Borba Gato Vive!

Borba Gato, símbolo paulista mais que quatrocentão, bandeirante de vasta folha corrida, foi um dos primeiros genocidas de nossa história. Além de matar centenas de brasileiros originários, estuprava jovens e crianças indígenas, conforme registros. Serviu aos interesses colonialistas com denodo até se envolver numa treta com o ourives real, Rodrigo de Castelo Branco, que foi encontrado morto numa pirambeira. Borba Gato passou anos escondido no mato, depois desse evento.

Brasil, século XXI. Aldeias indígenas são queimadas de forma criminosa, e um representante da Funai é pego numa gravação dizendo que tem que “mandar bala” nos povos isolados. Favelas encravadas na cidade, em regiões de alto interesse imobiliário, são incendiadas de forma “misteriosa”. Mendigos são queimados com gasolina em via pública. Terreiros de umbanda e candomblé são carbonizados por mãos supostamente cristãs, brancas e defensoras de valores evangélicos. Florestas, campos e cerrados são destruídos por incêndios criminosos, para que novos bandeirantes ocupem aqueles territórios.

Borba Gato está vivo. No espírito do dirigente da Funai, no discurso do Ministro do Meio Ambiente, do Presidente da República, dos dirigentes da Fiesp. Borba Gato é o ídolo oculto de pastores fundamentalistas, dos latifundiários, das elites que acham conveniente elogiar capangas e capachos cumpridores de seu dever.

Incendiar uma estátua de Borba Gato não vai reparar nenhum crime que ele cometeu. Não vai restituir a vida dos milhares de brasileiros que morreram queimados em aldeias, favelas, pontos de ônibus e florestas desde 1718, ano da morte do facínora. Mas certamente vai indignar todos aqueles que se beneficiaram, mesmo sem saber, de sua atuação premonitória e seminal.

Não importa se era uma estátua horrorosa, um bonecão de pastilha, uma homenagem ingênua de Julio Guerra aos bonecos de barro nordestinos, ou um símbolo do bairro de Santo Amaro, erigido em 1963. Não importa o irrelevante valor histórico da obra, que materializa o discurso estético de certa elite paulista decadente. 

O que importa é que o espírito de Borba Gato continua vivo. Infelizmente.

(Publicado originalmente em aterraeredonda.com.br)

A humanidade está ficando burra?

Um pequeno artigo de Christophe Clavé tem causado certo rebuliço nas redes e nas comunidades científicas da área de humanas desde 2020, quando foi publicado. Ele afirma categoricamente que o QI da humanidade, que vinha em constante crescimento, entrou em declínio nos últimos 20 anos. Seria uma inversão da tese proposta em 1982 pelo psicólogo americano James Flynn, que detectou o aumento constante do índice de acertos da população mundial em testes de QI.

Um dos fatores, segundo Clavé, é o empobrecimento da linguagem. Segundo o franco-suíço, “não se trata apenas da redução do vocabulário utilizado, mas também das sutilezas linguísticas que permitem elaborar e formular pensamentos complexos. O desaparecimento gradual dos tempos (subjuntivo, imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado) dá origem a um pensamento quase sempre para o presente, limitado no momento: incapaz de projeções no tempo. A simplificação dos tutoriais, o desaparecimento das letras maiúsculas e a pontuação são exemplos de “golpes fatais” à precisão e variedade da expressão.”

O primeiro impulso dos indivíduos que foram formados lendo livros, enfrentando dissertações e escrevendo artigos acadêmicos é aplaudir com entusiasmo, mas a cautela aconselha colocar uma pitada de sal em algumas dessas afirmações.

Em primeiro lugar, quem é Clavé? Uma rápida pesquisa nos informa que não é um linguista ou cientista social, longe disso. É “professeur de stratégie & management”, e presidente de uma empresa de consultoria e investimentos com sede na Suíça. Tudo bem, pode até ser um executivo bem intencionado, preocupado com o que o que ele afirma ser um “empobrecimento linguístico” dos jovens. Preocupação lídima, independente da formação do indivíduo. Um médico, um engenheiro ou um músico podem ter o mesmo receio, ao ouvir o filho adolescente se comunicar com um vocabulário de trezentas palavras.

Em segundo lugar, falta comprovação científica da bombástica afirmação. De onde ele tirou esses dados? Tudo bem, vamos considerar que é apenas um pequeno artigo opinativo, não uma tese acadêmica. Podemos conceder o direito da dúvida, mas seria de bom tom trabalhar com informações, senão estatisticamente comprovadas, ao menos aceitas pelo senso comum.

Não é raro festejarmos a inclusão de uma palavra nova no dicionário. Mas também é comum esquecermos aquelas palavras que ali jazem entre pares, sem utilidade na era moderna. Se um parnasiano, ou mesmo um modernista, pudesse viajar no tempo e ouvir nossas conversas em pleno século XXI, haveria de achar nossa linguagem muito pobre. As reuniões sociais, discursos e artigos jornalísticos extinguiram os rapapés verbais e cafunés adjetivos, adotando formas mais diretas. Tornamo-nos mais pobres de sentido – ou inteligência, vá lá –  por esse motivo?

Arrisco sugerir que outras linguagens e veículos foram ocupando o espaço da língua escrita do século XIX. Antes tudo deveria ser transmitido através da palavra, do verbo, o que exigia uma gama bastante ampla de vocábulos. Com a explosão midiática da segunda metade do século XX, as coisas, situações, estados, emoções, etc., podem ser sugeridas de outras formas. Não é à toa que uma expressão como “uma imagem vale mais que mil palavras” só poderia ter surgido no século da fotografia, do cinema, da televisão e da internet, embora seja tão gasta que alguns supõem que exista desde a Grécia antiga.

