Arquivo para fevereiro \27\UTC 2009

Acabou o Carnaval, mas…

faxineiras

As faxineiras do edifício


Surpreendentemente

(não obstante os dez mil, quatrocentos e trinta e um degraus,

os oito mil, trezentos e vinte metros quadrados de piso, as

quatrocentas e quinze vidraças e as três toneladas de lixo à

espera de varrição, transporte e limpeza)
cantam…


(Vi este texto pela primeira vez na revista de poesia A Cigarra, editada em Santo André, e achei lindo. Depois descobri que a autora era a Dalila Teles Veras, que acabou se tornando uma grande amiga. Está na antologia Retratos Falhados, que comentei alguns posts atrás.

(As faxineiras são as cariocas Isabel Cristina Teixeira Maria e Julieta Galdino Gonçalves, fotografadas por Letícia Constant.)

Anúncios

Vai Quem Quer no Carnaval

Vai Quem Quer

E o Carnaval de rua, definitivamente, ressuscitou. Bate recordes em Recife, entope as ruas de Salvador, se multiplica em forma de blocos e cordões pelo Rio de Janeiro.

São Paulo também entrou na onda. Nunca vi tão cheia a Vai Quem Quer, tradicional banda que se concentra na Praça Benedito Calixto nos 4 dias de Carnaval. Cerca de 2 mil pessoas sambaram nas ruas de Pinheiros, na noite de sábado, 21/02. Mesmo com o som pifado, muitos jovens puxaram as  eternas marchinhas  e entoaram várias  vezes o hino da gloriosa, que em 2010 completará 30 anos.

“Vai, vai, vai,

vai quem quer,

Entra bicha, entra homem,

Entra véia, entra mulher!”

carnaval2009-010

O tempo quente e firme ajudou. Muita gente fantasiada, muita criança, várias cabeças brancas e a maior parte de estudantes. Como sair de São Paulo tá ficando cada vez mais difícil, o negócio é brincar por aqui…

Até breve! Volto na terça. Alah-la-ô, ôôô, ôôô!

carnaval2009-dupla

Outra cachaça e outra história

joaopacifico

Em 1998 morreu João Pacífico, o maior poeta da música caipira paulista. Meu amigo Paulo Weidebach, apreciador do gênero, me intimou:

– Precisamos fazer um documentário, antes que a memória se perca. Você escreve o roteiro?

Mergulhei por mais de um mês na obra, nos versos, nos relatos sobre o autor de Pingo Dágua, Cabocla Tereza e Chico Mulato. Levantei toda a discografia no Museu da Imagem e do Som. Paulo inscreveu o roteiro no Prêmio Estímulo do governo do Estado, e ganhamos. Dinheiro que só dava pra fazer um curta econômico, mas a idéia do diretor era outra. Convidamos artistas conhecidos para cantar músicas do João, e todos toparam fazer a homenagem “na faixa”, sem cachê. Renato Teixeira, Jair Rodrigues, Mônica Salmaso, Benjamin Taubkin, Pena Branca, Mauricio Pereira, Passoca, Paulo Freire, Gereba, Freddy Mogentale e Maria Antônia, Robertinho do Acordeon e, claro, Inezita Barroso.

Acabou virando um programa lindo, piloto de uma provável série sobre os grandes da música caipira, mas não conseguimos patrocínio para prosseguir o projeto.

As gravações foram no ano de 1999. No ano anterior, eu tinha passado uma temporada em Alagoas, e trazido uma garrafa da afamada Azuladinha, mítica cachaça em cuja fermentação são adicionadas folhas de laranjeira, que dão o tom azulado.

azuladinha1

Era um presente para o Paulo W, colecionador de cachaças e dono de um belo acervo de rótulos. Sem grana nem pro lanchinho, resolvemos oferecer para os músicos, no estúdio de gravação, uma mesa com quitutes caipiras, feitos em casa. O produtor Almir Almas André Bueno fez milagres: Bolo de fubá, biscoitinhos, pão de queijo, café e uma cachacinha. Aliás, várias. Paulinho colocou na mesa a Azuladinha, pra fazer bonito.

Não havia grana nem pro táxi. Fui buscar Inezita no seu apartamento, ali na Santa Cecília, e leva-la até o estúdio, na Turiassu, com meu próprio carro. Quando ela entrou e viu a garrafa sobre a mesa, exclamou:

– Azuladinha! Há quanto tempo não vejo uma… Ah, essa garrafa é minha, vai ser o meu cachê, ora se vai!

E abraçou a garrafa como quem abraça uma pessoa querida. Paulinho olhou para mim, meio sem jeito, abrindo os braços como quem diz “fazer o que?”. Fiquei indignado. Viajei com a porra da garrafa por mais de dois mil km e o cara dá de presente pra primeira sirigaita que aparece?

Tá bom, admito que não era qualquer sirigaita. Inezita cantou, Inezita levou. Espero que lhe tenha trazido boas recordações.

