A arma secreta

Antonina Dolores

Antonina Dolores era a caçula das três irmãs mais afamadas da zona de meretrício de Santana do Livramento, na fronteira com a Argentina, no ano de 1816. Quando os soldados de Artigas ocuparam a vila ela não fugiu, como boa parte da população.

Sua contribuição na resistência aos invasores é inestimável. A beleza sensual de Nina, como era conhecida, provocou mais baixas nas tropas invasoras que os soldados do Exército brasileiro. A sífilis ajudou, claro.

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O inventor de palíndromos

palindromo

José Olivário (1912/1974) era apaixonado pelas palavras. Escrevente de cartório, coloria sua cinzenta existência criando palíndromos. Consumiu milhares de madrugadas debruçado sobre papéis e dicionários, rabiscando aquele que seria sua invenção máxima.

Após quinze anos de trabalho, deu por concluída a sua tarefa. Levou a vários editores o calhamaço de 45 páginas, sendo recebido com desconfiança e até desprezo. Ninguém deu valor àquele cipoal de palavras, algumas de idiomas obscuros e desconhecidos,

Olivário sucumbiu ao alcoolismo, e morreu sem ver sua obra prima publicada. Sua filha Ana usou a papelada para forrar a gaiola do papagaio, e a humanidade ficou sem conhecer o maior palíndromo do mundo.  (Daniel Brazil)

 

O encantador de tainhas

Tainha

Na praia onde eu nasci, na Baía de Todos os Santos, havia um encantador de tainhas. Jamais conheci, em nenhum outro lugar da imensa costa brasileira, alguém com tal dom. O homem, de quem infelizmente só lembro o prenome, Pedro, era um negro magro, meio calvo, cujos fios de barba começando a clarear indicavam idade avançada ou penúria vivenciada.

Quando chegava o inverno os cardumes de tainhas costeavam a baía, e os pescadores saíam com suas redes e barcos tentando cerca-las. Alguns se penduravam nos penedos e atiravam bombas juninas no meio do cardume, o que fazia com que as tainhas tivessem morte imediata, boiando de barriga para cima. Aí era só mergulhar e catá-las.

Muitas vezes o cardume era visto passando ao largo, sem se aproximar da falésia. Então Pedrão, como o xamã era chamado, encarapitava-se na pedra mais avançada sobre o oceano e entoava um estranho canto, algo parecido um aboio. O cardume mudava de rumo e se dirigia para as proximidades da praia, onde as redes, barcos e bombas completavam o serviço.

Não conheci mais ninguém que dominasse esta arte. Talvez  Pedro tenha sido o último dos homens na face da Terra a se comunicar com as tainhas.

Os anjos mulatinhos

Manuel_da_Costa_Ataíde_-_Anjos_músicos

Manuel da Costa Ataíde é justamente reconhecido como o maior pintor do Barroco brasileiro. Contemporâneo de Aleijadinho, mestre Ataíde fez da Igreja de São Francisco, em Ouro Preto, a sua Capela Sistina. A Assunção da Virgem representada no teto da igreja, projetada por Aleijadinho, é a mais importante obra pictórica do século XVIII em terras tupiniquins.
Pesquisadores, historiadores, sociólogos, polemistas, estudiosos e poetas em geral não cansaram de elogiar a ousadia do mestre ao representar anjos mulatinhos em torno de Nossa Senhora. Era o marco inaugural de uma arte brasileira, mestiça, independente, que subvertia o consagrado padrão europeu.
O mito quase foi destruído no século XX, quando a primeira grande restauração da Igreja, na década de 1970, retirou camadas seculares de fuligem, carvão e poeira do teto, revelando anjinhos louros e pálidos como seus modelos coloniais. O fato causou grande agitação entre os racistas brasileiros, que festejaram, e os ativistas negros, que lamentaram.
A reputação de Mestre Ataíde foi salva quando a limpeza da própria imagem de Nossa Senhora revelou um rosto inconfundivelmente mulato, que cronistas mais ousados dizem ter sido inspirado em sua mulher.
Em pleno século XXI, observando com atenção os anjos de Mestre Ataíde, constatamos que a cor da pele, às vezes, não significa nada. Já o traço…

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Rodapés da História

Há algum tempo venho anotando pequenos textos, criados em circunstâncias pouco usuais: Num restaurante, numa viagem, no meio de uma conversa, numa noite mal dormida.

Versam, de modo geral, sobre personagens anônimos que por algum motivo fizeram algo extraordinário. Nada impede, porém, que em algum momento eu fale de personagens extraordinários fazendo um ato absolutamente banal. Creio que a maior parte das ações humanas não passam de rodapés da história…

Não sei se terei tempo e disposição para reuni-los num volume impresso, e cada vez mais duvido da necessidade disso. Portanto, aqui vão três rodapés, publicados recentemente na rede,  apenas para registro.

