Arquivo de outubro \31\UTC 2012

O preço do abacaxi

Esta semana fui comer uma pizza com o Marcio, amigo da Carmen que nos hospedou na Itália. O cara é super viajado, conhece os cinco continentes, ganha muito bem. Mas ficou impressionado com os preços em São Paulo….

Contou que foi ao supermercado e constatou que, tirando a carne, tudo é mais caro que em Milão. Até, pasmem, um simples abacaxi!

Por via das dúvidas, estou cultivando o meu. Em vaso, mas vai que dá… Isso ainda vai valer muito!

Gonzagão & Gonzaguinha

Assisti à pré-estreia do filme nacional-popular-chique-universal do ano: Gonzaga: De Pai para Filho.

Já antecipo meu veredicto: é muito bom. Saí emocionado, com os olhos úmidos e a alma lavada. O filme realiza a comunhão da produção caprichada, atores sensacionais, direção precisa, roteiro amarradinho e trilha sonora imbatível. Nota 9+, porque sempre há um senãozinho.

Mas vou falar dos méritos, claro. O diretor Breno Silveira havia acertado a mão do gosto popular em 2 Filhos de Francisco (apesar da trilha sonora execrável e o final baba-ovo). Tropeçou em um projeto de ficção com músicas de Roberto Carlos, e voltou a acertar a mão com um verdadeiro artista popular, criador de um gênero, autor de obras-primas. Aliás, um não: dois. Gonzagão e Gonzaguinha.

Como todos já devem saber a essa altura, o filme relata a vida de Luiz Gonzaga mas tem seu foco dramático na difícil relação entre Gonzaga-pai e Gonzaga-filho. Um gênio sertanejo instintivo, telúrico, visceral, tosco, de direita, contra um jovem rebelde, filho abandonado, criado no morro de São Carlos, com “anel de doutor” (dado fundamental na história!), e de esquerda.

Dá conflito? Claro. Dá filme? Depende. Só nas mãos de gente que sabe o que fazer com isso. E a roteirista Patrícia Andrade mostra que é do ramo. A narrativa mantém a fluência o tempo todo, não há “buracos” tediosos, os personagens secundários entram todos na hora certa.

E a direção e produção contribuem, claro. A escolha dos atores é fenomenal, indescritível para quem não viu o filme. Os três atores que interpretam Luiz Gonzaga são ótimos, mas Chambinho do Acordeon*, que fica com o filé da história, é impressionante  Só perde mesmo para Julio Andrade, que se transforma em Gonzaguinha. É um clone, um replicante, uma reencarnação. Como descrever? Só vendo.

Alguns detalhes biográficos ficam meio obscuros. A mãe de Gonzaguinha, taxi-girl, era ou não uma prostituta? Gonzagão não seria capaz de gerar filhos? Quem é Rosinha, a filha adotiva que só aparece no finalzinho? Por que diabos o aclamado “Rei do Baião” estava no ostracismo nos anos 70? Como ele conheceu Humberto Teixeira, o letrista-mor?

Tudo isso tira só 0,25 do filme. Quem quiser saber, que pesquise a história, porque filme não é tese acadêmica. E vamos pro principal: a trilha sonora é maravilhosa. Pequenos trechos de alguns sucessos de Gonzagão (e Gonzaguinha) entram em momentos fundamentais.

Asa Branca, Assum Preto, Légua Tirana, Dezessete e Setecentos, Vida de Viajante, Baião, Paraíba,Respeita Januário, estão todas lá. Faltam muitas outras, claro, pois a obra de Mestre Lua é gigantesca. Quem só conhece o Xote das Meninas, na voz de Marisa Monte, vai ficar perdido. Só não entendi porque os momentos românticos  entre Gonzagão e a mãe de Gonzaguinha são marcados por um tema de Piazzolla. Nada contra o mestre argentino, mas aqui descontei mais 0,25. Um filme 9,5 é raro, raríssimo!  E descobri agora na internet que a direção de fotografia é de Adrian Teijido, o mesmo de O Palhaço, que considerei o melhor filme que assisti o ano passado. As coisas se explicam…

Gonzaga: De Pai para Filho é um bem acabado exemplo de filme nacional-popular-chique-universal. (Xi, acho que já falei isso lá em cima!)

*Recomendo a leitura do artigo de Talita Galli sobre Chambinho do Acordeon na Revista Música Brasileira

Campo de distorção da realidade

A biografia de Steve Jobs, escrita por Walter Isaacson, é o retrato de um ególatra arrogante e ambicioso que conseguia influenciar todos à sua volta. Os amigos entrevistados diziam que ele tinha uma aura, um “campo de distorção da realidade”, que atraía, magnetizava e fazia com que todos acreditassem piamente nos seus delírios e mentiras.

