Arquivo para abril \30\UTC 2010

Tortura não é crime?

Pra qualquer pessoa decente, normal e sadia, a resposta é óbvia. Sim, é crime torpe e cruel. Hediondo, palavrinha preferida pelos juristas.

Mas desde hoje, por decisão infame do Supremo Tribunal Federal, a tortura é apenas um “crime político”, que deve ser desconsiderado e perdoado, dentro dos parâmetros estabelecidos pela Lei da Anistia, de 1979.  Ou seja, se você está no poder (não importa por que meios), e quer combater seus opositores, pode torturar.

Curioso é que o relator, ministro Eros Grau (a partir de agora imortalizado como Zero Grau), foi preso e torturado durante a ditadura. Se acha que os sádicos que o torturaram eram meros soldados obedientes, está implicitamente dizendo que os generais-comandantes  do poder eram os responsáveis pela tortura. Foi sutil demais.

Já o ministro Ayres Brito foi claríssimo:

“Perdão coletivo é falta de memória e de vergonha (…) O torturador é um monstro, um desnaturado, um tarado. Não se pode ter condescendência com um torturador”.

O ministro Lewandoswki arrematou dizendo que os crimes cometidos com crueldade não podem ser considerados como políticos ou a ele relacionados. “Se assim fossem, teríamos casos de pedofilia, estupro e genocídio sendo classificados como meros crimes políticos”.

Perdeu por 7 a 2. Perdemos por 7 a 2. Na contramão do mundo civilizado, o Brasil perdoa torturadores. A direita troglodita se regozija. Filhotes da ditadura, como o senador Demóstenes Torres, festejam.

De nada adiantou a belíssima campanha da OAB-RJ, que engajou artistas renomados em prol da dignidade humana.

Tem soldado americano respondendo processo por torturar presos em Guantánamo. Tem general argentino indo pra cadeia. Tem um monte de torturadores chilenos da era Pinochet atrás das grades. Nazistas que faziam “experiências” com crianças judias são reconhecidos como monstros. Mas nossos digníssimos juízes – duas juízas! – acham isso normal, “político”.

Anistia é para todos que cometeram crimes hediondos naquele período, portanto. Que belo exemplo de justiça!

Anúncios

E.E. Major Arcy

Fiz o segundo grau no Major Arcy, escola estadual no bairro da Aclimação, em São Paulo.  Colegial noturno, sempre cabeceando de sono na última aula por ter acordado muito cedo pra trabalhar. Vida dura.

Mas era uma boa escola. Chegou a ser uma das três melhores do Estado, numa avaliação dos anos 70, época da ditadura braba. Ranking suspeito, como tudo naquela época. Mas lembro de ótimas aulas de Português com Dona Yolanda, por exemplo.

Esta semana fui avisado por um primo, que também estudou lá. Um grupo de ex-alunos estava trocando mensagens pela internet. E havia uma comunidade no Orkut de ex-alunos do Major Arcy. Aliás, duas.

Não frequento o Orkut, nem pretendo. Mas passei os olhos nas tais comunidades. Ninguém da minha geração, só mais jovens. E entre outras formas de “interação”, está lá a perguntinha:

– “Qual é o melhor time de futebol femenino da escola?”

Na outra página, numa enquete sobre as escolas da região, tascaram um  “Lazar Cegal“.

Dona Yolanda, se estiver viva, vai querer morrer. Se estiver morta, está se revirando.

E o governo do Estado, que está aí há sei-lá-quantos-anos tratando (e pagando) mal os professores, com critérios absurdos como a aprovação automática (para ostentar índices), defende a política de educação que pratica. Cada vez mais sou a favor de um projeto de lei que obrigue os filhos de governantes (e políticos, em geral)  a estudar em escola pública. Quem sabe aí investiriam um pouco mais…

Nauweb.tv

A NAUWEB VEM AÍ!

“E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha. (…)Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra!”! (Pero Vaz de Caminha, 1500)

Foram meses de preparativos. Feitos os primeiros testes, os tripulantes viram que a nau era boa, e navegava bem. Vários embarcaram nessa viagem. E, finalmente, guiados pelas estrelas da experiência e movidos pelos ventos da ousadia, podemos anunciar a todos os quadrantes a chegada da NAUWEB.

