Arquivo para fevereiro \21\UTC 2017

A crônica militante de Lima Barreto

cronica-militante

Embora seja reconhecido como um dos grandes escritores brasileiros, podemos afirmar que boa parte da obra de Afonso Henriques de Lima Barreto não está ao alcance do leitor contemporâneo. Por este motivo, a publicação do volume A Crônica Militante (Expressão Popular, 2016) merece aplausos e uma ampla divulgação.

            É claro que nos “tempos sombrios” em que vivemos (como bem definiu Raduan Nassar), não podemos contar com a chamada grande imprensa para isso. O pacto político-judicial-midiático que depôs um governo legitimamente eleito não pode ver com bons olhos os textos de um escritor anarco-socialista que denuncia as mazelas do capitalismo, mesmo que tenham sido escritos há quase um século.

            Antes de morrer, em 1922, Lima Barreto deixou pronto um volume (Bagatelas), enfeixando crônicas publicadas em várias publicações cariocas.  O escritor era crítico ferrenho da mídia oficial e chapa-branca, manifestando preferência por publicações marginais e independentes, anarquistas ou satíricas. Destas, a mais famosa foi a revista Careta, onde o autor de O Homem Que Sabia Javanês publicou sob diversos pseudônimos, a partir de 1915.

            Grande parte dos artigos desta coletânea foi escrita durante e após a Primeira Guerra Mundial (1914/1918), e analisa um mundo em convulsão social e política. Barreto escreve contra o racismo, defende a Revolução Russa, critica o imperialismo americano, ironiza os governantes da ocasião, deplora os assassinatos por “honra”, ataca o formalismo acadêmico na imprensa de seu tempo.

            De fato, em termos de linguagem, Lima Barreto é um precursor do Modernismo. Sua escrita é direta, muitas vezes irônica, embora pareça pedante a leitores do século XXI a quantidade de citações em francês ou latim de que lança mão. É como se o escritor, mulato, pobre e sem títulos, visto com certa desconfiança por sua militância política (e pelo alcoolismo contumaz), se sentisse na obrigação de “deitar cultura”, demonstrar erudição.

            Os organizadores da coletânea (Claudia de Arruda Campos, Enid Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e Zenir Campos Reis) foram felizes em incluir um esclarecedor ensaio de Astrojildo Pereira, publicado na 2ª edição de Bagatelas. Fundador do Partido Comunista Brasileiro, em 1922, o intelectual ressalta que Lima Barreto não era marxista, nem mesmo tinha uma formação ortodoxa, mas era um humanista eclético que escrevia com “aguda intuição”.

         Incomoda apenas, na presente edição, o excesso de notas de rodapé primárias, que fazem o interessado interromper a leitura para ver se há algum significado especial, retomando a leitura irritado com a obviedade. Rodapé pra explicar o que é missa campal, galhofa, recluso, bretão ou imaculado, convenhamos, é fazer pouco da inteligência de qualquer um. Pra compensar, há no final um “elenco de nomes, títulos e lugares” de real valor, contextualizando vários ]personagens e locais citados nas crônicas.

            Reler e conhecer de forma mais profunda a obra e o pensamento de Lima Barreto é imprescindível. Homenageado na Flip-2017, o autor de personagens inesquecíveis como Policarpo Quaresma surpreende, em vários sentidos. Desde sua folclórica aversão ao futebol (que considerava uma imitação patética dos ingleses) até a incômoda atualidade de algumas afirmações, como a que emite após participar de um julgamento,  de que  “A massa dos jurados é de uma mediocridade intelectual pasmosa, mas isto não depõe contra o júri, pois nós sabemos de que força mental são a maioria dos nossos juízes togados.”

