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Algumas leituras de 2015

 

  Leituras 2015

        Não, não pretendo fazer análises políticas ou sociológicas do ano que agoniza. Analistas adoram fazer ‘leituras” da realidade, mas no meu caso se trata de literatura mesmo.

            Lembrarei de 2015 como o ano em que passei de pedra a vidraça. Ou seja, publiquei um livro, sujeito a todo tipo de avaliação. E minhas primeiras leituras do ano foram, na verdade, releituras do original, que estava arquivado há algum tempo. Mesmo assim, sobraram alguns erros de revisão, que não escaparam a alguns amigos atentos. Sofro de um mal que a ciência ainda não explicou direito, e que acomete também outras pessoas: sou craque em ver erros nos textos alheios, mas péssimo em enxergar os meus. Tem gente que é assim na vida…

            Lancei o Terno de Reis em junho. No segundo semestre, voltei às leituras de ficção. Quebrando uma tradição de muitos anos, não li nenhum romance clássico em 2015. Li coisas fracas, medianas e boas. Muitos artigos, ensaios, alguns blogs. Andei relendo O Homem e Seus Símbolos, do velho Jung e seus discípulos, e de vez em quando me surpreendi com a impressão de que estava lendo uma inventiva ficção. Bem, talvez esse seja considerado um clássico…

            O melhor romance de espionagem que li não é ficção. Os Últimos Soldados da Guerra Fria, do Fernando Moraes, é uma eletrizante narrativa sobre um dos episódios mais incríveis da luta dos cubanos para conseguirem sobreviver ao criminoso embargo dos EUA. Os contras, sediados em Miami, fizeram vários atos de terrorismo contra a população da ilha, colocando bombas e soltando panfletos em voos ilegais. Para neutralizá-los, um pequeno grupo de cubanos, fingindo-se de refugiados, infiltrou-se na organização dos contras, conseguindo evitar vários ataques. Foram descobertos e estão presos até hoje nos EUA, pelo crime de defenderem seu país contra bandidos financiados pela direita estadunidense, que continuam soltos. Fernando Moraes tem uma capacidade impressionante de farejar boas histórias, e sua escrita meticulosa nos faz reviver cada episódio com absoluta nitidez.

            No campo da ficção propriamente dita, curti muito A Viagem de James Amaro, de Luis Biajoni, que comentei aqui. Li contos esparsos de vários autores. Me chamou a atenção a coletânea Desordem, editada de forma colaborativa pela Bookstorming, de jovens escritores brasileiros. Ficam marcadas na lembrança as boas histórias de piratas de Paulo Bullar. Quem mais escreve sobre piratas, hoje em dia?

            Um fim de semana chuvoso fora de casa me obrigou a pegar um best seller. E não é que gostei de Garota Exemplar, da americana Gillian Flynn? Escrito em ritmo trepidante, mistura suspense, humor e crítica social com uma ótima criação de personagens. Parece que o filme nem chegou perto, não vou arriscar.

            Ian McEwan, mais uma vez, não me decepcionou. Li (com muito atraso) o ótimo Sábado, de 2005. É incrível a capacidade do homem de nos envolver com uma história fascinante que se passa em apenas um dia! Escrita rigorosa, firme, fruto de muita pesquisa, mas que flui com elegância.

            O gênero policial parece ser eterno. Sempre descubro com prazer novas tramas, cenários diferentes, estilos inovadores. Li  P.D. James e Ruth Rendell, mas quem abafou a banca foi mesmo Henning Mankell, com O Homem de Beijing. Ambicioso, inventou uma trama que se passa em quatro continentes e em dois séculos. E se saiu muito bem!

            Finalmente encarei O Trem Noturno para Lisboa, de Pascal Mercier, outro caso de transposição frustrada para o cinema. Leitura saborosa, trama original, com um final um tantinho decepcionante. Mas creio que tenho esta impressão da maioria dos livros que leio. Deve ser difícil bolar um grande final, ou talvez esteja fora de moda, como a chave de ouro dos sonetos acadêmicos.

              Ué, não pintaram latino-americanos em minha cabeceira? Felizmente Ricardo Piglia me salvou da vergonhosa omissão. Respiração Artificial já é quase clássico, e sua escritura engenhosa marcou a literatura argentina na década de 80. Inovador na época, ainda não perdeu a força e a originalidade.

