Arquivo para novembro \21\UTC 2018

Hiperrealismo reacionário?

hiperrealismo

Os artistas demoraram 30 séculos para se libertarem da obrigação de copiar a realidade com perfeição. Alguns mestres do período clássico já retorciam formas, inventavam seres imaginários, paisagens fabulosas, mas ainda se atinham ao figurativismo mimético.
O século XIX, romântico por excelência, expandiu os limites. Linhas foram tornando-se tênues, cores misturando-se com formas, até que o Impressionismo floresceu como uma bruta flor sensorial, mágica, mas com raízes na realidade.
E veio o Fauvismo, o Cubismo, o Expressionismo, o Suprematismo, o Surrealismo, e o século XX destampou a caixa do Abstracionismo. O artista podia inventar formas, não apenas copiá-las!
Como a música dodecafonista ou a poesia automática dos surrealistas, a coisa durou alguns anos e se esgotou (será?). Quando não há limites, não há parâmetros de comparação (será?).
Tudo isso me veio à mente depois de visitar a exposição 50 Anos de Realismo – Do Fotorrealismo à Realidade Virtual, que está no CCBB de São Paulo.
Será um movimento reacionário das artes? Voltar à cópia “perfeita” da realidade é um retrocesso? Rostos perfeitos, corpos que parecem vivos, paisagens que (quase) se podem tocar, são arte? Cópia? Simulacro?
Desconfio de que no final do século XIX isso seria visto com desprezo. Hoje, com nossa bagagem cultural acumulada, não estamos vendo apenas uma réplica do real, mas uma réplica com uma carga histórica por detrás. Como se o autor nos dissesse “veja, estou retomando os ideais renascentistas com todas as técnicas e materiais que o século XXI nos oferece, e isso é novo!”
Vale a visita, e vale refletir sobre este século que não inventa, mas tenta reinventar.
(escultura de Giovani Caramello, artista de Santo André, SP)

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A injustiça de Deus

Nêmesis

Philip Roth (1933-2018) é um dos mais destacados escritores da virada do século XX para o XXI. Escreveu muito, e foi devidamente premiado e congratulado por isso. Romances como Complexo de Portnoy ou Pastoral Americana são indispensáveis para quem quer conhecer a literatura americana contemporânea.

Embora tenha escrito contos e ensaios, é como romancista que conquistou seu lugar na eternidade. Nêmesis, uma obra menor, retoma de forma angustiada o desafio presente em suas últimas obras: a ação do acaso sobre nossas vidas, a catástrofe das escolhas impulsivas, a impotência do indivíduo perante o drama coletivo.

Nêmesis acaba se notabilizando por ser a última peça de ficção de Roth. Como sucede com vários escritores, não tem o brilho intenso das obras mais famosas (vide Machado de Assis e seu Memorial de Ayres), mas carrega em sua escritura toda a sabedoria e clareza de quem sabe onde quer chegar.

O início tem a objetividade de uma reportagem: “O primeiro caso de poliomielite naquele verão foi registrado no começo de junho, logo depois do Memorial Day, feriado que marca o começo da estação, num bairro pobre de italianos do outro lado da cidade.” Estamos no ano de 1944, na cidade de Newark, Nova Jersey. O protagonista é um jovem judeu atlético, professor de esportes, que sofre por ter sido dispensado da Guerra em virtude de seu alto grau de miopia. Por trás dos óculos fundo-de-garrafa, Bucky Cantor é adorado pelos alunos, tem uma noiva ideal, sente falta dos amigos que estão lutando no Pacífico. Um sujeito do bem, portanto.

Mas a doença começa a entrar em sua vida. Primeiro, roubando seus alunos. Depois, fazendo com que saia da cidade, atormentado por uma crise de consciência: deveria ficar e lutar para minimizar os efeitos maléficos da epidemia, ou se resguardar para salvar a própria vida? Vale lembrar que Nêmesis, na mitologia grega, é a deusa da vingança divina, da retaliação.

Em menos de 200 páginas, acompanhamos o drama de Bucky Cantor, sua noiva, seus alunos, com a Ceifadeira fazendo estragos previsíveis (o presidente americano, Franklin D. Roosevelt foi uma vítima ilustre da polio, também conhecida como paralisia infantil). Seria um relato competente, mas comum, se não fosse o último capítulo, um verdadeiro golpe de mestre literário.

Alguns anos depois, um ex-aluno reencontra o protagonista, e entabulam uma conversa sobre o período infernal. É então que emergem todas as inseguranças, os rancores, as suspeitas, as descrenças na medicina e na fé, que dão uma dimensão mítica ao relato. A impotência do homem perante as circunstâncias é cruamente colocada, ao mesmo tempo em que se demonstra que muitas vezes fazemos a escolha mais insensata diante da perspectiva da tragédia.

Roth reafirma seu talento com as palavras, e encerra a brilhante carreira de forma digna, com a velha lâmina, ainda afiada, cortando fundo em nossas convicções.


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