O cronista Aldir Blanc

Aldir-Blanc-cronista

Abalados pela morte do letrista, compositor e poeta Aldir Blanc (1946-2020), os comentaristas e o público amante da música popular inundaram as redes sociais com versões de seus grandes sucessos, como O Mestre-Sala dos Mares e O Bêbado e a Equilibrista, feitos com o parceiro maior, João Bosco. Jornalistas relembraram sua criatividade, sua verve, suas firmes posições políticas, seu humor sarcástico, sua carioquice. Alguns analistas lembraram a sua capacidade de concretizar em letra de música verdadeiras crônicas, cenas populares, relatos mordazes de situações urbanas.

Nada mais justo, se prestarmos atenção a obras primas como De Frente pro Crime, Incompatibilidade de GêniosA Nível De… ou Siri Recheado e o Cacete, retratos cheios de graça de um certo jeito de ser carioca, entre malandro e trouxa, convivendo com a violência, o desacato, o compadrio, a traição e outros desvios. Bebeu de fontes preciosas, como Noel Rosa, Geraldo Pereira, Wilson Batista, Billy Blanco e mais uns poucos. Não é fácil contar uma história, criar um enredo com abertura e desfecho, em poucos versos.

Mas o enorme compositor-letrista acabou ofuscando o escritor. Aldir Blanc é cronista mesmo, refinado (ou grosso, dependendo da hora), com vários livros publicados. Convidado pela turma do Pasquim, publicou seu primeiro volume de crônicas, Rua dos Artistas e arredores, em 1978. Ali se revelava um arguto investigador dos hábitos, costumes e idiossincrasias populares, herdeiro legítimo de uma tradição que vinha do pioneiro João do Rio, incorporando o inconformismo de um Lima Barreto e compartilhando o senso de humor de um Stanislaw Ponte Preta.

As coletâneas seguintes (Porta de Tinturaria, Brasil Passado a SujoUm Cara Bacana na 19ª, Direto do Balcão) confirmaram o talento literário do compositor-letrista. Sua formação acadêmica (fez medicina, com especialização em psiquiatria) se mesclava em química perfeita com o amor pela literatura, destilando o exímio retratista de tipos humanos, de situações hilariantes, de pequenas e grandes malandragens de um Brasil que se transforma a cada dia, deixando de sorrir e mostrando os dentes. Talvez não escrevesse crônicas, mas diagnósticos…

Reler Aldir Blanc hoje é se reencontrar com esta quase perdida tradição de cronistas satíricos metropolitanos. Os textos de humor crítico migraram para a TV, para as comédias stand-up, para as redes sociais. Apenas Luiz Fernando Veríssimo pode ser comparado, no cenário da literatura brasileira contemporânea.

Mesmo quando Blanc se aventurou por outros gêneros, como memórias (Vila Isabel – Inventário de Infância), livros infantis (Uma Caixinha de Surpresas), ou relatos saborosos em homenagem a seu time de coração (Vasco – A Cruz do Bacalhau), o espírito de “cronista carioca” esteve impregnado de forma indelével. Aldir Blanc ainda será lembrado como um dos mais originais escritores de nossa época, último recriador de um Rio de Janeiro que, depois da pandemia, nunca mais será o mesmo.

(publicado originalmente em A Terra é Redonda)

 

Morrer na praia

Nevil Shute

Nestes tempos de coronavírus, é natural relembrarmos clássicos literários que abordaram o clima pré-apocalíptico de destruição e morte. A Peste, de Camus, logo vem à baila. Aqui mesmo abordei o último romance de Philip Roth, Nemesis, que se situa num EUA, em 1944, açoitado pela poliomielite.

Ontem lembrei de uma leitura da adolescência: On the Beach, de Nevil Shute (curioso, não consigo lembrar do nome em português!). Num cenário de pós-guerra atômica mundial, o hemisfério norte está totalmente destruído. A nuvem radioativa pouco a pouco se estende para os últimos rincões meridionais da terra. A ação se passa em Melbourne, na Austrália, e as noticias de um fim inevitável afetam de forma diversificada a vida das pessoas. Num clima parecido com o do filme Melancolia, de Lars von Trier, uns tentam levar uma vida normal, outros enlouquecem, as crianças tentam entender, os adultos tentam desentender.

