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1Q84 para convalescentes

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Alguns dias de molho por causa de uma contratura muscular, e aproveitei o repouso forçado para encarar a curiosa distopia passadista de Haruki Murakami. São três volumes, 1272 páginas, milhões de exemplares vendidos em mais de quarenta países. Um best seller, portanto, o que costuma deixar os literatos meio desconfiados.

A linguagem é fluente, a leitura corre fácil. Mas algumas referências culturais, logo no início, mostram que o japonês não pretende entregar pãozinho quente no balcão, mas um croissant diferente. Aliás, dois, pois a ação se passa num estranho mundo paralelo, muito parecido com o nosso, onde duas luas são avistadas no céu. E apenas por algumas pessoas, o que aumenta o grau de estranheza da narrativa.

A trilha sonora que pontua a primeira passagem da protagonista, Aomame, para esta dimensão, é a Sinfonietta, de Leos Janacek, que só os tchecos devem conhecer de cor. A ação se passa em Tóquio, em 1984, e muitas referências ocidentais povoam a narrativa. Orwell (claro), Proust, músicos de jazz, Churchill, Sean Connery, atrizes de cinema, cantores pop. Estamos numa das maiores metrópoles do mundo, imersos num mundo midiatizado e, naturalmente, corrupto.

Aomame é personal trainer (precisamos traduzir essa profissão, urgente! Treinadora particular, que tal?), e sonha reencontrar um amor de infância, Tengo. Este é professor de matemática num cursinho, e quer ser romancista. Desnecessário dizer que ele também sonha em reencontrar o amor da meninice. Pressionado por seu editor, aceita reescrever um original escrito por uma adolescente de 17 anos, que narra uma história fantástica sobre uma seita ocultista, que abre portas dimensionais para o Povo Pequenino, que se dedica a fiar Crisálidas de Luz (nome do romance-dentro-do-romance), com uma finalidade não muito clara.

O livro se transforma num sucesso, mas Tengo e seu editor passam a ser perseguidos por membros da seita, como se aquilo fosse real. Muitas peripécias vão rolar, ampliando o leque de protagonistas com um detetive sagaz e asqueroso, a partir do terceiro volume.

Qual a grande novidade? Em princípio, uma fantasia para adolescentes, tão aventurosa e cheia de reviravoltas quanto um Harry Potter. Para disfarçar isso, Murakami introduziu cenas de sexo, e dotou sua heroína de uma estranha amoralidade. Ela elimina, digamos assim, alguns homens em seu percurso. Para suavizar seu crime, fica explícito que todos eram acusados de machismo, por vezes violento.

Tengo é mais certinho, mas não santo. Tem uma amante casada e dez anos mais velha, enquanto espera o reencontro com Aomame. Personagens mais complexos são o editor, o líder da tal seita, a adolescente de 17 anos e seu tutor. O que afinal, torna 1Q84 um sucesso tão estrondoso?

Primeiro, a habilidade narrativa do autor. Sua capacidade de fabulação mantém os eventos fantásticos da história no limite do provável, para os mais crédulos. Segundo, o uso inteligente de arquétipos. Quer coisa mais manjada que casal de crianças que eram rejeitadas na escola se reencontrarem na vida adulta, superando todas as dificuldades? Manjado, mas eficiente. É um enredo romântico, imerso numa era poluída, conturbada, onde estado e instituições quase não tem papel. São indivíduos lutando contra corporações, e vice versa. Estamos caminhando para isso, em 2016.

Murakami escreveu outros romances, mas nenhum tão bem sucedido como esse. Difícil dizer se conseguirá se superar. Certamente me proporcionou bons momentos de leitura, apesar de ter provocado também alguma irritação com a mania de citar as marcas das roupas, dos relógios, dos carros que os personagens utilizam. Merchandising é altamente poluente, em qualquer forma de arte.

Releituras 2016, primeiro semestre

Gregorio-de-Matos

Como já comentei algumas vezes por aqui, há bom tempo coloco na minha meta anual de leitura pelo menos um clássico. Como pratico isso há mais de trinta anos, já deu pra ampliar um pouco a visão. Creio que se viver até uns 180 anos terei o conhecimento de um Harold Bloom. Como infelizmente acho que não chegarei lá, fico satisfeito em me tornar um pouquinho menos inculto.