            O ano se encerra com a leitura do pungente Corpos Furtivos, de Chico Lopes, que concluí nesta semana. Ele mergulha na alma insatisfeita de uma personagem, Eunice, solteirona com desejos mal reprimidos, que mora com a irmã mais velha. São furtivos os corpos masculinos que passam por sua vida, querendo apenas sexo, não envolvimento. O cenário é uma cidade do interior que já foi pequena e bucólica, mas que inchou e se contaminou com os males da modernidade: bairros pobres na periferia, violência e uma multidão de anônimos pelas ruas.

            Chico conduz com muita habilidade a narrativa, personificando os medos, vacilos, avanços e recuos da protagonista, que luta contra o machismo onipresente e a falta de horizontes afetivos e pessoais. Um retrato dolorido, pintado com cores fortes, de uma das muitas formas de solidão que impregna e estiola a vida de tanta gente.

            Li outros livros? Sim, mas alguns viraram fumaça. Um, certamente, muito ruim. Como o autor é uma pessoa esforçada, já escreveu coisas bem melhores, vou lhe conceder a benção do anonimato, na esperança de que se redima em breve. Em 2016 espero retomar a tradição de ler (ou reler) algum clássico. E vou lançar meu segundo romance, claro, mas aí já é outra história!

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A Comédia Mundana de Luiz Biajoni

Há algumas décadas surgiu (nos EUA, claro) a moda de classificar os produtos culturais como lowbrow, highbrow e middlebrow.  A pulp fiction, a pornografia, as novelas de bancas de jornal seriam lowbrow, literatura de baixa extração. Highbrow seria para acadêmicos e eruditos, e middlebrow, bem, seria um larguíssimo meio termo.

Lembro-me de uma amiga novidadeira me apresentar essa classificação, lá nos anos 90. Fiquei meio desconfiado, como reajo perante todas as classificações, e argumentei que sempre houve e sempre haverá obras inclassificáveis, seja na literatura, no cinema, no teatro, na música, etc. O grande desafio de um artista, argumentei, seria criar algo que tivesse 1/3 de cada. Lembro da risada espantada que ela soltou dentro do trem, ouvindo esta bobagem.

A ler A Comédia Mundana, de Luiz Biajoni (Língua Geral, 2013), me ocorreu essa velha classificação, que andava adormecida na memória. Biajoni é jornalista e escritor, nasceu e mora em Americana, no estado de SP. O volume não é um romance, mas três “novelas policiais sacanas”, onde os personagens se cruzam, reaparecem, interagem e desaparecem. Ou não.

Comédia Mundana

A capa é do Benício. Pra quem não conhece a cultura brasileira dos anos 70 e 80, é o ilustrador oficial do cinema brasileiro, tido como lowbrow na época. Fez cartazes pra muitas pornochanchadas, de forma tão marcante e original que acabou sendo convidado para ilustrar filmes high e middlebrow. É uma lenda viva das artes gráficas e do cinema brasileiro.

As histórias de Biajoni tem um clima policial, claro. Há tramas engenhosas, armações mirabolantes, personagens verossímeis, e sexo. Muito sexo. Não que o cara seja um tarado, nada disso. Não perde tempo descrevendo 50 tonalidades de cinza. Os personagens transam rapidamente, com furor e paixão, e isso contamina todas as relações. As sociais, as religiosas, as profissionais e as de poder, principalmente. E, ao contrário da canção do Tim Maia, aqui vale tudo mesmo, até homem com homem e mulher com mulher. Mais explícito e radical que um John Updike (o de Couples, Casais Trocados), porém com a mesma vontade de desnudar a hipocrisia de uma sociedade pequeno-burguesa que acaba se tornando a elite de uma cidade média do interior.

O mais impressionante na escrita de Biajoni é o ritmo nervoso, a tensão bem construída, a agilidade com que desenvolve a ação. O estilo é de repórter policial, mas só um desatento não percebe que há algo mais profundo por trás de toda a narrativa. Crítica ferina às instituições, sejam igrejas evangélicas, prefeituras ou até mesmo a velha imprensa. E uma facilidade incrível para definir um personagem em poucas linhas, tornando-o quase real.

Pulp fiction tupiniquim? Gostaria de reencontrar aquela amiga do trem, a Silvana Corona, e presenteá-la com o livro do Biajoni, dizendo: “Tá aqui, 1/3 de cada!” Mas creio que o próprio autor iria odiar esse tipo de classificação…