Manzano, o poeta-escravo

Não se tem notícia, no Brasil, de qualquer texto escrito por escravos. Conhecemos alguma música, pintura, escultura ou arquitetura feita por mãos negras, muitas vezes sob a ameaça da chibata. Mesmo considerando que a imensa maioria não sabia escrever, é razoável pensar que os primeiros alfabetizados narrassem suas histórias. Há poeta negros libertos e escritores descendentes de escravos (aliás, estão entre os maiores de nossa literatura), mas relatos coetâneos da escravidão, se houve, foram ocultados ou destruídos.

Em toda a América Latina, o único autor-escravo conhecido é o cubano Juan Francisco Manzano (1797-1854). Seus escritos foram traduzidos para o inglês em 1840, patrocinado por um grupo de abolicionistas britânicos. Nos Estados Unidos houve estímulo para que ex-escravos contassem suas histórias, e isso propiciou o surgimento de vários documentos históricos testemunhais, como o famoso 12 Anos de Escravidão, de Solomon Northup, adaptado para o cinema e laureado com o Oscar de melhor filme em 2014. Na América de colonização ibérica, isso não ocorreu.

 Manzano foi traduzido entre nós pelo escritor Alex Castro. Num cuidadoso trabalho de pesquisa, o brasileiro viajou a Cuba para conhecer o manuscrito autógrafo, organizou as versões do texto-base, cotejou as interpretações existentes e fez duas recriações: uma tradução fiel, mantendo a grafia e sintaxe original, e uma transcriação em português contemporâneo, dentro da norma culta. É claro que a leitura desta segunda versão é a indicada para quem que ter um primeiro contato com a vida de Manzano, ficando a primeira para estudiosos que queiram se aprofundar na obra do pioneiro cubano.

Podemos afirmar que A Autobiografia do Poeta-Escravo (Hedra, 2015, 224 páginas) é uma obra única, fundamental para entendermos melhor as relações escravagistas na América colonial. Conta com uma esclarecedora introdução do professor Ricardo Salles, fotografias, reproduções do manuscrito e um cuidadoso trabalho de pesquisa linguística, histórica e social empreendida por Alex Castro. Suas notas enriquecem a leitura com preciosos detalhes históricos, sociológicos e linguísticos.

Percebe-se, durante a leitura, o medo que Manzano tinha de ser censurado, de ver sua obra desaparecer. Evita falar mal de seus senhores, e mesmo quando descreve os castigos terríveis, os açoites, as privações desumanas, culpa no máximo os feitores e capatazes, não os amos. Uma literatura de oprimido, que não consegue se desvencilhar do medo, e que mesmo assim revela um universo doloroso e sombrio, capaz de impressionar seus leitores quase dois séculos depois.

É doloroso perceber, em pleno século XXI, que os governantes da última nação a abolir a escravidão nas Américas (o Brasil) ainda aclamam os senhores e condenam os escravos. As políticas de reparação de danos (cotas), de igualdade étnica, de princípios basilares da democracia moderna, consagrados na Constituinte de 1988 e aprofundadas pelo primeiro governo de esquerda do país, em 2002, vão sendo desmontadas com velocidade crescente pelo governo genocida de Bolsonaro.

Ao colocar no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos uma figura sinistra e retrógrada como a evangélica Damares Alves, defensora de um dos projetos mais absurdos gestados nesse país que é o Escola Sem Partido, o atual desgoverno reafirmou seu compromisso com a discriminação racial, a perpetuação do racismo, o extermínio das nações indígenas e dos quilombolas, favorecendo descaradamente a  exploração econômica de seus territórios ancestrais.

O horror que Manzano vivenciou em Cuba no século XIX se manifesta hoje com o massacre da população negra, dos jovens de periferia, dos abusos policiais em função da cor da pele. Os responsáveis pelo assassinato de Marielle Franco provavelmente já teriam sido presos se ela fosse uma branca de classe média. Mas era uma negra, como os jovens trucidados no massacre de Paraisópolis, como são os milhares de preteridos a vagas de trabalho por serem negros, como são os milhões de ofendidos diariamente pela arrogância supremacista de uma elite forjada numa sociedade escravocrata. Arrogância esta que é transmitida para a pequena burguesia branca que vê no racismo uma possibilidade de humilhar a filha da empregada, que ousou tomar a vaga de seu filho numa universidade pública.

Mas voltemos ao poeta-escravo, antes que a desesperança turve nossa percepção da beleza. Aqui está o soneto mais famoso de Manzano, Meus Trinta Anos, pleno de significados. Diz a lenda que quando o declamou para uma plateia culta, provocou tanta emoção que motivou um movimento para comprar a sua liberdade.

Quando olho para o espaço percorrido
Desde meu berço, e todo meu progresso,
Estremeço e saúdo meu sucesso
Mais por terror que por amor movido.

Espanta-me o combate que eu, renhido
Sustentei contra a sorte vil e fria,
Se é que posso assim chamar a porfia
De um ser tão infeliz e malnascido.

Trinta anos há que estou vivo na terra.
Trinta anos há que, em gemedor estado,
Triste sina em todo lugar me assalta.

Mas nada é para mim a dura guerra,
Que em vão suspirar tenho suportado,
Se a comparo, oh Deus!, com o que me falta.

(tradução: Pablo Zumarán)

(Artigo publicado no Fósforo, em 2015, atualizado e ampliado).

O Brasil, visto da Albânia

Kadaré

       Ismail Kadaré é uma figura notável no mundo da literatura. O fato de ser albanês o torna um tipo de ornitorrinco, um espécime muito raro, endêmico. Se tivesse nascido em Java ou nas ilhas Fiji, remotos lugares que só conhecemos por imagens do National Geographic, seria compreensível. Mas a Albânia está na Europa, faz fronteira com a Grécia, e só algumas milhas de mar Adriático a separa do salto da bota italiana. Entre gregos e romanos, portanto.