No entanto, é preciso dar crédito a Clavé por levantar a lebre. (Repare, leitor, que estou usando algumas expressões fora de moda para acrescentar certo tempero ao debate). Uma coisa é a capacidade de síntese, outra coisa apelar pra um emoji. E aproveito para, do fundo de minha ignorância multidisciplinar, sugerir que se de fato há um declínio do QI da humanidade, também se deve ao abandono de algumas questões básicas de matemática e raciocínio lógico.

Ninguém mais faz conta de dividir ou multiplicar. Somar, só se for com menos de dois dígitos. O celular, o computador e todos os aplicativos fazem isso em três toques. É corriqueiro chegarmos ao caixa da padaria e vermos o funcionário calcular numa maquininha quanto é um litro de leite mais 4 pãezinhos, coisa que o Seu Manoel da esquina dos anos 60 (20? 30? 40?) fazia num piscar de olhos. Nem vou falar de regra-de-três! Mas devemos concluir que o Seu Manoel era mais inteligente que o atendente da padaria de hoje? Ou apenas que ele não tinha outras ferramentas senão o treinamento para fazer contas mentais?

Lembro-me vagamente de um conto de ficção científica, que li quando jovem, em que num longínquo porvir as pessoas perderam completamente a capacidade de fazer cálculos. Os computadores fazem tudo, e não ocorre a ninguém usar os métodos primitivos do lápis, papel e cérebro. Até que surge um garoto-prodígio que sabe fazer contas. A rede mundial detecta outros, que são colocados numa escola especial, e o conto termina com um monitor-cientista declarando de forma triunfante que “em breve a humanidade saberá extrair uma raiz quadrada!”.

Enfim, são ilações. Não posso concordar com a afirmação de Clavé de que a humanidade está ficando mais burra, sem provas concretas, aferidas e sistematizadas. Sei que em vários momentos isso nos parece evidente, como no Brasil em 2021, mas é um raciocínio movido mais pela emoção que pela razão. A população do planeta aproxima-se de 8 bilhões, e tudo cresce de forma exponencial: a quantidade de ignorantes, de gênios, de pessoas cultas, de artistas e de criminosos. Sempre vai parecer que estamos cada vez mais cercados de gente estúpida, porque não conseguimos distinguir os demais da multidão. Mas isso é uma questão estatística, não linguística.

O artigo de Clavé termina com um apelo para que pais e professores “ensinem e pratiquem o idioma em suas mais diversas formas. Mesmo que pareça complicado. Principalmente se for complicado. Porque nesse esforço existe liberdade. Aqueles que afirmam a necessidade de simplificar a grafia, descartar a linguagem de seus “defeitos”, abolir gêneros, tempos, nuances, tudo que cria complexidade, são os verdadeiros arquitetos do empobrecimento da mente humana.” 

É evidente que há uma motivação humanista, quase iluminista, em nosso professeur. O problema do artigo se circunscreve, portanto, ao desenvolvimento de uma boa ideia a partir de um argumento sem comprovação. É uma casa bonita erguida sobre areia fofa.

Uma Noite em Miami

Quero aqui chamar a atenção para um filme que tem passado despercebido do público brasileiro, mesmo tendo sido indicado a três Oscars em 2021 (ator coadjuvante, roteiro adaptado e canção original).

O filme marca a estreia na direção da atriz Regina King (Oscar de coadjuvante em 2019 por Se a Rua Beale Falasse). Impossível deixar de destacar o fato de uma mulher negra, multipremiada como atriz, se lançar como diretora de um filme onde todos os protagonistas são homens. Não foi indicada para melhor direção, num ano marcado pela forte presença de mulheres, mas poderia. O filme é um poderoso relato sobre personagens reais, reunidos num encontro fictício.

Estamos em fevereiro de 1964. Kennedy fora assassinado em novembro de 63. Os EUA vivem uma forte onda de lutas pelos direitos civis, contra a guerra do Vietnã, contra o racismo. Em Miami, o jovem pugilista Cassius Clay derrota Sonny Liston e conquista o título mundial de pesos-pesados. Vários militantes, esportistas e artistas negros estão na cidade para assistir a luta. Entre eles, Malcolm X, que entrara em rota de colisão com o líder da Nação muçulmana norte-americana, Elijah Muhammad; Jim Brown, aclamado jogador de rugby, detentor de vários recordes na temporada e iniciando carreira de ator; e Sam Cooke, destaque da soul music, autor e produtor de sucessos radiofônicos.

O filme é uma adaptação da peça teatral homônima de Kemp Powers, de 2013, que coloca estes quatro personagens num quarto de hotel discutindo política, religião, ideologia e questão racial. O roteiro adaptado, que contou com a colaboração do próprio Powers, alargou os horizontes da peça, criando um eletrizante prólogo onde a luta polariza todas as atenções. Introduz também os outros personagens, contextualizando os dramas pessoais de cada um. Quando nos vemos confinados no quarto de hotel, já temos informações suficientes para pesar cada diálogo, que muitas vezes são agressivos e cortantes.

As estratégias de cada um para se colocar num mundo dominado por brancos, política e economicamente, são bem distintas. Sam Cooke, além de artista talentoso, é um empresário sagaz, e se torna notável dentro do sistema “jogando o jogo”. Seu embate com Malcolm X é emblemático: embora se admirem mutuamente, discordam em quase tudo. Clay, que está prestes a se converter ao islamismo, não é um intelectual, mas tem uma percepção clara de como pode ser útil ao movimento de resgate do orgulho negro. Brown é mais reservado, porém faz observações argutas como, por exemplo, sobre Malcolm X ter a pele mais clara do que a dele (A mãe de Malcolm era filha de uma negra estuprada por um branco).