Nossa nau será avistada por todos no dia 21 de abril de 2010. Sua chegada está prevista para 12:30 h, com uma transmissão ao vivo, direto dos estúdios da VIATV, no Butantã.

Você vai conhecer a tripulação desse barco: Jornalistas, músicos, produtores independentes, artistas, sindicalistas, cineastas e profissionais da comunicação. Eles vão apresentar uma visão diferenciada das artes, da política, do comportamento, do esporte, da comunicação e, principalmente, da web. NAUWEB é uma TV pela internet, com programação ao vivo, reportagens, documentários, colunas de opinião, dicas culturais e até novela!

E, a partir de 21 de abril, novos tripulantes vão participar dessa viagem. Anote aí:

www.nauweb.tv

EMBARQUE NESSA!

(Este é o release da Nauweb, uma nova proposta de webtv. Estou nesse barco, apresentando uma coluna sobre música. Espie e ouça!)

O nome da rua

– Onde você mora?

Esta pergunta, em São Paulo, pode ocasionar respostas estimulantes. Ou embaraçosas.

– Eu moro na Cantiga do Amor.

– Ah, que pena! Eu moro na Cantiga do Desencontro.

Mas a pessoa pode morar na Travessa da Amizade, no Jaçanã. Ou na Coração Confiante, em Itaquera. Bom mesmo deve ser morar na travessa Grande Amor, no Campo Limpo.

Imagine se ela (ou ele) responder:

– Pequeno Romance.

E ele (ou ela):

–  Poema nos Olhos…

Uma fica na Cidade Tiradentes. Outra, no Parque Raposo Tavares. Zona Leste e Zona Oeste. Relação difícil, quase impossível. Duas horas de busão.

Tem muito nome sugestivo, romântico, geralmente em bairros bem pouco românticos: Rua Poema e Trova (V. Jacuí), Amor Cigano (Iguatemi), Tributo ao Sorriso (Itaquera), Rua do Carinho (Cid. Tiradentes), Murmúrios da Tarde (José Bonifácio), Saudade Triste (V. Jacuí), Rua dos Ventos do Amor (Parelheiros)…

É possível terminar na rua Final Feliz, no Capão Redondo. Ou na travessa Sonho Lindo, no Iguatemi, lá na Zona Leste. Aliás, o Jardim Iguatemi, perifa braba, é o campeão no quesito “nomes de rua sonhadores”: Sonho de Um Carnaval, Sonho por Sonho, Sonho e Saudade, Último Desejo, Noite Cheia de Estrelas, Soprando ao Vento, Três Pingos Dágua, Ternura Antiga, Pegadas na Areia. Humildes travessas em morros cheios de casinhas sem reboco. Como você já notou, são nomes de velhas canções. Até o bolero Sabor a Mi foi traduzido por Sabor de Mim, e virou travessa.

Ruas com nome de música, há várias. Cantiga da Chuva, no Itaim Paulista. Ou Última Cantiga, na Ponte Rasa. Amor de Índio pode ser localizada no Parque José Bonifácio. Saveiros, no Capão Redondo. Chão de Estrelas, no Grajaú, lá na Zona Sul. Roda Pião, em Sapopemba. Cantiga Ingênua fica no Sacomã (achava que era nome de um super-herói escroto, quando moleque). Conto de Areia, sucesso de Clara Nunes, fica na Cidade Tiradentes. Canto da Volta, no Jaguaré. Ou será que isso indica o último retorno, e não música?

