Arquivo para março \30\UTC 2011

O cavaquinho do Marcel

Ando entusiasmado com a vitalidade do movimento musical paulistano, principalmente em relação ao choro. A diversidade de estilos, a geração de novos instrumentistas e a riqueza das composições inéditas é impressionante. Na semana passada, o show de lançamento do Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo foi um sucesso total.

Novos grupos, novos sons. Um jovem músico que vi amadurecer tocando em rodas de choro no saudoso Jajabar, no Butantã, me convidou outro dia pra assistir seu show de estréia. Marcel Martins toca cavaquinho, sabe tudo de samba e choro, e também compõe. Fui esperando uma coisa, e ouvi outra!

À frente de um grupo afiadíssimo*, Marcel puxou o cavaquinho de 5 cordas e debulhou temas de Tom Jobim, Guinga, Radamés, Gismonti, Pixinguinha, Hermeto, Jacob e outros feras, mostrando que a boa música não tem limites. E que músico que cresce tocando choro, toca tudo: é o jazz brasileiro, com direito a todos os improvisos. Olho nele!

*Pimpa Moreira (bateria) Renato Vidal (percussão) Gabriel Deodato (violão 7 cordas) e Jopa(trombone).

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Rubens Paiva

Amanhã, no Memorial da Resistência, em São Paulo, será aberta a exposição sobre Rubens Paiva, além do lançamento de sua biografia. Para os mais jovens, talvez este nome  não signifique muito. Para quem viveu durante a ditadura militar, é um símbolo.

Quis o destino que eu me tornasse colega de faculdade de seu filho Marcelo e amigo de sua filha, Vera. Quem participava do movimento estudantil no final dos anos 70 conhece bem a Veroca. E, um pouco depois, fiz um trabalho junto com Wladimir Sacchetta, que também virou um amigo do peito, grande criador de sacis. Ele é o curador da exposição.

Por tudo isso, mas não só por isso, estarei lá amanhã, no Memorial, encontrando outros amigos e lutando para que a memória dos que lutaram contra a ditadura não se apague. E que os criminosos que mataram e torturaram em nome do Estado usurpado sejam punidos. Para que nunca se esqueçamos de que defender a liberdade e a democracia não é crime. Nunca pode ter sido.

Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo

 

O projeto original da jornalista e pandeirista Roberta Valente, junto com o percussionista Yves Finzetto, ganha peso e invade palcos. Depois de receber o apoio da Secretaria de Cultura do Estado, vira disco e show, e percorre o circuito Sesc prometendo levantar a poeira.

O Panorama reúne obras inéditas de autores conhecidos do meio musical paulistano. Feras consagradas como Isaías do Bandolim e seu irmão Israel, Proveta, Alessandro Pennezzi, Zé Barbeiro, Laércio de Freitas, Luizinho 7 Cordas, Toninho Ferragutti, Danilo Brito,  Edson José Alves, Ruy Weber, Milton Mori, João Poleto, Edmilson Capelupi, Arnaldinho Silva, Thiago França, e até estreantes no gênero, como Everson Pessoa e Maurilio de Oliveira, do Quinteto Branco e Preto.

O CD reúne 16 faixas, tocadas por trinta músicos. O sexteto Panorama, formado especialmente para apresentar o repertório ao público, conta com Henrique Araujo (bandolim, cavaquinho), Gian Correa (violão 7 cordas), Alexandre Ribeiro (clarinete) e João Poleto (flauta e saxes), além dos autores do projeto.

E o que é o choro paulistano contemporâneo? Invenção, multiplicidade de formas, originalidade nos arranjos, experiências e misturas com outros gêneros, sem perder a essência da tradição e o tempero indispensável do improviso. Nos dias 24 e 25 de março, às 21 horas, no Sesc Pompéia, o sexteto receberá um penca de convidados (inclusive os autores dos choros) para o lançamento do CD. Periga ser um dos eventos mais importantes do ano na área da música instrumental brasileira!

