A literatura fantástica de Sergio Papi

Sergio Papi construiu sua trajetória como designer gráfico desde os tempos heroicos da imprensa alternativa, nos anos 70/80. Ouviu e anotou muitas histórias, acompanhou episódios tenebrosos, ilustrou e diagramou libelos e diatribes.

Com a reconquista da democracia aflorou o narrador, o contador de causos, o escritor. E em 2020, com o país novamente flertando com a escuridão, publica 99 Histórias (Terra Redonda Editora), onde sua imaginação se esparrama em pequenos contos e crônicas que formam uma intrincada tapeçaria de miçangas de cores variadas.

De origem judaica, como muitos de nós, volta e meia Papi se refere ao Oriente Médio, às questões árabes, à geografia imemorial dos persas. Também mergulha na história do Brasil, na tragédia latino-americana, nas descobertas da Ciência. Isso confere certo sabor borgeano às suas narrativas, que oscilam entre o verossímil e o fantástico. Existe mesmo aquela cidade no Iêmen? Terá ocorrido aquela batalha entre incas e espanhóis? Haverá existido mesmo aquela loja de chocolates no Butantã?

A prosa fluente de Papi às vezes toma a forma de crônica, descrevendo cenários urbanos (geralmente São Paulo), viagens ou sonhos estranhos. O insólito surge com frequência, como se uma porta de outra dimensão se abrisse no concreto cotidiano. O uso constante de termos científicos – seja de química, medicina ou astronomia – confere uma estranheza à qual não falta certa dose de humor. Não por acaso, um de seus orixás inspiradores é o velho Barão de Itararé, de quem reeditou em fac-símile os Três Almanaques, entre 1989 e 1995.

Em outros momentos a narrativa já se configura como conto curto desde o início, criando cenários e personagens, diálogos e situações. Essa mistura de gêneros, cada vez mais característica de nossa época, não pode ser confundida com desleixo formal em 99 Histórias. É resultado evidente de uma vida de muita leitura, de um esforço profissional para traduzir um texto em imagens. Aqui, de forma curiosa, o designer-escritor Sergio Papi muitas vezes parte de uma imagem, real ou imaginária, para transformá-la em texto.

Essa operação inversa nos remete a um dilema cada vez mais presente no oceano de informações virtuais em que estamos submersos. Quando o jornalismo eletrônico encolhe textualmente, optando pela imagem como suporte preferencial, coloca-se em risco todo um edifício cultural construído por séculos de experiência. Voltaremos aos hieróglifos?

É sobre essa estrutura em convulsão que se equilibra a literatura de Sergio Papi. Os 99 textos curtos, publicados anteriormente na internet, traçam um distópico panorama desta época, retratando o Aleph estonteante de informações cuja veracidade é cada vez mais difícil de comprovar. Mas no terreno devidamente sinalizado da ficção, é possível falar de água como se fosse vinho, e transmitir ao leitor a sensação de ter provado algo novo.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda)

Música engajada no século XXI

Há vários conceitos na História que apresentam alterações de significado com o passar do tempo. No campo das artes, é um exercício interessante comparar os ditames do naturalismo literário do século XIX com boa parte da literatura que se pratica no século XXI. O que diferencia um jovem escritor contemporâneo que descreve um mendigo procurando comida no lixo nas calçadas de uma metrópole, e uma cena de Aluísio Azevedo, por exemplo? Filtrando a linguagem da época, a diferença é mínima.

A história do século XX, que é a que ainda mais nos influencia (escrevo esse devaneio em janeiro de 2021), com duas guerras mundiais, ascensão e queda do sonho comunista, emergência de novas potências construídas sobre os alicerces do comunismo (China) e, principalmente, o afloramento político das lutas identitárias que demarcam um novo patamar de percepção política. E, por que não?, estética.

A construção e afirmação do feminismo, do movimento negro (no Ocidente), dos grupos ambientalistas, dos povos indígenas (nas Américas), dos LGBT+, provocou uma boa quantidade de rachaduras no status quo. E gerou uma série de ondas criativas, que vem influenciando gerações.

Quando o rap se tornou um gênero dominante nas rádios e ondas virtuais no início do século XXI, desbancando o rock’n roll que imperava há 50 anos, não pareceu causar grande impacto no mundo acadêmico, jornalístico, literário, teatral, etc. O motivo é simples: os detentores do discurso dominante cresceram ouvindo rock (ou samba, bossa-nova e MPB, no caso brasileiro) e aquilo era “coisa de adolescentes”.