              Em vários momentos, soa profético: “  A crença no todo poderio do dinheiro, que entre nós se apossou primeiramente de São Paulo (…), vai avassalando todo o Brasil, matando as nossas boas qualidades de desprendimento, de doçura e generosidade, de modéstia nos gostos e nos prazeres, emprestando-nos, em troca, uma dureza com os humildes, com os inferiores, com os desgraçados, com tolas e infundadas superstições de raça, de classe, etc., nesta época de grandes e justas reivindicações, ameaça-nos de morte, ou se não de lutas sangrentas.”

                 Em outro artigo, vai ao âmago da questão.  “Em resumo, porém, se pode dizer que todo o mal está no capitalismo, na insensibilidade moral da burguesia, na sua ganância sem freio de espécie alguma, que só vê na vida dinheiro, dinheiro, morra quem morrer, sofra quem sofrer.” 

          Lima Barreto tematizou várias vezes esse sentimento (ver o conto A Nova Califórnia, que adaptado para o cinema talvez tenha se tornado o melhor filme da Vera Cruz, Osso, Amor e Papagaios, em 1957) e continua sendo fundamental para entendermos o Brasil.

limabarreto

Javier Marías, mais uma vez

 

 

coracao-tao-branco-javier-marias

Comentei no final de 2016 um romance de Javier Marías, Enamoramentos. Gostei, mas me impacientou em alguns momentos. As elucubrações e digressões dos personagens pareciam excessivas, em várias páginas. No entanto, a trama era tão bem construída que arrisquei mais um romance do espanhol. E não me arrependi.

            Coração tão Branco, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, é mais rico em situações, mais ousado, mais surpreendente. Uma história que começa em Havana, passa pela Inglaterra e Suíça, e se resolve em Madri, com um retorno engenhoso a Havana (ao passado) para resolver um mistério.

            O escritor Javier Marías é também ensaísta, filólogo e tradutor, e coloca seu personagem nessa última função. Mais que isso: tradutor simultâneo em congressos, simpósios e encontros diplomáticos bancados pela ONU. Num capítulo onde o humor adquire tintas satíricas, interpreta uma conversa entre a primeira-ministra da Inglaterra e o primeiro-ministro espanhol. É ali que conhece sua futura mulher, a também tradutora Luisa.

            Não vou tentar resumir os meandros da trama, que envolvem os antepassados do personagem e um segredo familiar tenebroso. Javier Marías demonstra sua habilidade em desenvolver uma trama original, fugindo de arquétipos e esquemas conhecidos, até mesmo porque é um grande conhecedor do cânon ocidental. As citações de Shakespeare (“Coração tão branco” é uma fala de Lady Macbeth), obsessão que se repete em sua obra, se encaixam com naturalidade, e a referência a uma canção de ninar cubana se torna mais profunda quando é revelado que o personagem tem uma avó havanesa.

            Histórias dentro de histórias, a cada capítulo somos apresentados a novos personagens, que vão compondo um fascinante mosaico da humanidade: de uma prostituta até um perito em artes plásticas, de um homem que se casa com duas irmãs até o filho deste, que se sente inseguro no próprio casamento.

            O romance se abre de modo tão marcante que várias resenhas reproduzem seu início. Os mais curiosos podem fuçar na internet. Aos amantes da boa literatura, recomendo a leitura completa do romance desse provável candidato a um Nobel (que já recusou alguns prêmios, por sinal). Prefiro ressaltar o lado filólogo de Javier Marías, que nos ensina que o verbo respaldar remete a espáduas, costas, proteger as costas de alguém, nessa bela reflexão:

“É o peito de outra pessoa que nos respalda, só nos sentimos respaldados de verdade quando há alguém atrás, a própria palavra o indica, à nossa espalda, assim como em inglês, to back, alguém que talvez não vejamos e que nos cobre as costas com seu peito que está a ponto de nos roçar e acaba sempre nos roçando, e ás vezes, inclusive, esse alguém nos põe a mão no ombro com a qual nos tranquiliza e também nos sujeita. Assim dorme ou crê dormir a maioria dos esposos e dos casais (…)”  

De delícias como essa Javier Marías constrói seu romance.