Arquivo para janeiro \25\UTC 2013

São Paulo, cidade feia

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Aniversário de São Paulo, cidade onde vivo há mais de 40 anos. No jornal matutino, um caderno especial traz centenas de comentários e sugestões para melhorar a cidade. Ilustres e desconhecidos concordam numa coisa: é uma cidade feia. Boa parte das sugestões são para embelezar, florir, despoluir, descontaminar. Outra parte fala em pacificar, oferecer mais cultura, mais escolas, mas saúde, tudo aquilo que toda cidade precisa sempre, mais e mais.

O curioso é o sentimento comum de que “é feia, mas gosto dela”. Claro, só entrevistaram gente com algo a sugerir para tornar a vida mais agradável, não que queira se mandar da cidade. O escritor Humberto Werneck, um de meus colunistas favoritos, mestre do humor fino e mordaz, define a cidade como “danada de feia – mas cozinha como poucas!”, e recomenda a ela um “tapinha na fachada”.

Alguém imagina ver o Werneck ofendido na seção de cartas, ameaçado de morte, xingado até a quinta geração, por ter chamado a cidade de feia? Não só ele, mas todos os entrevistados pelo jornal, que expressaram a mesma opinião. Só um psicopata tentaria mudar a opinião deles no tapa, certo?

Pois certa vez comentei, aqui no Fósforo, que a cidade de Picos (PI) era feia. Menina, você não imagina a quantidade de ofensas que lotou a caixa de respostas ao post. Isso faz mais de quatro anos, a até hoje ainda tem gente que entra lá pra me xingar de tudo o que você possa imaginar. Preconceituoso, sulista metido, xenófobo (?), ignorante e vagabundo são apenas as ofensas publicáveis. Há insinuações sobre minha masculinidade (como nordestino é obcecado com essas coisas!), ofensas à minha mãe, ameaças de linchamento e humilhação pública se voltar a pisar em Picos e otras cositas más.

Não apaguei as mensagens (mais de cem!), até porque compõem um painel interessante sobre o sentimento de inferioridade mal resolvido que certas pessoas cultivam. Dois ou três se colocaram acima da miopia bairrista e reconheceram: “Tá, a cidade é feia, mas gosto dela”. Postura saudável, inteligente e crítica. É de gente assim que uma cidade precisa para melhorar, seja São Paulo, Nova Iorque, Picos ou Xiririca da Serra.

Diz o ditado que quem ama o feio, bonito lhe parece. Gostar é o primeiro passo para tentar melhorar. Mas achar que é lindo, que está tudo bom, de forma acrítica, é caminho certo para o comodismo e a inércia. Enxergar os defeitos de sua cidade e propor (ou cobrar) soluções é postura digna, um exercício de cidadania.

Picos tem menos feiura que São Paulo, pois é bem menor. Também tem menos belezas, pelo mesmo motivo. Há cidades muito mais bonitas esparramadas pelo mundo, pode ter certeza. Mas nesse 459º aniversário de São Paulo, me impressionou a quantidade de pessoas que sugeriram ideias para deixar a paisagem urbana mais agradável. Como diz o Werneck “ela pode até cozinhar como poucas, mas podia ser mais graciosa.” Quem há de duvidar?

ElisRegina2010 010

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Uma taioba de domingo

Com a chegada do verão, meu pé de taioba ocupa o jardim.   Chuva e calor é tudo que ele gosta, e as folhas enormes começam a sombrear as plantas em torno. É hora de ir pra panela!

Taioba 1

Neste domingo passei a faca em cinco folhas, o que rendeu para quatro pessoas e sobrou. Principalmente, clareou aquele cantinho do muro. Quem não conhece taioba confunde com couve, pois é refogada do mesmo jeito.  Mais macia, vai bem com farofa, com cebola, com alho frito, com bacon (pra quem gosta), tudo aquilo que acompanha uma couve refogada. Combina também com omeletes, tortas, etc. A textura fica entre couve e espinafre, é só não cozinhar demais.