Contra as usinas nucleares

The answer, my friend, is blowin’  in the wind…

A Grande Onda

Semana movimentada e traumática, com todos acompanhando a tragédia japonesa como quem vê um disaster movie. Nos primeiros dias falei que haveria mais de dez mil mortos, e o pessoal à minha volta reclamou. “Que absurdo!” “Só há 300 mortos até agora!”.

É curioso como as pessoas tentam minimizar o impacto da morte, mesmo quando é evidente. A quantidade deve ser comunicada aos poucos, de modo que vá anestesiando o raciocínio. Depois que passa de quatro dígitos, tudo fica meio abstrato. Quantos morreram mesmo na Segunda Guerra? E na Líbia, em 2011?

A morte de uma pessoa é uma tragédia. A de muitas, uma estatística. Esta afirmação é perturbadora. Talvez para apaziguar nossas consciências, é atribuída a Stalin. “Ah, só um demônio como ele poderia ter dito isso”.

Isso te tranqüiliza? A mim, não.

(A gravura de Hokusai que ilustra este post nunca foi tão lembrada, de forma tão dolorosa, em todo o mundo. O jovem Montanaro, chargista brasileiro de 14 anos, ouviu críticas pesadas por ter feito referência a ela. Tem o meu apoio. Arte é vida.)

Joe Morello

Solo de bateria é sempre  chato, que me desculpem os bateristas. Alguém já disse que baterista é um cara que espanca pele de animais mortos com pedaços de vegetais mortos. Claro que é uma frase antiga, já que hoje até pele de tambor é feita de plástico.

Mas Joe Morello mudou esta história. Ele é o autor do solo de bateria mais conhecido do mundo. Nenhum roqueiro conseguiu, nos últimos 50 anos, ter um solo tão reconhecido de forma universal e tranversal, por jovens e velhos, homens e mulheres, ocidentais ou orientais. Claro que ele contou com a pequena ajuda de dois monstros sagrados do jazz, Dave Brubeck e Paul Desmond, na antológica Take Five.

Joe Morello morreu no dia 12/03, sábado, aos 82 anos. Quase cego, tinha uma capacidade incrível de assimilar as complexas variações rítmicas que Brubeck escrevia. Tempos quebrados, irregulares, assimétricos, com sutilezas que  os espancadores habituais jamais alcançarão.   Um brinde a Joe Morello!

MinC X Creative Commons

Você deve estar acompanhando o debate que se alastrou nos últimos dias sobre as políticas do MinC de Ana de Hollanda. A disputa ganhou ares mais dramáticos na semana passada, quando Emir Sader foi desconvidado pela ministra para assumir a casa de Ruy Barbosa.

Mas desde janeiro outra polêmica vem agitando o meio cultural, principalmente através da internet. Pra variar, os jornalões chegaram atrasados à discussão. O primeiro sinal de que a nova equipe pretendia eliminar alguns avanços da gestão anterior (Gil-Juca) foi a eliminação do selo Creative Commons da página do MinC. Os  defensores da atual gestão dizem que é algo insignificante. Será?

A discussão sobre direitos autorais, monopólio da produção cultural e independência do criador está na rede há muito tempo, e vem transformando a produção cultural em todo o mundo. Pra você ter idéia, esse video de 2002 explica o que é Creative Commons. E continua válido!

Na opinião de muita gente boa, a posição do MinC de Ana de Hollanda é retrógrada e favorece apenas os produtores estabelecidos. Aquilo que chamaríamos, bondosamente, de “os mesmos nomes de sempre”. No cinema, na indústria fonográfica, na televisão, no teatro, etc. Quem melhor descreveu a mudança de postura foi o Bruno Cava, aqui. Um texto longo e minucioso, onde fica claro (para quem ainda não havia percebido) o significado da abertura feita pela gestão Gil-Juca em direção à produção em rede, aos Pontos de Cultura, ao diálogo com o Creative Commons.  Recomendo a leitura, com convicção!