       Como um país como esse ficou isolado por tanto tempo da chamada cultura ocidental? É certo que após a II Guerra Mundial passou por uma ditadura comunista obscura, mas e os vinte séculos anteriores?

        Kadaré se tornou conhecido dos brasileiros depois que seu belo romance Abril Despedaçado foi roteirizado para o cinema por Karim Ainouz e dirigido por Walter Salles. Uma história trágica de traições e vinganças, num clima quase medieval, foi transplantada para o Nordeste brasileiro com talento e respeito ao enredo original.

        Mas Kadaré não é só tragédia. Dossiê H, escrito em 1991, dez anos antes de Abril Despedaçado, é muito engraçado. Pelo menos até a primeira metade da história…

        Dois jovens irlandeses, estudantes de literatura em Nova York, nos anos 30, resolvem ir para a Albânia (então um reino, governado pelo rei Zog). Acreditam que ali há pistas da tradição homerista, ou seja, da Ilíada e da Odisseia. Querem demonstrar que os rapsodos da cultura popular albanesa carregam consigo as marcas ancestrais da grande epopeia. Os pesquisadores levam um aparelho recém inventado, um gravador, onde pretendem registrar os cantos homéricos.

        A Embaixada da Albânia concede os vistos, mas suspeita de que são espiões. O prefeito da região remota onde vão se instalar recebe instruções para vigiá-los. A mulher do prefeito vê nos irlandeses a oportunidade de um romance proibido, capaz de tirá-la da monotonia em que vive.

         Está criada a trama. Pouco a pouco, somos levados a um mergulho na cultura rural albanesa, na tradição dos rapsodos, no isolamento da Península Balcânica. Os conflitos entre tradição e modernidade, cultura erudita e popular, ciência e superstição, são colocados na mesa com muita habilidade. 

        Para os membros de uma seita de fanáticos obscurantistas, o aparelho que registra vozes deve ser destruído, e isso vai dar o toque sinistro na trama. Kadaré retoma um tema ancestral do embate entre a ciência e o conservadorismo: a verdade não pode ser revelada.

        Relendo a obra em 2020, no Brasil, não podemos deixar de ter a impressão de que a história se repete, mais uma vez. O avanço de “seitas de fanáticos obscurantistas” é visível, em todas as áreas. A ameaça de apagar vídeos, filmes, gravações e cinematecas está presente, e é alimentada pela facção atualmente no poder. O desprezo pelo conhecimento acadêmico e a pesquisa é evidente, com corte de verbas, ataques às universidades e abandono de museus e o encerramento de programas de fomento à cultura. Assistimos o grotesco prefeito do Rio de Janeiro formar uma quadrilha, paga com o dinheiro público, para impedir gravações e reportagens sobre a situação da saúde. O diferente, seja ele negro, mulher, gay, sindicalista ou índio, é tratado como inimigo.

        Uma leitura enviesada do livro 22 da Odisseia, Mnesterofonia, onde Odisseu (Ulisses, na versão latina) mata todos os pretendentes à mão de Penélope – ou ao trono -, poderia ensejar desejos mitológicos aos atuais detentores do poder. Como a leitura dos clássicos não faz parte de seu estreito repertório, contentam-se em repetir procedimentos históricos temperados de ignorância, atraso e comportamento de bando, com a conivência de uma justiça venal e um legislativo corrompido. A dissipação da república, da res publica dos romanos, é estimulada por igrejas que anseiam por uma nova Era Medieval, de cruzadas contra o “inimigo”.  

        Dossiê H foi publicado pela Companhia das Letras em 1990, e já teve várias reedições. Kadaré nos envolve com seu senso de humor, e pouco a pouco vai desvelando a barbárie, desembocando num final dramático, onde com maestria funde a lenda do poeta épico cego com a realidade que custamos a enxergar. Romance delicioso, escrito por um dos grandes autores da literatura contemporânea.

Comida, sensualidade e exibicionismo digital

Charlie Chaplin in the Shoe-Eating Scene from .

            O sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) costuma encantar os leitores com seu texto fluente, saboroso, literário, onde subverte a ideia de que ensaios sociológicos devem ser pesados, acadêmicos, destituídos de qualquer concessão ao prazer. Casa Grande & Senzala, sua obra mais famosa, é cheia de descrições eróticas, engraçadas, musicais, apaixonadas. Freyre termina seu fabuloso ensaio falando de comida, e quase sentimos o cheiro das tapiocas, dos doces, dos tabuleiros das pretas quituteiras, dos “mocotós, vatapás, mingaus, pamonhas, canjicas, acaçás, abarás, arroz-de-coco, feijão-de-coco, angus, pão-de-ló de arroz, pão-de-ló de milho, rolete de cana, queimados, isto é, rebuçados, etc.”

            Toda vez que arrumo as prateleiras e sopeso o alentado volume (uma edição comemorativa dos 80 anos do autor, de 1980, com poemas de Drummond, Bandeira e João Cabral, desenhos de Santa Rosa, Cícero Dias e Poty), releio alguns trechos, fruindo o delicioso estilo do pernambucano.

Há alguns anos ganhei de um amigo um opúsculo editado em 1952 pelo Ministério da Educação e Saúde do Brasil. O título: “O Sensualismo Alimentar em Portugal e no Brasil”. O autor, Dante Costa.

Confesso que nunca tinha ouvido falar do escritor. Uma pequena pesquisa mostra que escreveu outros títulos relacionados à alimentação, além de livros de viagem e até um “O Socialismo”.

