Arquivo de outubro \30\UTC 2013

Depois do apartheid

Apartheid Museum

Conhecer o Museu do Apartheid, em Joanesburgo, é uma rica experiência. Não apenas para entender as razões e a infâmia que foi o período, mas também se surpreender com o heroísmo e a capacidade de luta do ser humano, sob as condições mais adversas.

A concepção do espaço museológico, criado em 2001, é muito interessante. Detalhes arquitetônicos belos e funcionais, recursos audiovisuais avançados e boa organização de informações. Aprendemos ali que o apartheid foi uma política de Estado, levada por vários governos do Partido Nacional da África do Sul, de 1948 a 1994. Ou seja, uma minoria branca impunha leis discriminatórias, que incluía restrições ao voto da população negra. Ou seja: a minoria branca racista votava e ganhava sempre, e ainda se dizia “dentro da lei”…

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Na bilheteria do museu, ao comprar o ingresso, recebi um bilhete (emitido de forma aleatória) me classificando como não-branco. Carmen e Filipe foram sorteados como brancos.

Non´white

A partir daí, tivemos de entrar por portas separadas. Tentei argumentar que estava junto com eles, mas o guarda, inflexível, me apontou para a entrada de “não-brancos”. Mais didático, impossível! Grupos escolares que visitam o museu passam pelo mesmo procedimento, o que deve gerar boas discussões em sala de aula.

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Após alguns metros, depois de passar por um corredor em que os dois grupos são separados por telas metálicas, como uma prisão, estamos juntos novamente. Painéis com fotos, ilustrações, cartazes e até filmes de época mostram o cotidiano das pessoas nos anos do apartheid. E entendia-se por “não-branco” também os orientais, os indianos… Durante os anos de apartheid, 131 militantes de oposição foram enforcados. Número oficial, claro. Muitos foram torturados até a morte. Outros “desapareceram”, como por aqui. Entre eles, alguns brancos que também se opunham ao odioso regime.

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Nelson Mandela, o jovem advogado negro que ficou preso por 27 anos, emerge como o grande arquiteto da democratização do país. Acusado pelos radicais de ser tolerante com os brancos, ele sempre defendeu um governo de coalizão. Afinal, os brancos estavam lá há mais de 300 anos, e também construíram o país. O CNA, Congresso Nacional Africano, partido que conquistou o poder em 1994 e enterrou o apartheid, era misto desde sua origem. As mulheres tiveram um papel importantíssimo, organizando ações comuns multirraciais pelos seus direitos.

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Criou-se uma Comissão da Verdade, não com a função de punir, mas de investigar e apurar os fatos ocorridos durante o apartheid. Obviamente, crimes não prescritos foram encaminhados para a Justiça comum, como ocorre (ou deveria ocorrer) em qualquer democracia.

O Museu é uma lição de como um país deve lidar com seu passado. Coisa que o Brasil custa a entender, em relação ao período de ditadura militar. Aqui os fatos são escondidos, os torturadores continuam soltos, a PM continua existindo, os juízes se calam, os governantes se omitem. Enquanto vizinhos como Argentina, Chile e Uruguai colocaram na prisão ditadores e agentes criminosos, aqui a impunidade é regra. Vergonha.

Biko

Hoje a África do Sul é governada pela maioria negra. Das 17 províncias, 16 têm negros no comando. Cape Town, a cidade mais rica, tem uma prefeita negra. Políticas inclusivas foram criadas, e envolvem desde áreas públicas, como educação, moradia e saúde, até iniciativas privadas. Brancos não podem abrir negócios sem ter um sócio negro. Há distorções? Claro. Mas os avanços são enormes. Não é à toa que fazem parte dos BRICS, as potências emergentes.

A África do Sul é  uma nação de poliglotas. Em todas as escolas são ensinados o inglês e o africâner. Considerando que cada criança negra entra na escola sabendo sua língua nativa (zulu, xhosa, etc.), terminam o segundo grau fluentes em pelo menos três idiomas.  É comum, nas fronteiras, entenderem também a língua dos povos vizinhos. Em Botswana, Zâmbia e Zimbábue boa parte dos produtos industrializados é fabricada na África do Sul, potência regional. Maior exportador de diamantes, rico em ouro, com um turismo cada vez mais organizado e produzindo ótimos vinhos.

Em certos sentidos, eu conheci um país mais avançado.

(As imagens são do próprio site do Museu, com exceção do ticket, que guardei como recordação.)