Mais não vou contar, para não estragar o prazer de assistir um filme inteligente e provocativo. Mas acordei no dia seguinte com uma velha questão que assombra minha mente há algumas décadas:  quando teremos um filme, romance, documentário ou peça teatral sobre a questão negra brasileira desse período? Não sobre protótipos como Zumbi, Chica da Silva ou Pelé, mas sobre o MNU, Movimento Negro Unificado, que surgiu durante a ditadura de 64? Sobre a Frente Negra Brasileira, criada na década de 30? Sobre Abdias do Nascimento, intelectual militante que fundou o Teatro Experimental do Negro? Sobre a grande atriz Ruth de Souza, dona de trajetória única na dramaturgia brasileira? Ou, mesmo que não sejam protagonistas, que pelo menos apareçam no enredo de uma trama como porta-vozes de uma (imensa) minoria. Obviamente me refiro a personagens questionadores, não meramente ilustrativos.

O Cinema Novo, momento de inflexão estética no Brasil, criou vários personagens negros, mas mitificados, idealizados. As interpretações memoráveis de artistas como Antônio Pitanga, Grande Otelo ou Zezé Motta ficam no plano do simbólico, enquanto a fragmentada realidade política do período era representada por personagens majoritariamente brancos. A recente experiência do filme Marighella, de resgatar um personagem negro que combateu a ditadura, esbarra no fato de que a questão racial passa muito ao largo da trama. É um ícone da esquerda branca, que muitas vezes esquece de sua origem negra por parte de mãe, valorizando o pai italiano. Foi um lance de ousadia do diretor Wagner Moura colocar no papel um ator indiscutivelmente negro, Seu Jorge.

Nos anos 90 entrevistei o professor Clóvis Moura, sociólogo com vasta obra sobre a questão racial brasileira. Ele terminou a conversa com a marcante frase “nós, negros, temos de ser a esquerda no Brasil!”, que acabou sendo a fala de encerramento do documentário Além de Trabalhador, Negro, que produzíamos na época.  Hoje, quando o povo vai às ruas em plena pandemia para enfrentar um governo genocida, penso que indígenas, negros, mamelucos, mulatos e imigrantes de todas as nacionalidades deveriam colorir um pouco mais a estética da esquerda branca no Brasil.

Voltando ao Oscar: não há como deixar de aplaudir a magnífica direção da sino-americana Chloé Zhao, por Nomadland, que denuncia um capitalismo sem saídas, no qual muitos não encontram opções dignas para viver. Mas convém prestar atenção em Regina King, que se coloca de forma muito promissora num ano em que as mulheres se destacaram no establishment cinematográfico norte-americano.

Costurando com talento fatos reais e possibilidades ficcionais, King equipara-se ao talento provocativo de um Spike Lee, vocalizando os anseios de uma população que sistematicamente se vê agredida, discriminada e violentada em seus direitos.  Como diz a emblemática canção de Bob Dylan, tocada num momento essencial no filme de King, “How many years can some people exist before they’re allowed to be free?”

Manguebeat revisitado

Pense numa pessoa que se envolve profundamente com a música de sua geração, a ponto de transformá-la em motivo central de sua carreira acadêmica. Assim é Luciana Mendonça, que publicou em 2020 este ensaio sobre o manguebeat, o movimento musical gestado em Recife que se tornou uma das mais influentes correntes culturais da década de 1990.

Surgido como tese de doutoramento pela Unicamp, em 2004, o trabalho se estendeu com o acompanhamento da cena mangue (expressão cara à autora) e acabou gerando uma detalhada análise sobre o impacto cultural, ético, político e estético, causado pela turma de Chico Science e Fred Zeroquatro, à frente das bandas fundadoras Nação Zumbi e Mundo Livre S/A.

Cumprindo o rito acadêmico, o livro é balizado por um conjunto de referências sociológicas que dão munição ao debate sobre indústria cultural, massificação, identidade nacional, cultura popular e modernidade. Autores como Adorno, Benjamin, Eco, Canclini, Hobsbawm e, principalmente, Bordieu e Stuart Hall, fundamentam os arrazoados sobre cultura e mercado, nacional e estrangeiro, erudito e popular, música autêntica e world music.

Luciana costura com habilidade esses teóricos com os pesquisadores brasileiros que se debruçaram sobre a música popular. Estão lá os questionamentos de Tinhorão, Suassuna, Vianna, Sandroni (autor do prefácio), Wisnick e outros, junto com o material “quente” de dezenas de artigos, entrevistas, ensaios e manifestos, muitos surgidos do próprio movimento.

A autora mudou-se para Recife, e hoje é professora de Sociologia e Pós-Graduação em Música da UFPE. Mas, atenção: não é uma musicóloga, e sim uma mestra em antropologia social, que estuda o impacto sociocultural do chamado manguebeat sobre Pernambuco, abordando temas como revalorização do folclore, projetos sociais, dança, moda e redefinição dos espaços de vivência cultural da cidade de Recife.

Não esperemos análises de composições, estrutura musical ou elementos melódicos e harmônicos. Aqui a música popular é tratada como um produto social, um fenômeno de viés identitário capaz de portar mensagens impactantes e motivadoras. Ou, em outros cenários, como anestesiadora de conflitos e maquiadora da realidade.

Um dos capítulos mais interessantes do livro é quando são levantadas e discutidas as comparações do movimento mangue com a axé music baiana, analisando a velha rivalidade Recife x Salvador. O impacto social do Olodum, que introduziu uma nova estética, criou um mercado próprio e turbinou a música baiana, transformando-se num projeto com várias vertentes, levou a comparações com a cena mangue, muitas vezes impróprias. A principal diferença é o forte componente de identidade racial do movimento baiano, de valorização da cultura negra.

Os “caranguejos da lama” apostaram na mistura, na miscigenação, na busca de elementos da música pop mundial (rock, rap, reggae e outras), sobre uma base percussiva oriunda dos maracatus. Mas não só: a pesquisa da autora incorpora músicos tão diversos quanto os cultores do punk-rock do Alto José do Pinho (principalmente os Devotos), o rabequeiro Siba e a banda Mestre Ambrósio, a cirandeira Lia de Itamaracá, DJ Dolores ou os posteriores Mombojó e Cascabulho. Luciana Mendonça constata que a cena mangue criou condições para a convivência de todas estas ramificações, reunindo-os em festivais como o Rec-Beat, que rola durante o Carnaval.

