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A arma secreta

Antonina Dolores

Antonina Dolores era a caçula das três irmãs mais afamadas da zona de meretrício de Santana do Livramento, na fronteira com a Argentina, no ano de 1816. Quando os soldados de Artigas ocuparam a vila ela não fugiu, como boa parte da população.

Sua contribuição na resistência aos invasores é inestimável. A beleza sensual de Nina, como era conhecida, provocou mais baixas nas tropas invasoras que os soldados do Exército brasileiro. A sífilis ajudou, claro.

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O encantador de tainhas

Tainha

Na praia onde eu nasci, na Baía de Todos os Santos, havia um encantador de tainhas. Jamais conheci, em nenhum outro lugar da imensa costa brasileira, alguém com tal dom. O homem, de quem infelizmente só lembro o prenome, Pedro, era um negro magro, meio calvo, cujos fios de barba começando a clarear indicavam idade avançada ou penúria vivenciada.

Quando chegava o inverno os cardumes de tainhas costeavam a baía, e os pescadores saíam com suas redes e barcos tentando cerca-las. Alguns se penduravam nos penedos e atiravam bombas juninas no meio do cardume, o que fazia com que as tainhas tivessem morte imediata, boiando de barriga para cima. Aí era só mergulhar e catá-las.

Muitas vezes o cardume era visto passando ao largo, sem se aproximar da falésia. Então Pedrão, como o xamã era chamado, encarapitava-se na pedra mais avançada sobre o oceano e entoava um estranho canto, algo parecido um aboio. O cardume mudava de rumo e se dirigia para as proximidades da praia, onde as redes, barcos e bombas completavam o serviço.

Não conheci mais ninguém que dominasse esta arte. Talvez  Pedro tenha sido o último dos homens na face da Terra a se comunicar com as tainhas.

1Q84 para convalescentes

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Alguns dias de molho por causa de uma contratura muscular, e aproveitei o repouso forçado para encarar a curiosa distopia passadista de Haruki Murakami. São três volumes, 1272 páginas, milhões de exemplares vendidos em mais de quarenta países. Um best seller, portanto, o que costuma deixar os literatos meio desconfiados.

A linguagem é fluente, a leitura corre fácil. Mas algumas referências culturais, logo no início, mostram que o japonês não pretende entregar pãozinho quente no balcão, mas um croissant diferente. Aliás, dois, pois a ação se passa num estranho mundo paralelo, muito parecido com o nosso, onde duas luas são avistadas no céu. E apenas por algumas pessoas, o que aumenta o grau de estranheza da narrativa.

A trilha sonora que pontua a primeira passagem da protagonista, Aomame, para esta dimensão, é a Sinfonietta, de Leos Janacek, que só os tchecos devem conhecer de cor. A ação se passa em Tóquio, em 1984, e muitas referências ocidentais povoam a narrativa. Orwell (claro), Proust, músicos de jazz, Churchill, Sean Connery, atrizes de cinema, cantores pop. Estamos numa das maiores metrópoles do mundo, imersos num mundo midiatizado e, naturalmente, corrupto.

Aomame é personal trainer (precisamos traduzir essa profissão, urgente! Treinadora particular, que tal?), e sonha reencontrar um amor de infância, Tengo. Este é professor de matemática num cursinho, e quer ser romancista. Desnecessário dizer que ele também sonha em reencontrar o amor da meninice. Pressionado por seu editor, aceita reescrever um original escrito por uma adolescente de 17 anos, que narra uma história fantástica sobre uma seita ocultista, que abre portas dimensionais para o Povo Pequenino, que se dedica a fiar Crisálidas de Luz (nome do romance-dentro-do-romance), com uma finalidade não muito clara.

O livro se transforma num sucesso, mas Tengo e seu editor passam a ser perseguidos por membros da seita, como se aquilo fosse real. Muitas peripécias vão rolar, ampliando o leque de protagonistas com um detetive sagaz e asqueroso, a partir do terceiro volume.