Uma pitada de gastronomia africana

Sempre fui curioso em relação a comida. Adoro experimentar novos sabores, texturas, aromas, conhecer os frutos típicos da terra, os pratos de resistência, os temperos. Carmen e Filipe, meus companheiros de viagem, também fazem parte desse time.

Nos primeiros dias em Cape Town provamos muitos frutos do mar e algumas carnes exóticas (hambúrguer de avestruz, por exemplo). Muitas lulas e camarões, que são servidos em três tamanhos: prince, queen e king. O primeiro momento de apreensão foi quando fomos apresentados à pimenta local, que recebe o inquietante nome de piri-piri. Sugestivo, não?

Peri-peri

No entanto, sob a forma de molho, a piri-piri (ou peri-peri) estava bem de acordo com o padrão a que estamos acostumados, no Sul do Brasil. Mais suave que um tabasco.  Um acarajé apimentado, na Bahia, é muito mais inclemente.

 Na segunda noite fomos ao Africa Cafe, um restaurante muito interessante onde provamos um menu temático. O cardápio diário é uma rodada-degustação com pratos típicos de vários países,  que muda conforme a estação. Uma espécie de pão frito de entrada (parecia tapioca), batatas recheadas do Malawi, verduras xhosa sul-africanas, camarões de Moçambique, carne de kudu de Botswana, arroz basmati (a influência indiana é significativa na costa leste da África), um frango de Ghana, lentilhas egípcias, um espinafre refogado com tempero congolês…

Africa Cafe

Devia ter fotografado os pratos antes de prová-los, mas a fome era tanta que só lembrei disso depois.  Uma boa carta de vinhos nativos, música típica no volume correto (aquele que permite uma boa conversa sem necessidade de elevar a voz) e garçonetes lindamente maquiadas completam o clima exótico. Recomendo!

Africa Cafe 2

 Depois de Cape Town, fomos para a região do Kruger, mais ao norte. Em três dias de safári, tivemos a oportunidade de provar várias carnes de caça. Kudu, impala, niala e warthog (mais conhecido como pumba, aquele javali do Rei Leão). Algumas churrasqueadas, outras cozidas. A impala pie é um prato característico, que tem pouco a ver com as tortas que conhecemos no Brasil. Uma espécie de omelete fofa recobre cubos de carne suculentos, cozidos como um goulash. Tá mais para uma versão africana da famosa venison pie.

Já na Zâmbia provamos gnu e crocodilo. Diferente de nosso jacaré, o croc tem a carne avermelhada, capaz de ser confundida com picanha, à primeira vista.  No Chobe Park, em Botswana, crocodilo na chapa era o prato principal de um bufê onde almoçamos.

Crocodilo na chapa

E foi ali que provamos a coisa mais estranha da viagem. Estávamos nos servindo de salada, quando topei com um prato quase intocado. Perguntei a uma atendente, que respondeu em um dialeto incompreensível. E agora? Um suíço de cabelos brancos que estava atrás de nós matou a charada. Olhar experiente, de quem sabe das coisas, sussurrou “caterpillar”. Olhei mais de perto. Lagartas. Prensadas e grelhadinhas, como camarões. Perguntei pro Filipe se ia encarar. Respondeu que na Tailândia havia provado escorpião e gafanhoto, quinze dias antes. “Vamos nessa!”

Salada de lagartas!

Experimentei uma. Parecia uma passa salgada, nada muito especial. Para tirar a dúvida, peguei uma porção e misturei com o tabule. Certamente foi a coisa mais esquisita que comi em solo africano. Como faço com camarões, retirei as cabecinhas com cuidado e coloquei de lado, mas vi que alguns comiam tudo. Até provei uma inteira, e não senti diferença.

Culturalmente não estamos acostumados a comer insetos. O sujeito aqui passa fome, mas não come essa fantástica fonte de proteínas, barata e abundante. No Brasil, creio que só a tanajura frita, do Vale do Paraíba, se tornou venerável. Monteiro Lobato adorava a iguaria, chamava-a de caviar brasileiro. Os indígenas da Amazônia gostam muito de certa larva de coqueiro, branca e gorda. Todo mundo já mordeu um bicho de goiaba, mas não admite. Alguns engolem mosca, de vez em quando…

Enfim, insetos serão a comida do futuro. Antes que finde o século XXI estarão no cardápio cotidiano. Que outra forma existe de alimentar 10 bilhões de humanos, número estimado para 2070?  Vegetais não darão conta, a terra agricultável vai se esgotar, o mar já está entrando em colapso. Prepare seu paladar pras coisas que vão pintar!