Outro capítulo provocante é quando a autora aborda as relações conflituosas entre o movimento Armorial, capitaneado por Ariano Suassuna, e o mangue. Tradição versus modernidade? Erudito x popular? O próprio Suassuna, durante seu período como secretário de cultura de Recife (1994/98), estabeleceu diálogos e criou algumas condições (verbas) para os mangueboys. No entanto, em público sempre deu declarações ácidas contra as misturas promovidas por Chico Science e Zeroquatro. Mas no velório de Chico (1997) estava lá, contrito, derramando sua lágrima pelo jovem catalisador de energias criativas.

Contraditório? Claro, mas como bem sublinha a autora do estudo, o panorama cultural pernambucano é cheio de contradições. Em certa medida, ela parece demonstrar que as contradições são o próprio motor de transformação, pois do atrito de ideias surgem faíscas que podem gerar uma nova combustão.

Podemos traçar paralelos do caso pernambucano com outros cenários brasileiros: samba tradicional x pagode, escolas de samba x MPB, música caipira x sertanejo, invenção x tradição. Do choro ao pop, da bossa nova ao jazz, as inovações nunca surgiram sem superarem vários obstáculos ideológicos, sociais e financeiros. Mas poucas vezes veremos estes conflitos serem expostos de maneira tão consciente e minuciosa quanto nesse livro, desde já fundamental para os estudos de nossa música popular e suas transformações.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda e Revista Música Brasileira).

Jornalismo-de-retratinho

O que levou o jornalismo a níveis tão baixos quanto os que vemos hoje       nos jornalões, rádios e emissoras de TV? Como pode o avanço tecnológico ter aberto a porteira para tanta mediocridade, mau-caratismo e bajulação? Em que momento histórico foi que as escolas de jornalismo – policiadas em tempos de ditadura por serem “antros de esquerda” – formaram tantos direitistas, conservadores e reacionários?

A profissão de jornalista surgiu como uma necessidade social, e não demorou muito pra ser reconhecida. Claro que antes disso havia os arautos, os narradores, os cantadores de feira, os fofoqueiros, os emissários do rei, os pichadores de muros (sim, são mais antigos que o jornalismo!).

            Com a invenção de Gutemberg, passaram a existir como profissão. Relatores de notícias, no início. Com o tempo, alguns se tornaram colunistas, outros até editorialistas. Mas, até o final do século XX, constituíam um grupo quase secreto, desconhecido do grande público. O anonimato lhes garantia a possibilidade de se misturar ao povo, ouvir conversas em bares, clubes e reuniões sociais, partidos políticos e sindicatos. Muitos usavam pseudônimos. Quem conhecia algum jornalista pessoalmente já detinha certo poder, positivo ou negativo. Poderia delatá-lo ou abrir portas. O prestígio do jornalismo cresceu tanto que, ainda no século passado, passou a ser chamado de Quarto Poder.

            Com o advento da televisão, o jornalista passou a ter um rosto, e virou estrela. Aquele sujeito ou sujeita que aparece todo dia no horário nobre passou a ser tietado em aeroportos, restaurantes e hotéis, fotografado, idolatrado, virou assunto de revistas de fofocas, pedem autógrafos quando ele é visto em praça pública. Aliás, pediam, no século XX. Hoje fazem selfies.

            A explosão da internet, como sabemos, revolucionou completamente o trânsito de informações no planeta. A tiragem dos jornalões e revistas semanais desabou, e rapidamente os empresários de comunicação criaram sites para recuperar o prejuízo. Cresce aí o jornalismo-de-retratinho, imitando a TV, onde cada colunista ganha forma, sorriso ou carranca. A mídia impressa adotou o conceito, e cada vez mais se vê o jornalismo-de-retratinho estampado nas colunas, matérias e comentários. Na rede, nas revistas, nos jornais, na mídia em geral. 

            E o jornalista se tornou uma celebridade. Qual o artista que não quer ter seu retrato publicado no jornal diariamente? Músicos, atores, artistas plásticos, bailarinos e escritores tentam, poucos conseguem. Jornalista, sim. A receita de abobrinha assada, a fofoca do meio artístico, a intriga palaciana ou a análise econômica é encimada pelo retratinho. São tietados em aeroportos, restaurantes e hotéis, etc.

            Esse personagem não pode mais investigar uma notícia. Não pode entrar numa assembleia sindical, num café, numa passeata, num congresso, num estádio de futebol, e fazer seu trabalho de observador-analista. É um simulacro de jornalista, um mero apresentador de notícias, um talking-head. O mais trágico: virou notícia. O povo quer saber o que ele faz nas horas de lazer, o que come, por que casou, por que descasou. Um jornalista nunca deveria ser notícia, já dizia um dos pioneiros da profissão.

            Isso explica o ocaso do jornalismo investigativo na grande imprensa. Para fazer uma investigação decente, aprofundada e imparcial o jornalista (ou o detetive) tem como uma de suas principais ferramentas o anonimato. Seu rosto não pode ser reconhecido, sua vida privada não deve estar exposta. Mas a vaidade é um dos sete pecados capitais, como sabemos. E cada vez mais vemos jovens entrando numa faculdade de jornalismo não para enfrentar governos, revelar esquemas de poder ou investigar crimes, mas para ter… um retratinho nos jornais! Essa vaidade é naturalmente explorada pelos donos de empresas de comunicação, cujos interesses são bem outros. Informação é negócio, é jogo de interesses, é mercadoria. E o(a) jovem que quer ter o retratinho no jornal vai aprender rapidinho o jogo do poder para alcançar seu objetivo. Abanar o rabo para os patrões e latir para os inimigos dos patrões.