Há uma certa tradição de escritos sobre desgraças, epidemias e misérias decorridas da guerra. Lembro de Fome, do prêmio Nobel Knut Hamsun, que me marcou muito em tradução de Carlos Drummond de Andrade, assim como Sadako Quer Viver, da coleção Jovens de Todo o Mundo. Há toda uma biblioteca sobre o holocausto, os pogroms, as guerras coloniais, a peste medieval e até a Aids. São exercícios dolorosos, tentativas de compreender a dimensão da tragédia que ameaça a espécie humana e todo o planeta.

Nevil Shute (1899/1960) era inglês, engenheiro aeronáutico e piloto, e passou os últimos anos da vida na Austrália, escrevendo. On the Beach é seu romance mais famoso, e foi filmado duas vezes. Nunca assisti ou soube de alguma versão em português. Sem grande profundidade psicológica, mas com conhecimento técnico suficiente para descrever um cenário de contaminação progressiva, fez o que tinha que fazer.

A literatura cumpre seu papel. Lembrar, para que não se repita; alertar, para que não erremos; assustar, para que não ousemos trilhar o caminho da destruição. Mas como agir quando, cada vez mais, somos governados por ignorantes eleitos por ignorantes, que jamais tiveram a literatura como referência?

Dárlin fulgidia

Dárlin

A narrativa-correnteza de Airton Paschoa é acidentada. Tropeça em dilemas morais, volteia por desejo e frustração, encaracola-se em presenças e ausências e revela uma beleza tortuosa, como um riacho de montanha engordado por chuva repentina. A tempestade é provocada pelo surgimento de Dárlin na vida do narrador, um homem maduro e casado que vislumbra na jovem Darlene (garota de programa? jovem sem-teto? anjo decaído?) a redenção de sua mediocridade.

Em pouco mais de 60 páginas, a silhueta fulgidia de Dárlin cintila na avenida Paulista, se desvanece na penumbra de um casarão onde casais de respeito praticam swing, se revela num banheiro público, se multiplica numa passeata rumo à Praça da Sé. São 121 passos-capítulos, que formam o mosaico de epigramas, interrogações, poemitos, angústias e sarcasmos desta via-sacra laica.

Inconformista, a escrita de Paschoa não se submete a tendências literárias da moda, mas revela referências universais. A insubmissa Dárlin é uma Nadja tropical, e impõe um clima de surrealismo poético e decadente à confissão embriagada do protagonista. Ao mesmo tempo, a narrativa assume os tons de um realismo alucinado, de uma Traumnovelle brasileira, irisada e sintética. Fugindo do lugar comum, o riacho revolto não morre num pântano de platitudes: permanece em território escarpado, fustigando a imaginação do leitor.

(e-book disponível na Amazon)

INDÚSTRIA AMERICANA, O FILME

American-Factory

Uma fábrica da GM na cidade de Dayton, Ohio, foi desativada, deixando centenas de desempregados. Não é um problema local, mas mundial, certo? Alô, pessoal da Ford de S. Bernardo!

Em 2015, uma indústria chinesa de vidros automotivos assume a planta, e instaura novos métodos de trabalho. A equipe de documentaristas registra todo o processo (Já havia feito um doc antes sobre o último carro fabricado, e veio junto com o pacote comprado pelos chineses).

Em Roma, faça como os romanos”. A citação do novo patrão, num dos discursos iniciais, é um dos elementos do embate entre culturas diferentes, métodos de produção inconciliáveis e posições políticas em transe perante a crescente robotização industrial.

A maior potência do mundo cada vez mais se infiltra na economia da segunda maior potência do mundo. Não apenas compra ações na Bolsa de Nova Iorque, mas fábricas inteiras, bancos e produtoras cinematográficas, entre outros ramos.

O casal de diretores é muito hábil em entrelaçar depoimentos que abarcam vários pontos de vista. A edição é ágil, a fotografia primorosa, trilha sonora perfeita, e tudo isso contribui muito para o resultado. O filme ilustra muitas das teses do historiador Yuval Harari (Homo Deus, 21 Lições para o Século XXI) , sem cair em maniqueísmos.