Qual a grande novidade? Em princípio, uma fantasia para adolescentes, tão aventurosa e cheia de reviravoltas quanto um Harry Potter. Para disfarçar isso, Murakami introduziu cenas de sexo, e dotou sua heroína de uma estranha amoralidade. Ela elimina, digamos assim, alguns homens em seu percurso. Para suavizar seu crime, fica explícito que todos eram acusados de machismo, por vezes violento.

Tengo é mais certinho, mas não santo. Tem uma amante casada e dez anos mais velha, enquanto espera o reencontro com Aomame. Personagens mais complexos são o editor, o líder da tal seita, a adolescente de 17 anos e seu tutor. O que afinal, torna 1Q84 um sucesso tão estrondoso?

Primeiro, a habilidade narrativa do autor. Sua capacidade de fabulação mantém os eventos fantásticos da história no limite do provável, para os mais crédulos. Segundo, o uso inteligente de arquétipos. Quer coisa mais manjada que casal de crianças que eram rejeitadas na escola se reencontrarem na vida adulta, superando todas as dificuldades? Manjado, mas eficiente. É um enredo romântico, imerso numa era poluída, conturbada, onde estado e instituições quase não tem papel. São indivíduos lutando contra corporações, e vice versa. Estamos caminhando para isso, em 2016.

Murakami escreveu outros romances, mas nenhum tão bem sucedido como esse. Difícil dizer se conseguirá se superar. Certamente me proporcionou bons momentos de leitura, apesar de ter provocado também alguma irritação com a mania de citar as marcas das roupas, dos relógios, dos carros que os personagens utilizam. Merchandising é altamente poluente, em qualquer forma de arte.

Releituras 2016, primeiro semestre

Gregorio-de-Matos

Como já comentei algumas vezes por aqui, há bom tempo coloco na minha meta anual de leitura pelo menos um clássico. Como pratico isso há mais de trinta anos, já deu pra ampliar um pouco a visão. Creio que se viver até uns 180 anos terei o conhecimento de um Harold Bloom. Como infelizmente acho que não chegarei lá, fico satisfeito em me tornar um pouquinho menos inculto.

            2016 começou diferente. Passei o réveillon (caramba, ninguém ainda inventou uma tradução para essa palavra?) na praia e, sei lá por que, resolvi reler Raízes do Brasil, do mestre Sérgio Buarque de Holanda, do qual só havia lido alguns capítulos na faculdade. Leitura indispensável para quem se interessa pela formação do povo brasileiro, da nossa cultura. É primorosa a diferenciação que ele faz entre a colonização espanhola e portuguesa, a partir do traçado básico das ruas, das cidades. Leitura tão rica que me fez ler trechos em voz alta, empolgado, para a seleta plateia que me acompanhava. Felizmente ninguém reclamou.

            Na mesma semana, em Barequeçaba, li O Relato de Um Náufrago, de Gabriel Garcia Marquez. O livro surgiu de uma entrevista que o então  jovem jornalista GGM fez com um sobrevivente do naufrágio de uma corveta da Marinha colombiana, ao voltar uma reforma nos EUA. O cara sobreviveu dez dias agarrado a destroços, em pleno Caribe, até pisar em terra firme. Virou herói nacional, e o ditador de plantão (Pinilla) fez questão de condecora-lo.  O ponto alto da narrativa é a revelação de que o navio vinha carregado de muamba, eletrodomésticos e bebidas, e a denúncia custou a Márquez seu primeiro exílio, aos 28 anos, além da retirada da medalha do marinheiro. “O que não sabíamos, nem o náufrago nem eu, quando tentávamos reconstituir minuto a minuto a sua aventura, era que aquele rastrear esgotante haveria de nos conduzir a uma nova aventura, que causou uma certa agitação no país, que custou a ele sua gloria e sua carreira e que a mim poderia ter custado a pele”. Nada mau!