 “O tempora! O mores!”, como diria Cícero, político e orador romano que não tem nenhum retrato na galeria de precursores do jornalismo. “Vanitas vanitatum, et omnia vanitas”, complementaria Santo Agostinho…

(Publicado originalmente no Fósforo, em 2016, com alterações).

O artista e suas obsessões

Na Literatura, como em outras artes, há dois tipos bem definíveis de artista: o que experimenta de maneira insaciável formas diferentes, explorando ângulos, texturas, materiais, técnicas, linguagens, caminhos e bifurcações, e os que mergulham de forma obsessiva num objeto de estudo (de desejo?), traçando uma rota de aprofundamento progressivo, numa tentativa heroica e vã de chegar ao âmago, ao deslindamento final e definitivo, ao cristal límpido e absoluto.

Há outras motivações, sabemos, mas fiquemos com estes dois opostos, por enquanto. E antes que optemos pelo generalista ou pelo especialista (categorias que não funcionam muito bem quando se trata de arte), é importante fazer uma ressalva: esse tipo de classificação não implica num juízo de valor.

De fato, há experimentadores ruins e obsessivos maravilhosos, e vice versa. A radicalidade sintética do haicai, por exemplo, é uma das mais traiçoeiras armadilhas para os poetas iniciantes. Bashô é genial, mas tem uma legião universal de seguidores medíocres, com poucas exceções.

Como não admirar o mergulho suprematista de um Malevitch, que lhe custou caro na Rússia stalinista, e ao mesmo tempo não se espantar com seu retorno ao figurativismo? E aqui surge mais um dado complicante: há artistas que são “especialistas” em certa fase da vida e “generalistas” em outra. Mestres absolutos em dado momento, e auto diluidores em outro. Os que tem vida longa são mais visados por esse tipo de crítica, é óbvio, uma vez que o conjunto de obras tende a ser desigual quanto mais vasto for.

Alguém supõe que Mozart pudesse manter a excelência se vivesse mais quarenta anos? Ou Rimbaud? Será mais fácil ser gênio morrendo jovem? Novamente, não podemos estabelecer uma regra. Há artistas geniais e longevos, que criaram obras-primas provocativas na chamada terceira idade, como Verdi, que estreou sua ópera Falstaff (baseada na peça As Alegres Comadres de Windsor, de Shakespeare) aos 80 anos, ou Oscar Niemeyer, que inaugurou o Museu de Arte Contemporânea de Niterói com 89 anos (e continuou criando até os 105). Outros explodiram cedo, como fogos de artifício, passando o resto da vida tentando reacender as cinzas de sua obra gloriosa. Ou procurando outros caminhos, movidos por uma inquietação que, dependendo do caso, pode ser confundida com falta de objetividade, oportunismo, pura sobrevivência ou até relaxamento estético. E há o inevitável apelo do mercado editorial, que joga seus dados em obra de fácil digestão, consumidas rapidamente e trocadas por outras. Muito citado no Brasil é o caso de Jorge Amado, radical em suas primeiras obras, que à medida em que se torna um grande vendedor de livros, cede à tentação do erotismo temperado com dendê, como apontam vários críticos*.

A literatura brasileira é terreno onde medra toda espécie de escritor. De contistas geniais e sintéticos, como Dalton Trevisan, até caudalosos autores de obra pouco lembrada, como Otávio de Faria, cuja Tragédia Burguesa, prevista para vinte volumes, teve treze publicados em vida e mais dois póstumos. No entanto, estes dois exemplos são obsessivos, cada qual a seu modo. Enquanto um esmiúça a relação de amor, ciúme e ódio entre joões e marias, outro busca dissecar a sociedade carioca sob o ponto de vista de classe, sem desviar o foco do cenário.

A literatura brasileira contemporânea, assim como a música ou as artes plásticas, é multifacetada e permeável a muitas influências, típicas de uma era midiática e globalizante. Apesar disso, ainda é possível observar obsessões estéticas criativas (ou paralisantes, dependendo do caso).  A legião de epígonos de Rubem Fonseca, por exemplo, buscando emular o clima dos primeiros contos do mestre. A empreitada ambiciosa de Alberto Mussa, construindo uma história do Rio de Janeiro por cinco séculos, em tramas policiais. A lupa de Chico Lopes sobre a vida interiorana das pequenas cidades em modificação/estagnação num Brasil que é sempre um conjunto de frustrações. Escritoras feministas que rompem amarras e, paradoxalmente, se enredam em novos cercados. O esforço do escritor Chico Buarque em alcançar a excelência do compositor Chico Buarque. Os cronistas da periferia que martelam temas essenciais, porque é impossível não falar sobre violência, preconceito, fome ou miséria, assuntos que atravessam séculos sem perder a urgência. Cada qual a seu modo sustenta suas obsessões da forma possível, com as ferramentas que têm ao seu alcance.

Arte permite várias visões, interpretações, audições e leituras, e essa natureza multiforme encerra toda a graça e mistério da coisa. Espelho distorcido do mundo em que vivemos, pode ampliar ou reduzir qualidades e defeitos, mas nunca deixa de ser um termômetro das ansiedades da época em que foi produzida. Feita por casmurros obcecados ou panteístas delirantes, sempre pode nos fornecer algumas chaves para compreensão do mundo, do céu ou do inferno em que vivemos.

*vale conferir Motta, Carlos Guilherme, in Ideologia da Cultura Brasileira (1933-1974).

(Publicado em aterraeredonda.com.br)

Relatos do Mundo, com filtro

Relatos do Mundo, filme protagonizado por Tom Hanks, deve receber uma penca de indicações para o Oscar. Um faroeste humanista, melancólico, com bela fotografia, direção e trilha sonora, que se encaixa bem na linha revisionista da história dos Estados-não-muito-Unidos da América.