Obviamente Jobs foi brilhante em alguns aspectos, e por isso é idolatrado por milhões de nerds em todo o planeta. Mas não pretendo falar da vida do criador da Apple, e sim do tal “campo de distorção da realidade”.

Parece-me que José Serra tem um poder parecido. Com uma trajetória política tortuosa, egresso da esquerda estudantil dos anos 60 até abraçar o conservadorismo mais reacionário e obscurantista nos dias atuais, o homem que nunca cumpriu um mandato até o fim (isso não é incrível?) parece obscurecer a visão de gente que, normalmente (fora do tal campo), enxergaria com clareza.

Lula também possui um campo próprio de distorção da realidade, mas é bem menor. Poucos petistas o consideram santo, e cada vez mais adquire o status de raposa política, principalmente depois de raposices como a de tirar foto sorridente com Maluf. O povão ainda o idolatra, com bons motivos. José Serra é idolatrado por gente que faz qualquer coisa para não parecer “povão”, mas assume posturas semelhantes.

Muito menos carismático, Serra perdeu totalmente o pudor ao beijar pastores homofóbicos na última semana. E os progressistas, jornalistas, comentaristas políticos et caterva, que condenariam qualquer outro se fizesse isso, silenciam. Ou pior, acham “normal”! É o tal campo de distorção da realidade funcionando, levando até pessoas bem intencionadas para o suicídio político.

A história da bolinha de papel, em 2010, foi sintomática. Vi gente séria defendendo aquela farsa, e realmente acreditando que o homem tinha sido torpedeado por um míssil. O ex-ministro da Saúde (que no Youtube é visto dizendo que a gripe suína é causada pelo espirro dos porquinhos…) fez uma tomografia por causa de uma bolinha de papel. Belo exemplo para o SUS! Ainda bem que ninguém acreditou, senão o Estado quebraria. Aliás, corrijo: os que acreditaram (sob influência do tal “campo”, provavelmente), não precisam de SUS…

Ferreira Gullar causou espanto, em 2010, ao escrever em sua coluna jornalística que considerava Serra uma “figura impoluta”. Estaria gagá? Cego? Comprado? Não, infelizmente é o tal campo de força em ação. Uma rápida folheada no livro A Privataria Tucana, recheado de documentos registrados em cartório provando desvios e maracutaias do nobre ex-quase tudo da República faria o poeta maranhense cair na real.

E boa parte da imprensa caiu no campo de abdução da consciência provocado pelo renitente filho da Mooca. Destino trágico, shakespeariano: o ex-presidente da UNE, jovem idealista de esquerda, se alia ao que de pior existe na sociedade brasileira para atingir o poder. Destino fáustico, que poderia até ser visto com ironia e complacência pela elite intelectual desse país.

O fato de muitos destes apoiarem os desvarios de Serra é a maior prova da existência do campo de distorção da realidade.

* * *

Pós eleições

Depois de dias tensos e intensos, chego ao final de domingo de alma lavada. Elegemos um vereador de verdade aqui em São Paulo, o Nabil Bonduki. E ainda desmoralizamos alguns institutos de pesquisa, que já andavam sob suspeita. O risco de termos a maior cidade do país subordinada aos interesses de pa$tores evangélico$ era tenebroso, mas foi devidamente rechaçado. A civilidade dominou, o estado laico – conquista que fez boa parte da humanidade sair da Idade Média – venceu.

Talvez isso explique o fato de ter ficado ausente por uma semana aqui do Fósforo. Mas não é só. Passei os últimos dias muito focado na questão política, na gestão da aldeia onde vivo, e esse é um tema que tem um aspecto próprio em cada lugar. Decidi não te aborrecer com mais uma opinião na nuvem de informações e debates que rola por aí.

E nem estou falando de rádio ou TV, que mais uma vez se mostraram incapazes de detectar a realidade. Ficou claro que a internet, as redes sociais e os blogs independentes são cada vez mais influentes, embora a grana despejada nas eleições ainda prevaleça. Cada vez mais sou a favor do financiamento público de campanha, com X merrecas para cada candidato. Te vira, malandro! O financiamento privado é sempre cobrado lá na frente, depois que o sujeito é eleito. Alguém acredita que a construtora Y ou o banco Z acreditam nos ideais do candidato e doam milhões sem pedir nada em troca? No fim, quem paga a conta somos nós…

Enfim, as eleições não acabaram. Em muitas cidades haverá segundo turno. E uma nova batalha de idéias, de propaganda, de mentiras, de distorções está por vir, feliz ou infelizmente. Em São Paulo, temos uma Câmara renovada. Falta renovar o Executivo, que tanto prejuízo tem causado à cidade nos últimos anos.

E estou preocupado com as eleições na Venezuela. Sério! É um embate estratégico para todo o continente, entre o “socialismo do século XXI” e o “projeto neo-liberal de direita”. Com todas as aspas que as duas classificações merecem…