            Imagino quantas reportagens poderiam ser feitas no Brasil, envolvendo militares das três armas, sobre desvios, contrabandos, subornos, etc. São muitos anos de ditadura, e poucos jornalistas dispostos a desvendar pequenas histórias. Ninguém até hoje sabe direito quanto custou a ponte Rio-Niterói…

            Um mês depois estava em Cunha, no alto da Serra do Mar, e me bateu uma vontade de reler Guimarães Rosa. Sagarana, o volume de contos que o consagrou, é uma delicia absoluta. Se algum autor brasileiro merece ser chamado de genial, é ele. Penso na velha diferenciação criada por Pound: gênio inventa novas formas, mestre domina com perfeição as formas de seu tempo. Temos alguns mestres, certamente, e Machado talvez seja o maior deles. Mas o velho Rosa… Até arrisquei escrever um conto depois da releitura de Sagarana, mas tranquei num cofre com instruções expressas para que seja publicado quando eu tiver 180 anos. Meu tataraneto compreenderá.

            De lá pra cá o semestre tem sido mais conturbado. Leituras incidentais, alguns contemporâneos, um pouco de mainstream (outra palavrinha demandando tradução), poesia rarefeita, muito debate político virtual. Quando achei que a temporada de clássicos estava encerrada, minha amiga Fernanda me presenteou com dois volumes, em maio. A compilação definitiva da obra de Gregório de Matos feita por seu pai, James Amado. Como resistir?

            Estou há vários dias convivendo com o Boca do Inferno. Leitura de cabeceira, ora lírica, ora satírica. Quando ele dirige invectivas alexandrinas para o governador Tucano, sinto uma estranha sensação de atualidade. O semestre já valeu, e levarei essas releituras para sempre. Serão úteis, mesmo que minha memória comece a falhar depois dos 120…

 

Um novo romance

writer

         Terminei mais um romance. Não, Joãozinho, não estou falando de minha vida afetiva, mas de um livro. Um volume que, de acordo com certas normas, precisa ter X páginas para ser considerado romance. Abaixo disso, é novela. Se for mais econômico, é conto. Não há fronteiras definidas, mas um senso comum, estabelecido pelo cânon ocidental.

    O primeiro romance, Terno de Reis, publicado em junho de 2015, foi uma boa experiência. Custei a me acostumar com esse papo de ser autor publicado. Um autor não-publicado é menos autor? Acho que não, mas na sociedade do espetáculo é assim que funcionam as coisas. Exposição.

     Refleti um pouco sobre a oportunidade de iniciar outro romance. Não é atividade lucrativa, com raras exceções. O investimento em tempo e energia é considerável, e você pode ter retorno dali a uma década. Ou nunca. Mas se você escreve para os amigos, vale a pena. Os elogios costumam ser generosos – amigo é amigo! – e algumas vezes até honestos. Obviamente há os que se calam, os que compraram o livro e não leram, os que leram mas não gostaram, os que não gostaram e mudam de assunto e falam de futebol quando te encontram. Continuam amigos, e isso é o que importa.

      Há amigos críticos. Sei lá, deve haver. Nenhum chegou na minha cara e disse “não gostei”, por isso e aquilo. Como leitor, também evito esse tipo de constrangimento. Como dizer à minha irmã que o livro dela é uma droga? Veja bem, é uma situação hipotética, não tenho nenhuma irmã que escreva. Que eu saiba.

        Mas voltemos ao segundo romance. Será que alguém começa escrevendo um romance, de cara? Em geral, os jovens arriscam poesias ou crônicas. Alguns tomam fôlego e passam pro conto. Numa comparação rasteira, é como um velocista se tornar um fundista. Alguns serão ótimos velocistas a vida toda, e merecem aplausos. Outros percebem que a explosão muscular já não é a mesma, e direcionam seus esforços para as provas de resistência. Já reparou que a maioria dos romancistas é madura, idosa, grisalha, enquanto há muitos poetas jovens, imberbes, sem filhos? Talvez poetas maduros sejam eternamente jovens e romancistas sejam poetas que envelheceram. Quem sabe?

