O labirinto azul de Ana Lee

O novo disco da cantora paulista Ana Lee traz um conjunto de canções saturadas de profunda beleza. A viagem musical proposta é pelas águas, doces ou salgadas, e isso marca toda a experiência da audição, mesmo quando não há referência explícita na letra.

Os músicos e arranjadores são de primeira linha, e traduziram muito bem a musicalidade líquida das melodias. Ora são pontuadas pelos teclados de Lincoln Antonio, ora pelos clarones de Itamar Vidal, sempre bem temperados pelos violões de Bráu Mendonça, Ozias Stafuzza e Lula Gama e o baixo luxuoso de Swami Júnior. Belo time, que contribui também com algumas das composições originais.

Desde a faixa de abertura, Toada (Cássio Gava/ Zeca Baleiro) onde Ana Lee divide os vocais com Baleiro, somos envolvidos pela refinada sonoridade do disco. Bem pontuado pelo violoncelo de Mário Manga, o delicado arranjo acústico dá o tom também da faixa seguinte, Xote da Navegação, dos gigantes Chico Buarque e Dominguinhos. Fagote e clarone acentuam a melancolia da canção.

O celo de Manga volta a brilhar na faixa seguinte, Castelo, de Mario Montault. A percussão de André Magalhães e Ricardo Stuani, presentes em todo o disco, fica mais evidenciada. Na sequência, uma releitura de A Página do Relâmpago Elétrico revigora a conhecida canção de Beto Guedes, com um leve sintetizador sobre base acústica. Mané Silveira contribui com seu sax e com o arranjo feito a quatro mãos com Itamar Vidal.

Uma ciranda de Ozias Stafuzza retoma uma linha cara à cantora, de experimentar novas leituras dos ritmos populares brasileiros. É o caso do Jongo Tradição I, pleno de ecos ancestrais, e do gostoso samba Lagoa Funda. Uma leitura intimista de Meia Noite, de Chico e Edu Lobo, demonstra que revisitar o tesouro da música popular brasileira também pode ser uma viagem contemporânea.

Ana mostra seu lado compositora ao cantar um poema de Emily Dickinson (Loucas Noites), e se sai bem. Versos de Maria Rita Kehl (O Amor É Uma Droga Pesada) são musicados de forma surpreendente por Antonio Herci, com uma construção que remete a ritmos tribais, reforçada pelo arranjo percussivo. E que beleza a canção que dá nome ao CD! Uma joia de Lincoln Antonio e Walter Garcia, de intervalos inesperados e angulosa beleza.

Em Labirinto Azul nenhuma canção se parece com a anterior, os arranjos não se repetem, e a invenção poética está presente disputando os holofotes com o alto nível musical. O conjunto de composições, de arranjos e de interpretações comprova a maturidade artística de Ana Lee. Um grande disco, para iluminar este conturbado ano de 2020.

(Publicado originalmente na http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

Cantar é preciso

Fiz essa foto no Parque da Água Branca, em São Paulo, num sábado de primavera. Fui abastecer a despensa na Feira da Reforma Agrária, e aproveitar para ouvir umas violas, aplaudir umas danças, apreciar o artesanato e conversar com gente de todo o país.

Não gente comum, mas a brava gente do MST: agricultores e agricultoras, assentados e organizados em cooperativas, cozinheiros, artesãos, dançantes e brincantes de colorida diversidade. Saudade destas feiras, hoje suspensas por causa da pandemia que desgraça nosso povo e expõe a omissão criminosa de tantos governantes.

Depois de perambular por quase duas horas, mãos carregadas de sacolas, já batia em retirada quando topei com um grupo informal de jovens que cantava. Não no palco oficial, não com microfones e amplificadores, mas no chão, no meio do povo. Coisa forte, bonita de se ver e ouvir.

Mais que nunca é preciso cantar, escreveu Vinicius nos anos 60. Cantar é preciso? Como, se viver não é preciso? Talvez porque cantar seja como navegar por outras esferas, e chegar a porto seguro requeira ensaio, treino, direção. Mas cantar de forma espontânea também pode ser lindo, e ver aquele grupo de jovens cantando como quem tem um novo mundo a construir foi um alento. Saí do parque cantando baixinho, remontando os escombros do velho mundo a que pertenço.

(São Paulo, SP, outubro de 2015.) 

