Arquivo de março \31\UTC 2013

Eu estive aqui, parte 3

Para entender as origens dessa modesta saga, recomendo ler os dois primeiros posts. Se você pegou o bonde andando, aviso que não abordo lugares turísticos, cartões postais, eventos comuns. Fernando de Noronha ou aquele reveillon na praia são coisas legais, mas milhões de pessoas já estiveram lá ou fizeram algo parecido, e não é este o meu foco. Antes, contar um pouco das roubadas onde me meti,  lugares estranhos, inusitados, incomuns, que não constam de nenhum catálogo turístico.

Como, por exemplo, esse aqui:

Poço no Sertão

Quem viaja pelo sertão do Rio Grande do Norte, de Natal até Mossoró, vê no horizonte vários desses estranhos “cavalos”, em movimento constante. Eles bombeiam petróleo do solo para dutos da Petrobras, em pequena quantidade. São centenas espalhados pelo sertão, sob um céu magnífico e abrasador. É uma paisagem comum para quem vive por lá, mas sempre surpreende os “do Sul”. Mossoró é a capital do sal e da carne-de-sol, embora outras cidades nordestinas também disputem o título. Até Governador Valadares, em Minas, se orgulha de ter a melhor carne-de-sol do mundo, vai saber…

AeroportoUrucu

E por falar em Petrobras, creio que só funcionários da empresa sabem onde fica esse aeroporto. A província petrolífera de Urucu fica a mais de 600 km de Manaus, e só se chega de avião (ou de barco, mas demora dias). Ali fica o maior campo de extração de gás do país. O grande problema é como fazer este gás chegar até os centros urbanos. O gasoduto Urucu-Coari atravessa muita água e terras inundáveis. Ainda está sendo construído, deve chegar a Manaus. Cercado pela mata virgem, a vida em Urucu é idêntica à uma plataforma oceânica: isolada, com regras rigorosas de segurança e turnos periódicos. O duro foi ficar dois dias sem tomar cerveja, naquele calor… Álcool é expressamente proibido!

Cão e jegue cópia

Já esta foto foi feita da janela de um trem, no interior do Maranhão. Não um trem qualquer, mas o trem de minério que liga a Serra de Carajás ao porto de São Luís. Gosto da simetria entre jegue e cão. Filmei em cima de um vagão de minério (fiz também o percurso Vitória-Minas!), e passei 4 dias em Carajás, passando por Marabá, Parauapebas, Eldorado do Carajás… O nome te lembra uma tragédia? Estive lá também, no local onde  troncos calcinados espetados no chão lembram os mortos do massacre. Filmei, não fotografei…

Lulas na feira

Mudando de hemisfério, atravessei várias vezes esta feira em Siracusa. Frutos do mar fresquíssimos, uma variedade de mariscos de dar inveja aos mais de 9 mil km da costa brasileira. Ficava no quarteirão onde eu estava hospedado, de frente para o Mar Jônico, onde dei boas braçadas. Siracusa? Mar Jônico? Consulte um enciclopédia, Joãozinho… o Google serve.

UsinaCatende5

Vou danado pra Catende, com vontade de chegar…. conhece os versos de Ascenço Ferreira? Fala da histórica usina de açúcar, que de tão importante era ligada por uma linha de trem até o porto de Recife. Hoje o trem está desativado, mas a usina ainda funciona, em sistema de cooperativa, depois que os donos faliram. Controlada pelos ex-funcionários, é um belo exemplo de luta e conquista dos trabalhadores, superando uma situação quase feudal. Estive lá em duas ocasiões, e me hospedei na antiga casa grande. Essas varandas tem história!

CasaGrande

Alexandre Vannuchi Leme

Conheço relativamente bem a USP. Estudei lá, trabalhei lá e,  sendo morador do Butantã,  passeio por lá com frequência. Confesso que nunca havia entrado no prédio novo da Geociências. Fui em festas na antiga Geologia, no tempo de estudante, mas era em outro local. No pátio central, um esqueleto imenso de dinossauro nos encara, desafiador. E não é uma metáfora…

Dinossauro

Nesta sexta-feira estive no ato de reparação a Alexandre Vannuchi Leme, promovido pelo Comitê de Anistia. Pátio lotado, muitos jornalistas e câmeras de TV, depoimentos emocionados. Também foi entregue ali a certidão oficial de óbito de Wladimir Herzog à sua família, corrigindo uma mentira histórica. O governo brasileiro finalmente pede desculpas por mais um bárbaro crime cometido pela ditadura militar.