Como sempre ocorre desde a pré-História, os adolescentes cresceram e estão aí, querendo tomar as rédeas do poder. Vivem em um novo mundo, onde o virtual é tão ou mais importante que o real, e que a conexão audiovisual entre grupos antes isolados pode se configurar em um movimento, uma onda, um rolê ou uma rebelião.

Em um pequeno livro* escrito em 1976, o filósofo português José Barata-Moura, de formação marxista, que além de ter sido reitor da Universidade de Lisboa é também compositor e cantor, afirma que “toda canção é política”. Para ele, qualquer produção artística dita alienada ou escapista, seja boa ou ruim (qualidade é outro tema discutível, aliás), “contribui para a organização concreta do viver”, transmitindo ou perpetuando valores que interessam ao sistema. Para ele, o imperialismo exporta música (e cinema, acrescento) que “desempenha um poderoso papel político nos ideais que difunde, nas formas de convívio que patrocina e divulga.” Esse raciocínio aplicado hoje à avalanche de música gospel que invadiu os meios de comunicação, por exemplo, corrobora o papel político destas canções e das igrejas que as promovem.

O rap, ainda que não seja música strictu sensu**, pode ser classificado em grande parte como arte engajada. Critica poderosos, confronta a violência policial, denuncia desigualdades, convoca a união entre pares. No Brasil, muitas vezes aponta para o reconhecimento da raça, da cor negra, as origens afro, embora não se limite a isso.

Hoje é possível ouvir nas redes sociais rap feito por jovens indígenas, cantado em língua nativa. De jovens nascidas na periferia, reivindicando o direito ao corpo. Ou canções pop de artistas defendendo a causa LGBT+. Ou libelos musicais em defesa da natureza, punks atacando o capitalismo predatório, folk singers alertando para os efeitos do aquecimento global ou bandas de garagem lançando invectivas a governos autoritários.

Esse cadinho efervescente de elementos sociais se decanta em novas formas de canção de protesto, de arte engajada, de slogans de guerra. Podem ser denúncia social, propaganda política, hino identitário ou gritos de alerta, sintomas de um mundo em desequilíbrio. Podem embalar passeatas, agregar manos e manas, cutucar valores estabelecidos, defender minorias ou atacar os detentores do poder.

Perante este cenário, só quem não enxerga o próprio tempo pode classificar a música engajada como um fenômeno datado, reminiscência do século XX, que no Brasil costuma ser identificada com a era dos festivais e nomes como Vandré, Taiguara, Chico Buarque, Sérgio Ricardo, Gilberto Gil, Violeta Parra, Victor Jara, Inti-Illimani, Pete Seeger, Bob Dylan, Joan Baez, John Lennon, Lluís Llach, Zeca Afonso e outros tantos.

O grande diferencial é que a música engajada e, por extensão, a arte engajada, sempre houve e sempre haverá enquanto formos humanos. Censurar isso é que vai contra a correnteza da História. Viva Chico César!

* Estética da Canção Política – alguns problemas. Livros Horizonte, 1977.

**Rap, do inglês Rhythm and Poetry, ritmo e poesia. Música, além destes dois elementos, incorpora a melodia como elemento essencial. É interessante como astros do rap brasileiro, como Criolo ou Emicida, buscam aproximações e mesclas com a música popular, especialmente o samba, expandindo as limitações do gênero.

(publicado originalmente em www.aterraeredonda.com.br)

Arte engajada no século XXI

Recentemente o cantor e compositor Chico César provocou polêmica nas redes sociais ao responder de forma surpreendente a um fã que pediu que ele evitasse as canções de “cunho político-ideológico”: “Tu és muito maior que eles todos. Tu não deves nada a eles. Eles que te devem. Tuas mãos são limpas. Não as coloque no fogo por nenhum deles”.

O ouvinte reavivava, talvez sem perceber, uma velha polêmica no meio artístico que rebrotou após a Revolução Soviética e se ramificou por todo o século XX. As obras militantes de poetas como Maiakovski, de cineastas como Eisentein, e inúmeros escritores, dramaturgos e artistas plásticos em todo o mundo, que de alguma forma se identificavam com o sonho comunista, provocaram uma reação conservadora, que buscou de várias formas classificar a arte engajada como algo menor, uma coisa impura, contaminada por ideologia.

