Arquivo de agosto \28\UTC 2009

Gárgulas e quimeras

notredame

Subir os quase quatrocentos degraus da Catedral de Notre Dame e ver de perto as famosas gárgulas é um dos programas favoritos dos turistas em Paris. Minha primeira referência deste cenário vem do cinema, com o Corcunda de Notre Dame, que assisti ainda menino.  A interpretação de Charles Laughton é inesquecível.  Como esquecer Quasímodo tentando conquistar a cigana Esmeralda (Maureen O’Hara) tocando aqueles sinos enormes, enlouquecido?

Pouco a pouco, fui me familiarizando com as gárgulas e quimeras que ornamentam a fabulosa igreja. A ponto de descobrir a diferença entre gárgula e quimera, veja só! As gárgulas servem de escoamento das águas de chuva, e sempre têm a boca aberta. Sua função é fazer com que a água caia longe da parede, evitando manchá-la.

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Os gregos e romanos gostavam de esculpir leões ou peixes para a função de gárgula. A era medieval, com seus fantasmas e medos, desenvolveu essas figuras grotescas e incorporou-as à arquitetura gótica, da qual a Catedral de Notre Dame é um exemplo famoso.

Paris  37

As quimeras são apenas decorativas. Passa na cabeça de alguém, nos dias de hoje, enfeitar um templo cristão com estes bichos estranhos, que muitas vezes tem chifres e pés de bode, fenótipo clássico do coisa-ruim?

Paris  43

Estas, na verdade, foram criadas pelo arquiteto Viollet-le-Duc, durante a restauração da Catedral, feita no século XIX. Embora inspiradas nas figuras da Idade Média, são na verdade bem mais recentes. E, de tão feias, acabam virando charmosas, podendo ser encontradas em chaveiros, camisetas, ímãs de geladeira, brincos e colares. A antiga função de espantar maus espíritos talvez ainda esteja no inconsciente de quem adquire um souvenir desses…

Paris  41

As maravilhas d’Orsay

Qual a imagem que vem à cabeça de um brasileiro quando se fala da França? Talvez a primeira impressão seja gastronômica (queijos, vinhos). Para outros, literatura (Hugo, Flaubert, Balzac, Proust e tantos outros). Napoleão, certamente, é uma imagem muito forte. Os mais ligados em política lembrarão de 1789 ou de maio de 68. Os fãs de cinema lembrarão de Godard, Truffaut, Resnais, Tati e mais meia dúzia. Os mais jovens, de Amélie Poulain ou de Ratatouille (por analogia). E tem Moliére, Ravel, Debussy, Curie, Braille, Asterix, Sartre, Camus, Piaget, Lacan, Deneuve, Chevalier, Montand, Piaf, Bardot, Gainsbourg, Platini, Zidane…

Filho de pintor, a mais remota lembrança que tenho da França vem dos impressionistas. As prateleiras de meu pai eram cheias de livros fascinantes, com reproduções de quadros que povoaram a minha infância. Renoir, Gauguin, Cézanne, Matisse, Lautrec, Manet, Monet, Van Gogh, Degas, Rousseau, Sisley, Seurat… E também Corot e o anarquista Courbet, que me apresentou cruamente, pela primeira vez, a origem do mundo.

A França passou a ser, para mim, um reino mágico de pintores que mudaram a história da arte com pinceladas luminosas. Nada mais natural que, ao pisar em Paris pela primeira vez, eu procurasse o Musée d’Orsay, antes do Louvre.

Paris  72

A estação de trens transformada em museu é linda, como costumam ser as estações de trens.  O amplo espaço central é preenchido por esculturas, e dominado pela presença imponente de Auguste Rodin. Creio que é uma tendência natural do século XXI olharmos com mais atenção para Camille Claudel. As mulheres, por identificação; os homens, por peso na consciência. Mas, acima de tudo, é a maior escultora figurativa da era moderna.

CamilleClaudel

Perambulando pelo museu (lembrei de Mussorgski – com a orquestração de Ravel, claro -) me vi frente a frente com lembranças de minha infância. Umas ternas, outras terríveis.

