tempora! O mores!”, como diria Cícero (106-43 a.C.), político e orador romano que não ficaria mal na galeria de precursores do jornalismo.

A arte de fazer digressões

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       Javier Marías é um dos nomes mais conhecidos da literatura espanhola contemporânea. Com dezenas de títulos publicados, entre romances, contos e ensaios, obteve com Los enamoramientos os aplausos de público e crítica. O jornal El País o considerou o melhor romance de 2011, o que não é pouca coisa.

            Marías conta a história pela ótica de Maria Dolz, funcionária de uma editora que costuma observar de longe um casal, frequentador do mesmo café que ela. Sente empatia por eles, imagina ser um casal perfeito. Certo dia o sujeito vira notícia de jornal: foi esfaqueado e morto por um flanelinha, no meio da rua.

            Após algum tempo Maria aproxima-se da viúva, e acaba se envolvendo com o melhor amigo do morto, uma figura ambígua, que costuma levar os filhos do casal à escola. A história passa a ganhar uma conotação de suspense, de policial, onde nunca temos certeza se é realidade ou fantasia da protagonista.

            O estilo digressivo de Javier Marías deve enlouquecer leitores acostumados com best sellers. Os volteios mentais de Maria Dolz enchem várias paginas de especulações e hipóteses, e os poucos diálogos são intercalados por extensas análises do que está sendo dito ou ouvido. O autor tensiona a narrativa, esticando ao máximo cada parágrafo, demonstrando grande domínio técnico no desenvolvimento do romance. Ao mesmo tempo, soube criar uma trama surpreendente, onde o relacionamento dos personagens amplia a sensação de que a verdade, bem, nem sempre é verdade. Será confiável a visão de uma pessoa apaixonada?

            Nas conversas entre os enamorados, a literatura tem destaque (Maria trabalha com isso, afinal). Os Três Mosqueteiros de Dumas, Macbeth de Shakespeare e, principalmente, O Coronel Chabert de Balzac, reverberam o tema da influência da morte (e dos mortos) na vida das pessoas. Amores viram rancores, afetos dissolvem-se em desconfiança, e lealdade ganha as cores da traição.

            A tradução é meio apressada, com alguns escorregões (lá pelas tantas, o flanelinha é chamado de lanterninha, por exemplo), mas não chega a quebrar o impacto da narrativa. Javier Marías, formado em letras e especializado em filologia, também trabalhou como tradutor e conhece bem as dificuldades do ofício. Trabalho puxado, prazos apertados, dinheiro curto… Mas isso é assunto para outra ocasião!

 

Paixões equatoriais

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          Foi com certo receio que encetei a leitura de Equador, a obra mais conhecida do escritor português Miguel Sousa Tavares. A única coisa que havia lido dele havia sido a curta narrativa No Teu Deserto, um relato de viagem no deserto do Sahara, onde o primeiro parágrafo já avisava, cruamente, “No fim tu morres. No fim do livro, tu morres. Assim mesmo, como se morre nos romances.” Um réquiem de juventude, feito de aventura, luz e areia.

                O romance Equador é ambicioso. Mais de quinhentas páginas de reconstrução da vida na colônia portuguesa de São Tomé e Príncipe, ilhas situadas ao largo da África, bem na linha do Equador, no início do século XX. Portugal ainda é um império colonial em 1905, e o rei D. Carlos convoca Luís Bernardo, um jovem, rico e culto dândi de Lisboa, para uma missão: governar a província por quatro anos e convencer o mundo de que Portugal não usa mais trabalho escravo em seu território. Luís Bernardo é um liberal, herdeiro de uma pequena companhia de navegação, e alguns textos seus publicados sobre a modernização das colônias e o fim da escravatura impressionaram o Império.

                São Tomé é o segundo maior produtor de cacau do mundo, só perdendo para a Bahia. Os ingleses, que tem um tratado com Portugal sobre a extinção do trabalho escravo, querem eliminar o concorrente. Enviam para lá um cônsul, também jovem e brilhante, vindo da Índia, que deve averiguar as irregularidades e denunciar a quebra das regras do acordo.

              Com todos os saborosos detalhes da adaptação de europeus aos Trópicos, a narrativa ganha intensidade ao focar no explosivo triângulo amoroso surgido entre o português Luís Bernardo, o inglês David Jameson e sua bela esposa, Ann. Embora escorregue em alguns chavões eróticos, o romance mantém a tensão do enredo, esticando as cordas da disputa política-racial-ética-étnica-sexual-filosófica até o final.

                Miguel Sousa Tavares, filho da grande poeta Sophia de Mello Breyner Andresen, empenhou-se a fundo em seu romance de estreia. A bibliografia de referência é digna de uma tese de doutorado. Mesmo assim, o resultado é equilibrado, flui com naturalidade. Romance de fatura clássica, sem grandes invenções formais, mas de inegável competência em sua arquitetura. Uma história que te faz viajar para outra época e latitude, porém muito próxima do Brasil colonial que conhecemos tão de perto.

