Uma resenha possível

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 Mergulhar na arte de Escher é sempre uma experiência fascinante. A princípio somos levados a acreditar que sua obra é uma demonstração cerebral de virtuosismo, levada a cabo com uma precisão que só um absoluto domínio técnico pode concretizar. Aos poucos somos conduzidos a outros mundos, onde luzes e sombras se permeiam de tal forma que passam a ser metáforas de realidade e fantasia. Ao invés de esconder seus truques, ele expõe de maneira sistemática o processo de criação, mostrando seu ponto de partida e as etapas que atravessa para alcançar o efeito desejado.

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Escher pode partir de experiências concretas, como as anotações feitas durante suas viagens, para expandir nossa percepção com a revelação de detalhes que só uma mente inquieta e astuciosa poderia descrever. Outras vezes parte de um mito, como a lendária Torre de Babel, para delinear uma fantástica hipótese sobre a ambição e a pequenez do ser humano. Seu repertório de maravilhas também é criado a partir de objetos imaginários, como o Anel de Möbius, envolvendo nossa percepção com um jogo de ir-e-vir, de citações e invenções, que embaralham tempo e espaço, ordem e caos.

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Acima de tudo, Escher é um perfeccionista. Aquilo que oferece ao nosso olhar é a obra perfeita, burilada com paciência, fruto de uma rigorosa pesquisa cujos rascunhos não nos é permitido ter acesso. Mas antes que algum desavisado leitor conclua que louvo apenas a feitura impecável, peço que redobre a atenção para as frestas intencionalmente presentes em toda a sua obra, por onde vislumbramos a presença impalpável da poesia, as marcas da experiência vivenciada, a sombra imemorial da morte, as nuances delicadas da emoção.

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Mergulhar na arte de Edmar Monteiro Filho é sempre uma experiência fascinante. A princípio somos levados a acreditar que sua obra é uma demonstração cerebral de virtuosismo, levada a cabo com uma precisão que só um absoluto domínio técnico pode concretizar. Aos poucos somos conduzidos a outros mundos, onde luzes e sombras se permeiam de tal forma que passam a ser metáforas de realidade e fantasia. Ao invés de esconder seus truques, ele expõe de maneira sistemática o processo de criação, mostrando seu ponto de partida e as etapas que atravessa para alcançar o efeito desejado.

Dia e noite

Edmar pode partir de experiências concretas, como as anotações feitas durante suas viagens, para expandir nossa percepção com a revelação de detalhes que só uma mente inquieta e astuciosa poderia descrever. Outras vezes parte de um mito, como a lendária Torre de Babel, para delinear uma fantástica hipótese sobre a ambição e a pequenez do ser humano. Seu repertório de maravilhas também é criado a partir de objetos imaginários, como o Anel de Möbius, envolvendo nossa percepção com um jogo de ir-e-vir, de citações e invenções, que embaralham tempo e espaço, ordem e caos.

Ordem e Caos

Acima de tudo, Edmar é um perfeccionista. Aquilo que oferece ao nosso olhar é a obra perfeita, burilada com paciência, fruto de uma rigorosa pesquisa cujos rascunhos não nos é permitido ter acesso. Mas antes que algum desavisado leitor conclua que louvo apenas a feitura impecável, peço que redobre a atenção para as frestas intencionalmente presentes em toda a sua obra, por onde vislumbramos a presença impalpável da poesia, as marcas da experiência vivenciada, a sombra imemorial da morte, as nuances delicadas da emoção.

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(Atlas do Impossível, Ed. Penalux, 244 p. Quinze contos inspirados em gravuras de M C. Escher).

Escritura do desejo

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É possível mapear, na literatura brasileira contemporânea, uma vertente ficcional que tem como característica a narrativa em primeira pessoa e que entremeia ficção e vivência real do(a) autor(a), deixando de lado a pesada carga de criar um universo diegético próprio, fundamento do romance clássico que marca boa parte da produção dos séculos XIX e XX. Na prática, estes autores se apropriam do mundo real como cenário de suas narrativas, e com calibragens variadas reportam experiências ouvidas, lidas, assistidas ou vividas, citando ruas reconhecíveis, fatos que presenciamos, botecos que frequentamos ou escolas quase idênticas às nossas. Às vezes dão a impressão de que descrevem bocas que um dia beijamos.

