Arquivo para fevereiro \22\UTC 2015

Perdidos, achados, escritos

Os surrealistas franceses criaram o conceito de objet trouvé, objeto encontrado, e faziam arte a partir dos detritos da civilização industrial, revolucionando o conceito de escultura. Adeptos da colagem e da assemblage, também deram novos significados a recortes de jornal, fotografias, anúncios, tecidos, bulas de remédio, cabelos, folhas secas e mais uma infinidade de objetos. Arrumados numa tela, ou melhor, num plano, essa estética da acumulação rompeu com os limites da pintura tradicional e redefiniu os caminhos da arte no início do século XX.

fountain

É comum nos depararmos com um objeto qualquer e imaginar que aquilo poderia virar outra coisa. Os readymade surrealistas causaram furor, tendo como ícone a “Fonte” de Duchamp. Para muitos, apenas um urinol invertido, para outros, uma invenção fantástica a partir de um objeto industrial. Picasso fez uma cabeça de touro a partir de um guidom e um selim de bicicleta. Crianças do interior espetam palitos num chuchu e aquilo vira um boizinho.

Picasso

E objetos encontrados em livros? Fotos, cartões postais, bilhetes de ônibus, ingressos de teatro, selos, recados, flores secas, santinhos, calendários… Quem nunca topou com essas coisas fuçando em velhas estantes? Imagine quem trabalha com isso, num sebo. É como se a mão do acaso semeasse grãos que expostos à luz fossem germinar de forma imprevisível.

Pois o sebo-livraria-editora Alpharrabio, polo cultural de Santo André, ao completar 23 anos de intensa atividade, resolveu montar uma exposição destes objetos encontrados em livros. Mais que isso: convidou poetas, prosadores, agitadores culturais, artistas plásticos e midiáticos a interagir criando pequenos textos, em poesia ou prosa, inspirados nos objets trouvés. Devidamente escaneados e colocados na rede, cada imagem podia ter até três intérpretes literários, com um limite de 300 caracteres.

Perdidos

A ideia partiu da dramaturga e professora Adélia Nicolete, especialista em processos colaborativos. Mas como organizar uma exposição dessas? O óbvio seria pregar o objeto na parede e pendurar ao lado os resultados. O pessoal da Alpharrabio nunca se contentou com o óbvio. Ao entrarmos na livraria, vemos uma surpreendente coleção de livrinhos artesanais com uma imagem na capa, dispostos em prateleiras. Ao pegar um deles revelamos o objeto, escondido atrás. E dentro do livro as leituras poéticas, sensoriais, engraçadas, trágicas, irônicas, transcendentais, amargas e sintéticas de 53 autores. Edição única, exemplares únicos, misturando escritores consagrados, emergentes e inéditos.

1617625_10152861487303300_1444334250981439034_o

A execução e montagem da exposição, de Luzia Maninha, são dignas de aplausos. O que dizer de uma exposição onde o público está sempre com um livrinho na mão, lendo e conferindo uma imagem na parede? Literatura viva, dinâmica, provocativa e interativa, motivando e encantando leitores. Os inquietos pioneiros do século passado iriam adorar (nem eles pensaram nisso!).

20150221_133106

Difícil ler tudo de uma vez só. É preciso retornar, curtir, filtrar, depurar. Muitas bonitezas, algumas ligeiras, outras profundas. E a festa (sim a inauguração foi uma festa!) teve o brilho extra do lançamento da coletânea do poeta Tarso de Melo, com direito a intervenções estimulantes da anfitriã Dalila Teles Veras, do editor Reynaldo Damasio e do próprio autor.