A Confissão da Leoa

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     Confesso que minha relação com a obra de Mia Couto era dúbia. Um sujeito simpático, humanista, cultor de pequenos achados poéticos disfarçados em prosa. O primeiro livro que li dele, O Último Voo do Flamingo, era assim, assim. Um começo original, uma mistura entre realidade e magia onde o ponto ideal estava sempre um pouco além (ou aquém). Hábil na linguagem, algumas coisas mal resolvidas no enredo. A influência de Guimarães Rosa na literatura africana é algo ainda a ser devidamente avaliado, mas Mia Couto certamente bebeu dessa fonte.
Fiquei tentado a ficar apenas nos epigramas engenhosos que me chegam à tela do computador. Até que ganhei de uma amiga querida A Confissão da Leoa. Já faz algum tempo, mas como há sempre uma pilha de livros em minha cabeceira, a vez só chegou agora.
Na semana passada terminei a leitura, dentro de um ônibus de viagem entre Guaratinguetá e São Paulo. Comovido até as lágrimas, que enxuguei discretamente, reli vários trechos. É simplesmente maravilhoso, no sentido original da palavra. Os limites entre real e fantástico, entre ficção e estudo antropológico, são dissolvidos com muita habilidade.
Em uma aldeia nos confins de Moçambique, leões começam a matar as pessoas. Um caçador profissional é chamado da capital para resolver o problema. Narrado em duas vozes, pelo próprio caçador e por uma mulher da aldeia, logo percebemos que houve algo entre eles, há alguns anos. Um escritor acompanha a jornada do caçador, embora não seja nunca o protagonista das ações. O próprio Mia Couto indica, no prefácio, que esteve numa situação parecida, e dali extraiu o seu relato. Nada é o que parece ser, e os papéis vão se metamorfoseando durante o entrecho, ao mesmo tempo em que se revelam as mazelas tribais: o machismo onipresente, a voz sufocada das mulheres, a religiosidade obscurantista, a política local. Tribais, eu disse? Não, presentes até hoje numa aldeia do tamanho de São Paulo.
Diziam os gregos, lá no início dos tempos e das lendas, que a paixão depende muito mais do sujeito que do objeto. De repente, num belo dia, aquele/a jovem acorda predisposto a se apaixonar, e o primeiro ser bípede que passa à sua frente vira objeto de desejo e adoração. Não sei se em literatura a coisa funciona assim, mas A Confissão da Leoa me pegou de guarda baixa, e fui totalmente enredado. Vou reler muitas vezes, como quem revisita um poema favorito.

1Q84 para convalescentes

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Alguns dias de molho por causa de uma contratura muscular, e aproveitei o repouso forçado para encarar a curiosa distopia passadista de Haruki Murakami. São três volumes, 1272 páginas, milhões de exemplares vendidos em mais de quarenta países. Um best seller, portanto, o que costuma deixar os literatos meio desconfiados.

A linguagem é fluente, a leitura corre fácil. Mas algumas referências culturais, logo no início, mostram que o japonês não pretende entregar pãozinho quente no balcão, mas um croissant diferente. Aliás, dois, pois a ação se passa num estranho mundo paralelo, muito parecido com o nosso, onde duas luas são avistadas no céu. E apenas por algumas pessoas, o que aumenta o grau de estranheza da narrativa.

A trilha sonora que pontua a primeira passagem da protagonista, Aomame, para esta dimensão, é a Sinfonietta, de Leos Janacek, que só os tchecos devem conhecer de cor. A ação se passa em Tóquio, em 1984, e muitas referências ocidentais povoam a narrativa. Orwell (claro), Proust, músicos de jazz, Churchill, Sean Connery, atrizes de cinema, cantores pop. Estamos numa das maiores metrópoles do mundo, imersos num mundo midiatizado e, naturalmente, corrupto.

Aomame é personal trainer (precisamos traduzir essa profissão, urgente! Treinadora particular, que tal?), e sonha reencontrar um amor de infância, Tengo. Este é professor de matemática num cursinho, e quer ser romancista. Desnecessário dizer que ele também sonha em reencontrar o amor da meninice. Pressionado por seu editor, aceita reescrever um original escrito por uma adolescente de 17 anos, que narra uma história fantástica sobre uma seita ocultista, que abre portas dimensionais para o Povo Pequenino, que se dedica a fiar Crisálidas de Luz (nome do romance-dentro-do-romance), com uma finalidade não muito clara.

O livro se transforma num sucesso, mas Tengo e seu editor passam a ser perseguidos por membros da seita, como se aquilo fosse real. Muitas peripécias vão rolar, ampliando o leque de protagonistas com um detetive sagaz e asqueroso, a partir do terceiro volume.

