Arquivo para janeiro \31\UTC 2011

Influência

A influência da tv na vida dos carroceiros…

Burra Leiteira

Me encantei com o nome desse barco logo que cheguei a Fernando de Noronha. No dia seguinte aprendi que Burra Leiteira é o nome de uma árvore local (Sapium sceleratum), que produz uma resina cáustica, um leite que provoca queimaduras em contato com a pele.

Quatro dias depois, quando fui mergulhar, a Burra Leiteira tinha chegado de viagem. De Recife a Noronha são 36 horas, sem descanso. E o que você pensa que a Burra Leiteira carrega? Leite?

Não. Cerveja. Centenas de dúzias de cerveja, que são descarregadas no estilo “peão de obra”. Um sujeito no porão atira para o que está no convés, que joga para outro, para outro, até chegar ao caminhão parado no cais. Um trabalho fundamental para a sobrevivência da ilha!

PS: A Burra Leiteira tem uma irmã gêmea, que aparece na segunda foto. Mesmo assim, não dão conta da sede dos turistas, num verão em que a temperatura chega a 70 graus durante o dia todo. 35 de manhã e 35 à tarde…

A sombra do pterodáctilo

O que você faz quando está na praia, olhando a areia, e vê a sombra de um pterodáctilo se aproximando de você?

Eu ergui a máquina e fotografei, no susto. Um tesourão (ou fragata) com quase dois metros de envergadura! É a ave com maior área de asa  em relação ao corpo. E tudo que queria era um peixinho… Estendi o braço segurando uma sardinha e ele pegou de minha mão, sem a menor cerimônia.

Aliás, a fragata é bem maior que um pterodáctilo. Está mais para pteranodonte…

O naturalista amador

Observações de um naturalista amador sobre Fernando de Noronha.

1 –  Não existe cobra.

2 – Não existe urubu.

3 – A única espécie terrestre endêmica da ilha é uma simpática lagartixa chamada Mabuia (Mabuya maculata). Por milhões de anos não tinha predadores, até que…

4 – … algum imbecil introduziu garças (Bubulcus ibis) na ilha para enfeitar a paisagem. São os urubus da ilha. Furam sacos de lixo, saqueiam hortas, batem carteiras, entopem turbinas de avião. E perseguem as mabuias.

5 – Um português idiota (antepassado meu, na certa) resolveu trazer pardais para Noronha, há duzentos anos. Para que importar da Europa um passarinho feio, que não canta, não presta pra comer, e que expulsa os outros do território? É o camundongo da avifauna! (O rato é o pombo).

6 – Por falar em roedores, outro idiota (nordestino, certamente, como alguns parentes meus) trouxe alguns mocós (Kerodon rupestris) para a ilha nos anos 60. Também virou praga, e muita turista fresca sai correndo apavorada gritando “socorro, um rato enorme!”. É um parente do preá, herbívoro, sem cauda, mas nunca dá tempo de explicar.

7 – Não existe tatuí nas areias douradas de Noronha. Nem conchinhas. Nem garrafa pet.

8 – Acordar às 5 horas e enfrentar uma trilha barrenta para ver golfinho chegar da gandaia noturna é o maior mico!

9 –  Previsão do tempo não funciona. Você sai da pousada com sol e chega na praia, quinze minutos depois, com chuva. Ou vice versa.

10 – Uma nativa limpava peixinhos num balde, na praia. Em volta, um bando de viuvinhas, duas fragatas e um atobá. Jogava as cabeças e tripas como quem arremessa milho para as galinhas. Quando me aproximei vi que limpava os peixes com os dentes, sem auxilio de faca. Mordia e cuspia as tripas. Pedi uma cabeça de peixe, para ver se os pássaros comiam na minha mão.

Mais dois turistas se animaram e pediram peixinhos. Um moleque pediu três, ela começou a ficar irritada. Sugeri que vendesse os peixinhos para os turistas posarem, um real cada, ia faturar uns trinta reais naquele balde. Ela redargüiu: “Se eu vender, vou comer o que?”

