Arquivo para maio \27\UTC 2019

Conversa íntima e pública

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Foi na metrópole moderna, seus conflitos, o ruído do progresso e a pressa desenfreada, subprodutos do modo de viver que os grandes aglomerados urbanos instituíram, que (a crônica) encontrou seu espaço privilegiado (…)”

O erudito prefácio de Edmar Monteiro Filho à Conversa Comigo (Penalux, 2019) situa com precisão o terreno por onde transita o cronista: a relação tumultuada do indivíduo com a urbe. Nesse caso, a cidade é São Paulo, e o autor o consagrado (na literatura infanto-juvenil) Ricardo Ramos Filho.

O título do volume oculta uma engenhosa artimanha, da qual só nos damos conta lá pelas tantas páginas. A primeira crônica, que batiza o livro, mostra um diálogo entre um casal num automóvel. A necessidade de conversar surge em todo relacionamento, e imersos no trânsito caótico, pode ser quase um pedido de socorro. Não à toa, muitas das crônicas se passam no meio do trânsito, com o mundo passando pelas janelas como um ciclorama.

O autor passeia pelas ruas, anda de metrô com o ouvido atento, espia vitrines com olhos cobiçosos, sobe e e desce ladeiras, faz compras em supermercados, apaixona-se por um quadro abandonado na calçada, toma café na padaria da esquina. Presta atenção ao mundo, às pessoas, a tudo que possa ganhar um novo significado através da palavra escrita. Missão primeira de qualquer cronista inteligente. 

Mas Conversa Comigo também pode ser interpretado como “conversa consigo próprio”. Eu entabulo uma conversa comigo. E Ricardo Ramos Filho se torna confessional, expõe manias e ranhetices, se desnuda aos olhos do público, relembra episódios familiares, sem nunca perder o senso de humor. Algumas páginas depois volta lampeiro à observação do cotidiano, certo de ter fisgado nossa atenção da forma mais honesta possível: se revelando. “Talvez a gente apenas queira ser ouvido, não procure diálogos”, constata, numa crônica sobre donos de animais de estimação.

É nesse jogo de luzes, ora focando a calçada cinzenta e suja de cocô, ora iluminando os recantos do coração onde moram os afetos, que o conjunto de crônicas acaba nos cativando. O escritor premiado, o militante das letras, o incentivador de novos autores, o onipresente em lançamentos literários Ricardo Ramos Filho, torcedor do Santos (ninguém é perfeito!), calça as chuteiras, ergue o meião e entra no jogo em um campo onde pululam mestres: o território da crônica. E, nas primeiras jogadas, mostra que veio pra ganhar aplausos da torcida. Que venha o tao esperado romance, anunciado numa das últimas crônicas do volume!

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Obsessões masculinas

As louras

O conto, essa inexaurível forma literária, continua incomodando. O século XX assistiu à consagração de mestres, à multiplicação de autores, à renovação proposta por iconoclastas, à incorporação de novas estéticas, às reduções e esgarçamentos da linguagem. Neste século XXI algumas formulas se esgotaram, e aguns paradigmas são retomados, com maior ou menor sucesso. A linguagem urgente dos canais virtuais aproximou o conto da crônica, do relato pessoal, da fábula e da epígrafe.

Mesmo com a visibilidade fantasmagórica de zilhões de bits, o conto ainda encontra espaço no formato-livro. Basta uma rápida espiada nos títulos lançados no último ano para constatar que a história curta continua rivalizando com o romance na cabeceira dos leitores. E é apostando nesse público que autores novatos e veteranos ainda investem papel e tinta na empreitada.

As Louras da Minha Vida (Bandeirola, 2018) é o nome do volume de contos do estreante Fernando Neves. Jornalista de formação, tem escrita fluente e não perde tempo com metáforas ou descrições de cenários. Seu foco são os personagens, suas tensões internas, devaneios e frustrações. Sob uma ótica masculina, ora predadora, ora desiludida, e quase sempre em primeira pessoa, assistimos a um desfile arquetípico de situações onde a mulher é objeto de desejo. Algumas vezes, apenas objeto.

Neves faz parte da geração que se identificou com autores como Charles Bukowski, no final do século XX. Suas narrativas alternam momentos de fantasia e realismo, com protagonistas obcecados por sexo e torturados por contradições. Os contos que abrem e encerram a coletânea tem protagonistas femininas, uma sutil tentativa de matizar o universo machista dos outros onze contos do livro. Mesmo assim, são mulheres que se martirizam por causa do amor (ou da falta) de um homem.

O estilo varia, evidenciando que são contos escritos em várias épocas. Coisa natural, aliás, num livro de estreia. Fernando Neves demonstra domínio narrativo, imaginação e capacidade de nos surpreender, provocando reflexões. Ampliará o leque temático nos próximos trabalhos ou se aprofundará de forma obsessiva nas louras de sua vida?


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