Todos conhecem a história de Herzog. A de Alexandre é menos conhecida. Aluno brilhante, primeiro da turma, foi sequestrado e torturado até a morte nos porões do DOI-CODI, em São Paulo. Militava no movimento estudantil, era simpatizante da ALN (Aliança Libertadora Nacional). um dos inúmeros grupos que se formavam para combater o regime autoritário e sanguinário instaurado em 1964 através de um golpe de estado. Alexandre tinha 22 anos, e iria se formar naquele ano, 1973.

Entrei na USP bem depois, em 79. O DCE Livre se chamava Alexandre Vanucchi Leme. O nome, desde então, me é familiar. Como é o de Rubens Paiva, Herzog, Honestino Guimarães e tantos outros que desapareceram nas grifas da repressão. Ao participar do ato, ontem, reencontrei velhos amigos. Alguns hoje são doutores, permaneceram na academia. Outros são jornalistas, geólogos, empresários, etc. O abraço fraterno de cada um dispensava palavras. O que nos unia ali era um sentimento maior que o da simples amizade estudantil. Uns militam ,outros não, uns são filiados a partidos, outros não, uns defendem X, outros defendem Y. Mas há um horizonte comum que se mantém, e que permite momentos inesquecíveis nestes reencontros. A luta pela liberdade, pela democracia, pelo fim do autoritarismo, pelos direitos iguais para todos, por um estado mais justo. E, como todos sabem, esta luta continua e continuará, sempre.

Anistia Alexandre Vannuchi 2

(Na foto, a ministra da Secretaria dos Direitos Humanos, Maria do Rosário; Paulo Abrão, presidente da Comissão de Anistia; o deputado Adriano Diogo (PT), geólogo e contemporâneo de Alexandre Vannuchi, também preso e torturado na época; o presidente do DCE da USP e o presidente da UNE).

Eu estive aqui, parte 2

            Antigamente a gente limpava o baú e achava fotos antigas, meio esquecidas. Hoje limpamos o HD, e topamos com coisas que muitas vezes andavam esquecidas.  Assim, dou continuidade à série iniciada há pouco, que não tem nada a ver com turismo tradicional.

            Vendo estas fotos, tenho a impressão de que ainda conheço muito pouco deste país tão vasto e desigual. Já rodei vinte estados, mas não conheço direito a Zona Leste de São Paulo, cidade onde moro…

            Passei muitas férias em Ilhabela, desde criança. Esta foto de São Sebastião fiz nos anos 70, com uma Kodak desse tamaninho… A má conservação faz com que pareça ser quase um século mais velha! Hoje a Casa Esperança está restaurada e tombada pelo Patrimônio Histórico, felizmente.

Casa Esperança 1975

A primeira vez que nadei no rio Tapajós foi em 2005. Lá conheci o Saúde e Alegria,  e me apaixonei pelo projeto, feito junto com a comunidade. Naveguei rio acima nesse barco, o pioneiro. Voltei depois para a inauguração do novo e maior barco-hospital, e aí foi só festa, que já comentei aqui no Fósforo.

Barco Saúde

Uma situação incrível foi a filmagem de apiários no sertão do Piauí, em 2008, no meio da caatinga. Imagine vestir essas roupas num calor de quase 40 graus! Aí os técnicos avisam: “abelha não gosta das cores vermelha ou preta, ficam agressivas”. Vá dizer pros japoneses  fabricarem uma câmera branca, então! Os zangões se atiravam contra a lente como kamikazes, e aquele zumbido infernal quase enlouqueceu a equipe. Ninguém escapou de uma ferroada, no mínimo…

Apiário 4

Não consta dos manuais turísticos, mas é um lugar de paisagens muito bonitas: São João do Polêsine, no interiorzão do Rio Grande do Sul. Fui lá gravar umas cooperativas, e de repente caímos no meio da festa anual da colheita do arroz. Influência forte da colonização italiana. Até eleição da Rainha e das Princesas do Arroz presenciei…

Polêsine arroz

Certamente uma das coisas mais legais (e trabalhosas!) que fiz foi participar de um projeto que exibia filmes brasileiros na periferia de São Paulo. Durante meses fomos a lugares que muito paulistano não conhece, e onde você encontra brasileiros de todas as origens. Filmes de graça, exibidos numa tenda com 300 lugares, com direito a matinê para a criançada. Em praças, campinhos de futebol, terrenos baldios, quintais de igrejas…

Cinema na Rua 042

E de todas estas viagens, o que mais permanece é o contato com as pessoas. Gente de todo o tipo, cor, idade, profissão. De uma diversidade fantástica! É por isso que quando alguém me pede pra definir o brasileiro, dou risada. De qual brasileiro você está falando, cara-pálida?