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Quantas vezes na vida temos a chance de ver, depois de adultos, as imagens que povoaram nossos sonhos juvenis? A energia que vibrava daqueles quadros novamente me atingiu em cheio, como quando me vi diante da Vênus de Boticcelli. Mas isso é outra história, em Florença, depois eu conto.

Por sorte, fui acompanhado de outra filha do mesmo pintor, que soube registrar meus espantos diante de tantas maravilhas. A Manuela, irmãzinha querida, o devido crédito pelas fotos!

Paris  70

(Próxima parada, as gárgulas de Notre Dame!).

A música das ruas de Paris

Porque hoje é sábado, e amanhã é dia de concerto (no Sesc Pinheiros, com o mano Marcelo Brazil e sua partner Rosa Barros), adiei o Museu Orsay para o próximo post. Em Paris, allegro ma non troppo,  ouvi música em Montmartre, numa estação de metrô, numa ponte sobre o Sena…

Músicos

Sax no metrô cópia

Sax  na ponte

Mal comecei a escrever este post, começou a tocar no rádio a fantástica suite composta por Almeida Prado para o filme mudo Études sur Paris (1928), de André Sauvage.  Sincronicidades…

PS noturno, 4 horas depois: Fui assistir A Partida, belo filme japonês vencedor do Oscar de Melhor Estrangeiro este ano. Tem pequenos escorregões estilísticos (alguns chavões clássicos), senão seria perfeito. Nota 9. O que mais me tocou foi o papel fundamental que a música tem no filme, dentro e fora da história. Por isso ele fecha este sábado em que a música expressou mais que as palavras.

A Partida

No interior da França

Uma das lembranças que mais me marcou na passagem pela França foi a noite em que dormi na casa de minha irmã, na pequena cidade de Beaumont Les Autels, perto de Perche.

Trigal cópia

A própria viagem é um alumbramento. Os campos de trigo, tão comuns para os europeus, são para mim cenários de filme, telas de Van Gogh…

Para chegar lá passamos por Versalhes, palácio de uma imensidão difícil de descrever. Ali Maria Antonieta comeu seus últimos brioches.

Versailles 09Versailles 18

Almoçamos em Chartres, depois de visitarmos os maravilhosos vitrais, tidos como os mais belos do mundo. A luz do sol se filtra pelas janelas e ilumina suavemente os arcos ogivais, exemplos típicos da arquitetura gótica. A igreja foi construída no século XII.

Chartres 09

Chartres 21

Vitral-Chartres

Beaumont Les Autels pode ser descrita como duas dúzias de casas em torno de um castelo. A família me levou pra conhecer a cidade a pé, o que fizemos em 20 minutos, sem cruzar com um automóvel sequer. Sossego absoluto!

Beaumont Les Autels cópia

Beaumont 10 cópia

À noite, fomos comer crepes na vizinha Perche. Provei a bebida típica da região, uma sidra que é servida nessas xícaras enormes.

Sidra cópia

Cauã não bebeu, mas só de ficar perto da garrafa ficou assim…

Cauã 1 cópia

Eles moram numa casa de quase 200 anos, com três andares e muito espaço, além de um quintal com parreiras, ervas aromáticas e morangos que foram colhidos no café da manhã.

Casa em Beaumont cópia

Paisagem da Janela cópia

Acordar cedinho, abrir a janela e ver esta paisagem não tem preço!

Flores Beaumont cópia

(Próxima parada,  Musée d’Orsay!)

Recado de filha

Amigos,

esta quarta-feira, às 18:30,  estréia
meu curta ATO
no MAM (RJ).

com

Armindo Pinto_Stela Celano_Flávia Naves_Rodrigo Vrech_Simone André

Vilma Melo_Bruna Lobo_Felipe Cataldo_Marcelo Victor_Clarisse Fernandes

Leonardo Oliveira_Pedrinhu_Melissa Coelho_Marcelo Marcos_Ícaro Lira

Marcus Galiña_Camila Magalhães_Didi Liberato_Regi Cavaleiro_Chico

Sampaio_Junior Moura_Tainá Vital_Paulo Assunção_Gilberto Santos

Preparação teatral – Armindo Pinto Fotografia – Paulo Camacho Produção – Tainá Vital

Iluminação – Cláudio Tammela Câmera assistente – Fábio Nascimento Elétrica – Regi Cavaleiro

Motoristas – Jayr Amaral Filho_Paulo Assunção Projecionista Gilberto Santos Edição de imagem – Alexandre Gwaz Edição de Som – Cláudio Tammela_Antônio Escobar

Música original – Antonio Escobar Direção – Maria Flor Brazil


Aguardo todos lá!