Claro que a arte engajada não é uma invenção do século XX. Criticar sistemas políticos, ridicularizar os poderosos e colocar em cena conflitos sociais está na origem do teatro grego, seja em forma de comédia ou tragédia. Para um autor como Benoit Denis (Literatura e Engajamento – De Pascal a Sartre), nem toda literatura que aborde questões sociais é necessariamente engajada, senão quase tudo que foi escrito, de alguma forma, conteria elementos de engajamento político.

Os franceses, aliás, debruçaram-se profundamente sobre o tema no pós-guerra. Com antecessores tão seminais como Émile Zola (J’accuse), é natural que a influência das questões sociais nas artes fosse um dos temas prediletos de autores como Sartre ou Camus (que, aliás, discordavam).

Aqui no Brasil obras engajadas de autores como Jorge Amado ou Graciliano Ramos costumam ser colocadas no mesmo saco pelo pensamento conservador. Críticos mais conscientes, como Antonio Candido, estabelecem outro tipo de juízo, com fundamentos estéticos bem definidos, que apontam porque a obra dita “engajada” de Amado é mais fraca, mas – atenção – não por ser política. No entanto, quase toda a obra do escritor baiano, é atravessada pelo registro das questões sociais, das diferenças de classe, do registro agudo das desigualdades. Como, em outro patamar, faz Graciliano.

O espírito sarcástico de um Lima Barreto pode ser encaixado no rótulo “literatura engajada”, assim como o Quinze, de Rachel de Queiroz, mesmo não sendo obras de propaganda política. Assim como toda a dramaturgia de Plínio Marcos, certa poesia de Drummond e Vinicius, o cinema de Glauber Rocha, a pintura de João Câmara. Estão entre os pontos altos da arte brasileira, sem abrirem mão do inconformismo.

Mas voltemos a Chico César. Sua resposta ao fã inconformado merece ser lida na íntegra:

“Por favor, todas as minhas canções são de cunho político-ideológico!! Não me peça um absurdo desse, não me peça para silenciar, não me peça pra morrer calado. Não é por ‘eles’. É por mim, meu espírito pede isso. E está no comando. Respeite, ou saia. Não veja, não escute. Não tente controlar o vento. Não pense que a fúria da luta contra as opressões pode ser controlada. Eu sou parte dessa fúria. Não sou seu entretenimento, sou o fio da espada da história feito música no pescoço dos fascistas. E dos neutros. Não conte comigo para niná-lo. Não vim botar você pra dormir, aqui estou para acordar os dormentes”.

A resposta do paraibano é um verdadeiro libelo em favor da arte engajada, com alta voltagem poética. Recoloca um debate que andava amortecido na música brasileira desde os anos 60, e que ressurge num contexto político que cada vez mais lembra o período da ditadura. Novamente o país é dirigido por militares, que tentam sufocar a cultura, as artes, e qualquer forma de discurso libertário.  

Num cenário opressor e obscurantista, artistas tendem a reaquecer o discurso crítico, denunciar os desmandos e apontar para caminhos radicais. Se a humanidade vivesse num paraíso idílico, certamente não haveria arte engajada. Protestar para que? (O que não impediria que houvesse arte de alto nível, certamente, mas com temática bem limitada). Costumo lembrar de que no mesmo disco de Chico Buarque, de 1971, há duas obras-primas que serviriam de argumento para progressistas e conservadores: Construção (com o final raivoso de Deus lhe Pague) e Valsinha. Quem é craque sabe jogar em várias posições!

Este sentimento de indignação, de inconformismo, não se limita à música popular. Voltando à literatura e ao nosso século, em livro lançado no final do ano passado, (Alguém Vai Ter que Pagar Por Isso, Ed. Faria e Silva, 2020), o escritor Luís Pimentel monta um romance fragmentado, com elementos de crônica e ficção, onde remonta a tragédia da violência policial-miliciana carioca. Enfocando a camada mais espezinhada da população, Pimentel traça pequenos retratos de gente destinada à miséria e ao anonimato, resgatadas aqui pela arte. Ora remete a João Antônio, ora a Rubem Fonseca (não será o título uma lembrança d’O Cobrador?), mas com dicção própria, onde a contundência documental de certos episódios não diminui o alcance poético-ficcional de outros. E muitas vezes estas visões estão mescladas, como ocorre nas obras dos grandes mestres.