O elogio da burrice

Assistir à série O Gambito da Rainha pode deixar quem tem mais de quarenta anos um tanto melancólico. Trata-se da a história de uma garota que, no final dos anos 50 e década de 60, se destaca no xadrez, vencendo campeonatos importantes nos EUA e indo disputar torneios na Europa. A hegemonia da época era dos russos, considerados imbatíveis. A juventude dos anos 60 se interessava pelo jogo, sabia o nome dos campeões mundiais, jornais e TVs relatavam as finais eletrizantes. Meio mundo acompanhou o match Fischer x Spassky, em 1972, com o cenário da Guerra Fria por trás. Aliás, havia coluna de xadrez nos jornais, e até revistas especializadas, como bem ilustra a série.

Saltemos para 2020. Os jovens de hoje acompanham e sabem os nomes de lutadores de MMA, aquela imbecilidade que alguém já definiu como dois homens de cueca se agarrando dentro de um galinheiro. Desapareceram as colunas de xadrez, e até mesmo as palavras cruzadas.

Claro, gostávamos (e aqui me incluo) também de esportes, Olimpíadas, futebol tricampeão, São Silvestre, vôlei e até boxe. Alguém sabe quem é o campeão mundial de boxe hoje? Nos anos 60-70-80 todos sabiam. Mesmo sendo um esporte bruto, os homens vestiam luvas de couro estofadas para não ferir o rosto do opositor. E tínhamos Muhammad Ali, campeão inconformado, símbolo de resistência negra ao sistema. Quem é contra o status quo no UFC? Aliás, há algum jogador de futebol rebelde e politizado hoje, no Brasil? Só a jogadora de vôlei Carol Solberg esboça um solitário protesto, e será “cancelada” pela ditadura midiática por um largo tempo.

Não, a juventude de hoje não é culpada por não saber dessas coisas. É a mídia globalizada, aliada a interesses econômicos e políticos, que passou a definir os gostos e escolhas. Fez sumir o xadrez, as palavras cruzadas e desidratou os cadernos literários dos jornais. A imprensa atual é como um supermercado pobre, de um cafundó qualquer perdido no mundo, que só oferece uma marca de macarrão nas prateleiras. O consumidor sobrevive achando que só existe aquilo.

O esquema midiático contemporâneo guindou às manchetes o que, no século XX, era considerado o esgoto do jornalismo: a fofoca sobre a vida íntima de artistas e personalidades, a exaltação do físico em detrimento do intelecto, a manipulação de dados, a despolitização, a propaganda descarada dos interesses financeiros. Abra o portal de qualquer um dos maiores veículos da mídia contemporânea (G1, Uol, et caterva) e meça o espaço destinado à cultura, ao debate de ideias, à discussão dos problemas reais da nação, comparando com o espaço destinado à fofoca, aos vídeos idiotas, aos crimes mais banais. Há até colunas que se dedicam a comentar programas execráveis como BBB e A Fazenda, reality shows que fariam os criadores da televisão morrerem de vergonha, se é que tiveram alguma.

Nas faculdades de comunicação do século XX havia matérias como Deontologia e Ética. Parece que desapareceram nos cursos atuais. Perdeu-se algo no caminho, e isso é mais um dos sintomas da grave doença que acomete o jornalismo atual. Gerações sendo (de)formadas pela mídia mais mercenária, cultivando o individualismo, a arrogância e o desprezo por causas sociais. O (ou a) jornalista sai da faculdade sem saber quem foi John Reed, mas sonha em cobrir um desfile de moda ou festival de música com direito a lanche grátis.

O estrago é mundial, e não há como dissociar isso do avanço do conservadorismo, do totalitarismo, do fanatismo religioso no século XXI. No Brasil, o projeto de renovar os meios de comunicação do país, animado pelo avanço democrático da era Lula, foi enterrado junto com as conclusões da Conferência Nacional de Comunicação, em 2009. Depois de mobilizar dezenas de entidades, sindicatos, associações, universidades, patrões e empregados, engavetaram as indicações que iriam atualizar um marco regulatório vigente desde 1962. É esse que continua em vigor, em pleno ano de 2020, mantendo os privilégios da velha e oligárquica imprensa monopolista, colonizada e vil.

Entre outros pontos, a Confecom propunha cotas regionais de produção audiovisual, respeito à diversidade, direito de resposta, fim da propriedade cruzada de veículos (como nos EUA), criação de canais audiovisuais municipais, estaduais e federais com verba pública geridas por conselhos comunitários. Considerando que haverá eleições presidenciais em 2022, não seria o caso de recolocar, desde já, este tema na pauta de todos os candidatos de esquerda? A palavra de ordem já existe faz tempo: democratização dos meios de comunicação, já!

Ilustração: Sofonisba Anguissola (1532-1625).

O varal

Essa foto foi feita na pequena vila de Suruacá, na margem esquerda do rio Tapajós, dentro da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. Estive lá registrando o trabalho fantástico da Saúde e Alegria, organização não-governamental premiada internacionalmente que atua desde 1987 na região.