ATO_flyer


Intervalo literário

Comecei a ler o Leite Derramado, do Chico Buarque, antes desta última viagem. Terminei agora, e não resisto a fazer um comentário, antes que esqueça (sabe como é, a idade, disco rígido cheio…).

Chico escreve cada vez melhor, formalmente falando. Há trechos lindos, onde a poesia aflora. Mas o enredo nebuloso ainda é um problema. Creio que Budapeste é melhor resolvido, neste aspecto.

Não que histórias com começo-meio-e-fim sejam imprescindíveis, hoje em dia. Mas as lembranças de um velho centenário, ditadas num hospital, dão margem a facilidades literárias, como repetições, omissões, devaneios e elucubrações que não levam a lugar algum. Um truque meio besta, enfim.

Curioso é notar que o próprio Chico Buarque já havia criado, de forma esplêndida, este personagem. Na canção O Velho Francisco, gravada em 1989, um velho internado num asilo rememora, de maneira confusa (e poética) sua vida. O anônimo preto velho dos versos musicados muda de cor e se espicha em 195 páginas como o decadente Eulálio d’Assumpção, filho de senador, de família influente no Rio de Janeiro do século XX.

O primeiro diz: “Acho que fui deputado/ Acho que tudo acabou/ Quase que já não me lembro de nada/ Vida veio e me levou”.  O segundo repete, com outras palavras, o mesmo destino.

Na belíssima canção, que gosto de ouvir na voz de Renato Braz, o personagem diz que “hoje é dia de visita/ vem aí meu grande amor”. O livro abre com as seguinte palavras: “Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda de minha feliz infância, lá na raiz da serra”.  Uma origem rural comum liga os dois velhos. Ou melhor, revela que estamos na presença de um mesmo velho, doidinho e solitário: “Freqüentei palácio sem fazer feio/ vida veio e me levou”.

O Chico escritor não deveria disputar queda de braço com o Chico compositor. O criador genial cede lugar ao diluidor apenas competente.

Paris, première nuit

Paris 024

Há uma diferença fundamental entre viajar de avião nos trechos São Paulo-Roma e Roma-Paris. No primeiro (Alitalia, classe econômica), padrão brasileiro. Cadeiras apertadas, comida mequetrefe, sucos adoçados e refrigerantes abomináveis. No segundo (Air France, classe econômica), comida bem decente, vinho tinto ou branco, a escolher. Mas as cadeiras continuam apertadas… Avião é, com certeza, um dos meios de transporte mais desconfortáveis do mundo. Só ganha de jegue.

Nosso Irmão

Claro que o Aeroporto Charles de Gaulle é imenso, claro que me perdi por esteiras rolantes e corredores até encontrar Manuela, minha irmã. Como eram mais de 22 h, fomos direto para um restaurante em Republique, comer moules (mexilhões) e colocar as conversas em dia. Preços europeus: pressión (chope), 4 euros. Foi o único momento em que deu saudade do Brasil!

Paris 023 cópia

A primeira noite em Mercadet-Poissonier, no 18eme, perto de Notre Dame, você nunca esquece. Preparação para a maratona cultural dos dias seguintes. Alvos principais: Orsay e o Musée de l’Homme. (Pensou que era o Louvre? Errou…). Mas antes disso passamos un lundi à la campagne.

Eiffel-noturna

Ah, e não subi nesse monte de ferro  velho! 13 euros, fila de mais de uma hora debaixo de um sol de derreter le tombeau de Napoleon. De todo canto da cidade se avista o monstrengo. Como vou ao Rio desde a infância e nunca subi no Pão de Açúcar, empatei o jogo neste ano franco-brasileiro. Pra mim, continua sendo apenas cenário.

(continua)