O capitão Jefferson Kyle Kidd, veterano da guerra civil, tem como atividade levar notícias aos rincões mais isolados do Sul ainda marcado pela derrota. Lê jornais em troca de algumas moedas, em cada povoado. E logo no início da narrativa encontra uma garota órfã, Johanna, de origem alemã (vivida de forma impressionante por Helena Zengel), cujos pais foram mortos e foi criada por índios da nação Kiowa, também eliminados pelo sanguinário avanço branco nas pradarias. Ela é uma dupla órfã, abandonada e sem falar uma palavra de inglês.

O capitão toma como missão entregá-la a parentes distantes, tios que moram em outro estado, 500 km de distância. A jornada não será fácil, e a relação entre eles vai sendo construída de forma sutil, apoiada em imagens deslumbrantes e uma trilha sonora discreta e eficiente.

Quem quiser saber mais assista o filme, não irá se arrepender. Uma releitura sensível e introspectiva do faroeste clássico americano, onde os cinéfilos irão reconhecer de cara a óbvia referência ao clássico Rastros de Ódio, de 1956. Ali o também veterano da guerra civil John Wayne reencontrava uma garota, sua sobrinha, que teve os pais mortos e foi sequestrada e criada pelos índios.

Quero aqui chamar atenção para um detalhe, uma subtrama que pode passar desapercebida para algumas pessoas, e que não vai interferir na fruição da narrativa. O filme, baseado num romance de Paulette Jiles, News of the Word, acompanha um apresentador de notícias pré-rádio, pré-televisão. E as notícias que ele narra nem sempre são boas.

O diretor Paul Greengrass escancara as cicatrizes da guerra de Secessão, mostrando o rancor incontido dos sulistas quando a notícia se refere ao “governo central”. O público se comporta de maneira desigual: ou reage de forma figadal, xingando os políticos, ou passivamente, acatando bovinamente as informações selecionadas pelo capitão-leitor.

Poucas moedas pingam na sua caneca, o suficiente para que ele vá até outra localidade continuar sua tarefa. Numa delas, é rudemente cercado por uma gangue, chefiado por um sujeito que é a lei do lugar: é prefeito, delegado e juiz, e todos trabalham para ele. Imagine uma espécie de Serra Pelada, nos anos 70, com um repórter se deparando com um Major Curió…

A cena em que o torturado Capitão Kidd (sim, ele tem crises de consciência!) consegue maior empatia com o seu público é quando abandona os relatos políticos ou econômicos, que afetam diretamente a vida das pessoas, e narra um fait divers, uma mera curiosidade, que arranca risos gerais. A audiência aumenta, as moedas tilintam com mais ressonância.

Está ali retratado o embrião do “jornalismo” de nossos tempos. O entretenimento em lugar do que realmente interessa. A espetacularização da notícia, o destaque às bizarrices ao invés das manobras políticas e econômicas que irão afetar diretamente a vida das pessoas. A dramatização dos fatos, jogando poeira nos olhos do espectador. Em vez de dizer que a gasolina subiu 7%, e isso vai afetar toda a cadeia produtiva, até o preço do arroz no mercado, nossa TV envia um/a repórter (bonito/a, de preferência) até um posto, onde ele/a dirá de forma teatral que “a gasolina agora nesta bomba custa 5,10 o litro”. Ah, que raiva da bomba do posto de combustível!

Capitão Kidd nem precisa de tal artimanha. Intuitivamente descobre que falar do suposto morto que ressuscitou, do pai que jogou a filha pela janela, da briga de fulaninho com fulaninha no BBB, pode render mais audiência (e lucro) que falar de assuntos sérios que afetem a comunidade e a levem a uma mobilização. A notícia que não vai mudar nada na vida de ninguém, devidamente teatralizada, é um sucesso garantido. Trata-se de um precursor da mídia de nossos tempos, sem dúvida.

O capitão irá encontrar os tios e devolver a menina? Bem aí é com vocês. Preparem a pipoca e boa diversão!

A literatura fantástica de Sergio Papi

Sergio Papi construiu sua trajetória como designer gráfico desde os tempos heroicos da imprensa alternativa, nos anos 70/80. Ouviu e anotou muitas histórias, acompanhou episódios tenebrosos, ilustrou e diagramou libelos e diatribes.

Com a reconquista da democracia aflorou o narrador, o contador de causos, o escritor. E em 2020, com o país novamente flertando com a escuridão, publica 99 Histórias (Terra Redonda Editora), onde sua imaginação se esparrama em pequenos contos e crônicas que formam uma intrincada tapeçaria de miçangas de cores variadas.

De origem judaica, como muitos de nós, volta e meia Papi se refere ao Oriente Médio, às questões árabes, à geografia imemorial dos persas. Também mergulha na história do Brasil, na tragédia latino-americana, nas descobertas da Ciência. Isso confere certo sabor borgeano às suas narrativas, que oscilam entre o verossímil e o fantástico. Existe mesmo aquela cidade no Iêmen? Terá ocorrido aquela batalha entre incas e espanhóis? Haverá existido mesmo aquela loja de chocolates no Butantã?

A prosa fluente de Papi às vezes toma a forma de crônica, descrevendo cenários urbanos (geralmente São Paulo), viagens ou sonhos estranhos. O insólito surge com frequência, como se uma porta de outra dimensão se abrisse no concreto cotidiano. O uso constante de termos científicos – seja de química, medicina ou astronomia – confere uma estranheza à qual não falta certa dose de humor. Não por acaso, um de seus orixás inspiradores é o velho Barão de Itararé, de quem reeditou em fac-símile os Três Almanaques, entre 1989 e 1995.