E tem as genéricas: Cancioneiro de Évora, Cancioneiro Popular, e até Cancioneiro Chinês, que fica no Jardim Ângela. Sons Musicais fica em Parelheiros, e Valsa Chorosa, no Grajaú. Episódio Musical, também na Cidade Tiradentes, lá nas quebradas. Canto de Ninar (Aricanduva), Canto Bonito, da Pérola, da Noite, da Tarde, da Vida, da Serra, do Brasileiro…

Música é sempre uma boa inspiração. E não só a popular! Tem a Cravo Bem Temperado, no Grajaú. Concerto Italiano, no Jardim São Luis. Conhece a rua Flauta Mágica, em São Mateus? E a das Flautas Transversais, no J. Ângela? Tem também a travessa Flauta Encantada, na Barra Funda, onde os moradores devem torcer para que não seja a de Hamelin…

Literatura também tem vez, nessa megalópole. Na rua Capitu todo candidato a Bentinho fica com a pulga atrás da orelha. Rua Três Episódios dá um certo ar de suspense. Minha favorita é a avenida dos Apólogos Orientais, no Capão Redondo. Que nome chique! Mas há quem prefira as ruas Conto Popular, na Vila Andrade ou Contos Azuis, no Morumbi. E tem Contos Amazônicos , Gauchescos, Fluminenses… A rua Romanceiro fica na Cidade Dutra, e a Cinza das Horas, no Parque do Carmo. Ah, se Manuel Bandeira estivesse vivo!

Parece ser um truque imobiliário dar nomes atraentes para lugares inóspitos, distantes e sem recursos. Já estive num Vale das Flores que era uma pedreira só, no estado do Rio. Ou numa Vila Paraíso que era uma sucursal do inferno.  Talvez por isso, os bairros mais periféricos de São Paulo concentrem nomes como Poemas Murais e Poemas de Natal, ambos em Cidade Ademar. Travessa Rosa Perfumada, no Parque São Rafael. Ou Folha Cheirosa, no Capão Redondo.

Mas você pode se surpreender com nomes estranhos, estrambóticos, imprevisíveis. Aqui mesmo, perto de onde moro, no Butantã, tem a rua Coronel Camisão. Uma pequena vila sem saída que ali existe é chamada (informalmente) pelos vizinhos de “coronel Camisinha”. Um pouco mais adiante, encostada na USP, uma travessa da Corifeu tem o constrangedor nome de Rua Pangaré…

Mas o Jardim Iguatemi ganha. A travessa Nave Mãe é minha favorita. Ou a travessa Somos Todos Iguais. Que, por sinal, fica bem longe da Av. dos Direitos Humanos (Mandaqui, na Zona Norte).

E tem Navio Perdido (Cid. Ademar) e Rio Perdido (Saúde). Eternas Ondas, em Itaquera, e Marinha das Ondas, no Jd. S. Luís, bairros que nunca viram a cor do mar. Miragem fica na Água Rasa. Triângulo Austral, no Itaim Paulista. Punhado de Cores, no Parque do Carmo, disputando com a Cores Vivas (Itaquera) e a Rosa Mil Cores (Grajaú).

Gosto do nome Diálogo dos Ecos, que fica em Guaianases. Imagino algo, sei lá, meio cavernoso. A rua Manhã de Estio, na V. Jacuí, não deve ter problema de enchentes. Já a da Tempestade, na Vila Medeiros… Pra contrabalançar, existe a rua da Calma, no Capão Redondo, bairro não muito calmo. Ou a Temperança, no Jaçanã.

Rua com nome de bicho tem em todo lugar. O bairro de Moema tem várias com nome de passarinho. Mas é ambíguo o nome Pássaro de Fogo, na Penha. Será homenagem a Stravinsky? A mesma Penha também ostenta o Pássaro Sol, enquanto a vila Cachoeirinha tem o Pássaro da Paz. A travessa Choro da Juriti fica – coerentemente – no bairro das Perdizes. O Grajaú apresenta a Rua das Araras Amarelas, espécie desconhecida pela ciência. Já o Capão Redondo tem Aves ao Vento…

E os peixes, então? O poeta Murilo Mendes iria adorar: Peixe Boi, Peixe Lua, Peixe Galo, Peixe Vivo, e até a rua Apanha Peixe, que fica em Artur Alvim. Há quem prefira espécies voláteis, como a Borboleta Amarela, lá no Jardim Helena.

Não parece aconchegante morar na rua Coração Maternal, na Vila Brasilândia? Vá ver de perto pra sentir a barra! Existe a Ilha dos Moleques, no Itaim Paulista. A travessa Cana Cheirosa, no Tremembé. Irmãos Índios (Capão Redondo) e Coração de Bugre (Pirituba). Coração da Cidade não fica no centro, mas lá em José Bonifácio. Bela Brisa, na V. Matilde. Regresso Feliz, na Cidade Tiradentes.