Todos reunidos na inauguração do primeiro telecentro movido a energia solar, festa, confraternização, lanche comunitário. Na volta, esperando o barco, andei por alguns minutos pela beira do rio, preocupado com tempestade que se anunciava, e topei com esse varal.

A foto em preto e branco acentuaria a dramaticidade do céu carregado, mas o colar colorido sobre a paisagem se perderia. Por sorte, uma figura humana solitária pontua o cenário, e dá uma ideia de proporção perante o majestoso Tapajós.

A vegetação em primeiro plano atesta a proximidade da água doce, e a areia branca que se esparrama a perder de vista é orgulho de toda a população ribeirinha. Ali perto, uma hora de barco a jusante, está Alter do Chão. São as praias mais famosas da Amazônia, cantadas em prosa e verso.

Mas o verso que me ocorreu naquele momento foi escrito pelo carioca Orestes Barbosa, na inesquecível canção Chão de Estrelas: “festa de nossos trapos coloridos”.  No cenário, onde esperava encontrar apenas o branco, o cinza e o azul, com alguma coisa de verde, os pedacinhos multicores alinhados impuseram uma nova hierarquia do olhar. A pequena comunidade, integrada à natureza há várias gerações, vivendo de pesca e borracha, talvez não saiba, mas escreveu poesia na paisagem.

O retratista

O fotógrafo retrata um retratista, que retrata dois jovens irmãos. A princípio, uma cena banal, apenas curiosa, das ruas de Montmartre. Ou de qualquer lugar turístico do mundo. Mas, revendo a imagem alguns anos depois, uma curiosa rede de relações e significados se estabelece em minha mente. A menina olha, altiva, para o desenhista. O retrato da menina, esboçado pelo retratista, olha para o fotógrafo, ou seja, eu. Ou seja, nós.Uma ilusão especular, que propõe uma triangulação interessante de olhares. Tridimensional seria um adjetivo adequado, se não fosse tão sequestrado pela indústria digital foto-cinematográfica para um uso unidimensional. A menina hoje é uma mulher, e talvez gostasse de ver essa foto. O menino está entediado, quer acabar logo com aquela chatice. Eles não sabem que passaram a fazer parte do meu repertório de lembranças. É verão, nota-se pelo vestuário. No alto, à esquerda, dois pés calçados de tênis poluem a foto. Mas podem ser vistos, por uma perspectiva de composição renascentista, como a ocupação de um espaço vazio. A foto amadora, feita com uma câmera compacta, ficaria melhor se aparecessem apenas os paralelepípedos? Não há referência de horizonte, mas um poste no alto à direita está obviamente fora da vertical. Isso é compensado pela forte linha do braço, da perna e da prancheta do desenhista, que puxa tudo para o lado oposto, compensando até a postura dos retratados.A menina tem os cabelos soltos. O homem prende, por contingência profissional. Não dá pra desenhar com o cabelo caindo na cara. A camisa escura, talvez preta, dos retratados, contrasta fortemente com a brancura do papel e da camiseta regata do retratista, e dão certa graça à imagem. A calça escura que ele veste, novamente, reequilibra as tonalidades.Objetos estranhos provocam ruído nas bordas da imagem, e acentuam sua amadora imperfeição. E um elemento misterioso, à direita da prancheta, quase no centro da foto, atiça a curiosidade. Demorei anos pra notar aquilo. Você percebeu?

(Foto:Daniel Brazil. Paris, 2009)

Zuza, o homem e seu tempo

Este ano tão cruel levou embora no dia 4 de outubro uma das pessoas mais queridas do meio musical brasileiro: o produtor musical, engenheiro de som, crítico, organizador de festivais, historiador e jornalista Zuza Homem de Melo.

Sua biografia resumida está disponível na internet:  jovem interessado em música, que começou a tocar contrabaixo nos anos 50, viajou para os Estados Unidos, estudou e passou a escrever artigos sobre jazz e música popular. A partir de 1959 trabalha na TV Record, e torna-se figura central da organização do que ele chamou mais tarde, em um de seus livros mais conhecidos, de A Era dos Festivais (Editora 34, 2003). Nas décadas seguintes, foi curador de festivais de jazz e MPB, produziu discos e shows, apresentou programas de TV (Jazz Brasil, na TV Cultura), teve programas de rádio, escreveu livros essenciais para conhecer a música popular de nosso tempo.

Fugindo da frieza acadêmica, do mero alinhamento de fatos e nomes, Zuza não tinha vergonha de se colocar como testemunha ocular (e auditiva) dos fatos que narrava. Aliás, fazia isso com a elegância discreta que sempre caracterizou sua atuação nos bastidores. Estimulando novos valores, orientando artistas consagrados, procurando abrir espaços de renovação da música, sem perder em nenhum momento a noção da importância histórica, cultural e artística dos fatos que relatava.