Em outros momentos a narrativa já se configura como conto curto desde o início, criando cenários e personagens, diálogos e situações. Essa mistura de gêneros, cada vez mais característica de nossa época, não pode ser confundida com desleixo formal em 99 Histórias. É resultado evidente de uma vida de muita leitura, de um esforço profissional para traduzir um texto em imagens. Aqui, de forma curiosa, o designer-escritor Sergio Papi muitas vezes parte de uma imagem, real ou imaginária, para transformá-la em texto.

Essa operação inversa nos remete a um dilema cada vez mais presente no oceano de informações virtuais em que estamos submersos. Quando o jornalismo eletrônico encolhe textualmente, optando pela imagem como suporte preferencial, coloca-se em risco todo um edifício cultural construído por séculos de experiência. Voltaremos aos hieróglifos?

É sobre essa estrutura em convulsão que se equilibra a literatura de Sergio Papi. Os 99 textos curtos, publicados anteriormente na internet, traçam um distópico panorama desta época, retratando o Aleph estonteante de informações cuja veracidade é cada vez mais difícil de comprovar. Mas no terreno devidamente sinalizado da ficção, é possível falar de água como se fosse vinho, e transmitir ao leitor a sensação de ter provado algo novo.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda)

Música engajada no século XXI

Há vários conceitos na História que apresentam alterações de significado com o passar do tempo. No campo das artes, é um exercício interessante comparar os ditames do naturalismo literário do século XIX com boa parte da literatura que se pratica no século XXI. O que diferencia um jovem escritor contemporâneo que descreve um mendigo procurando comida no lixo nas calçadas de uma metrópole, e uma cena de Aluísio Azevedo, por exemplo? Filtrando a linguagem da época, a diferença é mínima.

A história do século XX, que é a que ainda mais nos influencia (escrevo esse devaneio em janeiro de 2021), com duas guerras mundiais, ascensão e queda do sonho comunista, emergência de novas potências construídas sobre os alicerces do comunismo (China) e, principalmente, o afloramento político das lutas identitárias que demarcam um novo patamar de percepção política. E, por que não?, estética.

A construção e afirmação do feminismo, do movimento negro (no Ocidente), dos grupos ambientalistas, dos povos indígenas (nas Américas), dos LGBT+, provocou uma boa quantidade de rachaduras no status quo. E gerou uma série de ondas criativas, que vem influenciando gerações.

Quando o rap se tornou um gênero dominante nas rádios e ondas virtuais no início do século XXI, desbancando o rock’n roll que imperava há 50 anos, não pareceu causar grande impacto no mundo acadêmico, jornalístico, literário, teatral, etc. O motivo é simples: os detentores do discurso dominante cresceram ouvindo rock (ou samba, bossa-nova e MPB, no caso brasileiro) e aquilo era “coisa de adolescentes”.

Como sempre ocorre desde a pré-História, os adolescentes cresceram e estão aí, querendo tomar as rédeas do poder. Vivem em um novo mundo, onde o virtual é tão ou mais importante que o real, e que a conexão audiovisual entre grupos antes isolados pode se configurar em um movimento, uma onda, um rolê ou uma rebelião.

Em um pequeno livro* escrito em 1976, o filósofo português José Barata-Moura, de formação marxista, que além de ter sido reitor da Universidade de Lisboa é também compositor e cantor, afirma que “toda canção é política”. Para ele, qualquer produção artística dita alienada ou escapista, seja boa ou ruim (qualidade é outro tema discutível, aliás), “contribui para a organização concreta do viver”, transmitindo ou perpetuando valores que interessam ao sistema. Para ele, o imperialismo exporta música (e cinema, acrescento) que “desempenha um poderoso papel político nos ideais que difunde, nas formas de convívio que patrocina e divulga.” Esse raciocínio aplicado hoje à avalanche de música gospel que invadiu os meios de comunicação, por exemplo, corrobora o papel político destas canções e das igrejas que as promovem.

O rap, ainda que não seja música strictu sensu**, pode ser classificado em grande parte como arte engajada. Critica poderosos, confronta a violência policial, denuncia desigualdades, convoca a união entre pares. No Brasil, muitas vezes aponta para o reconhecimento da raça, da cor negra, as origens afro, embora não se limite a isso.

Hoje é possível ouvir nas redes sociais rap feito por jovens indígenas, cantado em língua nativa. De jovens nascidas na periferia, reivindicando o direito ao corpo. Ou canções pop de artistas defendendo a causa LGBT+. Ou libelos musicais em defesa da natureza, punks atacando o capitalismo predatório, folk singers alertando para os efeitos do aquecimento global ou bandas de garagem lançando invectivas a governos autoritários.

Esse cadinho efervescente de elementos sociais se decanta em novas formas de canção de protesto, de arte engajada, de slogans de guerra. Podem ser denúncia social, propaganda política, hino identitário ou gritos de alerta, sintomas de um mundo em desequilíbrio. Podem embalar passeatas, agregar manos e manas, cutucar valores estabelecidos, defender minorias ou atacar os detentores do poder.

Perante este cenário, só quem não enxerga o próprio tempo pode classificar a música engajada como um fenômeno datado, reminiscência do século XX, que no Brasil costuma ser identificada com a era dos festivais e nomes como Vandré, Taiguara, Chico Buarque, Sérgio Ricardo, Gilberto Gil, Violeta Parra, Victor Jara, Inti-Illimani, Pete Seeger, Bob Dylan, Joan Baez, John Lennon, Lluís Llach, Zeca Afonso e outros tantos.

O grande diferencial é que a música engajada e, por extensão, a arte engajada, sempre houve e sempre haverá enquanto formos humanos. Censurar isso é que vai contra a correnteza da História. Viva Chico César!

* Estética da Canção Política – alguns problemas. Livros Horizonte, 1977.

**Rap, do inglês Rhythm and Poetry, ritmo e poesia. Música, além destes dois elementos, incorpora a melodia como elemento essencial. É interessante como astros do rap brasileiro, como Criolo ou Emicida, buscam aproximações e mesclas com a música popular, especialmente o samba, expandindo as limitações do gênero.