O primeiro romance de Marcos Kirst, Eu Queria Que Você Soubesse, pode ser colocado nesta prateleira. No entanto, percebemos de cara que não é um noviço. Kirst se coloca de forma consciente e madura nessa corrente, mas se diferencia dos autores jovens pelo amplo arco narrativo, que abarca mais de três décadas.

A forma límpida, quase coloquial, com que a narrativa se inicia, vai sendo sutilmente acrescida de lembranças, reflexões e observações irônicas. Apesar do início trágico e do clima sofrido de acerto-de-contas no final, há um fino e amargo humor nas entrelinhas, que emerge aqui e ali em frases cortantes e inesperadas.

É evidente a intenção de fugir do denominador comum de gênero literário. A narrativa começa em tom policial, mas não sai em busca de um criminoso. Finge ser um romance de formação, mas logo se afasta dos chavões do gênero. Contorna com habilidade o surrado tema da paixão não correspondida, demarcando desde o início a impossibilidade de uma consumação. Por fim, cria mulheres fortes, bem delineadas, que fazem bom contraponto com o inseguro protagonista.

Pela biografia do autor, gaúcho de Ijuí, e  pela narrativa em primeira pessoa, supomos que muito do que está sendo dito/escrito seja reflexo do próprio. Afinal, a história tem início numa pequena cidade do Rio Grande do Sul, na década de 70, desdobrando-se depois em Porto Alegre, Camboriú, São Paulo…  O truque de criar um narrador mais velho serve como álibi, mas não elimina as suspeitas de que o que estamos lendo marcou a vida de Marcos Kirst. Parafraseando Pessoa, poderíamos dizer que o romancista é um fingidor.

O que emerge nas 150 páginas da trama é a forte pulsão sexual, catalisadora de uma série de ações que determinam, para o bem e para o mal, o desenrolar da narrativa. O clima de ditadura dos anos 70 e 80 é descrito em pinceladas rápidas, deixando no ar o ambiente sombreado pela censura e a impunidade que até hoje grassa no país. O foco é o do narrador, um contador (pode existir profissão mais anti-heroica?) que idealiza uma paixão de juventude a tal ponto que toda a sua vida adulta vai ser determinada por isso.

Até que surge outra mulher…

Literatura como vingança

             O excelente filme Animais Noturnos, de Tom Ford, de 2016, parte de uma situação aparentemente banal para trazer uma questão que paira sobre os escritores, como um espectro: alguém é capaz de escrever um livro por vingança?  O filme é baseado num romance de Austin Wright, “Tony and Susan”.

           Como muita gente não viu o filme nem leu o livro, cabe aqui uma pequena sinopse. Susan, uma galerista chique de Nova York, recebe um envelope com um texto original de seu ex-namorado, Edward. Trata-se de um romance, chamado Animais Noturnos, que ela começa a ler na mesma noite.

        A partir daí, entremeiam-se as narrativas. Notamos que Susan (vivida pela excelente Amy Adams, de A Chegada) tem uma relação terminal com o atual marido. A história-dentro-da-história mostra um casal (Amy e Jake Gillenhaal) que, acompanhados da filha adolescente, viajam pelo meio-oeste americano de carro, e são abordados por uma gangue liderada por um psicopata chamado Ray (Aaron-Taylor Johnson). A partir daí, tudo é terror.

         Voltando à primeira linha narrativa, alguns flashbacks mostram que o rompimento entre Susan e Tony se deu porque ela o considerava “fraco”, além da evidente distância social que os separava. Amy é rica, filha de uma mãe esnobe (Laura Linney), e fica dividida entre sacrificar seu amor ou seu modo de vida.

                Não vou entrar em detalhes, para não estragar o prazer de ver o filme. Mas a questão moral que se coloca é a de uma obra de arte – um romance -, servir de expiação, vingança, declaração de amor, ódio, desespero, desprezo, rancor. Esses sentimentos tão humanos e vitais levam a alguém a escrever um livro?