            2016 começou diferente. Passei o réveillon (caramba, ninguém ainda inventou uma tradução para essa palavra?) na praia e, sei lá por que, resolvi reler Raízes do Brasil, do mestre Sérgio Buarque de Holanda, do qual só havia lido alguns capítulos na faculdade. Leitura indispensável para quem se interessa pela formação do povo brasileiro, da nossa cultura. É primorosa a diferenciação que ele faz entre a colonização espanhola e portuguesa, a partir do traçado básico das ruas, das cidades. Leitura tão rica que me fez ler trechos em voz alta, empolgado, para a seleta plateia que me acompanhava. Felizmente ninguém reclamou.

            Na mesma semana, em Barequeçaba, li O Relato de Um Náufrago, de Gabriel Garcia Marquez. O livro surgiu de uma entrevista que o então  jovem jornalista GGM fez com um sobrevivente do naufrágio de uma corveta da Marinha colombiana, ao voltar uma reforma nos EUA. O cara sobreviveu dez dias agarrado a destroços, em pleno Caribe, até pisar em terra firme. Virou herói nacional, e o ditador de plantão (Pinilla) fez questão de condecora-lo.  O ponto alto da narrativa é a revelação de que o navio vinha carregado de muamba, eletrodomésticos e bebidas, e a denúncia custou a Márquez seu primeiro exílio, aos 28 anos, além da retirada da medalha do marinheiro. “O que não sabíamos, nem o náufrago nem eu, quando tentávamos reconstituir minuto a minuto a sua aventura, era que aquele rastrear esgotante haveria de nos conduzir a uma nova aventura, que causou uma certa agitação no país, que custou a ele sua gloria e sua carreira e que a mim poderia ter custado a pele”. Nada mau!

            Imagino quantas reportagens poderiam ser feitas no Brasil, envolvendo militares das três armas, sobre desvios, contrabandos, subornos, etc. São muitos anos de ditadura, e poucos jornalistas dispostos a desvendar pequenas histórias. Ninguém até hoje sabe direito quanto custou a ponte Rio-Niterói…

            Um mês depois estava em Cunha, no alto da Serra do Mar, e me bateu uma vontade de reler Guimarães Rosa. Sagarana, o volume de contos que o consagrou, é uma delicia absoluta. Se algum autor brasileiro merece ser chamado de genial, é ele. Penso na velha diferenciação criada por Pound: gênio inventa novas formas, mestre domina com perfeição as formas de seu tempo. Temos alguns mestres, certamente, e Machado talvez seja o maior deles. Mas o velho Rosa… Até arrisquei escrever um conto depois da releitura de Sagarana, mas tranquei num cofre com instruções expressas para que seja publicado quando eu tiver 180 anos. Meu tataraneto compreenderá.

            De lá pra cá o semestre tem sido mais conturbado. Leituras incidentais, alguns contemporâneos, um pouco de mainstream (outra palavrinha demandando tradução), poesia rarefeita, muito debate político virtual. Quando achei que a temporada de clássicos estava encerrada, minha amiga Fernanda me presenteou com dois volumes, em maio. A compilação definitiva da obra de Gregório de Matos feita por seu pai, James Amado. Como resistir?

            Estou há vários dias convivendo com o Boca do Inferno. Leitura de cabeceira, ora lírica, ora satírica. Quando ele dirige invectivas alexandrinas para o governador Tucano, sinto uma estranha sensação de atualidade. O semestre já valeu, e levarei essas releituras para sempre. Serão úteis, mesmo que minha memória comece a falhar depois dos 120…

 

Um novo romance

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         Terminei mais um romance. Não, Joãozinho, não estou falando de minha vida afetiva, mas de um livro. Um volume que, de acordo com certas normas, precisa ter X páginas para ser considerado romance. Abaixo disso, é novela. Se for mais econômico, é conto. Não há fronteiras definidas, mas um senso comum, estabelecido pelo cânon ocidental.

    O primeiro romance, Terno de Reis, publicado em junho de 2015, foi uma boa experiência. Custei a me acostumar com esse papo de ser autor publicado. Um autor não-publicado é menos autor? Acho que não, mas na sociedade do espetáculo é assim que funcionam as coisas. Exposição.