Escritor prolífico, com obras publicadas em diversos gêneros (contos, poesia, crônica, infanto-juvenil), Pimentel incorpora nessa obra o espírito de indignação criativa de Chico César. Promove uma bem urdida mistura de engajamento crítico, literatura de denúncia e ficção consciente, pero sin perder la ternura jamás. Um grande pequeno livro (118 páginas), destinado a ser referência de uma época prenhe de injustiças, onde, apesar de tudo, a beleza ainda não foi erradicada.

(Publicado originalmente em www.aterraeredonda.com.br)

Chavão abre porta grande

O título desse artigo é um verso escrito pelo genial compositor Itamar Assumpção, e gravado no disco Sampa Midnight – Isto Não Vai Ficar Assim, de 1986. Se figurasse num pagode qualquer, ou num sucesso sertanejo, seria apenas um trocadilho raso. Mas vindo de um artista que sempre recusou o lugar comum, procurando uma estética própria e fora das regras de mercado, ganha profundidade insuspeita.

Não é preciso ser doutor em linguística para constatar a pobreza literária e semiótica da música feita atualmente “pra tocar no rádio”. Não é um fenômeno brasileiro, mas mundial, uma vez que a mídia cada vez mais uniformiza gostos e hábitos de consumo. Mas no Brasil a indigência contrasta com a exuberância de um passado recente: há poucas décadas as letras de música disputavam com mais refinada poesia a melhor tradução de sentimentos, atitudes, dores e alegrias do povo brasileiro. Os gigantes que semearam a moderna MPB, somados aos mestres inquietos que, de norte a sul, do baião à milonga, da toada ao samba de roda, nos surpreendiam com achados verbais, imagens inusitadas e rimas de cortar os cabelos e arrepiar o coração, estão cada vez mais afastados do grande público, sendo cultuados em nichos cada vez mais restritos.

Por trás do verso de Itamar está sua própria trajetória artística. Compositor fora dos padrões, “maldito”, como se dizia na época, não se enquadrava. Fizesse uma canção com refrão fácil, que todos ouvissem no rádio e cantassem, era o pedido das gravadoras. Um samba, por que não?, afinal não era negro? O chavão iria abrir portas grandes, certamente: emissoras de rádio e TV, programas de auditório, paradas de sucesso.

Mas Itamar Assumpção era de outra cepa, e resistiu. Criador de inspiração desconcertante, irônico e atilado, a massa certamente não comerá o biscoito fino que fabricou. Mas sua intuição certeira acabou por nos fornecer um slogan perfeito para a época em que vivemos, de diluição completa de estéticas e experimentações.

Tomemos o discurso político, por exemplo. Não há definição mais perfeita, nas eleições que acabamos de presenciar, do que “chavão abre porta grande”. O discurso criativo, o uso inteligente do humor, a vontade de abrir novos caminhos, a investida contra valores arraigados, foram derrotados. Onde a esquerda ganhou foi com políticos experientes, escorados num discurso já conhecido (*). Não é pouco, no país do bolsonarismo de matizes fascistas, mas mostra o quanto ainda falta para que uma renovação de fato se solidifique no discurso político.

Nas artes plásticas, na arquitetura, no cinema ou na música, o axioma de Itamar Assumpção continua válido. O chavão continua abrindo portas grandes, seja de gravadoras, editoras, emissoras, corporações multinacionais ou palácios do governo. 

Um dos grandes embates do século XXI é este confronto entre a invenção e a reprodução de modelos. Não sabemos se nosso futuro será desenhado por algoritmos, calcados em estatísticas e invasão de privacidade, ou ainda estará sujeito a alterações provocadas pela vontade criadora de alguns poucos.

Enquanto isso, lutemos para que os verdadeiros inovadores do discurso possam ser ouvidos pelas futuras gerações. De Itamar Assumpção a Greta Thunberg, de Luiz Melodia a Guilherme Boulos, temos vários exemplos de que a linguagem não caminha separada das ideias, como diziam os velhos Marx e Engels. Aliás, jovens revolucionários, em sua época.

(*) Obviamente o resultado eleitoral não resultou apenas do grau de modernidade do discurso. O poder econômico, a manipulação midiática e o conservadorismo de base religiosa ainda são fatores preponderantes no cenário eleitoral brasileiro.