      Nel mezzo del cammin (citar Dante é sempre chique, né não?), com um romance publicado, percebi que tinha vários contos na gaveta. Alguns premiados, outros inéditos, e até uns desprezados. Publicar um livro de contos nunca me animou, nem sei explicar direito o porquê. Mas aí resolvi escrever um romance-de-contos, uma história com um monte de historinhas dentro. Não é alguma invenção revolucionária, longe disso. Desde as 1001 Noites contar histórias dentro de uma história é recurso manjado.

     O grande desafio foi tornar o negócio orgânico. Ou seja, fazer com que os contos dialogassem com o entrecho do romance, sendo ora causa, ora consequência. Descartei alguns, aproveitei outros, reescrevi uns, inventei outros tantos. E fechei um volume de vinte e um capítulos, intercalados por vinte contos. O romance-de-contos foi submetido a alguns leitores, com o pedido expresso de serem críticos, sem desviar para os pênaltis perdidos pelo Corinthians no próximo encontro.

      A primeira leitora, Sandra Abrano, batizou o volume: Entre Contos, um Romance. Definição objetiva, com um subtexto que será logo percebido por quem lê. Obviamente pinta um romance entre os personagens do “romance”. Nesse momento os originais (como é antiga essa expressão! Para quem escreve em computador não existe original, mas cópias, cópias rasuradas, cópias esquecidas, cópias mexidas, cópias definitivas) estão nas mãos dos editores. Que podem perfeitamente achar que o resultado é frustrante, e que talvez seja melhor eu escrever um romance tradicional, como o primeiro. Que nem é tão tradicional assim, mas vá lá.

         Por via das dúvidas, iniciei um terceiro romance…

Algumas leituras de 2015

 

  Leituras 2015

        Não, não pretendo fazer análises políticas ou sociológicas do ano que agoniza. Analistas adoram fazer ‘leituras” da realidade, mas no meu caso se trata de literatura mesmo.

            Lembrarei de 2015 como o ano em que passei de pedra a vidraça. Ou seja, publiquei um livro, sujeito a todo tipo de avaliação. E minhas primeiras leituras do ano foram, na verdade, releituras do original, que estava arquivado há algum tempo. Mesmo assim, sobraram alguns erros de revisão, que não escaparam a alguns amigos atentos. Sofro de um mal que a ciência ainda não explicou direito, e que acomete também outras pessoas: sou craque em ver erros nos textos alheios, mas péssimo em enxergar os meus. Tem gente que é assim na vida…

            Lancei o Terno de Reis em junho. No segundo semestre, voltei às leituras de ficção. Quebrando uma tradição de muitos anos, não li nenhum romance clássico em 2015. Li coisas fracas, medianas e boas. Muitos artigos, ensaios, alguns blogs. Andei relendo O Homem e Seus Símbolos, do velho Jung e seus discípulos, e de vez em quando me surpreendi com a impressão de que estava lendo uma inventiva ficção. Bem, talvez esse seja considerado um clássico…

            O melhor romance de espionagem que li não é ficção. Os Últimos Soldados da Guerra Fria, do Fernando Moraes, é uma eletrizante narrativa sobre um dos episódios mais incríveis da luta dos cubanos para conseguirem sobreviver ao criminoso embargo dos EUA. Os contras, sediados em Miami, fizeram vários atos de terrorismo contra a população da ilha, colocando bombas e soltando panfletos em voos ilegais. Para neutralizá-los, um pequeno grupo de cubanos, fingindo-se de refugiados, infiltrou-se na organização dos contras, conseguindo evitar vários ataques. Foram descobertos e estão presos até hoje nos EUA, pelo crime de defenderem seu país contra bandidos financiados pela direita estadunidense, que continuam soltos. Fernando Moraes tem uma capacidade impressionante de farejar boas histórias, e sua escrita meticulosa nos faz reviver cada episódio com absoluta nitidez.