(publicado originalmente em www.aterraeredonda.com.br)

Arte engajada no século XXI

Recentemente o cantor e compositor Chico César provocou polêmica nas redes sociais ao responder de forma surpreendente a um fã que pediu que ele evitasse as canções de “cunho político-ideológico”: “Tu és muito maior que eles todos. Tu não deves nada a eles. Eles que te devem. Tuas mãos são limpas. Não as coloque no fogo por nenhum deles”.

O ouvinte reavivava, talvez sem perceber, uma velha polêmica no meio artístico que rebrotou após a Revolução Soviética e se ramificou por todo o século XX. As obras militantes de poetas como Maiakovski, de cineastas como Eisentein, e inúmeros escritores, dramaturgos e artistas plásticos em todo o mundo, que de alguma forma se identificavam com o sonho comunista, provocaram uma reação conservadora, que buscou de várias formas classificar a arte engajada como algo menor, uma coisa impura, contaminada por ideologia.

Claro que a arte engajada não é uma invenção do século XX. Criticar sistemas políticos, ridicularizar os poderosos e colocar em cena conflitos sociais está na origem do teatro grego, seja em forma de comédia ou tragédia. Para um autor como Benoit Denis (Literatura e Engajamento – De Pascal a Sartre), nem toda literatura que aborde questões sociais é necessariamente engajada, senão quase tudo que foi escrito, de alguma forma, conteria elementos de engajamento político.

Os franceses, aliás, debruçaram-se profundamente sobre o tema no pós-guerra. Com antecessores tão seminais como Émile Zola (J’accuse), é natural que a influência das questões sociais nas artes fosse um dos temas prediletos de autores como Sartre ou Camus (que, aliás, discordavam).

Aqui no Brasil obras engajadas de autores como Jorge Amado ou Graciliano Ramos costumam ser colocadas no mesmo saco pelo pensamento conservador. Críticos mais conscientes, como Antonio Candido, estabelecem outro tipo de juízo, com fundamentos estéticos bem definidos, que apontam porque a obra dita “engajada” de Amado é mais fraca, mas – atenção – não por ser política. No entanto, quase toda a obra do escritor baiano, é atravessada pelo registro das questões sociais, das diferenças de classe, do registro agudo das desigualdades. Como, em outro patamar, faz Graciliano.

O espírito sarcástico de um Lima Barreto pode ser encaixado no rótulo “literatura engajada”, assim como o Quinze, de Rachel de Queiroz, mesmo não sendo obras de propaganda política. Assim como toda a dramaturgia de Plínio Marcos, certa poesia de Drummond e Vinicius, o cinema de Glauber Rocha, a pintura de João Câmara. Estão entre os pontos altos da arte brasileira, sem abrirem mão do inconformismo.

Mas voltemos a Chico César. Sua resposta ao fã inconformado merece ser lida na íntegra:

“Por favor, todas as minhas canções são de cunho político-ideológico!! Não me peça um absurdo desse, não me peça para silenciar, não me peça pra morrer calado. Não é por ‘eles’. É por mim, meu espírito pede isso. E está no comando. Respeite, ou saia. Não veja, não escute. Não tente controlar o vento. Não pense que a fúria da luta contra as opressões pode ser controlada. Eu sou parte dessa fúria. Não sou seu entretenimento, sou o fio da espada da história feito música no pescoço dos fascistas. E dos neutros. Não conte comigo para niná-lo. Não vim botar você pra dormir, aqui estou para acordar os dormentes”.

A resposta do paraibano é um verdadeiro libelo em favor da arte engajada, com alta voltagem poética. Recoloca um debate que andava amortecido na música brasileira desde os anos 60, e que ressurge num contexto político que cada vez mais lembra o período da ditadura. Novamente o país é dirigido por militares, que tentam sufocar a cultura, as artes, e qualquer forma de discurso libertário.  

Num cenário opressor e obscurantista, artistas tendem a reaquecer o discurso crítico, denunciar os desmandos e apontar para caminhos radicais. Se a humanidade vivesse num paraíso idílico, certamente não haveria arte engajada. Protestar para que? (O que não impediria que houvesse arte de alto nível, certamente, mas com temática bem limitada). Costumo lembrar de que no mesmo disco de Chico Buarque, de 1971, há duas obras-primas que serviriam de argumento para progressistas e conservadores: Construção (com o final raivoso de Deus lhe Pague) e Valsinha. Quem é craque sabe jogar em várias posições!

Este sentimento de indignação, de inconformismo, não se limita à música popular. Voltando à literatura e ao nosso século, em livro lançado no final do ano passado, (Alguém Vai Ter que Pagar Por Isso, Ed. Faria e Silva, 2020), o escritor Luís Pimentel monta um romance fragmentado, com elementos de crônica e ficção, onde remonta a tragédia da violência policial-miliciana carioca. Enfocando a camada mais espezinhada da população, Pimentel traça pequenos retratos de gente destinada à miséria e ao anonimato, resgatadas aqui pela arte. Ora remete a João Antônio, ora a Rubem Fonseca (não será o título uma lembrança d’O Cobrador?), mas com dicção própria, onde a contundência documental de certos episódios não diminui o alcance poético-ficcional de outros. E muitas vezes estas visões estão mescladas, como ocorre nas obras dos grandes mestres.

Escritor prolífico, com obras publicadas em diversos gêneros (contos, poesia, crônica, infanto-juvenil), Pimentel incorpora nessa obra o espírito de indignação criativa de Chico César. Promove uma bem urdida mistura de engajamento crítico, literatura de denúncia e ficção consciente, pero sin perder la ternura jamás. Um grande pequeno livro (118 páginas), destinado a ser referência de uma época prenhe de injustiças, onde, apesar de tudo, a beleza ainda não foi erradicada.

(Publicado originalmente em www.aterraeredonda.com.br)


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