A tese de Costa é a de que os portugueses têm uma relação de amor com a comida, e os brasileiros, desdém. Lá pelas tantas cita Freyre, claro, mas seu método de pesquisa é baseado na literatura, não em andanças pelos tabuleiros das baianas.

Começa por Camões, de onde pinça versos do canto IX dos Lusíadas:

Mil árvores estão ao céu subindo

Como pomos odoríferos e belos:

A laranjeira tem no fruto lindo

A cor que tinha Daphne nos cabelos.

Encontra-se no chão, que está caindo,

A cidreira c’os pesos amarelos;

Os formosos limões, ali cheirando

           Estão virgíneas tetas imitando.”        

E Camões também fala de “amoras, que o nome tem de amores” entre outras saliências que mostram a forte relação dos portugueses com a comida desde os primórdios da língua. Nosso Dante cita Fialho D’Almeida, Eça de Queiroz (“o caráter de uma raça pode ser deduzido simplesmente do seu método de assar a carne”) e Ramalho Ortigão (“torrentes de ovos de fio brotam de rochedos de nogada, cobertos de chalets de massa, sobre tanques de torrão de Alicante, em que se abeberam pombas de rebuçado e boizinhos de pão-de-ló com chavelhas de açúcar e entranhas de creme.”).

            Para ele, escritor brasileiro só fala de fome, não de comida. “A pobreza mutila-lhe muito da alegria. Com as outras, vai-se a alegria de comer”. Segundo Dante Costa, as descrições de jantares e acepipes ”são raras na literatura, porque são raras na vida mediana do povo.” Citando uma conferência de Joaquim Ribeiro, diz que “a fome, no Brasil, começou com a civilização”.

            O ensaio foi publicado em 1952. Dante escreveria isso hoje? Se vivesse numa grande cidade brasileira, provavelmente não, a menos que focasse sua análise nas populações mais periféricas. Mas se passeasse pelo sertão nordestino, comprovaria a validade de sua tese. O que não significa que nos rincões mais desprovidos de Portugal a miséria alimentar também não existisse. Afinal, Eça e seus colegas de ofício viviam na cidade, não nos campos. Onde o sexo é só reprodução, não há sensualidade. Onde o ato de comer é somente uma questão de sobrevivência, não há como ser uma refinada fonte de prazer.

Mas o ensaísta se depararia com um fenômeno impressionante, no Brasil contemporâneo: a postagem de fotos de comida nas redes sociais. Significaria uma nova postura do brasileiro em relação à comida? A relação sensual com a alimentação estaria dominada pelo aspecto visual, antes dos outros sentidos?

Depende de que brasileiro estamos falando. Além dos casos clínicos de compulsão ou transtorno alimentar – e existem muitos na internet! -, há um ainda pouco estudado exibicionismo, que não oculta um sentimento de afirmação do nível social através da comida.

Quem era pobre e passou à condição de remediado, ostenta isso através do novo cardápio: “Veja o que eu estou comendo agora!”. A classe média, sempre aspirante ao luxo dos abastados, não perde a chance de, quando pode “comer fora”, ostentar a comilança nas redes. É quase impossível ir a um restaurante em São Paulo e não ver alguém na mesa ao lado fotografando o prato pedido. Desnecessário dizer que os verdadeiramente ricos e os verdadeiramente pobres, por motivos bem diversos, não praticam esse tipo de perversão.

Com a pandemia, este comportamento passou para o ambiente doméstico. Os pratos continuam sendo exibidos ad nauseam, agora com o acréscimo do “eu que fiz”. No entanto, quase sempre se nota o retro gosto de “eu posso”, ou “eu tenho”. Com poucas e honrosas exceções, o que se percebe não é um amor pelo alimento, mas pelo status que este confere ao indivíduo.

Pode-se dizer que a proliferação de programas culinários na TV, aberta ou fechada, na última década, contribuiu para o surgimento dessa nova seita de adoradores de comida. Mas não podemos esquecer o que Dante Costa percebeu, lá na década de 50: ainda somos um país de famintos, onde esse tipo de exibicionismo não deixa de carregar um incômodo tempero de classe.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda, em agosto de 2020).

O instrumento da discórdia

Sergio Ricardo

A morte do grande compositor Sérgio Ricardo (1932/2020), há poucos dias, provocou uma série de comentários sobre sua obra e também sua militância política. Homem de múltiplos talentos, diretor de cinema, compositor, músico, escritor, ator, pintor e produtor, também ficou conhecido pela posição intransigente em defesa de seus ideais, o que o fez ser perseguido pela ditadura, sofrendo censura e boicotes.

Sérgio Ricardo, autor das trilhas sonoras dos filmes mais marcantes de Glauber Rocha, também foi intransigente na música. Defendia com afinco as raízes brasileiras, rurais, populares, mesmo tendo formação clássica (foi pianista no início de carreira, nos anos 50, tendo até gravado como instrumentista) e composto suas primeiras canções sob influência da bossa nova. Repudiava a influência anglo-americana do rock e combatia o uso da guitarra na música brasileira.

No famoso Festival de Música Brasileira da Record, de 67, onde ficou imortalizada a imagem de SR quebrando o violão e jogando na plateia, a disputa ideológica acerca de como deveria soar a música brasileira chegou a ponto de provocar uma inusitada passeata, capitaneada por Elis Regina, “contra a guitarra elétrica”. Elis comandava um programa na emissora chamado Frente Única, que acabara de estrear, e vinha enfrentando os crescentes índices de audiência da Jovem Guarda, liderada por Roberto e Erasmo Carlos.