Jantar de despedida

Em Joanesburgo, na última noite, fomos a um restaurante “para turistas”, numa espécie de cassino-shopping center 24 horas só de alimentação, perto do aeroporto. Eu e a Carmen provamos a melhor carne de avestruz de nossa vida, um filé alto e suculento.  Aqui no Brasil só vemos o bicho congelado, cortado em bifes finos. Esqueça. Filipe pediu um combinado de 4 carnes de caça. Rapaz de coragem! O garçom, fanático por futebol brasileiro, contou orgulhoso que havia assistido na véspera um jogo do Kris-chi-ama. Hã? Demorou um pouco para identificarmos o Criciúma. Efeito do vinho e do mergulho na Devil’s Pool naquela manhã, certamente.

De volta ao Brasil, voltei a cortar carnes vermelhas de meu cardápio. Provar é uma coisa, consumir todo dia é outra…

Navegando no Zambeze

A primeira surpresa ao chegar em Livingstone, na Zâmbia, no início de setembro, foi o aeroporto, inaugurado na semana anterior. Cheirando a tinta, com vidros ainda adesivados e banheiros sem identificação na porta, mas com internet gratuita, coisa que em Joanesburgo é impossível. Em São Paulo, então…

Zambezi Sun

Ficamos no Zambezi Sun, um hotel chique (com algumas breguices) a poucos metros das famosas Victoria Falls. Impalas, zebras e outros bichos passeavam tranquilamente pelos gramados, em volta da piscina.  Um grupo de zulus, vestidos de forma tribal (pra turista), nos recebia com cantos e danças. Nada muito diferente da Bahia ou da Serra gaúcha. Gente se fantasiando pra ganhar uns trocados. Pulando a parte folclórica, um dos passeios bacanas foi passar uma tarde navegando no rio Zambeze, apreciando o por do sol africano.

African Queen

Rio Zambezi

Rio Zambezi

Vizinho ao nosso hotel havia outro, mais caro, com um píer-bar muito procurado pelos turistas. Dali se desfruta uma das mais belas vistas do rio, com um bom serviço de bar. Uns tomam vinho branco, outros ficam na cerveja (ou algo mais forte). O engraçado é que alguns macacos ficam em volta, e de vez em quando arriscam roubar uma batata frita das mesas. Vi mais de uma vez um garçom sair correndo para espantar os símios. Não devia ser muito diferente há um século, quando nobres ingleses vinham conhecer a imponente cachoeira e caçar elefantes.

Por do sol

Macacos no Chobe Marina Lodge

Por do sol no Zambeze

Achava que este hábito estivesse extinto, restando apenas safáris fotográficos. Mas no Chobe Park, em Botswana, quando a população de elefantes dispara e ameaça o equilíbrio ambiental, eles liberam o abate de alguns. Preço pra turista, hoje: 50 mil dólares por cabeça. Foi numa dessas que o rei Juan Carlos foi pego, em abril de 2012, desencadeando uma avalanche de críticas na Espanha e no resto do mundo. Além da situação do país, às voltas com uma crise econômica absurda, o homem era presidente de honra da WWF! Vergonha…

Mosi beer

Enfim, conversamos sobre isso e outras coisas, enquanto saboreávamos algumas Mosi e víamos o sol vermelho se refletindo nas águas calmas do Zambeze. Como sempre faz, desde o início dos tempos. E também vimos zebras subindo pelas escadas do hotel, ainda sóbrios. Imagine depois de tomar umas…

Zebras na escada

À noite, na porta de nosso quarto, topei com um crocodilo. Lutamos bravamente, mas consegui arrastá-lo até a beira de um pequeno lago a cerca de 50 metros, de onde devia ter vindo. Atirei-o na água, e voltei pensando que poucas pessoas no mundo podem dizer que fizeram isso com um croc, no coração da África. Vou contar essa história para o meu futuro neto e ele vai dizer “ah, vô, deixa de ser mentiroso!” Ainda bem que existe fotografia e internet em nossa era…

Croc no hotel

Um mergulho em Devil’s Pool

Daniel na Devil's Pool

Postei esta foto recentemente no Facebook e causei algum tumulto entre os amigos. “É trucagem!”, “É photoshop.” “Ficou maluco!”, etc.

