Arquivo para setembro \26\UTC 2017

A angústia dos homens

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                    André Giusti é jornalista e escritor experiente, com vários títulos publicados. Seu mais recente livro, A Maturidade Angustiada (Penalux, 2017), reúne onze contos que abordam, sob diversos ângulos, variadas formas da angústia. Seu estilo despojado, limpo, torna a leitura agradável e fluente, mas não superficial. E nem poderia, com um tema tão caro aos investigadores da alma humana.

                       Mas de que angústias fala Giusti? A angústia da solidão, o medo de ser traído, o cotidiano medíocre, os amores incompletos, a proximidade da miséria, da indiferença, da morte. A solidão talvez seja a mais recorrente, porém são especialmente marcantes os contos onde personagens femininas estão envolvidas. Descritas de um ponto de vista masculino, as mulheres provocam angústia por não se enquadrarem em estereótipos de comportamento, pela independência de atitudes e por confrontarem alguns dogmas machistas.

            Não é fácil escrever sobre o relacionamento homem-mulher sem cair em chavões. O autor consegue ser original, retratando de forma impiedosa a pequenez de certa mentalidade tipicamente masculina, possessiva e desconfiada. Contos como Lorena e o temporal ou Lins Imperial exalam erotismo, mas demonstram que para estes homens também o sexo pode ser angustiante.

            Os contos que abordam o fracasso e a solidão são mais melancólicos, até pungentes. Os personagens não são velhos no final da vida, mas homens de meia idade que lentamente vão tomando consciência de que o outono se aproxima, sem que nenhum verão dourado tenha iluminado suas existências. Há até um protagonista de dezesseis anos, devorado por um ciúme devastador. Como uma espécie de salvaguarda, Giusti faz questão de alertar no início do livro que “este livro é angustiado, mas contém momentos de esperança”.

            Os dois últimos contos até ensaiam alternativas emocionais positivas para a angústia, mas o que sobra de esperança fica por conta da boa literatura que o autor nos oferece. André Giusti prescreve sobre vidas comuns e personagens anônimos, sem tramas mirabolantes ou cenários exóticos, com precisão e originalidade. Não é pouco.

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A chama da dor e o vento da ficção

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O longo e tenebroso período de ditadura militar no Brasil ainda é fonte pouco explorada pelos nossos autores de ficção. O pioneiro parece ter sido Carlos Heitor Cony, que em 1967 lança Pessach – A Travessia, onde um intelectual se envolve com uma guerrilheira e acaba participando da luta armada.

            Ao lado de reportagens, biografias e livros históricos que enfocam o período, a literatura de ficção aos poucos vai conquistando seu espaço nesta prateleira. Pelo menos uma dúzia de títulos foi lançada na última década, com abordagens bem distintas. Há memorialismo ficcional, tramas policiais, romance psicológico, enredos de amor e narrativas do ponto de vista infantil.

            Um dos mais curiosos romances desta vertente é A Chama e o Vento, do escritor mineiro Sérgio Mudado. Autor experiente, com outros títulos publicados, Mudado lançou em 2015 esta pungente narrativa sobre uma estudante de medicina que é presa, torturada e libertada em troca de um embaixador sequestrado pela guerrilha. A história é contada pela ótica de seu irmão caçula, também estudante de medicina, que mantém forte relação com a imagem da irmã distante.

            O autor partiu de uma personagem real, a Dodora, uma das mais emblemáticas e trágicas vítimas da repressão militar. O irmão-narrador, no entanto, é ficcional, assim como as figuras que o cercam. Ficcional? O ambiente da escola de medicina, a residência, os doentes, as freiras, tudo parece ter sido vivenciado pelo próprio Mudado, também médico de formação.

            Temos portanto um engenhoso enlace entre ficção e realidade, onde o chumbo se transforma em ouro sem que tenhamos exata noção dos momentos em que isso ocorre. Como bom alquimista, o autor busca nos envolver em uma atmosfera meio espectral, onde seu inegável talento narrativo nos conduz até o desfecho dolorido, porém terrivelmente real.

            Lançar mão de um recurso meio esotérico, como a figura de um cirurgião-alquimista, pode parecer um tanto indigesto para os fãs do realismo cru. Mas a forma habilidosa e surpreendente com que Mudado promove o encontro final entre os irmãos, afinal, demonstra que há muitos entrelaçamentos possíveis entre ficção e realidade. O romance A Chama e o Vento é prova de que um período tão sombrio de nossa História pode ser abordado de maneira original e cativante, sem renunciar em nenhum momento à denúncia das atrocidades que ali foram cometidas.