                Ouvimos algumas vezes que o que move os artistas é a vaidade. Pode ser verdade, se pensarmos na sociedade do espetáculo em que vivemos. Mas duvido que Camões, Shakespeare, Cervantes ou Dante tenham escrito por vaidade. Até o vil metal é um motivo mais justificável para estes artistas, no contexto em que viviam. Dante atirou vários desafetos ao Inferno, na Divina Comédia, lembrou-me um amigo internáutico. Mas não foi somente vingança que motivou toda a arquitetura da Divina Comédia, ou não haveria um Purgatório e um Paraíso.

                Claro que a vingança pode se dar pela forma da sátira, do humor, do sarcasmo, da caricatura. Gregório de Matos, ao desbancar o governador Tucano em versos, no século XVII na Bahia, estava se vingando. Mas isso geraria um romance? Podemos supor que uma obra moderna da literatura brasileira, como Um Copo de Cólera (Raduan Nassar), tenha sido escrita por vingança? Não, o último capítulo desmonta a tese. Escrita com raiva pode até ser, o título explicita isso, mas é uma (desesperada) declaração de amor.

            Outros exemplos ocorrerão, certamente, a quem se debruçar sobre a questão. Mas fica aqui a recomendação ao filme, muito bem dirigido, roteirizado e interpretado. A abertura é inesquecível, com aquelas mulheres velhas e obesas, completamente nuas, dançando como cheerleaders para o público. Esse filme jamais passará na TV aberta sem cortes… As passagens da ficção que assistimos para a ficção-dentro-da-ficção são muito bem feitas, e o desenlace é realizado com grande ousadia. Uma sequência de alguns minutos, estática e melancólica, que provoca reflexão e, para os mais atentos, iluminação.

      As mortes são simbólicas, e há vários outros símbolos espalhados pelo filme/narrativa. Separar o real-ficcional do real-real é o grande desafio deste filme memorável, que afinal nos faz pensar sobre quantas dessas questões se colocam em nossa própria existência.

O caráter e o destino

 

O Ventre da Baleia0001

            O escritor e ensaísta espanhol Rafael Sánchez Ferlosio definiu dois tipos de personagens, reais ou ficcionais. Os de caráter “são os arquétipos, geralmente cômicos, de pura manifestação, que não nascem, nem crescem, nem morrem, mas sempre se repetem em situações frente às quais confirmam seu caráter.” Por exemplo, Carlitos ou Pedro Malazartes.

            Já personagens de destino “são os heróis épicos ou trágicos, de atuação plena, que nascem ou começam ou partem ou morrem ou acabam ou voltam no decorrer de algum incidente onde o seu destino se cumpre”. Gilgamesh, Ulisses, Tiradentes, Zumbi ou qualquer herói posterior se encaixam nessa definição.

            O romance de Javier Cercas, O Ventre da Baleia, se desenvolve em torno dessa dualidade, mas está longe de ser um romance de tese, como seu primeiro título publicado (El móvil), traduzido no Brasil como O Motivo. O escritor apresenta o personagem Tomás, jovem professor assistente da Universidade Autônoma de Barcelona, no instante em que reencontra uma velha paixão de juventude e trai sua esposa grávida.

          Imerso num jogo de enganos e auto-enganos, Tomás encontra apoio num velho professor de literatura, Marcelo, que tenta convencê-lo a se candidatar a um concurso de cátedra na universidade. Conversas literárias e citações cinematográficas permeiam o enredo, que trabalha um largo arco de emoções, indo do cômico ao trágico. É Marcelo quem apresenta para Tomás a tese de Ferlosio.

             Como muitos, o assistente ambiciona um destino glorioso. Sempre queremos ser heróis, de preferência driblando os aspectos trágicos da história. As circunstâncias da vida vão nos conformando ao lado menos iluminado, onde em vez de sermos príncipes, algumas vezes acabamos como bobos da corte. Não por acaso, a capa desta edição (Francis, 2006) reproduz um célebre quadro de  Velázquez, El Bobo de Coria. Não creditado, aliás.

           Javier Cercas é um dos mais premiados escritores espanhóis da atualidade. Tal como Javier Marías, outro bom escritor contemporâneo, gosta de citações eruditas, mas sabe evitar o pedantismo obscuro, ficando nos limites da cultura pop. Fritz Lang, Alexandre Dumas, Borges e Led Zeppelin surgem naturalmente na trama, compondo o cenário multicultural fragmentado típico da modernidade (o romance é de 1997).