(Publicado originalmente em http://www.aterraeredonda.com.br)

O labirinto azul de Ana Lee

O novo disco da cantora paulista Ana Lee traz um conjunto de canções saturadas de profunda beleza. A viagem musical proposta é pelas águas, doces ou salgadas, e isso marca toda a experiência da audição, mesmo quando não há referência explícita na letra.

Os músicos e arranjadores são de primeira linha, e traduziram muito bem a musicalidade líquida das melodias. Ora são pontuadas pelos teclados de Lincoln Antonio, ora pelos clarones de Itamar Vidal, sempre bem temperados pelos violões de Bráu Mendonça, Ozias Stafuzza e Lula Gama e o baixo luxuoso de Swami Júnior. Belo time, que contribui também com algumas das composições originais.

Desde a faixa de abertura, Toada (Cássio Gava/ Zeca Baleiro) onde Ana Lee divide os vocais com Baleiro, somos envolvidos pela refinada sonoridade do disco. Bem pontuado pelo violoncelo de Mário Manga, o delicado arranjo acústico dá o tom também da faixa seguinte, Xote da Navegação, dos gigantes Chico Buarque e Dominguinhos. Fagote e clarone acentuam a melancolia da canção.

O celo de Manga volta a brilhar na faixa seguinte, Castelo, de Mario Montault. A percussão de André Magalhães e Ricardo Stuani, presentes em todo o disco, fica mais evidenciada. Na sequência, uma releitura de A Página do Relâmpago Elétrico revigora a conhecida canção de Beto Guedes, com um leve sintetizador sobre base acústica. Mané Silveira contribui com seu sax e com o arranjo feito a quatro mãos com Itamar Vidal.

Uma ciranda de Ozias Stafuzza retoma uma linha cara à cantora, de experimentar novas leituras dos ritmos populares brasileiros. É o caso do Jongo Tradição I, pleno de ecos ancestrais, e do gostoso samba Lagoa Funda. Uma leitura intimista de Meia Noite, de Chico e Edu Lobo, demonstra que revisitar o tesouro da música popular brasileira também pode ser uma viagem contemporânea.

Ana mostra seu lado compositora ao cantar um poema de Emily Dickinson (Loucas Noites), e se sai bem. Versos de Maria Rita Kehl (O Amor É Uma Droga Pesada) são musicados de forma surpreendente por Antonio Herci, com uma construção que remete a ritmos tribais, reforçada pelo arranjo percussivo. E que beleza a canção que dá nome ao CD! Uma joia de Lincoln Antonio e Walter Garcia, de intervalos inesperados e angulosa beleza.

Em Labirinto Azul nenhuma canção se parece com a anterior, os arranjos não se repetem, e a invenção poética está presente disputando os holofotes com o alto nível musical. O conjunto de composições, de arranjos e de interpretações comprova a maturidade artística de Ana Lee. Um grande disco, para iluminar este conturbado ano de 2020.

(Publicado originalmente na http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

Cantar é preciso

Fiz essa foto no Parque da Água Branca, em São Paulo, num sábado de primavera. Fui abastecer a despensa na Feira da Reforma Agrária, e aproveitar para ouvir umas violas, aplaudir umas danças, apreciar o artesanato e conversar com gente de todo o país.

Não gente comum, mas a brava gente do MST: agricultores e agricultoras, assentados e organizados em cooperativas, cozinheiros, artesãos, dançantes e brincantes de colorida diversidade. Saudade destas feiras, hoje suspensas por causa da pandemia que desgraça nosso povo e expõe a omissão criminosa de tantos governantes.

Depois de perambular por quase duas horas, mãos carregadas de sacolas, já batia em retirada quando topei com um grupo informal de jovens que cantava. Não no palco oficial, não com microfones e amplificadores, mas no chão, no meio do povo. Coisa forte, bonita de se ver e ouvir.

Mais que nunca é preciso cantar, escreveu Vinicius nos anos 60. Cantar é preciso? Como, se viver não é preciso? Talvez porque cantar seja como navegar por outras esferas, e chegar a porto seguro requeira ensaio, treino, direção. Mas cantar de forma espontânea também pode ser lindo, e ver aquele grupo de jovens cantando como quem tem um novo mundo a construir foi um alento. Saí do parque cantando baixinho, remontando os escombros do velho mundo a que pertenço.

(São Paulo, SP, outubro de 2015.) 