     Refleti um pouco sobre a oportunidade de iniciar outro romance. Não é atividade lucrativa, com raras exceções. O investimento em tempo e energia é considerável, e você pode ter retorno dali a uma década. Ou nunca. Mas se você escreve para os amigos, vale a pena. Os elogios costumam ser generosos – amigo é amigo! – e algumas vezes até honestos. Obviamente há os que se calam, os que compraram o livro e não leram, os que leram mas não gostaram, os que não gostaram e mudam de assunto e falam de futebol quando te encontram. Continuam amigos, e isso é o que importa.

      Há amigos críticos. Sei lá, deve haver. Nenhum chegou na minha cara e disse “não gostei”, por isso e aquilo. Como leitor, também evito esse tipo de constrangimento. Como dizer à minha irmã que o livro dela é uma droga? Veja bem, é uma situação hipotética, não tenho nenhuma irmã que escreva. Que eu saiba.

        Mas voltemos ao segundo romance. Será que alguém começa escrevendo um romance, de cara? Em geral, os jovens arriscam poesias ou crônicas. Alguns tomam fôlego e passam pro conto. Numa comparação rasteira, é como um velocista se tornar um fundista. Alguns serão ótimos velocistas a vida toda, e merecem aplausos. Outros percebem que a explosão muscular já não é a mesma, e direcionam seus esforços para as provas de resistência. Já reparou que a maioria dos romancistas é madura, idosa, grisalha, enquanto há muitos poetas jovens, imberbes, sem filhos? Talvez poetas maduros sejam eternamente jovens e romancistas sejam poetas que envelheceram. Quem sabe?

      Nel mezzo del cammin (citar Dante é sempre chique, né não?), com um romance publicado, percebi que tinha vários contos na gaveta. Alguns premiados, outros inéditos, e até uns desprezados. Publicar um livro de contos nunca me animou, nem sei explicar direito o porquê. Mas aí resolvi escrever um romance-de-contos, uma história com um monte de historinhas dentro. Não é alguma invenção revolucionária, longe disso. Desde as 1001 Noites contar histórias dentro de uma história é recurso manjado.

     O grande desafio foi tornar o negócio orgânico. Ou seja, fazer com que os contos dialogassem com o entrecho do romance, sendo ora causa, ora consequência. Descartei alguns, aproveitei outros, reescrevi uns, inventei outros tantos. E fechei um volume de vinte e um capítulos, intercalados por vinte contos. O romance-de-contos foi submetido a alguns leitores, com o pedido expresso de serem críticos, sem desviar para os pênaltis perdidos pelo Corinthians no próximo encontro.

      A primeira leitora, Sandra Abrano, batizou o volume: Entre Contos, um Romance. Definição objetiva, com um subtexto que será logo percebido por quem lê. Obviamente pinta um romance entre os personagens do “romance”. Nesse momento os originais (como é antiga essa expressão! Para quem escreve em computador não existe original, mas cópias, cópias rasuradas, cópias esquecidas, cópias mexidas, cópias definitivas) estão nas mãos dos editores. Que podem perfeitamente achar que o resultado é frustrante, e que talvez seja melhor eu escrever um romance tradicional, como o primeiro. Que nem é tão tradicional assim, mas vá lá.

         Por via das dúvidas, iniciei um terceiro romance…

Algumas leituras de 2015

 

  Leituras 2015

        Não, não pretendo fazer análises políticas ou sociológicas do ano que agoniza. Analistas adoram fazer ‘leituras” da realidade, mas no meu caso se trata de literatura mesmo.

            Lembrarei de 2015 como o ano em que passei de pedra a vidraça. Ou seja, publiquei um livro, sujeito a todo tipo de avaliação. E minhas primeiras leituras do ano foram, na verdade, releituras do original, que estava arquivado há algum tempo. Mesmo assim, sobraram alguns erros de revisão, que não escaparam a alguns amigos atentos. Sofro de um mal que a ciência ainda não explicou direito, e que acomete também outras pessoas: sou craque em ver erros nos textos alheios, mas péssimo em enxergar os meus. Tem gente que é assim na vida…

            Lancei o Terno de Reis em junho. No segundo semestre, voltei às leituras de ficção. Quebrando uma tradição de muitos anos, não li nenhum romance clássico em 2015. Li coisas fracas, medianas e boas. Muitos artigos, ensaios, alguns blogs. Andei relendo O Homem e Seus Símbolos, do velho Jung e seus discípulos, e de vez em quando me surpreendi com a impressão de que estava lendo uma inventiva ficção. Bem, talvez esse seja considerado um clássico…