Não é que não tome partido, atenção! A mensagem é basicamente humanista, alertando para a necessidade de construir um diálogo permanente entre as partes (capital x trabalho, no caso), apontando para a desumanidade de certas escolhas, revelando as contradições de um sistema “perfeito”. Pode não ser a tua ou a minha escolha, mas é merecedora de aplausos pela pertinência da inserção no debate contemporâneo.

Mereceu o Oscar? Sei lá, não vi todos os concorrentes, só o brasileiro Democracia em Vertigem. Que aliás, é muito bom. Há momentos na História em que é necessário ter lado, tomar partido, assumir uma posição. J’accuse, como diria Zola.

Petra Costa fez um filme urgente, necessário, pessoal e também universal, desnudando um golpe contra a democracia. Julia Reichert e Steven Bognar não esconderam que tiveram apoio do casal Obama na produção do filme. Democratas americanos, capitalistas chineses, operários explorados. É o zeitgeist da vez, com o qual temos de lidar.

Noel por Mehmari

Noel Mehmari

André Mehmari é um dos mais respeitados músicos brasileiros. Compositor de mão cheia, tem obras sinfônicas gravadas por várias orquestras, e exercita sua imensa musicalidade gravando com várias formações. Também apaixonado pela música popular brasileira, tem inúmeros trabalhos com parceiros como Célio Barros, Hamilton de Holanda, Ná Ozzetti, Sérgio Santos, Chico Pinheiro, Proveta, Teco Cardoso, Rodolfo Stroeter, Neymar Dias e Sérgio Reze, entre outros.

Mehmari conta que numa noite de outubro de 2019, no seu estúdio na Serra da Cantareira, abriu um songbook do Noel Rosa e gravou 26 canções, em ordem alfabética, com direito a improvisos e variações. Boa parte são composições quase desconhecidas, que ganham uma interpretação meditativa, de acento chopiniano. Aqui e ali topamos com melodias conhecidas,como As Pastorinhas, Conversa de Botequim, Pra Que Mentir e Três Apitos. Mas soam como novidade (pelo menos para mim) peças como Ando Cismado, Cabrocha do Rocha, Dona Araci, Não Digas, Retiro da Saudade ou Estrela da Manhã, que dá nome ao conjunto.

O caráter noturno do álbum, denunciado pela bela capa, se acentua nas faixas mais introspectivas, onde a delicadeza do piano esmiuça a profundeza emocional de certas composições de Noel. É claro que em algumas ele foi responsável só pela letra, não pela música, mas sua personalidade musical parece influenciar a criação dos parceiros, mesmo quando tem o porte de um Vadico, Ismael Silva ou Braguinha.

Jazz? Música de câmara? Samba? Não. Música instrumental brasileira de altíssimo nível para públicos especiais, capazes de absorver todas as nuances cromáticas da obra de um mestre, revisitadas por um artista em estado de graça. Certamente a lua anda tonta, com tamanho esplendor…

(Publicado originalmente em www.revistamusicabrasileira.com.br)

A narrativa rebelde

Mil Homens

Valter Hugo Mãe é um dos mais aclamados autores portugueses contemporâneos. Com vários romances publicados, além de poesias e crônicas, é traduzido em vários países e tem uma relação profícua com o Brasil.

O Filho de Mil Homens, lançado em 2015, retoma alguns temas caros ao autor, e comprova sua capacidade de fabulação. Os personagens são quase arquétipos, mas construídos de forma original, em contextos que subvertem as narrativas convencionais.

Neste aspecto VHM mostra-se um discípulo de Saramago, não apenas pela escrita rebelde, que obedece mais ao fluxo do sentimento que às regras gramaticais, mas pela capacidade de criar personagens quase irreais, sempre banhados de profunda humanidade.

Como não lembrar do Saramago de O Conto da Ilha Desconhecida, ao iniciar a leitura do Filho de Mil Homens? O homem que vai ao rei pedir um barco, no conto de Saramago, transfigura-se num pescador de 40 anos, em VHM, que anseia por um filho.

Não é possível pedir filhos a um rei. Com habilidade, Valter Hugo Mãe insere outros personagens, com dores e ansiedades próprias, que vão entrelaçar suas vidas com a do pescador. Crisóstomo, que quer ter um filho mas não pensa em uma mulher, encontra um órfão, Camilo, que vai apontar para ele a incompletude familiar em que vivem.