Deixou tantas obras essenciais que fica difícil escolher a mais representativa. A Canção no Tempo (co-autoria com Jairo Severiano), Eis Aqui os Bossa Nova, Música com Z (coletânea de artigos), Música Popular Brasileira Cantada e Contada.

Antes de morrer, aos 87 anos, acabara de colocar o ponto final em sua biografia de João Gilberto. Seu último livro publicado foi Copacabana – a trajetória do samba-canção (1929-1958), coedição da Editora 34 com o Sesc, de 2017. É sobre ele que vamos nos deter um pouco mais, atentos à lição do mestre.

A obra começa com uma saborosa contextualização do Rio de Janeiro dos anos 50, sob a ótica de um “paulistano no Rio” (título do primeiro capítulo). Zuza fala da chegada à Capital Federal, da dissonância entre zona Norte e zona Sul, do túnel do Leme, do ambiente social da época, da moda, dos cinemas, das boates, dos hormônios em ebulição. Descrito o cenário e dado o clima, descreve a passagem do samba dos teatros de revista do Centro para as boates chiques de Copacabana, tornando-se mais intimista e amaciando o batuque, absorvendo influências norte-americanas (foxtrote) e latinas (bolero).

À medida em que descreve o processo, Zuza interpola os protagonistas da história: compositores e intérpretes que construíram a textura sonora do gênero. Com farta iconografia, que abrange retratos, capas de discos, registro de shows e festas, programas, jornais, partituras e até cardápios, somos envolvidos e até convidados a cantarolar as canções que são citadas.

Em mais de 500 páginas, Zuza Homem de Mello consegue o admirável feito de dosar com sabedoria as suas preferências pessoais, sem escondê-las, e municiar o leitor de todas as informações necessárias para compreender o sentido da expressão samba-canção.  De Ary Barroso a Chico Buarque, de Lupicínio a Cartola, de Aracy Cortes a Maysa,  passando por Noel, Adelino Moreira, Nelson Gonçalves, Braguinha, Dick Farney, Cauby Peixoto, Ângela Maria, Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Dolores Duran, Tom Jobim, Dalva de Oliveira, Herivelto e tantos outros, a vontade é de parar a leitura a cada página para ouvir as canções citadas. E Zuza generosamente compila as gravações citadas, em apêndice precioso no final do livro.

O autor confessa, no prefácio, ter demorado quase 13 anos para escrever o livro. Outros trabalhos surgiram, livros foram encomendados e publicados, shows foram produzidos. Mas para ele, “o que se criou nos anos 1950 foi determinante para dar ao Brasil o reconhecimento de sua canção como destacada forma de arte na gênese da música popular. Ao primeiro sinal de seu toque rítmico e melódico, o pensamento voa evocando a saudade da terra, reconhecendo o talento musical e distinguindo o afeto do brasileiro comum.”

Do samba-canção surge a bossa-nova, e nos anos 60 tudo se precipita, se mistura e se reconfigura, sem perder a herança genética. E Zuza Homem de Mello, sempre atento aos novos sinais que surgiam em plena era dos festivais, nunca deixou de apontar a importância dos gêneros matriciais da moderna música popular brasileira. Com entusiasmo de garoto e sabedoria de quem viveu intensamente, tornou-se um dos autores fundamentais para entender e amar o que de melhor a cultura brasileira produziu: a nossa música.

(Publicado originalmente na http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

A Redescoberta de Noel Nutels

“Os índios vem tentando pacificar os civilizados há 500 anos. Até hoje não conseguiu.”

Uma das mais emblemáticas figuras da luta em defesa dos indígenas brasileiros é, sem dúvida, Noel Nutels. O “Índio cor-de-rosa”, como bem o definiu o escritor Orígenes Lessa, foi uma personalidade fascinante, um judeu emigrado da Ucrânia que veio menino para Recife, onde cresceu e formou-se em Medicina. 

Nutels faz parte de um seleto grupo de “médicos intérpretes do Brasil” (1), profissionais que mergulharam profundamente nos problemas nacionais buscando soluções que envolvessem toda a sociedade, indo a campo, enfrentando governantes e ditadores, criando novos métodos e abordagens, propondo uma visão humanista das questões de saúde. Ombreia-se com gente do calibre de Nísia da Silveira, Carlos Chagas, Vital Brazil, Oswaldo Cruz e Sérgio Arouca, entre outros.