            Há pequenas brincadeiras no texto, como um personagem secundário chamado Javier Cercas que surge numa tertúlia literária e interrompe uma conversa de Tomás.  A narrativa em primeira pessoa humaniza o relato, provocando uma empatia com o protagonista que, mais que uma mera identificação, propõe um descortinamento das máscaras sociais que nos são atribuídas. Os instintos básicos (paixão, vingança, medo, vergonha), a pulsão erótica, o arrependimento, a amizade, estão todos lá, colocados com mão de mestre. A tradução de Bernardo Ajzenberg é fluida, e valoriza o prazer da leitura.

             No final do livro percebemos, não sem certa melancolia, que há personagens de destino, como se imagina Tomás, que podem se transformar em personagem de caráter, devido às circunstâncias. E que todo escritor vive somente o presente, o momento da escrita, mesmo quando se alimenta de memórias ou de invenção, pois seu destino é apenas escrever, sem heroísmo ou tragédia. Como um bobo da corte.

SOBRE TRIBUNAIS E QUINTAS-FEIRAS

michellaub

Descrever a sua época é um desafio para qualquer escritor. A pena elegante de um Machado de Assis ou as tintas satíricas de um Lima Barreto definiram modelos que tiveram muitos seguidores no Brasil. Mas o que pode fazer um autor em pleno século XXI, onde a literatura cada vez mais perde espaço para o bombardeio midiático de informações e desinformações que transforma todos, leitores e autores, em ruído branco?

            Michel Laub responde a essa questão arrastando o monstro para dentro de sua literatura. A internet tem papel fundamental em seu romance O Tribunal de Quinta-feira (Companhia das Letras ,2016), onde uma traição é descoberta pela indiscrição registrada em e-mails. Mas a história de um publicitário casado que se envolve com a estagiária não seria original se contada de forma acadêmica.

            Laub recorta e monta um quebra-cabeças que inclui, obviamente, mensagens trocadas pelo correio eletrônico, mas se apoia principalmente na narrativa em primeira pessoa, como se fosse um diário. A relação com um velho amigo soropositivo, a rotina do casamento, o ambiente da agência, a tentação e o desejo, tudo vai sendo desvelado de forma aparentemente anárquica. Que o leitor não se engane. Há uma ordem, uma intenção, em cada capítulo, mesmo quando tem a forma de uma displicente digressão de quinze linhas ou uma simples mensagem telefônica de dez palavras: “Como você acha que eu me sinto ao saber disso?”

            A descoberta da traição pela esposa vai detonar a crise, que se desenvolve em poucas horas. Michel Laub trabalha o tempo com habilidade, trazendo informações sobre a vida do protagonista, a família da mulher, o papel do amigo em sua vida. De quebra, levanta uma pertinente discussão sobre privacidade, falso moralismo, ética empresarial, preconceito, machismo e feminismo.

            Buscando uma linguagem moderna, longe dos cânones e próxima do coloquial, autores como Laub correm dois riscos. O primeiro é o da rarefação, do provisório, de não mergulharem realmente na grande literatura, seja lá o que isso signifique. O segundo é o de se tornarem nossos clássicos contemporâneos.

 

Prosódia e música popular

 

     Prosódia

         Meu irmão, que é ótimo violonista, arranjador e professor de música, é desses sujeitos que não se preocupam apenas com as notas no pentagrama. Atento aos tropeços de prosódia, me chamou a atenção para a quantidade de canções contemporâneas cujas letras entortam o vernáculo sem o menor pudor. São as chamadas silabadas. Virou moda?

            Não acompanho com tanta assiduidade a música de consumo rápido, midiática, feita pra tocar no rádio. Deixo de lado, portanto, os sertanejos, pagodes e funks, e ensaio algumas observações sobre a produção mais independente e alternativa da música popular, que busca mais apuro, profundidade e originalidade em suas letras.

            De que vamos falar, afinal? Prosódia é a parte da gramática que se ocupa da sonoridade das palavras, mais especificamente em relação à sílaba tônica. Caminha junto com o ritmo, envolve a entonação e o sotaque, e dominá-la é fundamental para qualquer letrista.

            Ocorre que em muitos casos a prosódia regida pela norma culta é intencionalmente subvertida, e isso não vem de hoje. Algumas vezes comparece como licença poética, outras vem revestida de intenção satírica, mas na grande maioria dos casos é adaptação fonética à melodia. Em alguns casos soa como uma invenção, outras como desleixo.