Garimpeiro

O CATADOR DE DIAMANTES

O velho Antônio das Almas, neto de quilombola e garimpeiro, passou a vida a peneirar cascalho na beira do rio Bagagem, lá nos confins das Geraes. Sonhava com o grande diamante, que nunca surgiu. Vez ou outra, muito de vez em quando, relampeava um xibiu no fundo da peneira.

Certo dia, ao matar uma galinha para o almoço, viu faiscar nas entranhas da ave uma pequena gema. Atraída pelo brilho, certamente a galinha engoliu a pedrinha, que ficou retida no papo.

O velho Antônio passou a noite pensando no ocorrido, e ao alvorecer tinha um plano infalível. Mapeou todas as propriedades ribeirinhas da região, e começou a furtar as galinhas mais papudas. Nas primeiras vinte achou outra “joia”, o que o deixou animado. Afinal, era um resultado muito melhor que o de meses rachando o lombo na beira do rio.

Antônio das Almas morreu na prisão, após ser pego em flagrante roubando galinhas de um juiz. É até hoje lembrado como o maior ladrão de galinhas da região.

fotógrafo lambe lambeO FOTÓGRAFO DE ALMAS

José Eulálio era fotógrafo. Herdou a profissão do pai, o lambe-lambe mais famoso, talvez porque único, de Caetés de Goiás, nas décadas de 1930 e 40. Na escola, ouviu uma professora dizer que alguns índios não se deixavam fotografar, pois acreditavam que isso lhes roubava a alma.

Zelálio, como era conhecido, não foi atrás de índios, mas de almas. Fotografou quase todos do município, com tal habilidade que as pessoas sentiam certa estranheza ao se verem assim tão cruamente retratadas. Os de bom coração ficavam felizes, os outros nem tanto. Infelizmente estes eram maioria.

Vieram as eleições e um candidato comprou várias fotos de Zélalio, que ficou feliz. Estranhamente, só comprou fotos dos adversários. Quando o coronel Ildefonso Mineiro, prefeito por quatro mandatos, começou a sofrer de dores estranhas e perdeu o pleito, mandou matar o fotógrafo, julgando-o culpado de sua derrota.

A mãe do coronel era índia.

 

Auscultador de pedras

O AUSCULTADOR DE PEDRAS

Existiu em Ilhabela um homem, chamado José Mariano, cuja especialidade era partir pedras. Não pedras pequenas, paralelepípedos, pois isso ainda é comum. Partia rochas maiores que um homem. Quem conhece as formosas praias da ilha sabe que há muitas pedras, de grande tamanho, amontoadas pelos cantos. Também proliferam nos meios dos terrenos, o que obriga os moradores a fazerem estranhas arquiteturas e brutas engenharias para construir sua casas.

    Pois a função desse homem era justamente partir os monólitos que estivessem no meio do caminho. Para isso utilizava um método que espantava a todos, tanto pelo inusitado quanto pelos resultados. Aproximava-se da rocha com cuidado, rodeava, apalpava, alisava como se estivesse amansando um elefante mineral. Então encostava o ouvido e dava leves pancadinhas com uma pequena marreta. Demorava alguns minutos assim, auscultando a pedra por todos os lados. Ao chegar no ponto certo, pegava uma talhadeira comum, encostava com cuidado e dava uma pancada seca e certeira. A rocha partia-se em dois como uma noz, um marisco de quatro toneladas, revelando suas graníticas entranhas.

                Seu José morreu em 1979. Não deixou discípulos, nem transmitiu a nenhum conhecido os segredos de sua profissão. Sua misteriosa ciência ficou na memória de alguns, como minha tia Adelaide, que construíram casas ou aplainaram terrenos nas décadas anteriores, e testemunharam seu humilde e inigualável ofício.

 

O adeus de Célia

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Final dos anos 60. A jovem Célia, dona de voz potente e bem calibrada, é incentivada pelos amigos a arriscar a sorte em programas de calouros, herança da era radiofônica que acabou conquistando espaço na televisão. O trampolim acaba sendo o programa Flavio Cavalcanti, no ano de 1970, e Célia logo consegue suas primeiras gravações.

            O primeiro disco recebe vários prêmios, e lança holofotes em direção à jovem cantora de rosto bonito e corpo renascentista. Com um repertório oscilando entre o romântico (Roberto Carlos), o pop e a MPB, emplacou alguns sucessos. Cantava Joyce, Lô, Marcio Borges, Toninho Horta e Fernando Brant, entre outros. Mas Adeus, Batucada, de Sinval Silva, velho sucesso de Carmen Miranda, mostrou que havia ali uma intérprete diferenciada de samba, capaz de unir força e delicadeza, controlando as rédeas da emoção com uma entonação perfeita e um timbre envolvente.