            No campo da ficção propriamente dita, curti muito A Viagem de James Amaro, de Luis Biajoni, que comentei aqui. Li contos esparsos de vários autores. Me chamou a atenção a coletânea Desordem, editada de forma colaborativa pela Bookstorming, de jovens escritores brasileiros. Ficam marcadas na lembrança as boas histórias de piratas de Paulo Bullar. Quem mais escreve sobre piratas, hoje em dia?

            Um fim de semana chuvoso fora de casa me obrigou a pegar um best seller. E não é que gostei de Garota Exemplar, da americana Gillian Flynn? Escrito em ritmo trepidante, mistura suspense, humor e crítica social com uma ótima criação de personagens. Parece que o filme nem chegou perto, não vou arriscar.

            Ian McEwan, mais uma vez, não me decepcionou. Li (com muito atraso) o ótimo Sábado, de 2005. É incrível a capacidade do homem de nos envolver com uma história fascinante que se passa em apenas um dia! Escrita rigorosa, firme, fruto de muita pesquisa, mas que flui com elegância.

            O gênero policial parece ser eterno. Sempre descubro com prazer novas tramas, cenários diferentes, estilos inovadores. Li  P.D. James e Ruth Rendell, mas quem abafou a banca foi mesmo Henning Mankell, com O Homem de Beijing. Ambicioso, inventou uma trama que se passa em quatro continentes e em dois séculos. E se saiu muito bem!

            Finalmente encarei O Trem Noturno para Lisboa, de Pascal Mercier, outro caso de transposição frustrada para o cinema. Leitura saborosa, trama original, com um final um tantinho decepcionante. Mas creio que tenho esta impressão da maioria dos livros que leio. Deve ser difícil bolar um grande final, ou talvez esteja fora de moda, como a chave de ouro dos sonetos acadêmicos.

              Ué, não pintaram latino-americanos em minha cabeceira? Felizmente Ricardo Piglia me salvou da vergonhosa omissão. Respiração Artificial já é quase clássico, e sua escritura engenhosa marcou a literatura argentina na década de 80. Inovador na época, ainda não perdeu a força e a originalidade.

            O ano se encerra com a leitura do pungente Corpos Furtivos, de Chico Lopes, que concluí nesta semana. Ele mergulha na alma insatisfeita de uma personagem, Eunice, solteirona com desejos mal reprimidos, que mora com a irmã mais velha. São furtivos os corpos masculinos que passam por sua vida, querendo apenas sexo, não envolvimento. O cenário é uma cidade do interior que já foi pequena e bucólica, mas que inchou e se contaminou com os males da modernidade: bairros pobres na periferia, violência e uma multidão de anônimos pelas ruas.

            Chico conduz com muita habilidade a narrativa, personificando os medos, vacilos, avanços e recuos da protagonista, que luta contra o machismo onipresente e a falta de horizontes afetivos e pessoais. Um retrato dolorido, pintado com cores fortes, de uma das muitas formas de solidão que impregna e estiola a vida de tanta gente.

            Li outros livros? Sim, mas alguns viraram fumaça. Um, certamente, muito ruim. Como o autor é uma pessoa esforçada, já escreveu coisas bem melhores, vou lhe conceder a benção do anonimato, na esperança de que se redima em breve. Em 2016 espero retomar a tradição de ler (ou reler) algum clássico. E vou lançar meu segundo romance, claro, mas aí já é outra história!

O retorno do Terno

Um erudito e cuidadoso comentário do escritor Edmar Monteiro Filho sobre o romance Terno de Reis. Saber que um livro meu propicia uma reflexão desse nível me dá a confirmação de que valeu a pena escrevê-lo.