            O melhor romance de espionagem que li não é ficção. Os Últimos Soldados da Guerra Fria, do Fernando Moraes, é uma eletrizante narrativa sobre um dos episódios mais incríveis da luta dos cubanos para conseguirem sobreviver ao criminoso embargo dos EUA. Os contras, sediados em Miami, fizeram vários atos de terrorismo contra a população da ilha, colocando bombas e soltando panfletos em voos ilegais. Para neutralizá-los, um pequeno grupo de cubanos, fingindo-se de refugiados, infiltrou-se na organização dos contras, conseguindo evitar vários ataques. Foram descobertos e estão presos até hoje nos EUA, pelo crime de defenderem seu país contra bandidos financiados pela direita estadunidense, que continuam soltos. Fernando Moraes tem uma capacidade impressionante de farejar boas histórias, e sua escrita meticulosa nos faz reviver cada episódio com absoluta nitidez.

            No campo da ficção propriamente dita, curti muito A Viagem de James Amaro, de Luis Biajoni, que comentei aqui. Li contos esparsos de vários autores. Me chamou a atenção a coletânea Desordem, editada de forma colaborativa pela Bookstorming, de jovens escritores brasileiros. Ficam marcadas na lembrança as boas histórias de piratas de Paulo Bullar. Quem mais escreve sobre piratas, hoje em dia?

            Um fim de semana chuvoso fora de casa me obrigou a pegar um best seller. E não é que gostei de Garota Exemplar, da americana Gillian Flynn? Escrito em ritmo trepidante, mistura suspense, humor e crítica social com uma ótima criação de personagens. Parece que o filme nem chegou perto, não vou arriscar.

            Ian McEwan, mais uma vez, não me decepcionou. Li (com muito atraso) o ótimo Sábado, de 2005. É incrível a capacidade do homem de nos envolver com uma história fascinante que se passa em apenas um dia! Escrita rigorosa, firme, fruto de muita pesquisa, mas que flui com elegância.

            O gênero policial parece ser eterno. Sempre descubro com prazer novas tramas, cenários diferentes, estilos inovadores. Li  P.D. James e Ruth Rendell, mas quem abafou a banca foi mesmo Henning Mankell, com O Homem de Beijing. Ambicioso, inventou uma trama que se passa em quatro continentes e em dois séculos. E se saiu muito bem!

            Finalmente encarei O Trem Noturno para Lisboa, de Pascal Mercier, outro caso de transposição frustrada para o cinema. Leitura saborosa, trama original, com um final um tantinho decepcionante. Mas creio que tenho esta impressão da maioria dos livros que leio. Deve ser difícil bolar um grande final, ou talvez esteja fora de moda, como a chave de ouro dos sonetos acadêmicos.

              Ué, não pintaram latino-americanos em minha cabeceira? Felizmente Ricardo Piglia me salvou da vergonhosa omissão. Respiração Artificial já é quase clássico, e sua escritura engenhosa marcou a literatura argentina na década de 80. Inovador na época, ainda não perdeu a força e a originalidade.

            O ano se encerra com a leitura do pungente Corpos Furtivos, de Chico Lopes, que concluí nesta semana. Ele mergulha na alma insatisfeita de uma personagem, Eunice, solteirona com desejos mal reprimidos, que mora com a irmã mais velha. São furtivos os corpos masculinos que passam por sua vida, querendo apenas sexo, não envolvimento. O cenário é uma cidade do interior que já foi pequena e bucólica, mas que inchou e se contaminou com os males da modernidade: bairros pobres na periferia, violência e uma multidão de anônimos pelas ruas.

            Chico conduz com muita habilidade a narrativa, personificando os medos, vacilos, avanços e recuos da protagonista, que luta contra o machismo onipresente e a falta de horizontes afetivos e pessoais. Um retrato dolorido, pintado com cores fortes, de uma das muitas formas de solidão que impregna e estiola a vida de tanta gente.

            Li outros livros? Sim, mas alguns viraram fumaça. Um, certamente, muito ruim. Como o autor é uma pessoa esforçada, já escreveu coisas bem melhores, vou lhe conceder a benção do anonimato, na esperança de que se redima em breve. Em 2016 espero retomar a tradição de ler (ou reler) algum clássico. E vou lançar meu segundo romance, claro, mas aí já é outra história!