O elogio da burrice

Assistir à série O Gambito da Rainha pode deixar quem tem mais de quarenta anos um tanto melancólico. Trata-se da a história de uma garota que, no final dos anos 50 e década de 60, se destaca no xadrez, vencendo campeonatos importantes nos EUA e indo disputar torneios na Europa. A hegemonia da época era dos russos, considerados imbatíveis. A juventude dos anos 60 se interessava pelo jogo, sabia o nome dos campeões mundiais, jornais e TVs relatavam as finais eletrizantes. Meio mundo acompanhou o match Fischer x Spassky, em 1972, com o cenário da Guerra Fria por trás. Aliás, havia coluna de xadrez nos jornais, e até revistas especializadas, como bem ilustra a série.

Saltemos para 2020. Os jovens de hoje acompanham e sabem os nomes de lutadores de MMA, aquela imbecilidade que alguém já definiu como dois homens de cueca se agarrando dentro de um galinheiro. Desapareceram as colunas de xadrez, e até mesmo as palavras cruzadas.

Claro, gostávamos (e aqui me incluo) também de esportes, Olimpíadas, futebol tricampeão, São Silvestre, vôlei e até boxe. Alguém sabe quem é o campeão mundial de boxe hoje? Nos anos 60-70-80 todos sabiam. Mesmo sendo um esporte bruto, os homens vestiam luvas de couro estofadas para não ferir o rosto do opositor. E tínhamos Muhammad Ali, campeão inconformado, símbolo de resistência negra ao sistema. Quem é contra o status quo no UFC? Aliás, há algum jogador de futebol rebelde e politizado hoje, no Brasil? Só a jogadora de vôlei Carol Solberg esboça um solitário protesto, e será “cancelada” pela ditadura midiática por um largo tempo.

Não, a juventude de hoje não é culpada por não saber dessas coisas. É a mídia globalizada, aliada a interesses econômicos e políticos, que passou a definir os gostos e escolhas. Fez sumir o xadrez, as palavras cruzadas e desidratou os cadernos literários dos jornais. A imprensa atual é como um supermercado pobre, de um cafundó qualquer perdido no mundo, que só oferece uma marca de macarrão nas prateleiras. O consumidor sobrevive achando que só existe aquilo.

O esquema midiático contemporâneo guindou às manchetes o que, no século XX, era considerado o esgoto do jornalismo: a fofoca sobre a vida íntima de artistas e personalidades, a exaltação do físico em detrimento do intelecto, a manipulação de dados, a despolitização, a propaganda descarada dos interesses financeiros. Abra o portal de qualquer um dos maiores veículos da mídia contemporânea (G1, Uol, et caterva) e meça o espaço destinado à cultura, ao debate de ideias, à discussão dos problemas reais da nação, comparando com o espaço destinado à fofoca, aos vídeos idiotas, aos crimes mais banais. Há até colunas que se dedicam a comentar programas execráveis como BBB e A Fazenda, reality shows que fariam os criadores da televisão morrerem de vergonha, se é que tiveram alguma.

Nas faculdades de comunicação do século XX havia matérias como Deontologia e Ética. Parece que desapareceram nos cursos atuais. Perdeu-se algo no caminho, e isso é mais um dos sintomas da grave doença que acomete o jornalismo atual. Gerações sendo (de)formadas pela mídia mais mercenária, cultivando o individualismo, a arrogância e o desprezo por causas sociais. O (ou a) jornalista sai da faculdade sem saber quem foi John Reed, mas sonha em cobrir um desfile de moda ou festival de música com direito a lanche grátis.

O estrago é mundial, e não há como dissociar isso do avanço do conservadorismo, do totalitarismo, do fanatismo religioso no século XXI. No Brasil, o projeto de renovar os meios de comunicação do país, animado pelo avanço democrático da era Lula, foi enterrado junto com as conclusões da Conferência Nacional de Comunicação, em 2009. Depois de mobilizar dezenas de entidades, sindicatos, associações, universidades, patrões e empregados, engavetaram as indicações que iriam atualizar um marco regulatório vigente desde 1962. É esse que continua em vigor, em pleno ano de 2020, mantendo os privilégios da velha e oligárquica imprensa monopolista, colonizada e vil.

Entre outros pontos, a Confecom propunha cotas regionais de produção audiovisual, respeito à diversidade, direito de resposta, fim da propriedade cruzada de veículos (como nos EUA), criação de canais audiovisuais municipais, estaduais e federais com verba pública geridas por conselhos comunitários. Considerando que haverá eleições presidenciais em 2022, não seria o caso de recolocar, desde já, este tema na pauta de todos os candidatos de esquerda? A palavra de ordem já existe faz tempo: democratização dos meios de comunicação, já!