            Pegando um exemplo antigo, é evidente que Alvarenga e Ranchinho querem fazer graça quando cantam Romance de Duas Caveiras, de 1940:

            “Ao longe, uma coruja piava alegre/ ao ver os dois caveiros assim feliz/ e quando se beijavam, em tom funebre/ a coruja batia as asas pedindo bis”.

Existem variações da letra; enquanto alguns intérpretes tentaram melhorar a concordância, outros a pioraram. Mas a transformação de fúnebre em paroxítona faz com que rime com a palavra alegre, e a distorção é tão evidente que todos acabam caindo na risada.

            Este é um exemplo clássico de intencionalidade. Volta e meia nosso ouvido tropeça em alguma letra de Vinicius, Chico ou Caetano onde há uma rearranjada da prosódia, com finalidade estética. São licenças poéticas, desvios consentidos ou meros barbarismos?

Uma canção como O Velho Francisco, de Chico Buarque, está cheia de contravenções fonéticas. Não deixa de ser linda, talvez exatamente por isso. Experimente cantá-la colocando a silaba tônica corretamente nas palavras, e verá que é impossível. Os deslocamentos tônicos (a chamada divisão) são constantes, obrigando os intérpretes a serem muito atentos.

          “Já gozei de boa vida/ tinha até meu bangalô/ cobertor, comida, roupa lavada/ vida veio e me levou”.

            A palavra comida soa como proparoxítona (cômida), e roupa lavada vira algo como “rou palá vada”. A imbricação de letra e melodia é perfeita, e a obra de Chico não nos deixa dúvida de que ele está brincando com a sonoridade das palavras. Brincadeira muito séria, por sinal.

            Em parceria com Djavan, um dos nossos mais contumazes dribladores da prosódia, Chico pega o espírito do parceiro e tasca lá uma silabada: “Era tanta saudade/ É, pra matar/ Eu fiquei até doente/ Eu fiquei até doente, menina”. Se o verbo ficar fosse entoado de acordo com a norma (fiquei, com tônica no e), sairia do compasso. Transformado em algo como fíquei (soando como Mickey) adere perfeitamente à angulosa melodia. Pra completar, o a de até também ganha um reforço tônico.

            Desde as antigas parcerias com Vinicius (observe com atenção a letra de Valsinha, por exemplo), Chico aprimora sua ginga com as palavras, revelando acentos inesperados e dando um nó na cabeça dos acadêmicos. Esta lição dos mestres é aplicadamente seguida por várias gerações de compositores, uns mais originais, outros menos. Cuidado: algumas vezes pode soar como escorregão ou forçada de barra.

            Talvez o modo mais preciso de identificar a real intenção do autor seja prestar atenção ao conjunto da obra. Se é difícil identificar esta veia criativa nas letras de compositores breganejos, p. ex., por outro lado existe um embate constante entre letra e ritmo nas letras de rap. A métrica às vezes é atropelada, mas de certa forma está se construindo uma nova linguagem.

            Não é à toa que Chico já declarou que “gosto de ouvir o rap da rapaziada”.  Rap da rap(aziada), aliás, é uma discreta brincadeira sonora, coisa que Caetano faz muito bem. Na linda canção Trilhos Urbanos, com pequenos achados trocadilhescos (“no trole ou no bonde/ tudo é bom de ver”) brilha a preciosa “Krishna, maravilha/ Vixe Maria Mãe de Deus”, onde ecoam as sonoridades ishna e ishma. E o compositor baiano faz uma silabada com o xixi do Imperador, veja só que desrespeito…

            O assunto rende. Só nos resta aplaudir a invenção, quando o resultado é belo!

(Publicado em http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

Jack London, sempre atual

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            Quem foi bom leitor na juventude certamente deve ter se deliciado com algum livro de Jack London. Caninos Brancos e O Lobo do Mar foram traduzidos por Monteiro Lobato, e tiveram dezenas de edições no Brasil. Outro campeão foi O Chamado da Selva, que narra a história de um cão que puxa trenós no Alaska. Depois de muitos sofrimentos (naturais ou causados pelo homem) une-se a um bando de lobos, tornando-se líder da alcateia.

