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Hiperrealismo reacionário?

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Os artistas demoraram 30 séculos para se libertarem da obrigação de copiar a realidade com perfeição. Alguns mestres do período clássico já retorciam formas, inventavam seres imaginários, paisagens fabulosas, mas ainda se atinham ao figurativismo mimético.
O século XIX, romântico por excelência, expandiu os limites. Linhas foram tornando-se tênues, cores misturando-se com formas, até que o Impressionismo floresceu como uma bruta flor sensorial, mágica, mas com raízes na realidade.
E veio o Fauvismo, o Cubismo, o Expressionismo, o Suprematismo, o Surrealismo, e o século XX destampou a caixa do Abstracionismo. O artista podia inventar formas, não apenas copiá-las!
Como a música dodecafonista ou a poesia automática dos surrealistas, a coisa durou alguns anos e se esgotou (será?). Quando não há limites, não há parâmetros de comparação (será?).
Tudo isso me veio à mente depois de visitar a exposição 50 Anos de Realismo – Do Fotorrealismo à Realidade Virtual, que está no CCBB de São Paulo.
Será um movimento reacionário das artes? Voltar à cópia “perfeita” da realidade é um retrocesso? Rostos perfeitos, corpos que parecem vivos, paisagens que (quase) se podem tocar, são arte? Cópia? Simulacro?
Desconfio de que no final do século XIX isso seria visto com desprezo. Hoje, com nossa bagagem cultural acumulada, não estamos vendo apenas uma réplica do real, mas uma réplica com uma carga histórica por detrás. Como se o autor nos dissesse “veja, estou retomando os ideais renascentistas com todas as técnicas e materiais que o século XXI nos oferece, e isso é novo!”
Vale a visita, e vale refletir sobre este século que não inventa, mas tenta reinventar.
(escultura de Giovani Caramello, artista de Santo André, SP)

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Henry James revisitado

capaloja-hjamesComentei em janeiro, aqui no Fósforo, a minha decisão de Ano Novo, tomada há quase duas décadas, de ler pelo menos um grande clássico por ano. E 2016 começou bem, com um dos grandes da literatura de língua inglesa: Henry James. Foi com muito prazer que li Os Papéis de Aspern, em nova edição – aliás impecável – da Penalux.

            Muito já foi dito sobre James, um dos mestres fundadores da moderna literatura do século XX, juntamente com seus contemporâneos Proust e Tolstói. As longas e tortuosas frases, o estilo cheio de nuances e os diálogos ricos em ambiguidades definiram seu estilo. A exploração psicológica dos personagens mexe com a percepção do leitor, iluminando novos sentidos e justificando atitudes e conflitos. Não à toa, era irmão de William James, um dos pais da psicologia funcional, e devem ter trocado algumas ideias e opiniões com certa frequência.

            Apesar de ligado à escola realista, Henry James tornou-se famoso pelas suas histórias de fantasmas. A mais famosa é A Volta do Parafuso, que teve a sorte de ter uma adaptação para o cinema, dirigida por Jack Clayton (Os Inocentes, 1961). As atuações marcantes de Debora Kerr e Meg Jenkins contribuíram para a fama de um dos filmes de suspense e terror mais aplaudidos de todos os tempos.

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The Innocents (1961) Directed by Jack Clayton Shown: Peter Wyngarde, Deborah Kerr

            Não há fantasmas em Os Papéis de Aspern, pelo menos no sentido sobrenatural. Jeffrey Aspern é um poeta romântico fictício, idolatrado pelo narrador do romance, um editor cujo nome nunca é citado. Sabendo que uma centenária amante do poeta tem a posse de cartas e papéis que podem ser valiosos, tenta se aproximar dela sem muitos escrúpulos, tornando-se seu inquilino.

            A ação se passa toda em Veneza, cidade romântica por excelência. O que mais impressiona na narrativa é a habilidade com que vai se revelando a personalidade do protagonista, à medida em que ele se envolve com a sobrinha da velha senhora, uma mulher de meia idade sem atrativos e completamente submissa à tia.

            Além da trama engenhosa e do final surpreendente, James nos envolve com sua narrativa densa e cheia de sutilezas. Paira sobre todo o livro uma espécie de humor perverso, que zomba das fraquezas e desejos de todo ser humano.

            O tradutor Chico Lopes nos informa, em saboroso prefácio, que Henry James gostava mais dos Papéis de Aspern que da Volta do Parafuso, apesar do maior sucesso deste. Infelizmente, Aspern não teve a mesma sorte no cinema, tendo uma única e pouco apreciada adaptação em 1947.

            Ler ou reler James no século XXI nos dá a dimensão exata de quanto sua influência foi marcante em todo o século passado. James, que esteve várias vezes em Veneza, encontrou o cenário ideal para os caminhos fluidos de sua linguagem. Sua narrativa líquida, mansa, aparentemente tranquila, deixa entrever em breves momentos o que se passa no fundo. Para completar, as ilustrações de Silvana de Quadros ajudam a compor a imagem de uma Veneza idílica, misteriosa e ciosa de seus segredos. Um livraço!


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