Qual a grande novidade? Em princípio, uma fantasia para adolescentes, tão aventurosa e cheia de reviravoltas quanto um Harry Potter. Para disfarçar isso, Murakami introduziu cenas de sexo, e dotou sua heroína de uma estranha amoralidade. Ela elimina, digamos assim, alguns homens em seu percurso. Para suavizar seu crime, fica explícito que todos eram acusados de machismo, por vezes violento.

Tengo é mais certinho, mas não santo. Tem uma amante casada e dez anos mais velha, enquanto espera o reencontro com Aomame. Personagens mais complexos são o editor, o líder da tal seita, a adolescente de 17 anos e seu tutor. O que afinal, torna 1Q84 um sucesso tão estrondoso?

Primeiro, a habilidade narrativa do autor. Sua capacidade de fabulação mantém os eventos fantásticos da história no limite do provável, para os mais crédulos. Segundo, o uso inteligente de arquétipos. Quer coisa mais manjada que casal de crianças que eram rejeitadas na escola se reencontrarem na vida adulta, superando todas as dificuldades? Manjado, mas eficiente. É um enredo romântico, imerso numa era poluída, conturbada, onde estado e instituições quase não tem papel. São indivíduos lutando contra corporações, e vice versa. Estamos caminhando para isso, em 2016.

Murakami escreveu outros romances, mas nenhum tão bem sucedido como esse. Difícil dizer se conseguirá se superar. Certamente me proporcionou bons momentos de leitura, apesar de ter provocado também alguma irritação com a mania de citar as marcas das roupas, dos relógios, dos carros que os personagens utilizam. Merchandising é altamente poluente, em qualquer forma de arte.

Releituras 2016, primeiro semestre

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Como já comentei algumas vezes por aqui, há bom tempo coloco na minha meta anual de leitura pelo menos um clássico. Como pratico isso há mais de trinta anos, já deu pra ampliar um pouco a visão. Creio que se viver até uns 180 anos terei o conhecimento de um Harold Bloom. Como infelizmente acho que não chegarei lá, fico satisfeito em me tornar um pouquinho menos inculto.

            2016 começou diferente. Passei o réveillon (caramba, ninguém ainda inventou uma tradução para essa palavra?) na praia e, sei lá por que, resolvi reler Raízes do Brasil, do mestre Sérgio Buarque de Holanda, do qual só havia lido alguns capítulos na faculdade. Leitura indispensável para quem se interessa pela formação do povo brasileiro, da nossa cultura. É primorosa a diferenciação que ele faz entre a colonização espanhola e portuguesa, a partir do traçado básico das ruas, das cidades. Leitura tão rica que me fez ler trechos em voz alta, empolgado, para a seleta plateia que me acompanhava. Felizmente ninguém reclamou.

            Na mesma semana, em Barequeçaba, li O Relato de Um Náufrago, de Gabriel Garcia Marquez. O livro surgiu de uma entrevista que o então  jovem jornalista GGM fez com um sobrevivente do naufrágio de uma corveta da Marinha colombiana, ao voltar uma reforma nos EUA. O cara sobreviveu dez dias agarrado a destroços, em pleno Caribe, até pisar em terra firme. Virou herói nacional, e o ditador de plantão (Pinilla) fez questão de condecora-lo.  O ponto alto da narrativa é a revelação de que o navio vinha carregado de muamba, eletrodomésticos e bebidas, e a denúncia custou a Márquez seu primeiro exílio, aos 28 anos, além da retirada da medalha do marinheiro. “O que não sabíamos, nem o náufrago nem eu, quando tentávamos reconstituir minuto a minuto a sua aventura, era que aquele rastrear esgotante haveria de nos conduzir a uma nova aventura, que causou uma certa agitação no país, que custou a ele sua gloria e sua carreira e que a mim poderia ter custado a pele”. Nada mau!

            Imagino quantas reportagens poderiam ser feitas no Brasil, envolvendo militares das três armas, sobre desvios, contrabandos, subornos, etc. São muitos anos de ditadura, e poucos jornalistas dispostos a desvendar pequenas histórias. Ninguém até hoje sabe direito quanto custou a ponte Rio-Niterói…

            Um mês depois estava em Cunha, no alto da Serra do Mar, e me bateu uma vontade de reler Guimarães Rosa. Sagarana, o volume de contos que o consagrou, é uma delicia absoluta. Se algum autor brasileiro merece ser chamado de genial, é ele. Penso na velha diferenciação criada por Pound: gênio inventa novas formas, mestre domina com perfeição as formas de seu tempo. Temos alguns mestres, certamente, e Machado talvez seja o maior deles. Mas o velho Rosa… Até arrisquei escrever um conto depois da releitura de Sagarana, mas tranquei num cofre com instruções expressas para que seja publicado quando eu tiver 180 anos. Meu tataraneto compreenderá.