Taioba é da família das aráceas, e tem algumas primas meio venenosas. Não tem como confundir, é bem comum e difundida em todo o Brasil, e sua raiz parece um inhame (que é outro da família, com folhas muito semelhantes). Muita gente tem no jardim como planta decorativa, e nem sabe que ela é comestível…

Repare bem na folha em forma de coração. O talo fica bem no V, e há uma pequena bainha desenhada que circunda toda a folha. Se o talo estiver no meio do coração, ou se tiver cor roxa, não é taioba. Fuja! O talo da taioba é verde-claro, e até pode ser refogado como chuchu, como já ensinou a Neide Rigo. Já fiz com camarão, é uma delícia!

Taioba 2

O preparo é simples. Depois de lavar bem, retire a nervura central da folha. Enrole e corte fininho, como se fosse couve.

Taioba 3

Refogue do jeito que preferir. Se demorar pra ir para panela ela pode oxidar, escurecendo as nervuras, como uma alface. Se vai demorar, é melhor deixá-la dentro de uma bacia com água. Há quem coloque um pouco de bicarbonato de sódio, pra ficar clarinha (em couve de restaurante também, sacou?). Prefiro natural, escura e gostosa.

Taioba 4

É só um acompanhamento, claro. O almoço foi um fantástico filezinho de porco com molho de figos frescos, preparado pela Carmen. E depois fomos ao cinema, mas isso comento no próximo post!

Nagisa Oshima

Oshima

 

Morreu hoje um dos  cineastas que mais admiro: Nagisa Oshima. Um provocador nato. Em todos os sentidos, em todos os impérios. Mas também um esteta, capaz de decantar a provocação até virar arte. Vocês vão ler resenhas, necrológios, homenagens, diatribes, ataques e defesas apaixonadas. Oshima, para mim, era o poeta do limite, o cineasta do impossível. Sexo-poesia, sexo-tragédia, sexo-existencialista. Sempre mais radical que seus pares brasileiros, Khouri e Reichenbach, os únicos que ousaram chegar perto do mestre.

Pi e a arte da fabulação

Fabulação é a arte de contar coisas fantasiosas de modo que pareçam verdade. Na literatura as fábulas se caracterizam, desde seu surgimento, por encerrar um julgamento ou ensinamento moral.

                Talvez sejamos a última geração a tomar contato com a literatura por meio de fábulas. A exposição das crianças do século XXI ao bombardeio midiático, noticioso e publicitário, abre outras portas, despidas de fantasia e imaginação. Já é comum, infelizmente, não encontrar livros nas casas de muitas crianças, mas tablets, computadores e televisores. Nas famílias mais pobres, só os últimos.

                A próxima geração perderá a capacidade de fabulação? Só o tempo dirá. Mas percebo que adolescentes com quem converso já começaram a perder. Não se fala de livros (Harry Potter é uma estrondosa exceção. Conheço universitários que só leram este livro, além das obrigatórias leituras escolares). Não se fala de histórias em quadrinhos, de seriados de fantasia, de Julio Verne, da coleção Jovens de Todo o Mundo, de Monteiro Lobato…

                Foi através de Dona Benta e suas fábulas que aprendi o primeiro provérbio italiano de minha vida: si non é vero, é bene trovato. Por uma analogia fonética meio infantil (devia ter uns dez anos), achei que significava “Se não é verdade, é bem provável”. Algum tempo depois, já no colégio, aprendi a tradução correta: “Se não é verdade, é bem contado”.

                O ditado de Dona Benta me voltou à cabeça por definir com precisão o filme que inaugurou meu ano cinematográfico. Assisti ontem o belo As Aventuras de Pi, do cineasta sino-americano (nascido em Taiwan) Ang Lee. O cara é um craque, já demonstrou seu domínio sobre várias formas narrativas (realismo, naturalismo, fantasia). Mas aqui ele me fez sentir novamente como um menino deslumbrado lendo um fantástico livro de aventuras.

                Baseado num romance do canadense Yann Martel, que confessou ter se inspirado no livro Max e os Felinos, do brasileiro Moacyr Scliar, o filme traduz com poesia e competência uma história considerada infilmável. O uso do 3D é primoroso, não se atendo a efeitos espetaculares, mas muitas vezes sublinhando pequenos detalhes com sutileza e inteligência.

                A questão da fé é central na trama. O jovem Pi tem propensão a acreditar em todas as religiões. É hinduísta, muçulmano e cristão. Confessa sua admiração por um “budista feliz” e revela ligações com o judaísmo. O pai racionalista lhe diz que acreditar em tudo é o mesmo que acreditar em nada. Ele tem razão, mas o próprio fato do personagem Piscine ter adotado o nome de Pi, um número irracional, tem forte simbolismo. Ang Lee acredita numa boa história, e se Deus é uma boa história, por que não acreditar?