Cronista, paulista, sambista…

 

Outono de meu tempo

Conheço Fernando Szegeri há pelo menos uma década, embora nunca tenhamos sido amigos próximos. Nunca estive na casa dele, e vice-versa. Nos encontramos nesse grande, caloroso e fragmentado arquipélago de amizades que são os botequins da cidade.

Presença constante nos bares paulistanos onde rola a boa música brasileira, é um dos animadores da roda de samba do Ó do Borogodó, com seu grupo Inimigos do Batente. Organizador de eventos musicais, produtor de shows, advogado e filósofo (!), Szegeri escreve há anos no blog Só Dói Quando Eu Rio.

Discípulo confesso e apaixonado de Rubem Braga (“o maior dos escritores brasileiros”), o camarada lançou no finalzinho do ano seu primeiro volume de crônicas (Outono do Meu Tempo, 2012,Ed. Scortecci).

Confesso que estranhei o título, com um tom meio saudosista. Parece coisa de velho, embora Zé Geri, como é chamado pelos amigos, ainda tenha muita lenha pra queimar. Por se tratar de uma coletânea, há uma natural mistura de tons, ora irônico, ora crítico, ora melancólico.

Mas sempre musical! A música é tão presente na vida de Fernando Szegeri que as citações de letras -quase sempre de sambas – brotam naturalmente no texto. E como o repertório do cara é imenso, muitas até passam batidas pro desprevenido, tão integradas estão ao desenrolar da prosa. Que beira a poesia em vários momentos, mas isso fica por conta do leitor.

O cronista se aproxima do mestre quando fala de temas universais, como um dia chuvoso, um domingo de Carnaval, uma porta de barbearia, uma noite junina. Adquire um tom mais zombeteiro quando fala de butiquins (é assim que ele grafa, pleno de razão), receitas domésticas ou um bêbado num ônibus. Aqui se aproxima de cronistas contemporâneos, mas sem nunca cair na vala comum da mera gracinha. Há sempre tutano por baixo do angu, pode apostar.

Aliás, Zgereri não se restringe a ser um “cronista paulista”.  Já morou em outras regiões, quase virou paraense, adora o Rio. É um cronista brasileiro, capaz de falar de interior e cidade grande, de Norte e de Sul, de rico e de pobre. Torce pelo Palmeiras, mas ninguém é perfeito…

Nesta terça-feira, dia 12 de março, ele faz um segundo lançamento do livro em São Paulo (onde mais?). Rumbora lá, moçada!

Lançamento

Eu estive aqui

É inevitável, um dia você ouve a pergunta. “Onde você já esteve?” Se parte de alguém mais jovem, até uma criança, a curiosidade às vezes se mistura com a inveja, com a vontade de ir mais longe. Se vem de alguém mais velho, geralmente é uma inquisição, uma investigação sobre a tua experiência sobre a face do planeta. Você tem de provar a quilometragem, mostrar que conhece alguma coisa além do teu quintal.

Mas às vezes a pergunta vem de um amigo, na mesa de um bar. Ou de um aluno. Ou de um vizinho. E você tem de fazer um exercício seletivo intenso, para oferecer o teu melhor currículo. Uma praia, um continente, um jogo de futebol, uma avenida, um certo carnaval… Em quantas roubadas você já esteve? Em quantas festas você queria estar longe dali? Em quantas cidades você nunca mais quer pisar na vida? E em quantas você amaria voltar?

Ouvi esta pergunta (novamente) há pouco tempo. E escolhi alguns lugares insólitos pra começar, mas aviso que a lista é grande. Conheço Oropa, França e Bahia, mas não conheço a casa do meu vizinho… Turismo? Me inclua fora disso. Não vou falar de cartão postal. Ontem, remexendo no baú de fotos (na verdade, um HD) relembrei de alguns lugares, digamos, inusitados.

Estive mais de uma vez nas minas de carvão de Criciúma…


DanielRampa

Toquei bandonéon (mui malo!) no bar El Sur, em Buenos Aires…

IMG_4843

Passeei com o meu amor no Vicolo del Divino Amore, em Roma…

Divino Amore

Testemunhei a  Giselle Bundchen de biquíni num aeroporto europeu…

Gisele Roma

Acordei um dia no interior da França, abri a janela, e contemplei esta paisagem…Paisagem da Janela

Estive no Fórum Social Mundial de Belém, em 2010, e vi a Morte de perto!

A Morte

Tô falando sério! Já estive até na casa do Chapéu, e provo: Fica em Minas Gerais…


Ambev 054