            De lá pra cá o semestre tem sido mais conturbado. Leituras incidentais, alguns contemporâneos, um pouco de mainstream (outra palavrinha demandando tradução), poesia rarefeita, muito debate político virtual. Quando achei que a temporada de clássicos estava encerrada, minha amiga Fernanda me presenteou com dois volumes, em maio. A compilação definitiva da obra de Gregório de Matos feita por seu pai, James Amado. Como resistir?

            Estou há vários dias convivendo com o Boca do Inferno. Leitura de cabeceira, ora lírica, ora satírica. Quando ele dirige invectivas alexandrinas para o governador Tucano, sinto uma estranha sensação de atualidade. O semestre já valeu, e levarei essas releituras para sempre. Serão úteis, mesmo que minha memória comece a falhar depois dos 120…

 

Um novo romance

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         Terminei mais um romance. Não, Joãozinho, não estou falando de minha vida afetiva, mas de um livro. Um volume que, de acordo com certas normas, precisa ter X páginas para ser considerado romance. Abaixo disso, é novela. Se for mais econômico, é conto. Não há fronteiras definidas, mas um senso comum, estabelecido pelo cânon ocidental.

    O primeiro romance, Terno de Reis, publicado em junho de 2015, foi uma boa experiência. Custei a me acostumar com esse papo de ser autor publicado. Um autor não-publicado é menos autor? Acho que não, mas na sociedade do espetáculo é assim que funcionam as coisas. Exposição.

     Refleti um pouco sobre a oportunidade de iniciar outro romance. Não é atividade lucrativa, com raras exceções. O investimento em tempo e energia é considerável, e você pode ter retorno dali a uma década. Ou nunca. Mas se você escreve para os amigos, vale a pena. Os elogios costumam ser generosos – amigo é amigo! – e algumas vezes até honestos. Obviamente há os que se calam, os que compraram o livro e não leram, os que leram mas não gostaram, os que não gostaram e mudam de assunto e falam de futebol quando te encontram. Continuam amigos, e isso é o que importa.

      Há amigos críticos. Sei lá, deve haver. Nenhum chegou na minha cara e disse “não gostei”, por isso e aquilo. Como leitor, também evito esse tipo de constrangimento. Como dizer à minha irmã que o livro dela é uma droga? Veja bem, é uma situação hipotética, não tenho nenhuma irmã que escreva. Que eu saiba.

        Mas voltemos ao segundo romance. Será que alguém começa escrevendo um romance, de cara? Em geral, os jovens arriscam poesias ou crônicas. Alguns tomam fôlego e passam pro conto. Numa comparação rasteira, é como um velocista se tornar um fundista. Alguns serão ótimos velocistas a vida toda, e merecem aplausos. Outros percebem que a explosão muscular já não é a mesma, e direcionam seus esforços para as provas de resistência. Já reparou que a maioria dos romancistas é madura, idosa, grisalha, enquanto há muitos poetas jovens, imberbes, sem filhos? Talvez poetas maduros sejam eternamente jovens e romancistas sejam poetas que envelheceram. Quem sabe?

      Nel mezzo del cammin (citar Dante é sempre chique, né não?), com um romance publicado, percebi que tinha vários contos na gaveta. Alguns premiados, outros inéditos, e até uns desprezados. Publicar um livro de contos nunca me animou, nem sei explicar direito o porquê. Mas aí resolvi escrever um romance-de-contos, uma história com um monte de historinhas dentro. Não é alguma invenção revolucionária, longe disso. Desde as 1001 Noites contar histórias dentro de uma história é recurso manjado.

     O grande desafio foi tornar o negócio orgânico. Ou seja, fazer com que os contos dialogassem com o entrecho do romance, sendo ora causa, ora consequência. Descartei alguns, aproveitei outros, reescrevi uns, inventei outros tantos. E fechei um volume de vinte e um capítulos, intercalados por vinte contos. O romance-de-contos foi submetido a alguns leitores, com o pedido expresso de serem críticos, sem desviar para os pênaltis perdidos pelo Corinthians no próximo encontro.

      A primeira leitora, Sandra Abrano, batizou o volume: Entre Contos, um Romance. Definição objetiva, com um subtexto que será logo percebido por quem lê. Obviamente pinta um romance entre os personagens do “romance”. Nesse momento os originais (como é antiga essa expressão! Para quem escreve em computador não existe original, mas cópias, cópias rasuradas, cópias esquecidas, cópias mexidas, cópias definitivas) estão nas mãos dos editores. Que podem perfeitamente achar que o resultado é frustrante, e que talvez seja melhor eu escrever um romance tradicional, como o primeiro. Que nem é tão tradicional assim, mas vá lá.

         Por via das dúvidas, iniciei um terceiro romance…