Em 17 de julho de 1967 subiu a avenida Brigadeiro Luiz Antônio, rumo ao teatro Paramount, uma passeata da qual participaram Elis, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Zé Keti, os rapazes do MPB-4 e outros, com uma faixa onde estava escrito “Frente Única – Música Popular Brasileira”. Outros artistas já estavam esperando no teatro, como Juca Chaves e Ataulfo Alves, conforme o registro minucioso de Zuza Homem de Mello, em “A Era dos Festivais, uma Parábola” (Editora 34, 2003). Sergio Ricardo estava no Rio, nas certamente era um dos apoiadores do movimento.

Por que a guitarra elétrica suscitava tanta polêmica? Surgida com os bluesmen americanos, era um instrumento ligado às classes populares, operárias. Ganhou o status de instrumento-símbolo de rebeldia da juventude americana nos anos 50, pelas mãos de Chuck Berry, com o nascente rock’n roll.  Granjeou tal popularidade que rapidamente foi assimilada pela “indústria cultural”, fazendo parte da trilha sonora das gerações seguintes, através de bandas como Beatles e Rolling Stones e mitos como Jimi Hendrix. Ironicamente, quebrar guitarras no palco passou até a fazer parte do show, em bandas como The Who e The Clash.

Que motivos teriam os músicos brasileiros para repudiarem um instrumento surgido “negro”, pobre e rebelde? “Uma disputa de mercado” pode ser uma resposta simplista. O forte debate ideológico da época propiciava um discurso anti-imperialista, e a guitarra passou a ser um símbolo invasor na nossa cultura. Podemos detectar ecos ludistas no discurso de Sérgio Ricardo e seus companheiros de jornada?

Longe dos festivais, nos anos 40, os baianos Dodô e Osmar já haviam eletrificado seus instrumentos de corda, de corpo maciço, e colocado o povo pra pular atrás do trio elétrico. Não à toa, Caetano e Gil, habituados com essa sonoridade, foram os introdutores da guitarra elétrica no histórico festival, acompanhados respectivamente pelos Beat Boys e pelos Mutantes. É notável a ambiguidade de Gil, que participou da passeata e dias depois se apresentou no palco do Paramount acompanhado pela guitarra do mutante Sérgio Dias. Casado à época com Nana Caymmi, Gil estava profundamente dividido esteticamente entre Luiz Gonzaga e os Beatles. Mas, como sabemos, pouco depois se rendeu aos encantos do instrumento maldito.

Sergio Ricardo não. Com alguns outros combatentes, cada vez mais isolados, defendeu o violão acústico, o piano acústico, a música que acreditava ser realmente “brasileira”. A antropofagia oswaldiana não lhe caía bem. Nem Ben, futuro Benjor, violão rítmico visionário que também depois aderiu à guitarra elétrica, fazia seu estilo. Discreto, participou de muitos atos pela democracia, ouviu e aconselhou vários artistas jovens, mantendo a coerência. O músico paulista Kiko Dinucci, em comentário recente sobre a morte do artista, disse que SR elogiou as canções de seu grupo Metá Metá, mas “só as que não tinham guitarras”.

É curioso imaginar qual o motivo de outros instrumentos, como o piano e o contrabaixo, não terem se tornado tão polêmicos quando foram eletrificados. Qualquer artista “puro” da MPB, inclusive Elis, logo percebeu a versatilidade do baixo elétrico. Até um sambista como Paulinho da Viola, durante muitos anos, gravou discos e se apresentou acompanhado pelo baixo elétrico de Dininho, filho do grande violonista Dino. Artistas como Egberto Gismonti gravaram discos inteiros com sintetizadores e teclados eletrônicos, sem serem menosprezados por isso. Baterias programadas são usadas ad nauseam, e só os instrumentos de sopro escaparam da polêmica porque, bem, dependem do fôlego humano.

Mas a guitarra, ah, a guitarra… símbolo de uma cultura imperialista, universalista, opressora dos valores locais, atravessou o embate ilesa, pois a vitória era inexorável. Hoje podemos falar tranquilamente de uma guitarra africana, asiática, latina, e até lembrar de fraseados de canções brasileiras marcados pela sua sonoridade. A partir daquele histórico festival, sem esquecer da Jovem Guarda, os músicos foram assimilando, adaptando, incorporando definitivamente seus timbres à uma música em transformação permanente.

Dá pra imaginar uma canção tão marcante como Ovelha Negra, da Rita Lee, sem o famoso solo de guitarra? Ou Anunciação, de Alceu Valença, sem a luminosa guitarra de Paulo Rafael? Magrelinha, de Luiz Melodia? Gal duelando com a guitarra em Meu Nome é Gal? A própria obra de Caetano, Gil e os demais tropicalistas não existiria sem a guitarra. Os exemplos são muitos, o leitor pode acrescentar de memória um rol quase infinito. Tente imaginar a música paraense, com as famosas guitarradas, sem o instrumento-fetiche…

Militante de uma causa idealista e ilusória, musicalmente falando, Sérgio Ricardo tem a seu favor a própria obra, grande, honesta e plena de belezas. Sim, é possível compor sem guitarra. A rigor, até sem instrumento. Mas eleger a tecnologia como inimigo é um problema secular, que parece ainda não estar resolvido por completo.

(Publicado originalmente em aterraeredonda.com.br).

Toada da memória

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Quando Jean-Paul Sartre lançou, em 1964, um relato autobiográfico sobre a primeira infância (Les Mots, As Palavras), causou certo estranhamento no meio acadêmico e intelectual. Obviamente já existiam autobiografias na praça, mas o filósofo parisiense se detinha no período dos 4 aos 11 anos, e apontava o holofote para a importância capital do aprender a ler e escrever.