Em 1943 Nutels integrou a primeira expedição Roncador-Xingu, como médico oficial, e esta missão mudou para sempre a sua vida. Companheiro de jornadas dos irmãos Villas-Boas, passou a defender os povos indígenas em todas as instâncias, enquanto organizava ações para a erradicação de doenças levadas pela “civilização” e, principalmente, da tuberculose. Em 1951 tornou-se médico do SPI, Serviço de Proteção ao Índio (entidade que antecedeu a Funai), que chegou a dirigir entre 63 e 64.  Em 1957 criou no ministério da Saúde o Susa, Serviço de Unidades Sanitárias Aéreas, que atuava na região amazônica.

Mais que uma vida onde combateu o bom combate, a personalidade fascinante de Nutels ganhou a admiração de intelectuais, artistas e políticos. Além do romance biográfico de Origenes Lessa (2), o sanitarista também motivou a inspiração do escritor gaúcho Moacyr Scliar, médico, humanista e judeu como ele. (3)

Nem conseguimos imaginar o que Noel Nutels estaria pensando se vivesse no Brasil de 2020. A única certeza é que não se conformaria com a política genocida do governo neo-militar, e iria à luta. São de atualidade impressionante as suas palavras em depoimento à CPI do Índio, em 1968 – plena ditadura – na Câmara dos Deputados: “A essa hora alguém está matando um índio. É a cobiça da terra, é a cobiça do subsolo, é a cobiça das riquezas naturais. É um vício de estrutura econômica. Enquanto terra for mercadoria e objeto de especulação vai se matar índio. A quem interessa o crime?”.

Mas a batalha pela causa indigenista e pela memória dos verdadeiros heróis desse país ganha esta semana uma importante contribuição. Estreia no festival Olhar de Cinema o documentário O Índio Cor de Rosa contra a Fera invisível: a Peleja de Noel Nutels (4).Fruto de um edital da Fiocruz de 2018, os jovens realizadores souberam aproveitar com inteligência as dezenas de horas filmadas pelo próprio Nutels durante seu trabalho de campo. A linha condutora é o próprio depoimento à CPI de Brasília, único registro conhecido da própria voz do protagonista.

O filme chega às nossas telas embalado por sucesso internacional. Três prêmios no Festival de Biarritz, incluindo o de escolha do público, e Melhor Documentário Iberoamericano no Festival Internacional de Cinema de Buenos Aires. Produzido pela Banda Filmes e dirigido por Tiago Carvalho, o filme tem as primeiras exibições marcadas para os dias 9 e 13 de outubro, no portal do festival (https://olhardecinema.com.br/), o Festival Internacional de Cinema de Curitiba.

O bom Nutels, cineasta amador e documentarista dono de linguagem e ritmo próprios, demonstra nas imagens que deixou um olhar atento e respeitoso sobre as comunidades indígenas. Bonachão, muitas vezes deixou-se fotografar só de calção no meio dos índios, sempre com seu inseparável cachimbo. Que este documentário motive os jovens a conhecer melhor a questão indígena, os problemas de saúde que afetam os mais vulneráveis, e reverenciar os que lutaram a vida inteira para melhorar o mundo em que viveram. E, principalmente, que provoque a indignação pública contra os descalabros dos atuais detentores do poder, aliados à sanha centenária de fazendeiros e mineradores.

(1) Médicos intérpretes do Brasil (Hucitec, 2015). Coletânea organizada por Gilberto Hochman e Nísia Trindade de Lima.

(2) O Índio Cor de Rosa – Evocação de Noel Nutels (Codecri, 1980)

(3) A Majestade do Xingu (Cia. Das Letras, 2009)

(4) Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=1CuXCzCTYMw&ab

O dilema ético das redes

O filme O dilema das redes, lançado recentemente pela Netflix, cristaliza para um público variado uma série de discussões que vem agitando há alguns anos o ambiente virtual. Não que apresente grandes revelações, mas revela detalhes e traz entrevistas de personagens que ajudaram a construir os gigantes da rede virtual.

O roteiro, muito bem construído, mistura depoimentos reais com ficção, de forma a demonstrar como funciona o “sistema de manipulação e lucro” criado pelas empresas do Vale do Silício, hoje entre as mais poderosas do mundo: Google, Facebook, Youtube, Twiter, Instagram, Pinterest, etc.

Como estas empresas, em princípio “gratuitas” para os usuários, se tornaram bilionárias? Como funciona a monetização através de uma simples clicada de “curti”? Como nossos dados pessoais são utilizados para alimentar uma máquina de propaganda explícita (e subliminar) que movimenta milhões de dólares?