Já pensou o que é viver na rua Teorema, na Vila Jacuí? E na Epifania, no Campo Grande? Outro dia soube que a rua Chão de Poeira, em Itaquera, está asfaltada. Incoerência da prefeitura. E a Amarelinhas, na Vila Curuçá, será patrocinada por um fabricante de pilhas?  Melhor ficar com o conformismo buarquiano da rua Noite e Dia.

Tá longo este post? Pequenininho perto da imensidão de São Paulo. Tem muita rua com nome curioso esparramada no mapa da cidade. E olha que eu nem comecei a falar em nome de gente…

Parfums de plaisir et mort

Não é todo dia que indico aqui no Fósforo a estréia de uma peça em Paris. Também não é todo dia que minha irmã Manuela sobe ao palco, fazendo vários papéis. Dirigida por Rui Frati, e com trilha musical de Arrigo Barnabé, Parfums entra em cartaz amanhã, 16/04, e vai até 01/05, nessa primeira temporada. Quem estiver passando por ali, aproveite! O endereço e outras informações estão aqui.

Langsdorff e Macunaíma

Passeio pela bela exposição do CCBB de São Paulo, que mostra o material produzido pela Expedição Langsdorff. A caravana de artistas e cientistas, patrocinada pelo império russo pelo interior do Brasil, percorreu 17 mil km entre 1821 e 1829. Estão ali as belíssimas aquarelas de Rugendas, os desenhos preciosos de Taunay e Hercules Florence – ele mesmo, o pai da fotografia! – e os mapas detalhados de Rubstov, que pela primeira vez estão sendo vistos no Brasil.

Um vídeo, realizado pela tataraneta de Florence, refaz o percurso, subindo os rios Tietê e Paraná e chegando até a Amazônia. Incrível como algumas localidades parecem iguais, até hoje! E algumas transformações são terríveis, impactantes.

Lá pelas tantas, cruzo com um grupo de estudantes secundaristas, aparentando entre 14 e 16 anos. A monitora do CCBB, esforçada, procura fazer analogias entre os desenhos que retratam tipos indígenas e referências mais atuais. De repente, pergunta:

– Quem aí já ouviu falar de Macunaíma?

Silêncio.

– Macunaíma, gente! Essa palavra não lembra nada, pra vocês?

Alguns risinhos abafados.

– E Mário de Andrade, já ouviram falar?

Alguns acenam positivamente com a cabeça.

– O que ele fez?

Silêncio total.

Me afastei, meio deprimido. Ainda ouvi a monitora dizer “gente, vocês precisam ler mais, isso aí vai cair no vestibular”, em tom paciente.

Paciência que já não tenho. Aqueles eram estudantes da rede pública do estado mais rico da federação. Quantas gerações foram perdidas com o abandono do ensino básico neste país? Quantos governos foram omissos, coniventes, criminosos mesmo? Privar milhões de jovens de uma boa educação não é crime de lesa-pátria? Pois devia ser!

Estadão de domingo

Em aberta campanha pró-Serra, o jornalão estampa fotos sorridentes e rasga elogios ao “ex-candidato do conflito”. Em manchete, afirma que Serra prega fim das divisões. Colunistas rasgam elogios ao discurso do prócer da oposição. Um deles, chefe de redação da sucursal em Brasília, chega ao exagero de dizer que Serra “virou os mitos do lulismo pelo avesso”, com seu discurso “por um Brasil sem donos” (?).

Relembrei, com prazer, um elegante conceito emitido pelo professor Elias Thomé Saliba, no caderno literário do mesmo jornal, na véspera.

Afirma o professor de Teoria da História da USP que os principais estudiosos e intérpretes do Brasil se notabilizaram pela pesquisa empírica, “não aderindo (…) aos engodos sutis do pensamento liberal nativo, com sua vocação para harmonizar conflitos político-culturais.”

Sei que às vezes não dá tempo, mas seria bom que os jornalistas lessem com mais atenção o próprio jornal onde trabalham. Às vezes tem coisa que presta…


RSS Fósforo