O retorno do Terno

Um erudito e cuidadoso comentário do escritor Edmar Monteiro Filho sobre o romance Terno de Reis. Saber que um livro meu propicia uma reflexão desse nível me dá a confirmação de que valeu a pena escrevê-lo.

Capa Daniel Brasil 07-05-2015.indd“Na abertura de O 18 Brumário de Luis Bonaparte, Karl Marx acrescenta à ideia de Hegel, segundo a qual os acontecimentos marcantes da história acontecem duas vezes, que a primeira se daria em forma de tragédia e a segunda como farsa. Assim, as grandes convulsões históricas acabariam se repetindo no futuro, ainda que desvestidas de seu potencial trágico e tornadas simulacros de si mesmas. Tal afirmativa parece alimentar-se do próprio conteúdo, pois foi defendida em diferentes momentos por diferentes pensadores, políticos, artistas, gente de toda ordem, nos mais diversos contextos, em geral com o intuito de evidenciar essa espécie de falta de originalidade que acomete periodicamente o desenrolar dos acontecimentos.
Uma ideia complexa, lançada na corrente sanguínea do pensamento humano, tende a se adaptar, diluir, transformar. Não é simples inferir se Hegel e Marx referem-se a toda a vastidão das ocorrências humanas, mas é possível estabelecer um vínculo entre tal concepção e o antigo mito do “eterno retorno”, presente em tradições antiquíssimas e usado por Nietzsche em diversos momentos de sua obra. Joseph Campbell, em As máscaras de Deus, aponta a origem das imagens do eterno retorno e do tempo cíclico na mitologia oriental. Os ciclos básicos da natureza – como dia/noite, nascimento/morte – representariam um milagre de ressurgimento contínuo, essencial para a continuidade do universo. As ações humanas, inseridas nessa dinâmica, mergulhariam num incessante fluxo de repetições. Mas, afirma Campbell, “para aqueles que encontraram o ponto imóvel da eternidade, em volta do qual tudo gira, inclusive eles próprios, tudo é aceitável da maneira como é, e pode ser vivenciado como magnífico e maravilhoso”.
No Antigo Testamento existem menções ao fascinante mito do tempo cíclico em Eclesiastes, 1:9: “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; de modo que nada há novo debaixo do sol.” Tal concepção é contestada pelo cristianismo, que estabelece um sentido – o Juízo Final – para a história humana. Entretanto, conforme aponta o jornalista francês Gilles Lapouge, mesmo nessa tradição o mito se mantém vivo através celebração da Páscoa, do Natal e de outras datas religiosas. Assim, da mesma forma que nas festas de aniversário e em outras comemorações laicas que se repetem periodicamente, é possível tornar indissociáveis o passado, o presente e o futuro. Talvez a estratégia por trás desses encontros marcados com o tempo seja cultivarmos um sentimento de eternidade.
Um dos principais méritos do romance “Terno de Reis”, de Daniel Brazil, é revisitar a ideia de uma eternidade possível, por meio de uma proposta absolutamente original. Não utiliza propriamente a tese do tempo cíclico; não trata de reencarnação. Mas, à sua maneira, o livro aborda o tema do eterno retorno.
Não me recordo de outra ocasião em que tenha sido tão difícil discorrer acerca de um texto, no sentido de não revelar detalhes de seu surpreendente enredo. É preciso cuidado, pois mesmo ligeiras menções podem antecipar algumas descobertas que o leitor haverá de fazer páginas adentro. Sem correr muitos riscos, é permitido dizer que a narrativa tem início em Amparo, cidade com a qual o autor mantém fortes vínculos afetivos. O protagonista da primeira parte do livro, José Abade dos Reis, deixa a fazenda onde crescera para trabalhar como caminhoneiro. Entretanto, tempos depois, o acaso se encarrega de promover seu reencontro com duas personagens de sua infância. O pano de fundo é a ditadura militar e José Abade descobrirá, em pouco tempo, que não é possível se manter neutro quando uma guerra está sendo travada ao seu redor. Mais adiante, afirma: “Uma vida nova não significa esquecer o passado”. Nessa altura, personagem e leitor já estão cientes do quanto a expressão “vida nova” pode assumir um sentido radical.
Não há que se explicar como e por que o personagem irá se deparar com o “Grande Segredo”, capaz de mudar sua existência de modo inusitado. Mas o grande segredo do livro talvez seja inventar uma fascinante hipótese para reencantar a vida a partir de novos olhares. Curioso que, por fim, a sedução pela literatura seja mais forte que o próprio apelo à imortalidade. Contar é, de certa forma, outra possibilidade de viver para sempre.”