Capa Daniel Brasil 07-05-2015.indd“Na abertura de O 18 Brumário de Luis Bonaparte, Karl Marx acrescenta à ideia de Hegel, segundo a qual os acontecimentos marcantes da história acontecem duas vezes, que a primeira se daria em forma de tragédia e a segunda como farsa. Assim, as grandes convulsões históricas acabariam se repetindo no futuro, ainda que desvestidas de seu potencial trágico e tornadas simulacros de si mesmas. Tal afirmativa parece alimentar-se do próprio conteúdo, pois foi defendida em diferentes momentos por diferentes pensadores, políticos, artistas, gente de toda ordem, nos mais diversos contextos, em geral com o intuito de evidenciar essa espécie de falta de originalidade que acomete periodicamente o desenrolar dos acontecimentos.
Uma ideia complexa, lançada na corrente sanguínea do pensamento humano, tende a se adaptar, diluir, transformar. Não é simples inferir se Hegel e Marx referem-se a toda a vastidão das ocorrências humanas, mas é possível estabelecer um vínculo entre tal concepção e o antigo mito do “eterno retorno”, presente em tradições antiquíssimas e usado por Nietzsche em diversos momentos de sua obra. Joseph Campbell, em As máscaras de Deus, aponta a origem das imagens do eterno retorno e do tempo cíclico na mitologia oriental. Os ciclos básicos da natureza – como dia/noite, nascimento/morte – representariam um milagre de ressurgimento contínuo, essencial para a continuidade do universo. As ações humanas, inseridas nessa dinâmica, mergulhariam num incessante fluxo de repetições. Mas, afirma Campbell, “para aqueles que encontraram o ponto imóvel da eternidade, em volta do qual tudo gira, inclusive eles próprios, tudo é aceitável da maneira como é, e pode ser vivenciado como magnífico e maravilhoso”.
No Antigo Testamento existem menções ao fascinante mito do tempo cíclico em Eclesiastes, 1:9: “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; de modo que nada há novo debaixo do sol.” Tal concepção é contestada pelo cristianismo, que estabelece um sentido – o Juízo Final – para a história humana. Entretanto, conforme aponta o jornalista francês Gilles Lapouge, mesmo nessa tradição o mito se mantém vivo através celebração da Páscoa, do Natal e de outras datas religiosas. Assim, da mesma forma que nas festas de aniversário e em outras comemorações laicas que se repetem periodicamente, é possível tornar indissociáveis o passado, o presente e o futuro. Talvez a estratégia por trás desses encontros marcados com o tempo seja cultivarmos um sentimento de eternidade.
Um dos principais méritos do romance “Terno de Reis”, de Daniel Brazil, é revisitar a ideia de uma eternidade possível, por meio de uma proposta absolutamente original. Não utiliza propriamente a tese do tempo cíclico; não trata de reencarnação. Mas, à sua maneira, o livro aborda o tema do eterno retorno.
Não me recordo de outra ocasião em que tenha sido tão difícil discorrer acerca de um texto, no sentido de não revelar detalhes de seu surpreendente enredo. É preciso cuidado, pois mesmo ligeiras menções podem antecipar algumas descobertas que o leitor haverá de fazer páginas adentro. Sem correr muitos riscos, é permitido dizer que a narrativa tem início em Amparo, cidade com a qual o autor mantém fortes vínculos afetivos. O protagonista da primeira parte do livro, José Abade dos Reis, deixa a fazenda onde crescera para trabalhar como caminhoneiro. Entretanto, tempos depois, o acaso se encarrega de promover seu reencontro com duas personagens de sua infância. O pano de fundo é a ditadura militar e José Abade descobrirá, em pouco tempo, que não é possível se manter neutro quando uma guerra está sendo travada ao seu redor. Mais adiante, afirma: “Uma vida nova não significa esquecer o passado”. Nessa altura, personagem e leitor já estão cientes do quanto a expressão “vida nova” pode assumir um sentido radical.
Não há que se explicar como e por que o personagem irá se deparar com o “Grande Segredo”, capaz de mudar sua existência de modo inusitado. Mas o grande segredo do livro talvez seja inventar uma fascinante hipótese para reencantar a vida a partir de novos olhares. Curioso que, por fim, a sedução pela literatura seja mais forte que o próprio apelo à imortalidade. Contar é, de certa forma, outra possibilidade de viver para sempre.”

(Terno de Reis pode ser adquirido diretamente da editora Penalux).


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