Ilustração: Sofonisba Anguissola (1532-1625).

O varal

Essa foto foi feita na pequena vila de Suruacá, na margem esquerda do rio Tapajós, dentro da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. Estive lá registrando o trabalho fantástico da Saúde e Alegria, organização não-governamental premiada internacionalmente que atua desde 1987 na região.

Todos reunidos na inauguração do primeiro telecentro movido a energia solar, festa, confraternização, lanche comunitário. Na volta, esperando o barco, andei por alguns minutos pela beira do rio, preocupado com tempestade que se anunciava, e topei com esse varal.

A foto em preto e branco acentuaria a dramaticidade do céu carregado, mas o colar colorido sobre a paisagem se perderia. Por sorte, uma figura humana solitária pontua o cenário, e dá uma ideia de proporção perante o majestoso Tapajós.

A vegetação em primeiro plano atesta a proximidade da água doce, e a areia branca que se esparrama a perder de vista é orgulho de toda a população ribeirinha. Ali perto, uma hora de barco a jusante, está Alter do Chão. São as praias mais famosas da Amazônia, cantadas em prosa e verso.

Mas o verso que me ocorreu naquele momento foi escrito pelo carioca Orestes Barbosa, na inesquecível canção Chão de Estrelas: “festa de nossos trapos coloridos”.  No cenário, onde esperava encontrar apenas o branco, o cinza e o azul, com alguma coisa de verde, os pedacinhos multicores alinhados impuseram uma nova hierarquia do olhar. A pequena comunidade, integrada à natureza há várias gerações, vivendo de pesca e borracha, talvez não saiba, mas escreveu poesia na paisagem.

O retratista

O fotógrafo retrata um retratista, que retrata dois jovens irmãos. A princípio, uma cena banal, apenas curiosa, das ruas de Montmartre. Ou de qualquer lugar turístico do mundo. Mas, revendo a imagem alguns anos depois, uma curiosa rede de relações e significados se estabelece em minha mente. A menina olha, altiva, para o desenhista. O retrato da menina, esboçado pelo retratista, olha para o fotógrafo, ou seja, eu. Ou seja, nós.Uma ilusão especular, que propõe uma triangulação interessante de olhares. Tridimensional seria um adjetivo adequado, se não fosse tão sequestrado pela indústria digital foto-cinematográfica para um uso unidimensional. A menina hoje é uma mulher, e talvez gostasse de ver essa foto. O menino está entediado, quer acabar logo com aquela chatice. Eles não sabem que passaram a fazer parte do meu repertório de lembranças. É verão, nota-se pelo vestuário. No alto, à esquerda, dois pés calçados de tênis poluem a foto. Mas podem ser vistos, por uma perspectiva de composição renascentista, como a ocupação de um espaço vazio. A foto amadora, feita com uma câmera compacta, ficaria melhor se aparecessem apenas os paralelepípedos? Não há referência de horizonte, mas um poste no alto à direita está obviamente fora da vertical. Isso é compensado pela forte linha do braço, da perna e da prancheta do desenhista, que puxa tudo para o lado oposto, compensando até a postura dos retratados.A menina tem os cabelos soltos. O homem prende, por contingência profissional. Não dá pra desenhar com o cabelo caindo na cara. A camisa escura, talvez preta, dos retratados, contrasta fortemente com a brancura do papel e da camiseta regata do retratista, e dão certa graça à imagem. A calça escura que ele veste, novamente, reequilibra as tonalidades.Objetos estranhos provocam ruído nas bordas da imagem, e acentuam sua amadora imperfeição. E um elemento misterioso, à direita da prancheta, quase no centro da foto, atiça a curiosidade. Demorei anos pra notar aquilo. Você percebeu?

(Foto:Daniel Brazil. Paris, 2009)

Zuza, o homem e seu tempo

Este ano tão cruel levou embora no dia 4 de outubro uma das pessoas mais queridas do meio musical brasileiro: o produtor musical, engenheiro de som, crítico, organizador de festivais, historiador e jornalista Zuza Homem de Melo.