            Estava dada a receita. A gravação de Onde Estão os Tamborins (Pedro Caetano), um sucesso nacional, apontou o caminho, mas o mercado foi cruel. Nenhuma gravadora queria uma cantora de samba branca e paulista, depois da efervescência dos festivais da década anterior. Alguma coisa parecia estar fora do lugar.

Paulista sim, e da gema. Célia pouco se afastou da cidade que amava, e tornou-se um nome conhecido da noite, cantando em casas noturnas, teatros e cruzeiros marítimos. Profissional da voz, diversificou o repertório, e se virava bem em vários estilos. Quem a viu no palco conheceu uma diva errante, cuja luminescência deixava marcas indeléveis na memória.

Célia cantou valsas, toadas, boleros, mambos, tangos, merengues (gravou um disco delicioso com a banda Son Caribe!), revisitou várias vezes Roberto Carlos, recriou muitos clássicos da MPB. Em 1998 divide o palco do Tom Brasil com outro grande cantor da noite, Zé Luiz Mazziotti, no show Ame, e a mistura foi tão boa que rendeu um dos mais perfeitos songbooks já gravados em nosso país: o CD Pra Fugir da Saudade (2000) , onde a dupla repassa algumas obras primas de Paulinho da Viola.

            Sucesso de crítica e de estima entre os cultuadores da MPB, mas nada de tocar no rádio. O destino parecia selado para Célia. Outro encontro bem sucedido, com o violonista Dino Barioni, resulta no CD Faço no Tempo Soar minha Sílaba, de 2007, onde vai de Caetano até Lamartine Babo, passando por Elton Medeiros, Dominguinhos, Chico Buarque e Martinho da Vila, incluindo duetos com Zélia Duncan e Beth Carvalho. Quem não se emocionar ouvindo sua interpretação de Mãe, Eu Juro! (Adoniran), só pode ter a alma sebosa e o coração peludo!

            Só estes dois CDs bastariam para colocar Célia no panteão das grandes cantoras brasileiras. Mas em 2010 ela ainda ataca com O Lado Oculto das Canções, ampliando o repertório com autores como Adriana Calcanhoto, Ângela Roro, Ana Carolina, Zeca Baleiro, Tim Maia e Zélia Duncan, sem deixar de lado os amados Vinicius e Baden Powell.

            A voz esplêndida e a risada generosa de Célia calaram-se no dia 29 de setembro, após uma luta inútil contra um câncer de pulmão. Tinha 70 anos plenos de jovialidade e uma voz intacta. Ouço, reouço e proclamo: tivemos a felicidade de viver na mesma época de uma das maiores cantoras que esse país já teve. Pena que poucos prestaram a devida atenção…

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira).

A angústia dos homens

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                    André Giusti é jornalista e escritor experiente, com vários títulos publicados. Seu mais recente livro, A Maturidade Angustiada (Penalux, 2017), reúne onze contos que abordam, sob diversos ângulos, variadas formas da angústia. Seu estilo despojado, limpo, torna a leitura agradável e fluente, mas não superficial. E nem poderia, com um tema tão caro aos investigadores da alma humana.

                       Mas de que angústias fala Giusti? A angústia da solidão, o medo de ser traído, o cotidiano medíocre, os amores incompletos, a proximidade da miséria, da indiferença, da morte. A solidão talvez seja a mais recorrente, porém são especialmente marcantes os contos onde personagens femininas estão envolvidas. Descritas de um ponto de vista masculino, as mulheres provocam angústia por não se enquadrarem em estereótipos de comportamento, pela independência de atitudes e por confrontarem alguns dogmas machistas.

            Não é fácil escrever sobre o relacionamento homem-mulher sem cair em chavões. O autor consegue ser original, retratando de forma impiedosa a pequenez de certa mentalidade tipicamente masculina, possessiva e desconfiada. Contos como Lorena e o temporal ou Lins Imperial exalam erotismo, mas demonstram que para estes homens também o sexo pode ser angustiante.

            Os contos que abordam o fracasso e a solidão são mais melancólicos, até pungentes. Os personagens não são velhos no final da vida, mas homens de meia idade que lentamente vão tomando consciência de que o outono se aproxima, sem que nenhum verão dourado tenha iluminado suas existências. Há até um protagonista de dezesseis anos, devorado por um ciúme devastador. Como uma espécie de salvaguarda, Giusti faz questão de alertar no início do livro que “este livro é angustiado, mas contém momentos de esperança”.

            Os dois últimos contos até ensaiam alternativas emocionais positivas para a angústia, mas o que sobra de esperança fica por conta da boa literatura que o autor nos oferece. André Giusti prescreve sobre vidas comuns e personagens anônimos, sem tramas mirabolantes ou cenários exóticos, com precisão e originalidade. Não é pouco.