Bem, vamos à história. Tudo começa quando um missionário e explorador escocês, David Livingstone, descendo o rio Zambeze, se tornou o primeiro europeu a contemplar o imponente conjunto de cataratas, em 1855. Deu-lhes o nome de Victoria Falls, em homenagem à rainha do Reino Unido.

Victoria Falls

Vamos ser menos eurocêntricos? Os povos da região já conheciam e admiravam há muito tempo a tonitruante queda dágua, e batizaram-na com um nome muito mais apropriado: Mosi-ao-Tunya, que significa “fumaça que troveja”. Rivaliza com Iguaçu, em altura, extensão e volume de água, embora isso varie de acordo com a época do ano. Fomos lá na época da seca (que corresponde ao nosso inverno), não deu para comparar. Mas fica num desfiladeiro espetacular, e depois da queda há corredeiras excelentes para praticar rafting.

Victoria Falls faz fronteira com a Zâmbia e o Zimbábue. Parece que as grandes cachoeiras tem a mania de dividir países… Ou unir, no caso. É a principal fonte de renda da região, que explora o turismo de forma profissional, com hotéis luxuosos, lodges e passeios de barco e helicóptero.

Victoria Falls

Viajar para ver uma cachoeira com pouca água não é uma roubada? Depende do ponto de vista. Só no inverno é possível fazer um dos programas mais excitantes do planeta: mergulhar na Devil’s Pool, um tanque natural na beirada do abismo, descoberto por pescadores nativos.

Devils Pool 1

Da entrada do parque até lá é quase uma hora de caminhada. Devagar, sobre pedras, atravessando pequenas ilhas e até mesmo nadando em certos trechos. Saímos às 6 h, pra começar bem o dia e abrir o apetite. Fomos num grupo de 6 pessoas, 40 dólares por cabeça, o que inclui o guia, o fotógrafo, toalhas, água e refrigerantes.

Fotógrafo?! Um jovem alemão que estava conosco ficou indignado. “Eu tenho a minha máquina, não preciso pagar ninguém!”, bradava, segurando sua Canon. O guia rastafari tentou explicar, o clima chegou a ficar tenso. Mas ao chegarmos lá, vimos que o rasta tinha razão.

Devils Pool 2

No último trecho de caminhada chegamos à ilha Livingstone. Ali tiramos a roupa e entregamos os equipamentos a um zulu, apresentado como “profissional”. Um cara magro, de bermudas e descalço, que pendurou três máquinas no pescoço e saiu pulando de pedra em pedra pela cachoeira, para angústia de todos. Pra dar mais adrenalina, alguém lembrou que o  Zambeze também é famoso pelos crocodilos e hipopótamos que passeiam em suas águas.

Devils Pool  4

Vendo as fotos depois, temos de admitir que seria impossível fazer o que ele fez. Além de registrar o último trecho da travessia, a nado, se posicionou de pé a milímetros da borda na cachoeira, fazendo imagens incríveis. Todas ficaram boas, com foco perfeito e enquadramento caprichado, com direito a arco-íris. Até o alemão pediu desculpas e cumprimentou o fotógrafo, quando viu o resultado.

Devils Pool 7

Devils Pool  5

Na volta, antes das 9 h, todos com uma fome de leão, prontos para o último breakfast. Uma hora depois estávamos indo para o aeroporto de Livingstone, rumo ao Brasil, com conexão em Joanesburgo. Antes de partir ainda tomei, pela última vez, a ótima cerveja zambiana, uma lager encorpada que tem a cachoeira no rótulo e se chama, claro, Mosi.

Arco-íris

Agora, pode escolher a melhor época do ano para sua viagem: Você quer ver muita água ou mergulhar na Piscina do Diabo? Em Iguaçu não dá pra fazer isso, infelizmente… Volte a olhar a segunda foto, feita do Zimbabue dois dias antes, e localize a Devil’s Pool , lá na Zâmbia. Aliás, o arco-íris é residente, está sempre lá. Dizem os nativos que Mosi-ao-Tunya é um dos únicos lugares do mundo onde se vê arco-íris noturno, quando tem lua cheia. Vai encarar?

PS 1: Quase esqueci de um detalhe. Na Devil’s Pool há peixes famintos, que ficam beliscando tuas pernas o tempo todo. Disse o guia que eram apenas tilápias, mas não consegui vê-las…

PS 2: A última foto, com um toque de Cartier-Bresson, é da Carmen.