Passou pela minha cabeça explicar a ela o princípio do capitalismo, mas desisti. Trinta reais pra comprar pão de forma, queijo plastificado, hambúrguer congelado? Melhor ficar no peixinho.

11 – Tubarão noronhense só come sushi, detesta carne de segunda. Pode mergulhar tranqüilo!

12 – Não é raro encontrar aratus pelas ruas da Vila dos Remédios, mais de duzentos metros distantes do mar, morro acima. Alimentam-se de surfistas e bêbados caídos na sarjeta.

13 – A fauna é muito mais colorida debaixo dágua.

14 – Tem mais sereia na praia que no mar.

15 – Noronha é o único lugar do Brasil onde não se ouve bem-te-vi ao amanhecer. Senti falta…

 

Outra ilha


Vista da Praia do Sancho, em Fernando de Noronha. De tirar o fôlego!

Copa de literatura

Uma das diversões literárias mais instigantes da blogosfera é a Copa de Literatura Brasileira, promovida desde 2007 por Lucas Murtinho. Inspirado num torneio similar criado por uma revista virtual americana, a copa não dá prêmios em dinheiro nem troféus.

O diferencial é o caráter aberto do concurso. Cada jurado lê dois romances publicados em 2009/2010 e, como um juiz esportivo, escolhe o vencedor. Todas as análises e veredictos são publicados, ou seja, o juiz tem que justificar seu voto, com direito a comentários dos leitores e dos concorrentes. Os vencedores de cada embate enfrentam outros vencedores, em eliminatórias diretas até que sobrem apenas dois, que deverão ser lidos por todos os jurados. Este ano são dezesseis romances na primeira fase.

O modelo permite discutir literatura com gosto, com paixão, colocando na balança prós e contras, comparando estilos e graus de originalidade. Me diverti muito na última edição, onde verdadeiros quebra-paus literários acabaram consagrando o romance de Carola Saavedra, Flores Azuis.

Em 2007 venceu Música Perdida, do Assis Brasil, em dura disputa com Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves. Em 2008 quem levou a Copa foi O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza. Veteranos e novatos concorrem em pé de igualdade, em categoria única. Com freqüência concorrentes de um ano são jurados no ano seguinte, e vice versa. O próprio campeão de 2007 foi juiz em 2008. Ora pedra, ora vidraça.

A Copa é um excelente instrumento de acompanhamento da literatura brasileira contemporânea. Eu mesmo li vários concorrentes, estimulado pelas discussões da torcida. E este ano promete muita coisa boa. No final ganha o leitor, pelas informações preciosas, e o escritor, pela oportunidade de ouvir opiniões e debates sobre sua obra.

O primeiro jogo rola no final de fevereiro. Vamos acompanhar?

 

Um novo ano

Não escrevo no Fósforo há tempos. Período de festas, Natal em Campos do Jordão, réveillon na Ilhabela e vários dias de agitação. Visita da filha, de irmãos e primas. Casa cheia e muita chuva. Esta semana retomei o romance, que parece dar cada vez mais trabalho à medida que chega ao final. Depois dessa voltarei com alegria às histórias curtas, que me dão mais prazer e menos cansaço.

Não deixei de ler nesse período. De novembro pra cá passei pelos Três Contos do Flaubert, me emocionei com os Dois Irmãos do Hatoum, atravessei com certa dificuldade o Coração Selvagem da Clarice, estou às voltas com o Lobo Antunes. Li até o livro premiado do Edney Silvestre, cujo belo final redime algumas inconsistências do enredo. Aqueles dois meninos falando ao mesmo tempo, de forma atropelada, quase me fizeram largar a leitura. É bom ler em diagonal as páginas cheias de travessões e ir aos finalmente.

Chove em 2011. Como chove!

“Aprendi a tratar a solidão como uma companheira que deita aos meus pés abanando o rabo, junto à poltrona de leitura, sem me incomodar com seus ganidos.”