Personagens desajustados, como bem aponta Alberto Manguel na contracapa da edição brasileira. Mas que vão compor a delicada tapeçaria de sentimentos que o escritor trama com habilidade . A camponesa ingênua que perde a virgindade e é abandonada pelo noivo prometido, a mãe que se recusa a reconhecer o filho “maricas”, a anã que desconhece o pai de seu filho. Toda a sordidez da humanidade é também ponto de partida para uma possível redenção.

O Filho de Mil Homens pode ser até acusado de pieguice, em alguns momentos. Mas o poder encantatório da escrita de Valter Hugo Mãe é convincente o bastante para arrebatar o leitor ávido por invenção, num mundo em que o realismo banal nos invade cada vez que ligamos a televisão, e é reproduzido de forma monótona em tantos escritos que não almejam mais que serem “retratos verossímeis”. Criticar a realidade pode ser revolucionário.

Marrom, amarelo e magistral

Paulo-Scott_Marrom-e-Amarelo

Outro dia, numa conversa de amigos sobre literatura, confessei minha implicância com finais abertos. Na maioria das vezes, parece que o autor não soube como terminar a história. Fui devidamente esculhambado pelos interlocutores, final fechado é coisa do século XIX, narrativa com começo-meio-e-fim é algo careta, assim como a palavra careta. Felizmente estávamos num bar, e não num simpósio.

Relembrei meus tempos de estudante de cinema, do impacto que me causou assistir filmes de mestres como Antonioni e Fellini com geniais e inovadores finais abertos (nos anos 60!), e de como isso se tornou fórmula simplista nas décadas seguintes, banalizando um recurso que rompia com a narrativa tradicional, mas que logo foi absorvido pelo “sistema”.

Parece ser um estigma das estéticas do século XX do pós-guerra, em todas as artes. Brilharem por algum tempo e depois serem canibalizadas pela incansável e voraz tribo dos diluidores. Efeito perverso da era das comunicações, onde toda novidade é copiada ad nauseam. Não há achado interessante no cinema, por exemplo, que não seja vulgarizado pela publicidade um ano depois. Nas artes plásticas, então, melhor nem comentar. Aspirante a artista de Xiririca da Serra copia o que causou impacto no MoMA no mês anterior, graças à internet.

Todo esse preâmbulo é pra tentar disfarçar o impacto que me causou a leitura do romance Marrom e Amarelo (Alfaguara, 2019), do gaúcho Paulo Scott. Autor premiado e estimado pela crítica, Scott encara o desafio de desenvolver um romance sobre a questão racial brasileira sem parecer panfletário ou sabichão. E manda muito bem!

Lourenço e Federico são irmãos, um mais “marrom”, outro mais “amarelo”, nascidos em Porto Alegre. Federico é o narrador, militante, dirigente de ong, que é convidado a participar em Brasília de um grupo ministerial voltado para a questão das cotas raciais nas universidades. Perto dos 50 anos, fracassado na vida amorosa, relembra momentos cruciais da infância e juventude vividos com o irmão “mais preto”, hoje técnico de basquete da seleção gaúcha.

A narrativa nervosa flui com facilidade, à medida em que novos ingredientes são acrescentados à trama. A sobrinha Roberta é presa numa manifestação estudantil, e Federico retorna a Porto Alegre para ajudar o irmão. O pai, policial aposentado, nunca discutiu racismo dentro de casa. A mãe, idem. O diálogo entre as três gerações não será fácil.

Quase nunca é, independente do tema. Mas Paulo Scott consegue com sabedoria mesclar dilemas familiares, lembranças estudantis, amores erráticos, amizades (e inimizades) que atravessam décadas, orquestrando tudo de forma brilhante. Traçou um retrato atualíssimo dos efeitos do racismo numa família negra de classe média, sem apelar para ancestrais africanos ou rituais de candomblé. O patriarca reza um Pai Nosso antes das refeições, e isso é de uma ironia fina, sem julgamento de valor.

A bela capa reproduz um guache de Sidney Amaral, de 2015. Coragem editorial de abdicar dos elogios habituais propagandísticos de quarta capa, fazendo com que apreciemos o conjunto gráfico. Mais que tudo, um grande romance, admiravelmente bem escrito, contundente e necessário. Apesar do final aberto…


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