Vários pesquisadores e estudiosos das novas mídias já apontavam há um bom tempo para as distorções do sistema. Aqui no Brasil o sociólogo e professor Sergio Amadeu, da UFABC, tem se destacado na análise dos perigosos efeitos colaterais do uso intensivo das redes.  Embora traga consequências comportamentais, estéticas, sociais e afetivas ainda não totalmente mensuráveis, como é bem demonstrado pela família representada no filme, vamos nos ater aqui a apenas um aspecto, o macropolítico.

Os depoentes do filme são, ou foram, figuras importantes do império digital. Diretores, chefes, engenheiros, ideólogos que hoje veem com reservas o futuro maravilhoso que venderam sem pudor. Relativizam as maravilhas de um sistema que aos poucos está se revelando perigoso, pondo em risco a própria existência da democracia. De certa forma, atualizam o debate suscitado por Umberto Eco nos anos 60, com o seu célebre livro Apocalípticos e integrados (Perspectiva), que opunha os defensores das tecnologias como ferramentas de avanço social aos que acusavam estas de virarem instrumento de exclusão e manipulação da informação.

O filme dirigido por Jeff Orlowski ousa ao colocar atores representando algoritmos, e pontua seu enredo ficcional um tanto esquemático com fatos reais assustadores: a manipulação em massa de (des)informações que levaram países à beira do totalitarismo. Explicitamente, Myanmar e Brasil, representado no filme pela funesta figura aqui eleita em 2018.

Há todo um levantamento psicológico do usuário de internet. Aliás, o filme lembra bem que o termo “usuário” (addict) só se usa pra drogas e redes sociais. Para ter, cada vez mais e mais, os prazeres oferecidos pela rede, o usuário não se importa de ter seus dados expostos, de ter sua privacidade invadida ou até de conceder que autoridades registrem todas as suas ações.

Em certo momento, um entrevistado aponta um dado crucial revelado por uma pesquisa: uma mentira se espalha seis vezes mais rapidamente que uma verdade na internet. Verdades tem de ser comprovadas exaustivamente, mentiras não. Contra esse crescimento veloz de desinformação não adianta contrapor que a cartilha do Ministério da Educação da Dilma não tinha mamadeira de piroca. A mentira vai estar sempre na frente, com quilômetros de vantagem.

O filme toca na questão da democracia, cita países que estão em processo de corrupção dos valores, mas infelizmente não fala do papel devastador de uma Cambridge Analytica, em conluio com a sinistra figura de Steve Bannon, influenciando eleições e referendos, como o do Brexit. Para isso, é recomendável assistir Privacidade hackeada (The Great Hack), documentário de 2019 que enfoca a tramoia entre a empresa e o Facebook, envolvendo dados pessoais de milhões de pessoas.

A grande questão que se coloca para a esquerda é se será possível competir na internet com as mesmas armas da direita. Esta, sabemos, está vencendo nesse campo, que criou e sabe muito bem utilizar. No fundo, é um dilema ético que assombra qualquer indivíduo, pois é muito mais fácil mentir que falar a verdade. Mas como propor soluções coletivas, partidárias, institucionais, para enfrentar a avalanche de notícias falsas, num campo adverso?

Para alguns dos entrevistados, como Jaron Lanier, o mundo virtual deve ser abandonado. “Desligue as redes, vá ver o sol lá fora”, diz ele, de forma simbólica, no final do filme, ecoando Thoreau.  Em tempos de pandemia, não é uma solução muito prática. Outros, ex-executivos arrependidos, tentam criar mecanismos de controle para preservação da democracia. Mas como enfrentar uma máquina alimentada por milhões de dólares, em crescimento exponencial, que corrompe e alicia cérebros desde a infância com promessas deslumbrantes de sucesso individual, fortuna e poder?

Organizar um partido ou organização que atue dentro dessa rede de forma ética parece algo cada vez mais distante. Em pouco tempo veremos uma explosão de revolta no mundo real, se ainda restar consciência transmitida pelos meios tradicionais. Resta a pressão social de grupos organizados em torno da democracia para rever legislações, pressionar empresas e exigir transparência na rede. Ou sucumbiremos a uma ditadura global tão absolutista que lembrará aos mais velhos as obras de Orwell ou Huxley. Que, obviamente, serão tratadas como fake news.

Manzano, o poeta-escravo

Não se tem notícia, no Brasil, de qualquer texto escrito por escravos. Conhecemos alguma música, pintura, escultura ou arquitetura feita por mãos negras, muitas vezes sob a ameaça da chibata. Mesmo considerando que a imensa maioria não sabia escrever, é razoável pensar que os primeiros alfabetizados narrassem suas histórias. Há poeta negros libertos e escritores descendentes de escravos (aliás, estão entre os maiores de nossa literatura), mas relatos coetâneos da escravidão, se houve, foram ocultados ou destruídos.