Sua biografia resumida está disponível na internet:  jovem interessado em música, que começou a tocar contrabaixo nos anos 50, viajou para os Estados Unidos, estudou e passou a escrever artigos sobre jazz e música popular. A partir de 1959 trabalha na TV Record, e torna-se figura central da organização do que ele chamou mais tarde, em um de seus livros mais conhecidos, de A Era dos Festivais (Editora 34, 2003). Nas décadas seguintes, foi curador de festivais de jazz e MPB, produziu discos e shows, apresentou programas de TV (Jazz Brasil, na TV Cultura), teve programas de rádio, escreveu livros essenciais para conhecer a música popular de nosso tempo.

Fugindo da frieza acadêmica, do mero alinhamento de fatos e nomes, Zuza não tinha vergonha de se colocar como testemunha ocular (e auditiva) dos fatos que narrava. Aliás, fazia isso com a elegância discreta que sempre caracterizou sua atuação nos bastidores. Estimulando novos valores, orientando artistas consagrados, procurando abrir espaços de renovação da música, sem perder em nenhum momento a noção da importância histórica, cultural e artística dos fatos que relatava.

Deixou tantas obras essenciais que fica difícil escolher a mais representativa. A Canção no Tempo (co-autoria com Jairo Severiano), Eis Aqui os Bossa Nova, Música com Z (coletânea de artigos), Música Popular Brasileira Cantada e Contada.

Antes de morrer, aos 87 anos, acabara de colocar o ponto final em sua biografia de João Gilberto. Seu último livro publicado foi Copacabana – a trajetória do samba-canção (1929-1958), coedição da Editora 34 com o Sesc, de 2017. É sobre ele que vamos nos deter um pouco mais, atentos à lição do mestre.

A obra começa com uma saborosa contextualização do Rio de Janeiro dos anos 50, sob a ótica de um “paulistano no Rio” (título do primeiro capítulo). Zuza fala da chegada à Capital Federal, da dissonância entre zona Norte e zona Sul, do túnel do Leme, do ambiente social da época, da moda, dos cinemas, das boates, dos hormônios em ebulição. Descrito o cenário e dado o clima, descreve a passagem do samba dos teatros de revista do Centro para as boates chiques de Copacabana, tornando-se mais intimista e amaciando o batuque, absorvendo influências norte-americanas (foxtrote) e latinas (bolero).

À medida em que descreve o processo, Zuza interpola os protagonistas da história: compositores e intérpretes que construíram a textura sonora do gênero. Com farta iconografia, que abrange retratos, capas de discos, registro de shows e festas, programas, jornais, partituras e até cardápios, somos envolvidos e até convidados a cantarolar as canções que são citadas.

Em mais de 500 páginas, Zuza Homem de Mello consegue o admirável feito de dosar com sabedoria as suas preferências pessoais, sem escondê-las, e municiar o leitor de todas as informações necessárias para compreender o sentido da expressão samba-canção.  De Ary Barroso a Chico Buarque, de Lupicínio a Cartola, de Aracy Cortes a Maysa,  passando por Noel, Adelino Moreira, Nelson Gonçalves, Braguinha, Dick Farney, Cauby Peixoto, Ângela Maria, Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Dolores Duran, Tom Jobim, Dalva de Oliveira, Herivelto e tantos outros, a vontade é de parar a leitura a cada página para ouvir as canções citadas. E Zuza generosamente compila as gravações citadas, em apêndice precioso no final do livro.

O autor confessa, no prefácio, ter demorado quase 13 anos para escrever o livro. Outros trabalhos surgiram, livros foram encomendados e publicados, shows foram produzidos. Mas para ele, “o que se criou nos anos 1950 foi determinante para dar ao Brasil o reconhecimento de sua canção como destacada forma de arte na gênese da música popular. Ao primeiro sinal de seu toque rítmico e melódico, o pensamento voa evocando a saudade da terra, reconhecendo o talento musical e distinguindo o afeto do brasileiro comum.”

Do samba-canção surge a bossa-nova, e nos anos 60 tudo se precipita, se mistura e se reconfigura, sem perder a herança genética. E Zuza Homem de Mello, sempre atento aos novos sinais que surgiam em plena era dos festivais, nunca deixou de apontar a importância dos gêneros matriciais da moderna música popular brasileira. Com entusiasmo de garoto e sabedoria de quem viveu intensamente, tornou-se um dos autores fundamentais para entender e amar o que de melhor a cultura brasileira produziu: a nossa música.

(Publicado originalmente na http://www.revistamusicabrasileira.com.br)


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