A literatura como instrumento de conhecimento e transformação do mundo ali se define, entremeada com lembranças familiares e afetivas, sem esconder as horríveis. Afinal, tinha 9 anos quando explodiu a Primeira Grande Guerra, e com menos de dois anos era órfão de pai.

Em 1960 Sartre e sua (mas não exclusiva) mulher, Simone de Beauvoir, visitaram o Brasil. Por dois meses circularam em várias cidades, deram palestras, participaram de festas, visitaram cafezais, fazendas de fumo e cacau, favelas, praias e colônias de pescadores, muitas vezes guiados por Jorge Amado e Zélia Gattai.

O tema das conversas era a guerra fria, a libertação da Argélia, a revolução cubana, o imperialismo norte-americano no continente. Ficou famosa uma conferência em Araraquara, publicada em livro ( Paz e Terra/ Unesp, 1986), que teve na plateia gente como Ruth Cardoso e seu marido Fernando Henrique, Antonio Candido, Gilda Mello e Souza, Dante Moreira Leite, Bento Prado Jr., e até um jovem araraquarense chamado José Celso Martinez Correa, apaixonado por teatro.

As Palavras, traduzido no Brasil por Jacó Guinsburg, foi muito lido, mas nem sempre compreendido. A obsessão de Sartre pelo ato de escrever, seja como filósofo, ficcionista ou dramaturgo, coloca a escrita como instrumento de autoconhecimento, de perpetuação da memória e de transformação do mundo.

No mesmo ano, 1964, Antonio Candido lançava o ensaio sociológico Os Parceiros do Rio Bonito, cujo subtítulo “estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida” é autoexplicativo.  Uma de suas referências era a obra de Valdomiro Silveira (1873/1941), um dos primeiros autores a estudar a cultura caipira, anotando expressões, hábitos, superstições e costumes, e dando especial atenção à linguagem.

Essa mescla fecunda de investigação sociológica de campo com o posicionamento pessoal sartreano gerou vários frutos. O já clássico O Paraíso Via Embratel, de Luís Milanesi, de 1985, enfocava as transformações culturais numa pequena cidade do interior paulista (Ibitinga) com a chegada da televisão. Embora escrito com certo distanciamento acadêmico, Milanesi está falando de sua cidade natal, de sua infância, de sua formação.

Em 2011, o eminente sociólogo José de Souza Martins retoma a lição sartreana lançando “Uma Arqueologia da Memória Social – Autobiografia de um Moleque de Fábrica”, por exemplo, primoroso estudo de época passado em São Caetano do Sul, no ABC paulista.  Nessa mesma trilha surge agora, em 2020, um saboroso livro publicado pelo professor sênior da Faculdade de Educação da USP, Claudemir Belintane.

“Toada de um Educador Quase Caipira” (Polo Books, 2020) mergulha no universo interiorano tão bem descrito por Antonio Candido, Valdomiro Silveira e Milanesi, e vai mais fundo, de maneira existencial (apud Sartre). O menino pobre de Novo Horizonte (SP), órfão aos sete anos, vivendo entre “o lixo, o matadouro e o cemitério”, alinhava as memórias com foco na linguagem, nas expressões populares, nas quadrinhas e canções, nos trocadilhos de sacanagem, nos apelidos cruéis, nas complexas relações de parentesco e compadrio, de amizade e desconfianças.

Propondo uma escritura distante do jargão acadêmico, Claudemir entoa sua prosa como quem está contando causos à beira da fogueira ou no intervalo do eito. Sem maiores preocupações formais, deixa o fluxo livre da memória revelar, aos poucos, a nascente inquietude intelectual e o surgimento de uma consciência social (foi boia-fria quando nem essa expressão existia – ainda era “pilão” – vendedor de doces, engraxate, ajudante de padeiro e de pedreiro). A criação literária surge de entremeio, nas frestas da narrativa: “Lá pelas três, quatro horas, a gente olhava para o céu e indagava o aonde das nuvens”.

O moleque da roça cresceu, foi pra capital, estudou, voltou, fundou o PT na cidade, foi candidato simbólico a prefeito, retornou para a capital e se fez doutor em Educação. Estas etapas são expandidas em poucas páginas no final do volume, à guisa de explicação (aonde foi parar aquele garoto?), pois o interesse está na infância, no letramento, na transformação pela leitura. O menino é pai do homem, como dizia Machado de Assis.

Belintane explicita sua admiração por ficcionistas como Graciliano Ramos (Infância) e Viriato Correa (Cazuza), que traçaram retratos memoráveis da meninice rural. Seguidor aplicado da lição de Jean-Paul Sartre, e inspirado pela bússola de Mario de Andrade, que aponta “para dentro do Brasil, não para fora”, expõe-se de corpo e alma em relato memorialístico despretensioso, e acaba esboçando um romance de formação que poderia ser o de milhões de brasileiros. Infelizmente, é a história de uma exceção.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda)

A intersecção entre arte e ciência

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A literatura de divulgação científica foi inventada no século XX, e pouco a pouco conquistou um espaço nas livrarias – quando havia livrarias – e catálogos. Em meio a muita mistificação, autores como Carl Sagan, Richard Dawkins ou Stephen Jay Gould tornaram-se clássicos do gênero, seja explicando a Física moderna ou o legado de Darwin.

A academia mais carrancuda ainda vê com desconfiança esse tipo de literatura, mas o número crescente de cursos de divulgação científica, de teses e seminários sobre o tema mostram uma abertura para o desejável diálogo da ciência com a sociedade.

Uma das ferramentas mais fascinantes para promover esta aproximação é a arte. Não é por acaso que muitos artistas, de diversas áreas, se interessaram pela ciência, e vice versa. Um deles é o escritor, diretor e roteirista de cinema Jean-Claude Carrière.