Em toda a América Latina, o único autor-escravo conhecido é o cubano Juan Francisco Manzano (1797-1854). Seus escritos foram traduzidos para o inglês em 1840, patrocinado por um grupo de abolicionistas britânicos. Nos Estados Unidos houve estímulo para que ex-escravos contassem suas histórias, e isso propiciou o surgimento de vários documentos históricos testemunhais, como o famoso 12 Anos de Escravidão, de Solomon Northup, adaptado para o cinema e laureado com o Oscar de melhor filme em 2014. Na América de colonização ibérica, isso não ocorreu.

 Manzano foi traduzido entre nós pelo escritor Alex Castro. Num cuidadoso trabalho de pesquisa, o brasileiro viajou a Cuba para conhecer o manuscrito autógrafo, organizou as versões do texto-base, cotejou as interpretações existentes e fez duas recriações: uma tradução fiel, mantendo a grafia e sintaxe original, e uma transcriação em português contemporâneo, dentro da norma culta. É claro que a leitura desta segunda versão é a indicada para quem que ter um primeiro contato com a vida de Manzano, ficando a primeira para estudiosos que queiram se aprofundar na obra do pioneiro cubano.

Podemos afirmar que A Autobiografia do Poeta-Escravo (Hedra, 2015, 224 páginas) é uma obra única, fundamental para entendermos melhor as relações escravagistas na América colonial. Conta com uma esclarecedora introdução do professor Ricardo Salles, fotografias, reproduções do manuscrito e um cuidadoso trabalho de pesquisa linguística, histórica e social empreendida por Alex Castro. Suas notas enriquecem a leitura com preciosos detalhes históricos, sociológicos e linguísticos.

Percebe-se, durante a leitura, o medo que Manzano tinha de ser censurado, de ver sua obra desaparecer. Evita falar mal de seus senhores, e mesmo quando descreve os castigos terríveis, os açoites, as privações desumanas, culpa no máximo os feitores e capatazes, não os amos. Uma literatura de oprimido, que não consegue se desvencilhar do medo, e que mesmo assim revela um universo doloroso e sombrio, capaz de impressionar seus leitores quase dois séculos depois.

É doloroso perceber, em pleno século XXI, que os governantes da última nação a abolir a escravidão nas Américas (o Brasil) ainda aclamam os senhores e condenam os escravos. As políticas de reparação de danos (cotas), de igualdade étnica, de princípios basilares da democracia moderna, consagrados na Constituinte de 1988 e aprofundadas pelo primeiro governo de esquerda do país, em 2002, vão sendo desmontadas com velocidade crescente pelo governo genocida de Bolsonaro.

Ao colocar no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos uma figura sinistra e retrógrada como a evangélica Damares Alves, defensora de um dos projetos mais absurdos gestados nesse país que é o Escola Sem Partido, o atual desgoverno reafirmou seu compromisso com a discriminação racial, a perpetuação do racismo, o extermínio das nações indígenas e dos quilombolas, favorecendo descaradamente a  exploração econômica de seus territórios ancestrais.

O horror que Manzano vivenciou em Cuba no século XIX se manifesta hoje com o massacre da população negra, dos jovens de periferia, dos abusos policiais em função da cor da pele. Os responsáveis pelo assassinato de Marielle Franco provavelmente já teriam sido presos se ela fosse uma branca de classe média. Mas era uma negra, como os jovens trucidados no massacre de Paraisópolis, como são os milhares de preteridos a vagas de trabalho por serem negros, como são os milhões de ofendidos diariamente pela arrogância supremacista de uma elite forjada numa sociedade escravocrata. Arrogância esta que é transmitida para a pequena burguesia branca que vê no racismo uma possibilidade de humilhar a filha da empregada, que ousou tomar a vaga de seu filho numa universidade pública.

Mas voltemos ao poeta-escravo, antes que a desesperança turve nossa percepção da beleza. Aqui está o soneto mais famoso de Manzano, Meus Trinta Anos, pleno de significados. Diz a lenda que quando o declamou para uma plateia culta, provocou tanta emoção que motivou um movimento para comprar a sua liberdade.

Quando olho para o espaço percorrido
Desde meu berço, e todo meu progresso,
Estremeço e saúdo meu sucesso
Mais por terror que por amor movido.

Espanta-me o combate que eu, renhido
Sustentei contra a sorte vil e fria,
Se é que posso assim chamar a porfia
De um ser tão infeliz e malnascido.

Trinta anos há que estou vivo na terra.
Trinta anos há que, em gemedor estado,
Triste sina em todo lugar me assalta.