                A direção harmoniosa de todo o conjunto (história, atores e efeitos) é sensacional. Dizem os especialistas que a coisa mais difícil em cinema é dirigir criança, bicho e mar, pelo fato de serem meio imprevisíveis. Ang Lee respirou fundo, tomou fôlego e juntou os três de forma magnífica. Embora várias fontes apontem que o tigre Richard Parker seja um prodígio de computação, é inegável que foi baseado em animais reais.

                Mas a técnica é o que menos me interessa, desde que seja perfeita e invisível. A história é apaixonante, o prólogo é muito bom e o desenvolvimento é magistral. A engenhosa narrativa em dois tempos, rememorada por um excelente ator, já entrega de cara que o personagem sobreviveu. Mas… qual é a história real?

                No final, ele conta uma segunda versão, desmontando a primeira. Mais crua, mais realista, mais verossímil. A que entraria no noticiário de jornal da TV. A única a qual muitos jovens desprovidos de leitura teriam acesso. Que crime tantos pais praticam contra esta geração…

Dia do Fotógrafo

Dezenas de mensagens me avisam, no Facebook, que hoje é Dia do Fotógrafo.

Bacana. Todo profissional merece um dia em sua homenagem. Sou fã de vários fotógrafos, de Ansel Adams a Sebastião Salgado, passando por Cartier-Bresson. Meu pai era um grande estudioso de fotografia (e bom fotógrafo também) e tive a sorte de poder crescer numa casa onde havia muitos livros e revistas sobre fotografia. Ali aprendi que há vários tipos de fotógrafos.

Fotógrafo de arquitetura. De moda. De retratos em estúdio. De natureza morta. De natureza selvagem. De guerras e conflitos. De povos e culturas. De tribos urbanas. De shows. De teatro. De cinema. Tem fotógrafo surrealista, hiper-realista, naturalista e até abstrato. Tem até fotógrafo cego!

Mas descobri que não existe Dia do Fotógrafo Amador. O cara que pega uma máquina e tenta registrar o mundo à sua volta, da melhor maneira possível, dentro de suas limitações. Que muitas vezes erra, mas também acerta. O fotógrafo amador tenta se exprimir ou entender o mundo? Até num dia cinzento de chuva ele consegue ver graça em algo em que ninguém presta atenção…

Corrente 2

Um novo ano

Como alguns devem ter reparado, estou de férias. Uns dias fora da internet fazem um bem danado para o espírito. Com irmãos, amigos, filha e sobrinha em Ilhabela, houve momentos em que todos estavam conectados nos seus tablets, notebooks, etc. É uma nova forma de autismo, onde o sujeito se isola da realidade e fica mergulhado num mundo só dele (na verdade, de milhões iguais a ele).

Aproveitei para acordar cedo todos os dias e fazer caminhadas com a máquina fotográfica pendurada no pescoço. A vida real ainda é bela, acredite! Entre 7 e 9 horas da manhã, mesmo com a ilha lotada, raríssimas pessoas na rua. Neguinho vem para curtir barzinhos, encher a cara, jogar baralho até 5 horas da manhã e acordar depois do meio dia. Não sairia mais barato ficar em São Paulo?

Lavadeira

Enfim, fotografei muito passarinho. Certa manhã parei em frente a um flamboyant e pensei: se pousar um tié-sangue ou um sanhaço-de-fogo vai ficar um borrão só… Felizmente pousou uma lavadeira. Mesmo assim tive de baixar a saturação da imagem, o vermelho estourava. Ainda bem que a lavadeira não liga pra isso, já nasceu p&b!

O réveillon foi lindo, uma noite maravilhosa (e sem chuva!), a ceia divina, a queima de fogos espetacular. Mas, acreditem, no primeiro dia do ano eu estava às 8 horas andando na praia, sem outro ser humano por perto. E então encontrei este belo casal contemplando o nascer do novo ano. Só eu e eles. Essa imagem levarei pro resto da vida. Já os zilhões de imagens que entopem meu monitor se esvanecem com muita facilidade na memória. Não quero mais lembranças descartáveis.

Biguás