Famoso pela parceria com Buñuel, que rendeu obras primas como O Fantasma da Liberdade, A Bela da Tarde e O Obscuro Objeto de Desejo, Carrière também escreveu roteiros inesquecíveis para Andrzej Wajda (Danton – O Processo da Revolução), Philip Kaufman (A Insustentável Leveza do Ser) e vários diretores franceses, como Rappeneau (Cyrano de Bergerac). Sua maior façanha talvez tenha sido adaptar o poema épico indiano Mahabharata para o cinema, o que rendeu um filme de quase 5 horas de duração, dirigido pelo inglês Peter Brook.

Carrière foi também diretor da principal escola francesa de cinema, e se declara apaixonado pela Fisica moderna. Chegou a escrever uma obra de ficção sobre Einstein, mas seu grande livro de divulgação científica chama-se Conversas sobre o Invisível (Brasiliense, 1988), e que há muito merece uma nova edição.

 Trata-se de uma longa, detalhada e saborosa conversa com dois físicos, Jean Aldouze e Michel Cassé, sobre relatividade, a origem do universo, microfísica, astrofísica e física quântica. Fruto de conversas mantidas semanalmente onde os assuntos se encadeiam naturalmente com referências literárias, pictóricas e, claro, cinematográficas, o livro discute os conceitos mais impenetráveis da Física moderna, que Carrière considerava a Grande Ciência do século XX, de forma clara e elegante.

Também no campo da Física, vale a pena conhecer outro autor, o argentino Alberto Rojo. Professor da Oakland University, em Michigan, publicou vários livros de física quântica e de divulgação científica. Portenho de nascimento, manteve durante muito tempo uma coluna jornalística no Crítica de La Argentina,  onde depurou a escrita límpida, direta, sem rebuscamentos desnecessários. Pra completar, o cara é músico. Violonista com discos gravados, tocou com Mercedes Soza e Charly Garcia, compôs peças populares e sinfônicas.

Rojo escreveu um fascinante livro chamado Borges e a Mecânica Quântica, editado no Brasil pela Unicamp, ainda em catálogo. Trata-se de uma coletânea de artigos que investigam a intersecção entre arte e ciência. A tese central é a de que, na história da humanidade, várias descobertas científicas foram intuídas ou antecipadas por escritores, pintores, músicos e poetas. E desfia uma série maravilhosa de exemplos, que começa em Homero, passa por Shakespeare e termina em, lógico, Jorge Luís Borges.

Para Rojo, o famoso Jardim dos Caminhos que Se Bifurcam é uma tradução literária perfeita do universo proposto pela física quântica. Borges teria sido o primeiro a enunciar uma alternativa para o tempo linear: tempos cíclicos, tempos múltiplos, espaço relativos, o Aleph do espaço-tempo.  O curioso é que o próprio Borges, entrevistado por Rojo, declarou que não entendia patavinas de Física. Ao receber uma breve explicação sobre os mundos paralelos que se tornaram possíveis depois da Física Quântica, respondeu, pensativo: “Como são criativos os físicos!”

Rojo pertence a esta rara espécie de cientista que tem alma de artista. Cultua Leonardo da Vinci – modelo maior – e costura com habilidade citações de Poe, Cortazar, Calvino, Einstein, Van Gogh, Dante, H.G.Wells, Otavio Paz e até a Bíblia, sem perder o rigor. Seu principal mérito, como escritor, é não parecer pedante ou professoral, seguindo a mesma trilha iluminada de Jean-Claude Carrière.

Dois escritores admiráveis que, partindo de polos opostos, encontram-se na realização plena de conjugar arte e ciência de forma acessível e prazerosa.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda, em junho de 2020).

Dilemas estéticos e políticos

Wasp

O livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, lançado em 2011, foi imediatamente catapultado à condição de best-seller político. Seu autor, Fernando Morais, realizou uma pesquisa minuciosa, coletando datas, nomes, informações de Estado e de pessoas, sobre um dos episódios menos conhecidos da longa história de embates entre Cuba e Estados Unidos da América.

O relato descreve eventos ocorridos na década de 90.  Com o colapso da União Soviética, em 1991, boa parte dos recursos que sustentavam o país caribenho minguaram. Os exilados cubanos concentrados em Miami, em grande maioria alinhados com a direita, ficaram eufóricos. Para eles, o regime de Castro iria ruir em breve. Organizações paramilitares passaram a invadir o espaço aéreo cubano jogando panfletos sobre Havana, e mercenários aportavam nas praias para esconder armas e munição, preparando o terreno para um futuro golpe.

Para quem não sabe, a distância entre Florida e a capital cubana é de apenas 150 km. São 40 minutos de teco-teco, ou algumas horas numa boa lancha. De balsa, com vento a favor, menos de dois dias, como fizeram vários refugiados cubanos, conhecidos como balseros.

Sob risco iminente, o governo cubano partiu para a contraofensiva. Selecionou alguns de seus melhores quadros no Exército e na Aeronáutica, e enviou para Miami, para se infiltrarem nas organizações terroristas e coletarem informações. A chamada Rede Vespa descobriu, entre outras coisas, que boa parte do financiamento das ações anticastristas era proveniente do tráfico de drogas. Um dos espiões passou a ser informante também da CIA, denunciando operações que envolviam o tráfico e agenciamento de mercenários em vários países centro-americanos.

Após muitas ações bem sucedidas, que neutralizaram ataques e desmantelaram os esquemas dos “contras”, os agentes foram descobertos e presos, julgados e condenados pela justiça norte-americana. Quando Fernando Morais terminou seu livro, vários ainda estavam cumprindo pena, o que justificou o título da narrativa.