Mas nada é para mim a dura guerra,
Que em vão suspirar tenho suportado,
Se a comparo, oh Deus!, com o que me falta.

(tradução: Pablo Zumarán)

(Artigo publicado no Fósforo, em 2015, atualizado e ampliado).

O Brasil, visto da Albânia

Kadaré

       Ismail Kadaré é uma figura notável no mundo da literatura. O fato de ser albanês o torna um tipo de ornitorrinco, um espécime muito raro, endêmico. Se tivesse nascido em Java ou nas ilhas Fiji, remotos lugares que só conhecemos por imagens do National Geographic, seria compreensível. Mas a Albânia está na Europa, faz fronteira com a Grécia, e só algumas milhas de mar Adriático a separa do salto da bota italiana. Entre gregos e romanos, portanto.

       Como um país como esse ficou isolado por tanto tempo da chamada cultura ocidental? É certo que após a II Guerra Mundial passou por uma ditadura comunista obscura, mas e os vinte séculos anteriores?

        Kadaré se tornou conhecido dos brasileiros depois que seu belo romance Abril Despedaçado foi roteirizado para o cinema por Karim Ainouz e dirigido por Walter Salles. Uma história trágica de traições e vinganças, num clima quase medieval, foi transplantada para o Nordeste brasileiro com talento e respeito ao enredo original.

        Mas Kadaré não é só tragédia. Dossiê H, escrito em 1991, dez anos antes de Abril Despedaçado, é muito engraçado. Pelo menos até a primeira metade da história…

        Dois jovens irlandeses, estudantes de literatura em Nova York, nos anos 30, resolvem ir para a Albânia (então um reino, governado pelo rei Zog). Acreditam que ali há pistas da tradição homerista, ou seja, da Ilíada e da Odisseia. Querem demonstrar que os rapsodos da cultura popular albanesa carregam consigo as marcas ancestrais da grande epopeia. Os pesquisadores levam um aparelho recém inventado, um gravador, onde pretendem registrar os cantos homéricos.

        A Embaixada da Albânia concede os vistos, mas suspeita de que são espiões. O prefeito da região remota onde vão se instalar recebe instruções para vigiá-los. A mulher do prefeito vê nos irlandeses a oportunidade de um romance proibido, capaz de tirá-la da monotonia em que vive.

         Está criada a trama. Pouco a pouco, somos levados a um mergulho na cultura rural albanesa, na tradição dos rapsodos, no isolamento da Península Balcânica. Os conflitos entre tradição e modernidade, cultura erudita e popular, ciência e superstição, são colocados na mesa com muita habilidade. 

        Para os membros de uma seita de fanáticos obscurantistas, o aparelho que registra vozes deve ser destruído, e isso vai dar o toque sinistro na trama. Kadaré retoma um tema ancestral do embate entre a ciência e o conservadorismo: a verdade não pode ser revelada.

        Relendo a obra em 2020, no Brasil, não podemos deixar de ter a impressão de que a história se repete, mais uma vez. O avanço de “seitas de fanáticos obscurantistas” é visível, em todas as áreas. A ameaça de apagar vídeos, filmes, gravações e cinematecas está presente, e é alimentada pela facção atualmente no poder. O desprezo pelo conhecimento acadêmico e a pesquisa é evidente, com corte de verbas, ataques às universidades e abandono de museus e o encerramento de programas de fomento à cultura. Assistimos o grotesco prefeito do Rio de Janeiro formar uma quadrilha, paga com o dinheiro público, para impedir gravações e reportagens sobre a situação da saúde. O diferente, seja ele negro, mulher, gay, sindicalista ou índio, é tratado como inimigo.

        Uma leitura enviesada do livro 22 da Odisseia, Mnesterofonia, onde Odisseu (Ulisses, na versão latina) mata todos os pretendentes à mão de Penélope – ou ao trono -, poderia ensejar desejos mitológicos aos atuais detentores do poder. Como a leitura dos clássicos não faz parte de seu estreito repertório, contentam-se em repetir procedimentos históricos temperados de ignorância, atraso e comportamento de bando, com a conivência de uma justiça venal e um legislativo corrompido. A dissipação da república, da res publica dos romanos, é estimulada por igrejas que anseiam por uma nova Era Medieval, de cruzadas contra o “inimigo”.  

        Dossiê H foi publicado pela Companhia das Letras em 1990, e já teve várias reedições. Kadaré nos envolve com seu senso de humor, e pouco a pouco vai desvelando a barbárie, desembocando num final dramático, onde com maestria funde a lenda do poeta épico cego com a realidade que custamos a enxergar. Romance delicioso, escrito por um dos grandes autores da literatura contemporânea.


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