O grande búfalo africano

Búfalo

Para completar a lista dos Big Five, aqui está o búfalo. Parece comum para nós, acostumados com o búfalo asiático domesticado, produtor de excelente mozarela. Mas o africano é maior e mais agressivo. Andam em rebanhos, e no meio sempre tem um mais invocado.

Búfalos

Aliás, foi o único animal que realmente ameaçou o jipe, bufando e corcoveando. Os pássaros que frequentam o seu lombo estão acostumados, nem ligam. São os oxpeckers, chamados de pica-boi em Angola e Moçambique. Pousam em outros ruminantes também, mas nutrem especial preferência pelos búfalos. Devem ser mais nutritivos, se é que você me entende.

Red-billed Oxpecker

E chega de falar de bichos! Vou falar de outras coisas, nos próximos posts.

Búfalo

Rino!

Rinoceronte

Chegamos ao quarto Big Five, o grande rinoceronte branco. Ele tem algo de pré-histórico na aparência, embora seja encontrado pastando mansamente nas reservas do Sul da África. “Perigoso, perigosíssimo!”, diz o guia Stephan. Olhando para nós com placidez bovina, o bicho parece desmenti-lo. Mas lembrei que elefante a gente vê em circo, monta, brinca. O rino não permite essas intimidades.

Rinoceronte

Topamos com um casal, logo no primeiro dia de safári. Sem se incomodar com nossa presença, pastavam o capim seco do chão, como qualquer ruminante. No último dia, encontramos outro casal,  com um filhote de um ano, com o tamanho de uma anta adulta. Muito míopes, estão mais preocupados com o alimento, que está a um palmo do focinho, que com a forma vagamente indefinida de um jipe com algumas cabecinhas em cima.

Filhote rino

A maior curiosidade é que ele não é branco, e nem o rinoceronte negro é negro. Ambos são acinzentados. Uma confusão na tradução do africâner para o inglês, e deste para as outras línguas, fez “wide” virar “white”. O rinoceronte branco tem a boca larga (wide) e pasta no chão. O negro, de boca estreita e lábio superior saliente, come as folhas dos arbustos.

Rino p&b

Uma das coisas mais estúpidas da espécie humana é matar um bicho desse tamanho para usar o chifre em supostas receitas medicinais. É como o olho do boto-cor-de-rosa, na Amazônia, ou órgãos do tigre-asiático, na China. Ignorância e crueldade com os animais fazem parte da história da humanidade, em todas as latitudes.

Casal de Rinos

No final, cliquei um raríssimo rinoceronte-de-duas-cabeças, coisa que nenhum fotógrafo brasileiro registrou. Nem africano, aliás…

Rino-de-duas-cabeças

Elefantes na savana

Como vocês sabem, a meta de todo safári é encontrar os Big Five. E o mais big de todos é o elefante, claro. Enquanto rodávamos na savana ressecada do Kapama, na África do Sul, calculei que só iríamos encontrar o bicho na beira de algum rio. Palpite errado.

Elefante na savana

Um barulho de galhos sendo quebrados fez o jipe estacar. No meio da galharia seca, um vulto. Depois outro, e mais outro. Nos dois lados da estrada, um bando de elefantes derrubava árvores, arrebentava galhos, descascava troncos. Fazem isso para comer as raízes, mais macias e suculentas. Mastigam também os galhos mais tenros, e com isso destroem boa parte da floresta.

Terceiro safári

Lembre-se disso quando estiver andando na savana e topar com troncos descascados e árvores derrubadas recentemente. Eles estarão por perto.

Terceiro safári

O grande encontro mesmo se deu no Chobe Park, em Botswana, alguns dias depois. A maior reserva do mundo, com 70 mil elefantes, é um cenário deslumbrante.

Barco e elefantes

Do outro lado do rio Chobe está a Namíbia, e passamos pertinho, de barco. Fotografei, senti a brisa, mas tecnicamente não posso dizer que pisei na Namíbia. Pena…

Elefantes

Na lancha não assusta muito. Andar no meio da manada dá certo friozinho na espinha. Parecem pacíficos, mas se ficarem nervosos podem tombar o jipe com facilidade. Vá brincar com um bicho desses!

Jipe e elefante

(As três primeiras fotos, no Kapama, são da Carmen, feitas no finzinho da tarde. Nada como uma máquina automática boa! A minha, em modo manual, só funcionou bem em pleno sol. Mas ainda vou aprender!)