Todos estes ingredientes sugeriam um belo roteiro de filme. E é o que foi feito, numa coprodução internacional dirigida pelo francês Olivier Assayas. Lançado em 2019 em festivais, chega agora ao público brasileiro através da Netflix, com o confuso nome de Wasp Network – Rede de Espiões. Certamente, para cubanos e brasileiros, o nome original Rede Vespa seria mais palatável.

Como é previsível, o filme provocará debates. Não apenas pelo pano de fundo político, expondo o confronto direita-esquerda, alimentado por décadas de propaganda anti-Cuba nas plagas tupiniquins, mas também pela velha questão que assombra todas as adaptações da literatura para o cinema. Foi fiel? Traiu? Não correspondeu?

O elenco é competente, e talvez seja o único ponto de consenso. Edgar Ramírez, Penélope Cruz, Gael Garcia Bernal, Leonardo Sbaraglia, Wagner Moura, Ana de Armas e o bom time de coadjuvantes garantem uma presença qualificada nas telas, mesmo tendo de falar em espanhol, inglês e até russo. O roteiro, obviamente, teve de optar por qual caminho escolheria em meio à enorme quantidade de informações organizadas por Fernando Moraes em seu livro.

O fato de ter elegido um casal, o piloto René González (Ramírez) e sua mulher Flora (Cruz), como pilar de sustentação da trama é plausível. René se recusou a colaborar com o governo americano, e foi o último a ser libertado, e Flora é uma personagem complexa, pois no início acha que o marido é um gusano, um traidor da pátria. Com filha pra criar, emigra para os EUA e tenta reatar os laços com o marido.

Os admiradores do livro, um dos melhores de Fernando Moraes, vão reclamar de algumas omissões, de certa simplificação, de falta de referências. Os críticos do filme vão dizer que tem muitos personagens, que a narrativa é confusa. Mas, vamos convir: resumir um livro de mais de quatrocentas páginas em 130 minutos sempre implica numa escolha, numa redução. Em certos casos, isto é compensado por um acréscimo estético, imagético, até poético, que possa justificar a experiência.

No final do filme, o foco no casal González-Flora embota o contexto político, e tem sido acusado de parecer um final de novela. Sim, em termos. Cinema é indústria cultural, requer emoção para atingir um público maior. O filme não é um documentário, e coloca isso de forma clara desde o início: “baseado em fatos reais”. A opção dramatúrgica não é, e nunca pode ser, submissão total aos fatos. Desde que não traia o sentido original de palavras e ações, é uma recriação com liberdade formal.  A inclusão de um discurso do próprio Fidel Castro no filme, por exemplo, acrescenta dados que não existem no livro. Os retratos dos personagens reais, nos créditos finais, livres e de volta a Cuba, atualizam a obra de Fernando Morais.

Assayas demonstra, em toda sua filmografia, um interesse focado nas relações pessoais, mesmo quando ousou levar para as telas a biografia do famoso terrorista Carlos, o Chacal (minissérie de coprodução França/Alemanha), em 2010.  Agora escolheu uma grande história de espionagem, com a polarização Cuba-EUA como cenário, para dentro dela ressaltar os dramas individuais, sem perder de vista a dimensão política de sua narrativa. Até tenta ser imparcial, colocando uma sequência documental de críticas ao regime cubano, de forma um tanto desajeitada.

Longe de ter atingido a perfeição, o diretor francês chegou a um resultado bastante envolvente, que merece atenção. Quanto melhor um livro, mais difícil é adaptá-lo, já diziam os mestres fundadores da sétima arte. E uma das batalhas culturais que atravessam nosso tempo é a criação de obras nacionais (ou multinacionais, como é o caso) que se contraponham à hegemonia cinematográfica norte-americana, de entretenimento acrítico. Nesse front a Rede Vespa de Assayas vem somar, com méritos.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda).

Mar de Gente

Gabi-Buarque

O novo CD de Gabi Buarque é de uma beleza desconcertante. Escapando de todas as armadilhas do mercado, das facilidades embaladas para consumo imediato, Gabi confirma seu talento para a canção bem trabalhada, para a poesia arejada e banhada de amor pela cultura brasileira.
Cantora de belo timbre, alcança a plenitude interpretativa explorando com sabedoria as nuances sugeridas pelos versos. Pode soar melancólica, provocativa, amorosa, tensa, raivosa, irônica ou reflexiva, fazendo com que cada faixa seja diferente da anterior.
Gabi mostra maturidade também como compositora. Autora ou co-autora de todas as faixas, explora ritmos, sonoridades e andamentos com sabedoria e
clareza. Soa simples como água, mas é uma simplicidade construída com
minúcias de tapeçaria.
Mar de Gente abre com o Samba Rezadeiro, parceria com Roberto Didio. “Raiou a cantoria…”, anuncia, prestando homenagem ao gênero maior da cidade em nasceu e vive. Esta influência reaparece em outras faixas, como Penha, ou o samba-de-protesto Mar de Gente, que dá nome ao disco e encerra com um coro de vozes convidadas.
Feita as devidas reverências ao gênero maior, Gabi esparrama seu talento em toadas, cantigas de amor, canções de acento intimista, bolero (Concha, cantado com Áurea Martins), folk com sabor de fox (É), xote com levada de fole (Luzia luzia), samba-de-roda com toque de viola (Morena do Mar).
As parcerias se alternam, renovando as poéticas. Marina Sereno, Silvia Duffrayer, Angélica Duarte, e até um forte poema de Maria Rezende, apenas declamado. A parceira mais constante é Socorro Lira, com quem divide
quatro belos momentos.
Neste conturbado e triste ano de 2020, é bom saber que coisas bonitas continuam sendo produzidas e nos fazem acreditar que a vida pode ser melhor. Mar de Gente é, desde já, um dos melhores discos do ano. Obrigado, Gabi Buarque!