PS: No final de 2008 meu sogro chega pra mim, do alto de seus 80 anos, e diz que o médico mandou parar com destilados. Agora só um vinhozinho de vez em quando. E me deu meia dúzia de garrafas que guardava por razões sentimentais. Não é que no meio havia uma Azuladinha, intacta?

Saiba, Paulo W, que você não vai chegar nem perto dessa. Nem você, Dona Inezita!

azuladinha2

Uma cachaça e uma história

Monte Alegre do Sul

Há quatro anos fui passar um feriado em Monte Alegre do Sul. A agradável estância do interior paulista, entre Amparo e Serra Negra, é um pequeno e montanhoso município que se orgulha de fazer as melhores cachaças do estado.

São mais de cinquenta alambiques, o que dividido pela população (menos de 7 mil, pelo IBGE de 2005) dá mais de um para cada 140 habitantes. Considerando crianças e abstêmios dos dois sexos, nem ouso fazer a conta do saldo… É muita cachaça!

Antiga região de café, que entrou em declínio, dedica-se agora ao cultivo de morangos e à produção da marvada. Muitas cachaças tem nome italiano, ostentando com orgulho a origem dos ex-colonos do café. E são realmente excelentes! Num ranking das melhores cachaças do Estado, Monte Alegre emplacou três das 6 mais (inclusive o segundo lugar). Para um município daquele tamaninho, é de tirar o chapéu.

Chora Menina

Há nomes famosos como a Chora Menina, a Campanari, a Rouxinolli, a do Italiano. Os municípios vizinhos também perceberam o potencial da região, e ostentam marcas respeitadas como a Galo Branco (de Socorro), a Flor da Montanha (da família Benedetti, de Amparo), Theodoro e Santo Remédio (de Serra Negra).

Visitar estes alambiques é conhecer locais lindos, com características culturais e históricas fascinantes. E também a certeza de voltar trupicando, chifrando os barranco, cambeteando, como canta a grande Inezita.


Por isso é bom planejar o passeio e combinar que alguém sóbrio te leve de volta, se estiver de carro.

A mais famosa das cachaças de Monte Alegre é a Salmo XXIII, fabricada na fazenda do mesmo nome. Chegamos lá (eu e a Carmen) por uma estrada de terra que com chuva fica meio intransitável.

Um lugar lindo, com cachoeiras, muita mata e um dono meio doidinho, bom de papo, que nos recebeu com alegria e uma generosa degustação diretamente do barril .

Edson Peres herdou a fazenda da família. Foi estudar Arquitetura em Campinas, “bagunçou muito” (palavras dele), mas voltou para cuidar da propriedade. Tornou-se escultor, e fazia estranhas obras inspiradas nas formas tortuosas dos troncos e paus que achava em suas caminhadas.

Contou que um padre da região havia implicado com o nome da cachaça, e me perguntou o que achava de mudar para “Cachaça do Escultor”. Obviamente repeli a idéia, e disse que mandasse o padre lamber sabão. Ele chegou a fazer alguns rótulos com a nova marca, mas não deu muito certo. Os clientes que enfrentavam os 7 km de barro continuavam pedindo a Salmo XXIII, com histórica razão.

O alambique é maravilhoso, e a cave de pedra onde ficam os centenários tonéis parece cenário de filme. Edson nos serviu cachaças de várias safras, em pequenas cuias feitas de cabaça. A cada prova, ele também emborcava uma. Falava sem parar, e dizia que “este é o meu néctar, tomo o dia todo e não me acontece nada!”. Bem…

Compramos várias garrafas,  mel e uma excelente pimenta cumari curtida na pinga. Na volta, claro, caiu o maior toró, e quase não conseguimos chegar à pousada Cafezal em Flor, onde estávamos hospedados.

Pois no final de 2008 soube, através do Mauricio Pereira, que o Edson da Salmo XXIII morreu. Diz Pereira, em homenagem feita no blog Midauma: “Quando morre um cara desses, que meio que é um guerrilheiro-artesão-inventor, morre também um pouquinho duma maneira de se ver o mundo”.

Com menos de 50 anos, Edson parecia destinado a se tornar um daqueles velhos meio sábios, meio malucos, que ligam eternamente sua imagem àquilo que fazem. Será lembrado como um jovem meio sábio, meio maluco, que ligou eternamente sua imagem à famosa cachaça de sua fazenda, mais até do que gostaria. Sonhava em ser mais reconhecido como escultor.

Em sua homenagem abri a última garrafa de Salmo XXIII que tinha em casa e fiz um brinde. Tomara que lá em cima ele largue essa bobagem de fazer escultura e mostre para os anjos como se faz uma boa cachaça, “esculpida no tempo”!

Salmo XXIII

Cartola e a nova ortografia

cartola

Todo o tempo que eu viver
Só me fascina você, Mangueira…

“Assim se inicia um dos belos sambas de Cartola, Fiz Por Você o Que Pude, feito em homenagem à escola da qual foi fundador. Com a riqueza de imagens que lhe é habitual, o compositor declara seu amor num samba que acabou se tornando um clássico do repertório mangueirense”.