20150221_133302

Quer conhecer algumas obras? É só acessar os links abaixo. Mas recomendo com fervor uma visita à Alpharrabio, para tomar um cafezinho e se deliciar com este encontro poético de épocas, gerações, indivíduos que nunca se conheceram, que motivados por um simples gesto de abandono nas páginas de um livro propiciaram a todos nós uma experiência estética inesquecível.

http://perdidosachadosescritos.blogspot.com.br/

https://www.facebook.com/PerdidosAchadosEscritos

Anúncios

Tá Faltando água?

emilinha-borba-tomara-que-chova

                Uma das características matriciais da nossa música popular é a capacidade de rir das próprias desgraças.  As letras dos primeiros sambas já ironizavam a pobreza, a vida dura das favelas, o desemprego, a exploração da mão-de-obra e a fome. A falta ou a perda de um amor também entram no rol das desgraças, claro, mas aí se trata de um tema universal, cantado por vários povos e culturas.

Já cantar com brejeirice a falta de pão ou a falta de água é caminho arriscado, que mexe com dores e carências materiais. Vários sambistas deixaram sua marca abordando esse assunto tão melindroso, alguns com tanta verve que acabaram criando marchinhas de carnaval inesquecíveis. Em 1950, Emilinha Borba lançava, no filme “Aviso aos Navegantes, a antológica marchinha Tomara Que Chova, cuja letra ganha atualidade surpreendente neste ano de 2015.

Tomara que chova, oi
Três dias sem parar!

A minha grande mágoa
É lá em casa não ter água
E eu preciso me lavar.

De promessa eu ando cheia
Quando conto a minha vida ninguém quer acreditar
Trabalho não me cansa
O que me cansa é pensar
Que lá em casa não tem água nem pra cozinhar.

Obra prima de Paquito e Romeu Gentil, Tomara Que Chova foi muito imitada, nos anos seguintes. A falta de água era uma realidade cotidiana nos morros cariocas, e em 1952 foi a vez de Luiz Antonio e Jota Jr. emplacarem Lata Dágua, na voz de Marlene. O drama típico de quem não tinha água em casa era representado por mais uma entre tantas Marias que se tornaram clássicas na música brasileira.

Lata d’água na cabeça
Lá vai Maria, lá vai Maria
Sobe o morro e não se cansa
Pela mão leva a criança
Lá vai Maria (bis)

Maria lava roupa lá no alto
Lutando pelo pão de cada dia
Sonhando com a vida do asfalto
Que acaba onde o morro principia.

Em 1954, a marchinha Vagalume, de Vitor Simon e Fernando Martins, voltava a retratar a situação típica da então capital brasileira. Violeta Cavalcanti e Os Anjos do Inferno gravaram registros históricos:

Rio de Janeiro
Cidade que nos seduz
De dia falta água
De noite falta luz.

Abro o chuveiro
Não cai nem um pingo
Desde segunda
Até domingo.

Eu vou pro mato
Ai! pro mato eu vou
Vou buscar um vagalume
Pra dar luz ao meu chatô.

Não chegou a ser um sucesso arrasador, mas até hoje muitos lembram os versos “de dia falta água, de noite falta luz”. O mesmo Vitor Simon insistiu no tema, em parceria com Ney Campos e Luiz Martins, na marcha Panela Vazia, gravada por Leny Eversong, também em 1954:

Ai! Meu Deus do céu

Que carestia

Falta de tudo na vida

Hoje em dia.

Falta gás no fogão

Falta luz no porão

Falta água na pia

Fogo apagado

Panela vazia.

 

                Daí pra frente o tema foi sumindo das letras, embora a água continuasse chegando com dificuldade ao alto dos morros. Em outras bandas, os nordestinos, os sertanejos, os caipiras, sempre abordaram a questão da falta de chuvas de modo mais sombrio, até mesmo trágico. Estes sambistas irreverentes da década de 1950 provavelmente não acreditariam se alguém dissesse que suas obras iriam ter aspectos premonitórios em pleno século XXI. A falta de planejamento de vários governos somada à falta de chuvas leva as grandes metrópoles à beira do colapso, começando por São Paulo. Resta-nos cantar a marchinha imortalizada por Emilinha Borba, enfatizando o verso “de promessa eu ando cheia”. E pedir ao bom Alah que mande água pra Ioiô, mande água pra Iaiá…

 

(publicado originalmente em http://www.revistamusicabrasileira.com.br)


RSS Fósforo