(Publicado originalmente na http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

 

O cronista Aldir Blanc

Aldir-Blanc-cronista

Abalados pela morte do letrista, compositor e poeta Aldir Blanc (1946-2020), os comentaristas e o público amante da música popular inundaram as redes sociais com versões de seus grandes sucessos, como O Mestre-Sala dos Mares e O Bêbado e a Equilibrista, feitos com o parceiro maior, João Bosco. Jornalistas relembraram sua criatividade, sua verve, suas firmes posições políticas, seu humor sarcástico, sua carioquice. Alguns analistas lembraram a sua capacidade de concretizar em letra de música verdadeiras crônicas, cenas populares, relatos mordazes de situações urbanas.

Nada mais justo, se prestarmos atenção a obras primas como De Frente pro Crime, Incompatibilidade de GêniosA Nível De… ou Siri Recheado e o Cacete, retratos cheios de graça de um certo jeito de ser carioca, entre malandro e trouxa, convivendo com a violência, o desacato, o compadrio, a traição e outros desvios. Bebeu de fontes preciosas, como Noel Rosa, Geraldo Pereira, Wilson Batista, Billy Blanco e mais uns poucos. Não é fácil contar uma história, criar um enredo com abertura e desfecho, em poucos versos.

Mas o enorme compositor-letrista acabou ofuscando o escritor. Aldir Blanc é cronista mesmo, refinado (ou grosso, dependendo da hora), com vários livros publicados. Convidado pela turma do Pasquim, publicou seu primeiro volume de crônicas, Rua dos Artistas e arredores, em 1978. Ali se revelava um arguto investigador dos hábitos, costumes e idiossincrasias populares, herdeiro legítimo de uma tradição que vinha do pioneiro João do Rio, incorporando o inconformismo de um Lima Barreto e compartilhando o senso de humor de um Stanislaw Ponte Preta.

As coletâneas seguintes (Porta de Tinturaria, Brasil Passado a SujoUm Cara Bacana na 19ª, Direto do Balcão) confirmaram o talento literário do compositor-letrista. Sua formação acadêmica (fez medicina, com especialização em psiquiatria) se mesclava em química perfeita com o amor pela literatura, destilando o exímio retratista de tipos humanos, de situações hilariantes, de pequenas e grandes malandragens de um Brasil que se transforma a cada dia, deixando de sorrir e mostrando os dentes. Talvez não escrevesse crônicas, mas diagnósticos…

Reler Aldir Blanc hoje é se reencontrar com esta quase perdida tradição de cronistas satíricos metropolitanos. Os textos de humor crítico migraram para a TV, para as comédias stand-up, para as redes sociais. Apenas Luiz Fernando Veríssimo pode ser comparado, no cenário da literatura brasileira contemporânea.

Mesmo quando Blanc se aventurou por outros gêneros, como memórias (Vila Isabel – Inventário de Infância), livros infantis (Uma Caixinha de Surpresas), ou relatos saborosos em homenagem a seu time de coração (Vasco – A Cruz do Bacalhau), o espírito de “cronista carioca” esteve impregnado de forma indelével. Aldir Blanc ainda será lembrado como um dos mais originais escritores de nossa época, último recriador de um Rio de Janeiro que, depois da pandemia, nunca mais será o mesmo.

(publicado originalmente em A Terra é Redonda)

 

Morrer na praia

Nevil Shute

Nestes tempos de coronavírus, é natural relembrarmos clássicos literários que abordaram o clima pré-apocalíptico de destruição e morte. A Peste, de Camus, logo vem à baila. Aqui mesmo abordei o último romance de Philip Roth, Nemesis, que se situa num EUA, em 1944, açoitado pela poliomielite.

Ontem lembrei de uma leitura da adolescência: On the Beach, de Nevil Shute (curioso, não consigo lembrar do nome em português!). Num cenário de pós-guerra atômica mundial, o hemisfério norte está totalmente destruído. A nuvem radioativa pouco a pouco se estende para os últimos rincões meridionais da terra. A ação se passa em Melbourne, na Austrália, e as noticias de um fim inevitável afetam de forma diversificada a vida das pessoas. Num clima parecido com o do filme Melancolia, de Lars von Trier, uns tentam levar uma vida normal, outros enlouquecem, as crianças tentam entender, os adultos tentam desentender.

Há uma certa tradição de escritos sobre desgraças, epidemias e misérias decorridas da guerra. Lembro de Fome, do prêmio Nobel Knut Hamsun, que me marcou muito em tradução de Carlos Drummond de Andrade, assim como Sadako Quer Viver, da coleção Jovens de Todo o Mundo. Há toda uma biblioteca sobre o holocausto, os pogroms, as guerras coloniais, a peste medieval e até a Aids. São exercícios dolorosos, tentativas de compreender a dimensão da tragédia que ameaça a espécie humana e todo o planeta.

Nevil Shute (1899/1960) era inglês, engenheiro aeronáutico e piloto, e passou os últimos anos da vida na Austrália, escrevendo. On the Beach é seu romance mais famoso, e foi filmado duas vezes. Nunca assisti ou soube de alguma versão em português. Sem grande profundidade psicológica, mas com conhecimento técnico suficiente para descrever um cenário de contaminação progressiva, fez o que tinha que fazer.

A literatura cumpre seu papel. Lembrar, para que não se repita; alertar, para que não erremos; assustar, para que não ousemos trilhar o caminho da destruição. Mas como agir quando, cada vez mais, somos governados por ignorantes eleitos por ignorantes, que jamais tiveram a literatura como referência?


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