Assim se inicia o artigo que escrevi para a Revista Música Brasileira, contando como o Novo Acordo Ortográfico veio justificar um suposto barbarismo cometido pelo grande compositor. Vai lá e dá uma espiada!

Uma receita de domingo

taioba

Sob uma chuva que faz São Paulo parecer Macondo, as taiobas do meu jardim não param de crescer. E, graças a uma sugestão da Neide Rigo, resolvi preparar não só as folhas, como de costume, mas o verde e tenro talo, de quase um metro de altura.

Segui as instruções básicas, descascando e cortando em pedaços.

talos-taioba

A aparência lembra chuchu, o que me deu uma idéia. Como havia camarões frescos na geladeira, resolvi fazer uma variante do famoso camarão ensopadinho com chuchu, cantado por Carmen Miranda como prova de brasilidade, em “Dizem Que Eu Voltei Americanizada” (música de Vicente Paiva e letra de Luiz Peixoto).

Enquanto houver Brasil… na hora das comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu!

O chuchu, tido por muita gente como uma coisa meio besta, realmente encontra no camarão o parceiro ideal. Envolve-o com suavidade, sem brigar pela primazia do prato, absorvendo seu sabor e complementando de forma leve e saudável o cobiçado crustáceo. Mas posso garantir que, a partir de hoje, o chuchu encontrou um concorrente à altura: o talo da taioba.

O refogado acompanhou muito bem uma posta de salmão grelhada e um risoto nero di seppia.

camarao-com-taioba

Ingredientes (para duas pessoas):

Um talo grande de taioba, limpo e descascado

200 g de camarão médio

1 limão grande

1 cebola média picada

1 colher de alho picado

1 colher de chá de ervas aromáticas*

1 colher de sopa de azeite de oliva

Sal a gosto

* A erva tradicional do prato cantado por Carmen Miranda é o coentro fresco. Como não tinha em estoque, usei um pouco de dill e tomilho. Ficou ótimo!

Depois de limpar os camarões, coloquei no limão e sal por alguns minutos. (Aliás, deixei os pedaços de taioba também no limão, para não escurecer, e o prato ficou um pouco “alimonado”. O melhor é refogar os talos imediatamente depois de descascados).

Piquei o talo e joguei em água fervente e salgada por uns 3 minutos. Numa frigideira, dourei o alho picado no azeite. Escorri os talos da taioba e refoguei, ainda quentes, com os camarões e os temperos, até os bichinhos ficarem rosados e macios.

É claro que uma receita simples como esta admite muitas variações. Usei cebola roxa, por exemplo, pra colorir. Muita gente põe tomate no refogado, e fica ótimo. Não havia tomates frescos em casa, e fiquei com preguiça de abrir uma lata de pomodori pelati só pra isso… Um pouquinho de curry, por exemplo, deve cair muito bem. Vai ser minha próxima experiência com camarões e taioba.

PS: A folha foi cortada e preparada como uma couve mineira, também refogada!

Cinema 3D

cinema-3d

O cinema 3D não é invenção nova. Nos anos 50 a indústria do entretenimento já vendia a maravilhosa sensação ver imagens em três dimensões.

Na verdade, todo dia vemos o mundo assim, e às vezes não tem nada de maravilhoso. O barato do cinema 3D é mostrar de forma “realista” coisas das quais dificilmente nos aproximaríamos, como foguetes espaciais, cobras venenosas ou super-heróis de desenho animado.

Há pouco foi inaugurada a maior sala de projeção 3D de  São Paulo, com tecnologia Imax. O filme de estréia é um documentário sobre o fundo do mar, com direito a tubarões, medusas e arraias gigantes quase encostando em nosso nariz.

O resultado técnico é visualmente bem feito, mas o filme… Uma trilha sonora excessiva, com direito a ruídos que jamais ouvi em meus mergulhos no mundo silencioso ( apud Jacques Costeau). Ouriços sendo mastigados com sons de ossos quebrados, mariscos que gritam quando são atacados, clima de filme de terror acompanhando um polvo traçando um caranguejo. Se fosse um homem comendo um caranguejo, faria sentido uma trilha como aquela?

Pra completar, o filme é dublado. Entendo que deve ser quase impossível colocar legendas em um filme 3D, mas o texto deveria passar por uma revisão, principalmente para um documentário que quer ser “educativo”.

Logo no início o locutor solta um “badéjo” que nunca ouvi em lugar nenhum do Brasil (embora o Houaiss registre a ortoépia). Pobre badejo…

O famoso peixe-lua, um dos maiores dos oceanos, não foi identificado pelos tradutores. Ficaram no nome científico, Mola mola, o que resultou em peixe-mola. Devem ter achado engraçado, e não se deram ao trabalho de pesquisar.

O pior fica com um camarão cujas mandíbulas tem a “velocidade de uma bala de revólver”. Como é que é?

Biólogos vão odiar. Mas as imagens são lindas, e valem o sacrifício de usar aqueles óculos pesados e incômodos, que deixam sua testa e nariz marcados na saída.