            O Chamado da Selva (também traduzido como Apelo da Selva e O Grito da Floresta) é obra fundamental da literatura norte-americana, e tornou o nome de Jack London reconhecido mundialmente. Autor de vários romances e contos, ele refletiu em sua obra muito das experiências que teve durante toda a vida.

            Jack (nascido John Griffith Chaney) nasceu pobre, em San Francisco, Califórnia. Não conheceu o pai, e teve uma infância difícil. Começou a trabalhar muito cedo numa fábrica de enlatados, numa época em que a jornada de trabalho tinha com frequência dezoito horas, e nunca menos que doze. Com dezesseis anos virou grumete, e em pouco tempo tinha seu próprio barco de ostras, perdido num incêndio. Alistou-se numa escuna pesqueira, e foi até o Japão. Na volta trabalhou numa fábrica de juta (experiência que rendeu o conto O Herege), e participou das primeiras revoltas de trabalhadores de Oakland, onde viu despertar sua consciência de classe. Foi vagabundo e andarilho, esteve preso algumas vezes, e aos 21 anos resolveu tentar a sorte no Alaska, em busca de ouro.

            Além de não encontrar nada, ainda contraiu escorbuto. As terríveis situações que vivenciou, porém, inspiraram sua nascente veia literária. Tentou estudar na Universidade da California, foi admitido nos exames, mas a falta de dinheiro impediu que concluísse os estudos. Trabalhava à noite na lavanderia limpando a roupa dos colegas, e acabou desistindo.

            Felizmente, foi salvo pela literatura. Ao ganhar 25 dólares com um conto publicado num jornal de San Francisco (Tufão na costa do Japão), London percebeu que este seria o caminho para ascender socialmente. Em 1902 publicou o primeiro volume de contos. Em 1903 vendeu os originais de O Chamado da Selva por 750 dólares. Dois dias depois outra editora, a poderosa Macmillan, comprou os direitos do livro por 2000 dólares, desenvolvendo uma ampla campanha publicitária para o lançamento. As vendas explodiram, e London nunca mais passou fome.

            A vida sofrida, a doença e as experiências humilhantes não fermentaram apenas um escritor, mas um militante. Filiou-se ao Partido Socialista, e dedicou grande parte de sua obra adulta a descrever o mundo dos operários, dos desempregados, dos miseráveis. A luta pela sobrevivência, seja na natureza, seja na civilização industrial, é o motor de sua criação.

Jack London

            Uma boa seleção destes contos “adultos” foi lançada no Brasil pela editora Expressão Popular. O volume é aberto com dois textos confessionais (O Que a Vida Significa Para Mim e Como Me Tornei Socialista) onde somos apresentados à visão de mundo do escritor.

            A ficção propriamente dita é desenvolvida nos nove contos seguintes, onde acompanhamos aventureiros solitários no Alaska, operários em greve em San Francisco, mexicanos miseráveis que sobrevivem lutando boxe, chineses estoicos condenados à morte, ladrões de joias, pais que não reconhecem o filho. Sem deixar de lado valores como o amor (Ao Sul da Fenda) e a amizade (O Pagão), o autor demonstra sua enorme capacidade de descrever um universo social até então pouco abordado na literatura americana, de forma intensa e profundamente humana.

            Jack London escreve de forma direta, sem rodeios. É um dos fundadores da moderna prosa ocidental, e influenciou dezenas de escritores, em todo o planeta. Nos últimos anos de vida projetou e construiu um barco, velejando até o Pacífico, e construiu um rancho na Califórnia, que hoje é tombado como Marco Histórico Nacional. Sua morte, aos 40 anos, é controversa. Segundo alguns, teve uma acidente ao ingerir uma dose excessiva de heroína, que tomava para aliviar as dores de uma uremia. Para outros foi realmente um suicídio.

            Não importa. A obra de Jack London ainda pulsa forte, e é leitura prazerosa e marcante. Evoluindo de um feroz individualismo para a construção de um ideal coletivo, como fez na própria vida, o escritor antecipou em sua literatura o grande dilema do capitalismo no século XX. Sua mensagem fundamental continua válida para todos que não desistiram de enfrentar o desafio de transformar o mundo: “Vejo à frente um tempo em que o homem deverá caminhar para alguma coisa mais valiosa e mais elevada que seu estômago.”