(Terno de Reis pode ser adquirido diretamente da editora Penalux).

Manzano, o poeta-escravo

Poeta-escravoNão se tem notícia, no Brasil, de qualquer texto escrito por escravos. Conhecemos alguma música, pintura, escultura ou arquitetura feita por mãos negras, muitas vezes sob a ameaça da chibata. Mesmo considerando que a imensa maioria não sabia escrever, é razoável pensar que os primeiros alfabetizados narrassem suas histórias. Há poeta negros libertos e escritores descendentes de escravos (aliás, estão entre os maiores de nossa literatura), mas relatos coetâneos da escravidão, se houve,  foram ocultados ou destruídos.

Em toda a América Latina, o único autor-escravo conhecido é o cubano Juan Francisco Manzano (1797-1854). Seus escritos foram traduzidos para o inglês em 1840, patrocinado por um grupo de abolicionistas britânicos. Nos Estados Unidos houve estímulo para que ex-escravos contassem suas histórias, e isso propiciou o surgimento de vários documentos históricos testemunhais, como o famoso 12 Anos de Escravidão, de Solomon Northup, adaptado para o cinema e laureado com o Oscar de melhor filme em 2014. Na América de colonização ibérica, isso não ocorreu.

 Pelas mãos do escritor Alex Castro, finalmente Manzano é traduzido entre nós. Num cuidadoso trabalho de pesquisa, o brasileiro viajou a Cuba para conhecer o manuscrito autógrafo, organizou as versões do texto-base, cotejou as interpretações existentes e fez duas recriações: uma tradução fiel, mantendo a grafia e sintaxe original, e uma transcriação em português contemporâneo, dentro da norma culta. É claro que a leitura desta transcriação é a indicada para quem quer ter um primeiro contato com a vida de Manzano, ficando a primeira para estudiosos que queiram se aprofundar na obra do pioneiro cubano.

Podemos afirmar que A Autobiografia do Poeta-Escravo (Hedra, 2015, 224 páginas) é uma obra única, fundamental para entendermos melhor as relações escravagistas na América colonial. Conta com uma esclarecedora introdução do professor Ricardo Salles, fotografias, reproduções do manuscrito e um cuidadoso trabalho de pesquisa  linguística, histórica e social empreendida por Alex Castro. Suas notas enriquecem a leitura com preciosos detalhes históricos, sociológicos e linguísticos.

Percebe-se, durante a leitura, o medo que Manzano tinha de ser censurado, de ver sua obra desaparecer. Evita falar mal de seus senhores, e mesmo quando descreve os castigos terríveis, os açoites, as privações desumanas, culpa no máximo os feitores e capatazes, não os amos. Uma literatura de oprimido, que não consegue se desvencilhar do medo, e que mesmo assim revela um universo doloroso e sombrio, capaz de impressionar seus leitores quase dois séculos depois.

Alex Castro não se limitou ao livro, publicado no Brasil e em Cuba. Criou também uma página na internet onde podemos conhecer um pouco mais sobre essa figura incrível. Ali está o soneto mais famoso de Manzano, Meus Trinta Anos, tão rico em significados. Confira!

A influência do reverenciado autor X

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Desde adolescente me interesso pelo processo de criação artística. Claro que no início meu foco eram os músicos que admirava, os compositores de rock e MPB. Lembro de Chico Buarque, numa entrevista histórica, dizer que se identificava mais com Geraldo Pereira que com Noel Rosa. Paulinho da Viola venerando Wilson Batista. E John Lennon confessando a admiração pelos velhos mestres do blues.

Na faculdade, ampliei meu interesse pelas artes plásticas. Pintores que copiavam mestres até a exaustão, procurando absorver os segredos escondidos sob a tinta. Escultores e gravadores que buscavam segredos nos sketchbooks dos inspiradores. No cinema, então, é notória a adoração de alguns diretores pelos seus ídolos. Brian de Palma copiando Hitchcock, Tarantino citando os japoneses ou os western spaguetti, Herzog recriando Murnau. Isso pra não falar das centenas de copiadores e plagiadores de baixa extração, claro.

Mas em literatura ocorre um fenômeno curioso. Leio e ouço entrevistas de escritores, jovens ou veteranos, onde afirmam que sua maior influência foi X (coloque aí um figurão da literatura mundial). Flaubert, Proust, Borges, Cortazar, Kafka, e por aí vai. Parece que  surge aí uma vontade de ser maior, de dizer “veja como sou bom”, às vezes até de forma inconsciente.

Considerando que o verbo é o primeiro meio de expressão de qualquer ser humano – vamos considerar que o choro não é propriamente uma linguagem codificada – as primeiras leituras deveriam marcar para sempre o indivíduo, certo? O fascínio das primeiras histórias, dos primeiros gibis, das primeiras aventuras de capa-e-espada. Mas quem admite que foi influenciado por Walt Disney, La Fontaine ou os irmãos Grimm?

Será que só eu admiro até hoje a criatividade prodigiosa de Julio Verne? Ou a utopia africana de Edgar Rice Burroughs, o criador de Tarzan, que devorei na adolescência? Como não ser influenciado por Monteiro Lobato, leitura que me marcou para sempre? E que dizer então de Daniel Defoe, cujo Robinson Crusoé inspirou a vontade de partir para uma ilha deserta? E Alexandre Dumas pai, Jack London, a incrível Condessa de Ségur, o genial Rudyard Kipling, o assustador Melville, o lendário Robert Louis Stevenson, o fantástico Jonathan Swift? Isso pra não falar de Homero, que alguns acusam de não ter existido.

Boa parte do que li nessa fase era comprado em banca de jornal. Gibis, principalmente do Homem Aranha e do Batman. Asterix, claro, li quase todos. Depois passei pela fase dos policiais (Poe, Agatha Christie, Chesterton e Simenon, principalmente), me interessei por ficção científica (Asimov, Clark e, claro, Bradbury, que adoro até hoje). Isso pra não falar da centena de autores hoje esquecidos, mas que contribuíam para coletâneas de contos destes e de outros gêneros.

Muito do que conheci do Brasil também foi através da literatura. Jorge Amado, Rachel de Queiroz, José de Alencar, e, confesso, José Mauro de Vasconcelos. Era o que havia na prateleira, e eu pegava sem preconceitos. E contos, muitos contistas. Estou falando dos anos 70, e apesar da ditadura militar, havia revistas e jornais literários ao alcance. Era uma cultura de resistência, que enfrentou a censura da época com destemor, mas acabou perdendo para o rolo compressor da cultura de massa, com sua vulgaridade colorida.

A mente era uma esponja, absorvendo tudo. Ao chegar na fase, digamos, adulta, toda essa informação literária estava sedimentada. Arquétipos narrativos, percursos estéticos, opções morais, convicções políticas, nada disso foi profundamente alterado pelo que veio a seguir. Acompanhei com atenção o realismo fantástico latino-americano, matei a curiosidade sobre a literatura beat, li diversos clássicos, encarei o Proust, o Joyce, o Guimarães Rosa e outros mitos. Confesso que, destes últimos, o brasileiro foi o que mais me tocou.

Durante metade de minha vida estabeleci a meta de ler pelo menos um clássico por ano. Balzac, Dickens (pelo qual passei batido na adolescência), Kafka, Goethe, Vitor Hugo, Faulkner, Cervantes, Machado, Graciliano e vários luminares contemplados com o Nobel (havia uma coleção de premiados, em casa). Poderia desfiar mais uma penca de nomes aqui, mas não é isso o que interessa. Mesmo porque vários figurões de outrora hoje estão desfocados na memória, e alguns caminham mesmo para o esquecimento.

Voltando ao tema “influências”, acho assombroso que um escritor declare em entrevista que sua maior influência seja o reverenciado autor X. O cara é tão limpinho que não admite a influência de todas as porcarias que leu na vida? Ou despreza a literatura dos anos de formação? Será que acredita, sinceramente, que todos os gibis, filmes, seriados de TV e catecismos (no bom e no mau sentido) não o influenciaram? Não deixaram nenhuma marca em sua maneira de pensar, na sua forma de escrever?

Gostaria muito de afirmar um dia, todo pimpão, que Machado de Assis me influencia mais que o Pato Donald. Infelizmente, por mais que soe desairoso, desconfio de que isso não condiga com a realidade…